quinta-feira, abril 18, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa - I I


A propósito da crónica de ontem sobre a língua portuguesa, não podia deixar de referir uma moda que se instalou por cá há uns anitos, de aulas dadas integralmente em inglês nas nossas Universidades. Parece mentira, não é? Estamos em Portugal, as Universidades são financiada basicamente pelo nosso Orçamento Geral do Estado, os professores são maioritariamente portugueses mas os cursos são dados em inglês.

Chegámos ao ponto de no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, quando numa turma há um aluno estrangeiro que não domina a nossa língua, as aulas passarem a ser dadas em inglês. A língua inglesa está, de facto, a invadir as universidades portuguesas. Nas licenciaturas, nos mestrados e nos doutoramentos. No Técnico, mas também na Nova, na Católica, na do Minho ou no ISEG, há cursos em que a língua nativa não entra.

Para além da captação de alunos (para aumentar as fontes de financiamento) provenientes do Erasmus e de países de mercados como o Médio Oriente, o que se pergunta é "Mas, para além disso, será, sobretudo uma questão de moda?

O assunto é polémico até porque nem toda a gente - mesmo no meio estudantil - está eufórica com a importação da língua de Shakespeare. Segundo li, há até estudantes que deixaram de ir às aulas porque não entendem bem o que lá se diz. E um bom exemplo a contrariar essa moda é o da Universidade de Coimbra que tem 1 000 alunos de outros países (70% dos inscritos são chineses) a frequentar cursos de língua portuguesa. Aliás, a Universidade de Coimbra tem estado empenhada em reforçar o uso da língua portuguesa na sua política de internacionalização.

Mesmo que o objectivo da maior parte das Universidades seja atrair mais alunos de outras paragens que venham compensar os cortes do financiamento público, estão-se a esquecer de milhares de outros estudantes - portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, etc. - que menos familiarizados com o inglês, acabam, muitas vezes, por desistir.

Concluindo: sem deixar de constatar como uma mais-valia a maior integração linguística dos formandos, sobretudo em mestrados e doutoramentos, penso que, de certa forma, "estamos a vender", em nome da sustentabilidade financeira das Universidades, a nossa língua e a nossa identidade. Tanto mais que o português é o 6º idioma mais falado no mundo. E já agora digam-me se acham possível que numa Universidade de Tóquio um curso fosse dado integralmente em português só porque um estudante luso tinha decidido ir para lá estudar. Acreditam nisso? E o japonês é apenas o 10º idioma mais falado.

 

quarta-feira, abril 17, 2013

Acarinhemos a língua portuguesa




"... há qualquer coisa em nós de que não gostam
Trazem palavras de outra língua ..."

São duas linhas apenas do poema de Manuel Alegre, "Resgate" (já aqui publicado), que servem de mote para o assunto que ando, há tempos, para partilhar convosco.

Se eu lhes dissesse

"葡萄牙文是我們最大的資產之一,並是非賣品。所以珍惜它!";
ou,
"Португальский язык является одним из наших крупнейших активов и не для продажи. Поэтому хранить его!"

ou, ainda,

"the Portuguese language is one of our biggest assets and is not for sale. So cherish it!",

 
o que é que me respondiam?

Eu sei que tenho os melhores e os mais eruditos leitores do mundo, que dominam fluentemente línguas tão diferentes como o chinês tradicional, o russo ou o inglês. Mas, numa conversa coloquial entre amigos não seria mais natural dizer simplesmente "a língua portuguesa é um dos nossos maiores activos e não está à venda. Por isso, acarinhem-na!"?

Desde sempre que sou defensor que se aprendam várias línguas. É uma questão de valorização pessoal e de necessidade face à cada vez maior globalização que vivemos. Mas, meus Amigos, faz algum sentido que em documentos oficiais internos ou - pesadelo dos pesadelos - nas redes sociais, portugueses dialoguem em inglês? Será que estarão mais seguros nesse idioma ou será, tão-somente, por que acham que escrever em português é uma atitude bacoca? Ao contrário, eu penso que essa necessidade de mostrar os vastos conhecimentos de outras línguas é que demonstra uma parolice pura.

Estudem e pratiquem outras línguas mas não se esqueçam de privilegiar a nossa. É seguramente o nosso maior capital cultural.
 
 

terça-feira, abril 16, 2013

Reformados, pensionistas e jubilados de primeira e de segunda



Se alguém me pedisse para explicar qual a diferença entre um reformado e um jubilado, teria sérias dificuldades em responder. O que sei - e deixo de lado os aspectos etimológico e semântico das palavras - é que reformados, pensionistas e jubilados são pessoas que já deixaram a sua vida activa de trabalho.

Aparentemente, portanto, todos estarão nas mesmas condições. Mas há, pelo menos, uma diferença que faz toda a diferença. Os juízes e os diplomatas jubilados não vão pagar a polémica contribuição extraordinária de solidariedade (CES) que é aplicada aos restantes reformados. Pergunta-se, pois, porque escapam eles ao pagamento do CES? E a única resposta razoável parece ser (para além de uma norma do Orçamento de Estado que contempla esta excepção) que, também no que diz respeito aos reformados, pensionistas e jubilados, existem uns que são de primeira e outros de segunda.

segunda-feira, abril 15, 2013

Senhores, estamos a falar de gente!




Ao mesmo tempo que no Conselho Nacional do PSD, realizado nos últimos dias, se aprovava um voto de louvor ao ex-Ministro Miguel Relvas por "inexcedível lealdade à causa pública" (????????), Passos Coelho anunciava que, por causa do malfadado chumbo do Tribunal Constitucional, o Governo decidira cortar 1 300 milhões de euros aos portugueses, a começar por aqueles que "têm uma vida mais desafogada": os doentes e os desempregados. A uma percentagem significativa da população que já enfrenta montes de problemas mas que, como dizia o outro, "ai aguentam, aguentam" com mais uns sacrifícios em cima. Financeiros, sociais e psicológicos.

Já em Dublin, na reunião dos Ministros das Finanças europeus, Vítor Gaspar tinha revelado que o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses para responder ao chumbo do Tribunal Constitucional (TC) incidiria sobre os desempregados e os doentes apoiados pelo Estado.
Sublinho, "o primeiro dos muitos sacrifícios a impor aos portugueses".

Mas factos são factos. Se os tipos do TC inviabilizaram um OE "tão bem feito" pelo Governo, havia que ir buscar a "massa" a outro lado. Onde? Ao sítio certo: aos quase 420 mil beneficiários do subsídio de desemprego e aos quase 95 mil que recebem subsídios por doença. Exactamente às pessoas que desesperam por não encontrar um emprego que lhes pague as contas e lhes devolva a auto-estima ou que estão fragilizadas pela doença.

Será que sensibilidade social diz alguma coisa a estes senhores?
 
 

sexta-feira, abril 12, 2013

"Esperança"

Costumo publicar aqui no Por Linhas Tortas poesia de autores mais ou menos conhecidos. Hoje trago-vos um poema de um grande Amigo meu, desconhecido do público em geral mas a quem eu quero homenagear, não só pela amizade mas pelo seu talento enquanto poeta.



Então, de António Carlos Asseiceiro, "Esperança"





"Esperança"

(Olhando os retratos deles ainda novos)

Todos tínhamos tanta esperança, eles, tu e eu…

Tanta da nossa esperança ficou p’lo caminho,

Tanta dessa nossa esperança se esfumou e ardeu,

                                  nada ficou nem um bocadinho,

                                  do que se quis, pensou e viveu,

Do mal casado ao que ficou sozinho

A esperança foi uma dança… mansa!


Que ora se perdeu ou quase morreu!
 
                               Ora não se alcança,
 
Ora nada se tem, ora se tem tudo,
 
                               até… a esperança!...   

quinta-feira, abril 11, 2013

Experiência para quê?



Recordo-me sempre da frase de Sócrates (do filósofo, não a do regressado ex-Primeiro-Ministro) - "Só sei que nada sei" - quando julgo conhecer bem determinado assunto e, depois, acabo por concluir que, afinal, não sabia a coisa tão bem como pensava. Como me aconteceu, há dias, quando soube que um membro do Governo tinha nomeado dois assessores (especialistas). E porquê?

Julgava eu que a grande diferença entre um técnico e um especialista se baseava fundamentalmente na experiência. A ambos é requerida, claro está, a formação académica adequada e a preparação específica para um cargo mas, uma vez alguém admitido, seria espectável que começasse por ser técnico e, depois, pelo menos para alguns deles, com o tempo e a experiência adquirida, pudessem ascender a especialistas. Seria natural que, até por uma questão de maturidade, assim acontecesse.

