quinta-feira, julho 21, 2011

Uma coisa é a corrupção e outra o amor pelo Glorioso


Há muito que se sabe das “ligações perigosas” entre a indústria farmacêutica e a classe médica, onde a tão badalada corrupção se materializa através de viagens e fins-de-semana em estâncias turísticas (algumas em lugares distantes e paradisíacos e muitas vezes a pretexto de congressos científicos ou acções de formação), cheques-prenda, consolas ou até mesmo “dinheiro vivo” entregue em sobrescritos. Tudo isso e muito mais oferecido a médicos como contrapartida da prescrição dos medicamentos oriundos dos vários laboratórios. Quanto mais embalagens forem receitadas, maior será o valor da contrapartida. E, assim, neste esquema em que não há culpados, lá se tem vivido, com alegria e impunidade. Mas isso já nós sabíamos e condenávamos, e embora seja crime, parece que nos habituámos à ideia.


Agora a novidade é que foram apanhados alguns clínicos que em troca das tais prescrições aceitaram bilhetes para jogos internacionais do Benfica e as respectivas estadas em Lisboa. E este facto – o de virem assistir aos jogos do Glorioso - altera tudo. É que o favorzito, neste caso, nunca poderá ser considerado um crime mas antes a manifestação mais forte de fervor nacional. Provavelmente os senhores doutores pensarão “Ah, é pr’a ir ver o Benfica, então vou receitar uma caterva dos vossos medicamentos”. E, por esta ser uma boa razão, constitui uma atenuante de peso, caso algum mal intencionado advogado se lembre de colocar uma acção contra esse distinto médico benfiquista. Não concordam? É que uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa.