segunda-feira, março 04, 2013

"Tava" tanta gente ...




Era uma multidão imensa quando cheguei. E continuou a engrossar com gente vinda de todo o lado, numa alegria tensa que mostrava determinação, revolta, raiva, desespero e vontade de mudança.

Não gosto muito do nome do principal movimento que promoveu a manifestação: "Que se lixe a troika". Questão de pormenor, talvez, e que não invalida que a dita se lixe mesmo. Mas preferia um nome mais sonante, mais criativo. E porque não "Que se lixe o Governo"? Ou que se lixe alguém que não sejam sempre os mesmos?

Mas, dizia, era de facto uma manifestação "colossal". Cerca de meio milhão (há quem jure que seriam oitocentos mil) de almas só na manifestação de Lisboa (um milhão e meio em todo o país). Uma "maré cheia" de gente, como li algures. E, por serem tantos, não estranhei não encontrar nem o Passos Coelho nem o Miguel Relvas, nem qualquer outro elemento do executivo. Certamente que estariam por lá, mergulhados na multidão, se calhar com o Passos empunhando um cartaz a dizer mal do Relvas e, este, envolto numa faixa que deitava abaixo o Passos. Mas vi muitos dirigentes políticos da oposição e dos movimentos sindicais e, até, um dos militares de Abril. Mas, à minha volta vi, sobretudo, muitos jovens e outros bem menos jovens para quem o presente é extremamente difícil o futuro uma incógnita. Passei por uma pessoa que segurava um cartaz onde se lia "Sem Presente e Sem Futuro" e que me fez pensar que eu bem poderia levantar um cartaz onde se lesse a minha própria vivência "Com Um Passado Sofrido, Sem Presente e Sem Futuro". Vi muitos desempregados, vi e ouvi famílias inteiras a clamar por mudanças, por melhor saúde, por mais oportunidades de emprego (sem que seja necessário procurá-lo noutros países), por melhor justiça, por menos impostos, por menos austeridade. Vi pessoas desfilando pelas ruas, convictas dos apelos que faziam e dos cartazes que levantavam, enquanto, aqui e ali, se juntavam às palavras de ordem ou entoavam os versos, sempre exaltantes, de "Grândola, Vila Morena".

E todas estas pessoas percorreram ordeiramente as ruas, dando sinais ao Governo, à troika e à Europa que alguma coisa tem que mudar e rapidamente. E se quem nos governa ainda necessitava de sentir o pulsar dos cidadãos, a resposta dada foi clara. Passos Coelho tinha desvalorizado a iniciativa, mas tenho esperança que o mote "O Povo é quem Mais Ordena", cantado vezes sem conta durante a manifestação, o tenha feito reflectir.