Mas vivemos numa era onde tudo se passa a uma velocidade estonteante. Daí que os especialistas (sejam lá do que forem) "nasçam" cada vez mais cedo.

Foi certamente por isso que o Secretário de Estado-Adjunto do Primeiro-Ministro, Carlos Moedas, nomeou dois "técnicos especialistas", de 21 e 22 anos, para integrar a equipa de "acompanhamento da execução de medidas do memorando". O Governo justificou as contratações com os "excelentes currículos académicos, o que "lhes confere alguma competência (?)".

Um deles, o de 21 anos, tem uma licenciatura em Economia e um brilhante percurso profissional: "um estágio profissional não remunerado no Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e Emprego, entre Setembro e Dezembro de 2012". Ah, e foi comentador algures e escreveu num blogue.

O outro, com uns tenros 22 aninhos, está a concluir um mestrado em Administração de Empresas e, como experiência profissional orgulha-se de ter também feito um estágio no mesmo Gabinete entre Junho e Agosto de 2011.

Apesar de já em Janeiro deste ano, uma auditoria do Tribunal de Contas aos gabinetes ministeriais questionar "o grau de experiência profissional" dos 164 especialistas até então contratados para os gabinetes ministeriais, já que 15,3% tinham entre 24 e 29 anos, o Governo continua a insistir nestes jovens que se transformam num abrir e fechar de olhos em especialistas, talvez lembrando o ditado "De pequenino é que se torce o pepino" (a letra da canção do Sérgio Godinho diz "De pequenino, de muito pequenino se torce o destino".

Pode até ser que não sejam ainda tão grandes especialistas como isso mas estarão, entretanto, a fazer currículo e a assegurar o futuro.

quarta-feira, abril 10, 2013

Isto é um país fantástico. E animado ...


Isto é um país fantástico. Mal nos ausentamos uns dias e logo acontecem uma série de coisas que nos levariam a escrever crónicas mais ou menos contundentes e que, assim, ficaram por fazer.

De qualquer modo, acompanhámos o chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional. Coisa que, de resto, toda a gente adivinhava que iria acontecer. Também aqui no Por Linhas Tortas nos tínhamos referido por diversas vezes a essa mais que provável decisão. E agora, o imbróglio que já era grande tornou-se ainda maior. Há que ir buscar dinheiro a outro lado (adivinhem onde) para colmatar aquele que viria do saque programado.
"Malandros", pensou o Primeiro-Ministro. Os juízes do TC foram os culpados por este problema adicional que não vem nada a jeito. A verdade, porém, é que foi o Governo que voltou a insistir em normas que eram claramente inconstitucionais, tal como fizera no ano anterior. Pela segunda vez consecutiva, um orçamento de Estado é considerado inconstitucional. Duas vezes seguidas? Se não é incompetência, é o quê?
Quanto ao TC só poderá ser acusado de ter prolongado por tempo exagerado a sua análise. Fica-nos, pelo menos, essa impressão.

Soubemos, também, da renúncia ("por não ter condições anímicas para continuar") de Miguel Relvas. Foi uma saída esperada mas demasiado tardia. Na sua última comunicação, enquanto Ministro, não deixou de sublinhar o seu esforçado trabalho para levar Passos Coelho à liderança do PSD e à chefia do Governo. Um discurso em que ficou claro que sem Relvas, a sua ajuda e o seu empenho, Coelho não iria longe. Mas mais do que isso, foi um tipo de afirmação deselegante e desnecessária, muito ao jeito das pessoas sem carácter.

No mesmo dia do anúncio de Relvas quem teve grande força anímica foi o Benfica que conseguiu uma vitória importante sobre os ingleses do Newcastle, por 3-1, que lhes abre a perspectiva de seguirem em frente na Liga Europa.

Tudo em poucos dias. Isto é um país fantástico. E animado ...
 
 
 

terça-feira, abril 02, 2013

Sabem as respostas ou ... não?


Se bem me recordo publiquei aqui, há muito tempo, uma poesia da Adriana Calcanhoto, "A idade dos porquês". Os versos reflectem a curiosidade natural das crianças que tudo perguntam, muito embora, nós adultos, nem sempre tenhamos a capacidade de lhes dar as melhores respostas.

Hoje, lembrei-me de algumas perguntas (parvas) que, provavelmente, também nós crescidos e cheios de experiência, temos dificuldade em responder. Por exemplo:

- Se depois do banho estamos limpos porque é que lavamos a toalha?

- Porque é que a palavra grande é menor do que a palavra pequeno?

- Porque é que separado se escreve tudo junto e tudo junto se escreve separado?

- Se o vinho é líquido, como pode existir vinho seco?

- Quando inventaram o relógio como sabiam que horas eram para poder acertá-lo?

- Como foi que a placa "É Proibido Pisar a Relva" foi lá colocada?

- Porque é que quando alguém nos pede que ajudemos a procurar um objecto perdido temos a mania de perguntar: 'Onde é que o perdeste?

- Porque é que há pessoas que acordam os outros para perguntar se estavam a dormir?


E, então, sabem as respostas ou ... não?

segunda-feira, abril 01, 2013

Quando a narrativa é falsa


 
Sei bem do que é que estavam à espera quando viram o título da crónica de hoje. Mas equivocaram-se. Embora eu continue a dizer que a narrativa é falsa.

Repetidamente, ao longo dos anos, sempre nos quiseram convencer que nas noites em que muda a hora (Março e Outubro), para as chamadas horas de Verão e de Inverno, nós dormimos menos uma hora ou mais uma hora, consoante a época. Nada mais falso.

Verifiquei isso mesmo na última noite de sábado para domingo. Em vários serviços informativos da rádio e da televisão disseram-nos que à uma da manhã deveríamos acertar os relógios, acrescentando 60 minutos à hora em vigor, passando, portanto, da uma para as duas horas. Razão pela qual dormiríamos menos uma hora nessa noite. Porém, ontem de manhã quando acordei, tinha dormido as mesmas sete horas de sempre.

Para quê este embuste? Um simples acertar de relógios (que, ainda por cima, nos dão um trabalho dos diabos) justifica tamanha mentira? Ainda se fosse no 1º de Abril ... o dia das mentiras ...

Não, meus senhores, não é isso que me faz dormir menos ou mais horas. Hoje não me apetece, mas poderia abrir aqui o saco das lamentações e, aí sim, eu vos diria o que me tira realmente o sono.
 
 

quarta-feira, março 27, 2013

Os juízes decidiram, está decidido!


Provavelmente muitos já se terão esquecido da questão que opunha, desde 2007, o Estado à empresa organizadora do III Salão Internacional Erótico de Lisboa e da Feira Sex07. Recordo que nessa altura os espectáculos, as provas desportivas e outros divertimentos públicos - incluindo os de carácter pornográfico - tinham o IVA à taxa reduzida. Porém, o Estado, por razões de puro decoro ou simplesmente porque achou que poderia sacar mais umas massas nos eventos erótico/pornográficos, que são muito concorridos, resolveu reclamar 76 mil euros por considerar que este tipo de espectáculos não se encaixava bem junto dos outros. Claro que diferendo teve que ser resolvido pela justiça.

O Tribunal de Primeira Instância deu razão à empresa e a Relação confirmou a sentença anterior. Sem prejuízo do que vier a ser decidido num eventual recurso para o Supremo, temos que, para já, o Estado tem que aceitar que este tipo de actividade - em termos fiscais - está no mesmo patamar dos demais.

Goste-se ou não (destes espectáculos e das decisões proferidas), os juízes decidiram, está decidido! Mas o que achei mais interessante no acórdão foi a justificação do Tribunal para a sentença:

"As actividades de feira são apenas uma forma de atrair público para a verdadeira finalidade do evento: a venda de bens e serviços pelos expositores. Situação que, independente da temática do evento, pode ser sexo ou um salão automóvel".
 
 

terça-feira, março 26, 2013

Condescendência para com os políticos? Porquê?



Lembram-se de ler há pouco tempo uma notícia em que mais de metade dos pilotos (portugueses e não só) admite ter adormecido, por fadiga, durante o voo? Então, toda a gente ficou preocupada. Daí que se começasse imediatamente a discutir a uniformização da legislação sobre horas de voo pela Agência Europeia de Segurança Aérea.

Os pilotos não podem dormir enquanto comandam ... mas às vezes ...

E quando sabemos que, por negligência, um cirurgião, deixou morrer um paciente ou esqueceu qualquer material cirúrgico dentro do doente após terminada a cirurgia? Não ficamos revoltados e não tentamos que aquele médico seja imediatamente afastado da sua actividade?

Os médicos enganam-se mas ... não podem.

Curiosamente com os políticos somos muitíssimo mais transigentes. Dizemos mal deles nas conversas entre amigos nos cafés e zangamo-nos com as medidas que tomam porque as achamos desajustadas e injustas. Mas pouco mais fazemos. E quando questionamos, por exemplo, porque é que o actual Governo não acerta uma previsão, uma meta que seja, obtemos (como eu li) uma resposta vinda de um Professor Catedrático de Economia: "Porque somos humanos, não somos deuses".

É a resposta mais abstrusa que já vi e que não pode desculpar os políticos da incompetência e da impreparação que muitas vezes demonstram. Se não aceitamos os erros de aviadores e de médicos (só para citar estas duas profissões), que são humanos como os demais, porque somos tão condescendentes para com os políticos que dão cabo da vida de cidadãos e países? Só porque os seus erros não matam? Não matam mas vão corroendo a paciência e a saúde das pessoas.
 

 

segunda-feira, março 25, 2013

No país das petições


Nunca como agora, com a utilização da internet e das redes sociais, as petições tiveram tão ampla divulgação. Por dá cá aquela palha "inventa-se" uma petição a favor disto ou contra aquilo. Há mesmo sítios específicos na net onde se podem criar ou consultar petições.

As (várias) que na última semana fizeram mais ruído foram as petições sobre a contratação do ex-primeiro-ministro José Sócrates pela televisão pública.

Os que não o querem ver nem pintado na televisão do Estado, acusam-no de gestão danosa, dizem que ele é o principal arquitecto do descalabro político/económico (e o verdadeiro ladrão) do país. Já os seus indefectíveis, sustentam que Sócrates foi um dos melhores políticos de Portugal e que ele tem todo o direito de ser comentador político da RTP.

Não sei se será boa ideia pôr os políticos encartados na pele de analistas políticos. Por definição um analista analisa e um político marca a sua agenda e faz propaganda. Genericamente é assim. E isto aplica-se a Sócrates bem como a todos os ex-governantes e ex-líderes partidários que já hoje têm lugar cativo nas televisões como comentadores.

Para mim, esta história das petições cheira-me a folclore. O balanço das governações depende da avaliação de cada um. Há em todas elas pontos fortes e pontos fracos e num estado democrático as contas são acertadas ou em eleições ou na dissolução de um Governo pelo Presidente da República, de acordo com a Constituição. Petições ou quejandas pouco acrescentam. E, porque respeito a liberdade de expressão e de escolha, acho que há sempre lugar para quem queira aparecer, gostemos nós deles ou não. E, depois, há sempre a possibilidade de mudar de canal ou desligar a televisão.
 
 

sexta-feira, março 22, 2013

Ser pessimista é ...


 
Os primeiros versos do poema de Florbela Espanca, "Ser Poeta", começa exactamente por:

"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!"

Da mesma forma (embora sem o sentido poético de Florbela), bem se poderia afirmar que ser pessimista é (ou pode ser) a chave da longevidade. E isto porquê? Porque, num estudo alemão agora publicado se conclui que "os mais pessimistas sobre as perspectivas de felicidade futura vivem mais tempo e em melhor estado de saúde do que aquelas que são optimistas. As pessoas mais velhas que esperam um nível de satisfação limitado sobre a sua futura situação pessoal vivem mais tempo do que aquelas que imaginam um futuro cor-de-rosa".

Claro que são vários os pressupostos que sustentam a tese destes investigadores da Universidade Friedrich-Alexander de Nuremberg, mas dá-nos um certo alento pensar que o pessimismo generalizado dos cidadãos, pode ser a chave para uma maior longevidade. Quanto a mim, como estou muito pessimista quanto ao futuro terei, certamente, mais uns bons anos de vida pela frente. Haja força para resistir.

 

quinta-feira, março 21, 2013

A corrida aos Bancos no Chipre



Pela primeira vez na história do Euro o resgate financeiro de uma nação impôs como garantia uma taxa dos depósitos nos bancos, que oscila entre os 6,75% para depósitos inferiores a 100.000 euros e 9,9% aplicável aos restantes. Porém, o Parlamento cipriota não aceitou essa decisão, mesmo correndo o risco de lançar o país na bancarrota e, eventualmente, ter que sair do euro.

