sexta-feira, novembro 16, 2012

"Coisas que não há que há"



Manuel António Pina (1943 - 2012), recentemente falecido, foi um jornalista e escritor português. Licenciado em Direito, a sua obra, também publicada em França, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária, incidiu principalmente na poesia e na literatura infanto-juvenil, embora tenha escrito também diversas peças de teatro e obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e TV e editadas em disco.

Quando, em 2011, lhe foi atribuído o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra - poesia, crónica, ensaio, literatura infantil e peças de teatro - Manuel Pina, homem de refinado humor (também patente na sua poesia, o que é raro na poesia portuguesa), afirmou: “É a coisa mais inesperada que podia esperar".

 

De Manuel António Pina, "Coisas que não há que há"


Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...