terça-feira, abril 01, 2014

Quando o telefone toca ...



O título da crónica de hoje poderá ter sugerido a muitos leitores a recordação de um conhecido programa radiofónico - "Quando o telefone toca" - muito popular durante décadas a partir do final dos anos 60 do século passado. Um programa que consistia basicamente em telefonar para uma estação de rádio, dizer-se uma frase publicitária previamente anunciada e, em troca, era passada a música pedida pelo ouvinte. Isto quando o ouvinte não dizia simplesmente que queria ouvir um determinado cantor numa música à escolha do radialista. E o modelo durou, durou, durou (como certas pilhas ...) sempre com grande agrado do público.

Porém, a tecnologia veio dar uma nova dimensão ao "Quando o telefone toca". Com o aparecimento dos telemóveis ficámos a estar permanentemente contactáveis, dia e noite. E já nem me refiro à "banalíssima" (e desagradável) situação do telefone que toca quando estamos a assistir a um espectáculo, a uma aula ou uma reunião. Nesses casos, digo eu, mandaria o bom-senso e a civilidade que desligássemos o aparelho ou, pelo menos, o puséssemos em modo de silêncio. Estava a pensar quando o telefone "se lembra" de tocar quando estamos a milhares de quilómetros dos nossos locais habituais de residência ou de trabalho. E os diálogos (inesperados) acabam por ter a sua piada.

A primeira vez que isso me aconteceu, lembro-me bem, estava em Cuba (a do Fidel Castro) e o telemóvel acordou-me ainda de madrugada. Devido à diferença de horas (era manhã em Lisboa), uma colega minha ligou-me para marcar uma reunião. "Isabel, eu estou em Cuba e só regresso daqui a uns dias", disse-lhe ensonado. Pouco tempo depois de ter ouvido as desculpas pelo incómodo, o aparelho tocou de novo e ouvi novamente a minha colega (com a voz mais fresca do mundo) dizer que, em princípio, a tal reunião realizar-se-ia em tal data. Como já estaria em Portugal no dia indicado, despachei-a rapidamente dizendo-lhe que estaria presente enquanto me amaldiçoava por não lhe ter explicado que a Cuba em que eu estava não era a do Alentejo.

Recentemente, preparava-me para assistir a um espectáculo em Istambul (bebia, então, mais um chá, um dos muitos que já tinha ingerido nesse dia) quando o telefone tocou e do outro lado ouvi a voz do meu amigo António Carlos que me atirou de rompante "Eh pá, ligue para a RTP2 que está a dar um programa que você vai gostar". Respondi-lhe que não podia, que estava na Turquia e que não tinha à mão a televisão portuguesa. Do outro lado o silêncio antecedeu a explosão "Está a gozar comigo? Você está mesmo em Istambul, de verdade? Eh pá, então e quem é que vai pagar esta chamada? Adeus, falamos depois".

A globalização tem destas coisas. Podemos estar longe (mesmo muito longe) mas, ao mesmo tempo, tão perto. À distância de um telemóvel.