Aconteceu no Chipre e sobressaltou todos os países do euro. Sossegados que estávamos com os discursos sobre a protecção das poupanças dos depositantes dos sistemas bancários, ficámos em transe quando assistimos aos cipriotas correram em desespero para os multibancos para tentar salvar algum do seu dinheiro. Uma acção capaz de ter réplicas noutros países. E andámos nós tão preocupados com os "riscos sistémicos" que poderiam resultar de uma eventual falência do BPN. Tanto que o nacionalizámos, com todos os prejuízos que daí resultaram.

A medida (como contrapartida da aprovação do resgate) não foi decidida pelo Governo de Nicósia (foi imposta pelo Eurogrupo) e põe a nu que, para os eurocratas de Bruxelas (indiferentes às regras democráticas), vale tudo e que não há qualquer respeito pelos direitos das pessoas.

E agora, que confiança podemos ter nos sistemas bancários/financeiros? Qual a sua estabilidade, que riscos e perigos podem advir de tais sistemas? A confiança, a pouca que ainda restava, parece ter sido definitivamente quebrada.

Segundo li, muitos economistas pensam que taxar os depósitos que os cidadãos europeus confiaram aos seus bancos não é uma carta fora do baralho nos programas de assistência financeira das economias do euro. Portugal incluído.

Embora sabendo que o Chipre, tem um sistema bancário maior do que a própria economia (ainda por cima com um ingrediente suplementar: a lavagem de dinheiro da máfia russa), a partir de agora não sei se teremos que repensar qual será a melhor maneira de guardar as nossas parcas poupanças.

 

quarta-feira, março 20, 2013

Chega!



Estamos fartos da hipocrisia destes Governantes que têm posto de pantanas este pobre país. Chega! E já não pegam as desculpas com os erros do passado e, especificamente, com a desastrosa governação dos governos socialistas. É que desde que este executivo tomou posse tudo tem desabado rapidamente como um castelo de cartas e não se vêem medidas que possam inverter a situação, a curto ou a médio prazo.

Depois dos incitamentos à emigração (de jovens e menos jovens) e de afirmar insistentemente que as crises podem ser uma janela de oportunidades, Passos Coelho diz agora que na reforma do Estado as rescisões com funcionários públicos são "uma oportunidade e não uma ameaça para uma requalificação da administração". E tão certo está do que pretende fazer, que foi já definido por onde vai começar: os trabalhadores das categorias de assistente operacional e de assistente técnico serão os primeiros alvos das rescisões. Precisamente aqueles que ganham menos e que sustentam o funcionamento do Estado.

Tretas! O que percebemos, afinal, é que a refundação e o redimensionamento da administração pública mais não são que puro despedimento de funcionários.

E o desemprego sobe, sobe, sobe. Até onde?

Como escreveu Lobo Antunes "As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa (nós, os cidadãos) somos incapazes de enxergar a capacidade purificadora destas medidas".

terça-feira, março 19, 2013

O verdadeiro défice ...



Ainda sobre Vítor Gaspar (de quem os cronistas e humoristas tanto gostam, calcula-se porquê), ao ouvi-lo no discurso que aqui referi ontem, lembrei-me dos "relatórios e contas" de muitas empresas: o relatório para as Finanças (por causa dos impostos a pagar), o relatório para a Banca (por causa dos investimentos) e o relatório da empresa (em princípio, o que espelhava a verdade das suas contas).

E recordei-me disto porque Vítor Gaspar revelou no tal discurso que houve três valores de défice em 2012: 4,9% (para a troika), 6,6% (para INE/Eurostat) e 6% (saldo orçamental sem efeitos pontuais).

A verdade, porém, é que o Ministro das Finanças apenas nos quis confundir. Ele sabe bem, e nós sabemos também, que o que conta verdadeiramente é o défice em contabilidade nacional que foi, como se viu, de 6,6%, bem longe dos 4,5% previstos.

Para quê estas habilidades? Ainda por cima vindas de uma pessoa que era vista como rigorosa e competente e que, portanto, merecia toda a credibilidade. Será que ainda merece?

 

segunda-feira, março 18, 2013

No bom caminho? Que raio de conversa é essa?



Na conferência de imprensa em que comunicou os resultados da sétima avaliação da troika, o ministro das Finanças anunciou (e agravou) as perspectivas para a economia portuguesa para este ano. O PIB cairá 2,3%, muito acima das previsões de 1% definidas no Orçamento do Estado, o desemprego (oficial) deverá chegar aos 18,2%, atingindo nos últimos meses a barreira dos 19% e o défice público para este ano passará de 4,5% para 5,5%.

