sexta-feira, outubro 23, 2009

Escândalos


Hoje trago-vos um inédito de Cesário Verde, de Agosto de 1874, que vi publicado no “Expresso” há uns tempos.


Dizia o semanário: “Aqui se transcreve, ipsis verbis (apesar de arrepios ortográficos, sobretudo no derradeiro e cínico verso, em resposta à mulher de fogo):



Escândalos



Fallava-lhe ella assim:

Não sei porque me odeia,

Não sei porque despreza a luz dos meus olhares,

Se o adoro com fervor, se não me julgo feia,

E o meu olhar eguala as chammas singulares

Do incêndio de Pompeia!


Instiga-me o aguilhão do vício fatigante,

E crava-me o capricho os vigorosos dentes,

Não quero o doce amor platónico de Dante

E sinto vir a febre as pulsações frequentes

Ao vel-o, ó meu amante!


As ancias, as paixões, os fogos, os ardores,

Allucinada e louca, eu vejo que abomina,

E ignoro com que fim, em tempos anteriores,

Enchia-me de gosto a bôca purpurina,

E o seio de calores!


E elle ao vel-a excitante, hysterica, exaltada,

Volveu lhe glacial, britannico, insolente:

“A tua exaltação decerto não me agrada,

E, ó minha libertina! eu quero-te somente

Para mecher salada!”