segunda-feira, abril 23, 2012

O “Movimento Zero Desperdício”


Não podia deixar de mencionar uma iniciativa apresentada na semana passada – o “Movimento Zero Desperdício” - um projecto da Associação Dariacordar que tem por objetivo principal a luta contra o desperdício alimentar. Segundo os responsáveis deste Movimento todos os dias sobram mais de 50 mil refeições (que ninguém aproveita) confecionadas em refeitórios de empresas, supermercados, restaurantes ou escolas que, a partir de agora e progressivamente, vão ser entregues a famílias carenciadas.

Mas se a iniciativa é altamente louvável, o hino (chamemos-lhe assim) que a promove tem que se lhe diga. Interpretado por figuras públicas como Sérgio Godinho, Jorge Palma, Camané e muitas outras, que admiro como pessoas e como músicos, tem uma letra que, no mínimo, é infeliz.

Como considerar, por exemplo, a frase lá cantada

  “O que eu não aproveito ao almoço e ao jantar a ti deve dar jeito, temos de nos encontrar”.

 Entendamo-nos: as palavras têm a sua força, o seu sentido. E estas, escritas, certamente, sem o cuidado devido, fazem-me recuar a tempos ainda não muito longínquos em que a “caridadezinha” e a “esmola” eram características da sociedade em que vivíamos.

Parece um pormenor mas não é. É uma questão de dignidade.

Mas, como costumo dizer, “uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa”. Saudemos, portanto, o novo Movimento. Alguém escreveu algures “Há movimentos que começam com a revolta, com a revolução …”. Este nasceu da vontade, da perseverança e do trabalho de gente concreta que quis dar-se a pessoas concretas.