Perante tantas previsões falhadas, Vítor Gaspar continua a dizer-se preocupado mas que "continuamos no bom caminho". No bom caminho? Mas que raio de conversa é essa se tudo está a desabar em cima de nós? Os sacrifícios para os portugueses são cada vez maiores e os resultados pioram a olhos vistos. Perante mais este "falhanço colossal" da receita aplicada, Vítor Gaspar deveria ter terminado o seu discurso com uma simples frase: "Por tudo isto, obviamente, apresento a minha demissão do Governo".

Recordo que, há uns tempos (em 2010), Passos Coelho dizia: “Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos e pelas suas acções”.

De facto, ele disse isso mas ... já esqueceu!
 
 

sexta-feira, março 15, 2013

Ouvindo Beethoven


De José Saramago, "Ouvindo Beethoven"

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a presa de registro, o verso acta.


Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

quinta-feira, março 14, 2013

Cuidemos da saúde ... façamos férias



Noutras épocas, quando ainda nos era permitido sonhar, em Março, mais coisa menos coisa, começava-se a pensar em férias. Projectavam-se destinos ou ansiava-se, simplesmente, por tempos de lazer, que passavam muitas vezes por umas semanas de praia. Hoje as coisas estão mais difíceis, a falta de dinheiro obriga-nos a outras prioridades e as férias foram secundarizadas, quando não esquecidas.

Mas o Mundo não pára e, recentemente, realizou-se a Feira de Turismo na FIL e, em breve, será a vez da Abreu mostrar o seu pacote turístico para 2013/2014. Temos que voltar a sonhar em fazer de férias até porque, para além do lazer e da cultura, ir de férias faz bem à saúde.

É isso mesmo que conclui um estudo britânico que comparou a saúde das pessoas que fizeram férias com a daqueles que ficaram em casa e continuaram a trabalhar.

Segundo o estudo, "ir de férias é benéfico porque contribui para a redução da pressão arterial, alivia o stress, melhora a qualidade do sono e, em última instância, rejuvenesce o nosso corpo". Esmiuçando, a pressão arterial daqueles que foram de férias diminuiu 6%, ao passo que a dos trabalhadores que se mantiveram nos seus escritórios subiu 2% durante o mesmo período. A qualidade do sono das pessoas que descansaram num país estrangeiro melhorou 17%, ao contrário do que aconteceu com a outra metade do grupo, na qual se observou uma diminuição na ordem dos 14%. A capacidade de recuperar do stress aumentou 29% naqueles que foram de férias mas registou-se uma quebra de 71% nos que ficaram em casa. As férias contribuíram, ainda, para que o grupo que viajou assinalasse uma diminuição significativa nos níveis de glicose no sangue, o que contribuiu para a redução do risco da diabetes e obesidade e melhoria do humor e dos níveis de energia.

E então, o que é que estamos à espera para melhorar a saúde e voltar a sonhar?

quarta-feira, março 13, 2013

Descobri-te, La Féria ... foste tu!




Li recentemente uma entrevista concedida por Filipe La Féria ao "Económico", já em Novembro do ano passado e descobri que foi ele o verdadeiro culpado por termos Passos Coelho à frente do actual Governo.

A certa altura perguntava o jornalista: "Preferia ter Passos Coelho a cantar numa das suas peças ou no Governo?"

E a resposta de La Féria foi: "Acho que ele era mais feliz se fosse cantor. Ele é um bom cantor. Eu fui o culpado, de facto, de ele agora ser primeiro-ministro (risos). Ele concorreu para fazer o "My Fair Lady" e eu escolhi outro. Porque ele é barítono e o outro era tenor. Mas Pedro Passos Coelho teve dúvidas sobre que carreira devia seguir... contou-me que havia um congresso do PSD no Coliseu. E em vez de ir para o Coliseu, foi para a audição.

Bingo, finalmente sei quem tu és, La Féria. "A partir de agora, doravante e pró futuro" nunca mais porei os pés num espectáculo teu. O homem (o Passos) pode até ter uma boa voz mas a "cantiga" dele não me convence. E tu sabes do que é que eu estou a falar. Afinal, também tu te queixas das más políticas (especificamente as da cultura) ...