terça-feira, outubro 02, 2012

Racionar ou racionalizar?



Senti-me desconfortável com o parecer do Conselho de Ética para as Ciência da Vida que sugere racionar os medicamentos para o tratamento de cancro, SIDA e doenças reumáticas. Ao que percebi - e muitos outros entenderam exactamente o mesmo - os doentes poderão deixar de ser tratados ou, na melhor das hipóteses, serão tratados com medicamentos muito mais baratos (e não sei se com a mesma eficácia) em vez daqueles que, em princípio, seriam os adequados. Tudo, claro está, por razões de natureza economicista. Devo confessar que me custa aceitar a medida. Acho-a desumana.

E quem é que vai decidir o tal racionamento? Os economistas e gestores que estão apenas preocupados com os números do balanço e não conseguem perceber que o que está em causa são as pessoas? Quem vai perguntar aos doentes (se é que eles têm alguma palavra na matéria) se querem prescindir de viver mais uns meses? Afinal, na perspectiva de um gestor, o doente mais barato é o doente morto.

Vão faltando pessoas que saibam o que digam ou que, no mínimo, saibam exprimir exactamente o que querem dizer. Como parece ter sido caso (afirma agora um membro do tal Conselho de Ética), uma vez que usaram a expressão "racionar" em vez de "racionalizar", o que tem um significado completamente diferente.

Vivem-se hoje tempos muito difíceis em que o dinheiro escasseia e há escolhas que têm que ser feitas. Compreendemos que alguns medicamentos possam atingir os 500 mil euros por doente e por ano e, por isso, será razoável que se utilizem medicamentos mais baratos se, os mesmos, conseguirem atingir - mais ou menos - os mesmos fins. Mas, o Conselho de Ética, a gestão dos hospitais e o poder político, têm que assegurar, no mínimo, aquilo que foi dito pelo Professor Daniel Serrão:

“Está em causa a substituição do óptimo pelo bom. Não é do óptimo por nada".