quarta-feira, maio 18, 2011

Quando a responsabilidade não morre solteira

É raro, diria mesmo que é raríssimo, ver e ouvir os políticos assumirem as suas responsabilidades quando alguma coisa corre mal. Lembram-se de algum que fosse destituído do cargo que ocupa ou que fosse responsabilizado criminal ou politicamente? Não, pois não? Por isso é que se costuma dizer que “a culpa morre solteira”.


A bem dizer, nestas últimas décadas só me recordo de uma situação em que um governante português assumiu as suas responsabilidades. Foi Jorge Coelho, que, na altura, era Ministro das Obras Públicas e que se demitiu por se achar politicamente responsável pela queda da ponte de Entre-os Rios. Gesto digno, sem dúvida, mas que muita gente suspeitou tratar-se de um acto de hipocrisia (não fosse a tragédia em si) já que lhe permitiu deixar de vez a política para ir ganhar uma pipa de massa como CEO de uma empresa privada. Enfim, maledicências. De qualquer forma foi a excepção, pelo menos em políticos ocidentais onde ninguém jamais se reconhece culpado do que quer que seja.


Pois nas culturas orientais a coisa muda de figura. Veja-se o caso recente do Primeiro-Ministro japonês, Naoto Kan, que por causa do que aconteceu na central nuclear de Fukushima declarou que não quer receber o seu salário de Primeiro-Ministro e vai viver com o que ganha como membro do Parlamento. Na prática, Naoto Kan, ao assumir a responsabilidade política do desastre, vai abdicar dos cerca de 14 mil euros que recebia como chefe do governo.


Atitudes como esta são, portanto, raras. E pouco interessará saber qual a justificação que está na sua génese - se ética, questão cultural ou, muito simplesmente, vergonha na cara?