terça-feira, maio 20, 2008

Betinhos e Companhia

O Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) achou que o seu sítio na net seria o local indicado para esclarecer jovens e adolescentes sobre o verdadeiro significado de palavras como “betinho”, “cocó” ou “careta”. Palavras de calão corrente, que já são do tempo do ronca, mas que o IDT teve receio que a rapaziada de hoje não conseguisse descodificar.

E o melhor que conseguiram fazer para “traduzir” as tais palavras foi : é «aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante».

Claro que não tardou a estalar a polémica e saltaram a terreiro quer a Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) quer a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), que não concordaram com a posição do IDT por consideram que “o Dicionário do Calão pode suscitar a curiosidade dos jovens, atraídos pela linguagem usada, em vez de ser preventora de comportamentos”.

Confesso que não estou nada preocupado com a curiosidade dos jovens e adolescentes. Genericamente falando, a curiosidade é salutar e mau seria que eles fossem absolutamente amorfos. O que me inquieta, isso sim, é a forma como pessoas e instituições que têm responsabilidades de formar e informar, demonstrem tão pouco bom-senso nas campanhas que decidem promover e que acabam por ter efeitos precisamente contrários aos que desejariam.

Na minha juventude, essas palavras já faziam parte da nossa gíria e o seu significado era muito claro para nós. “Betinhos” eram os miúdos queques, os da linha (do Estoril) ou os de Alvalade (do Bairro de), “caretas” eram as pessoas mais velhas e conservadoras que não afinavam pelos nossos padrões e “cocós” eram os excrementos (nós dizíamos outra palavra que, desculparão, não posso repeti-la aqui).

Hoje, pelos vistos, o significado das palavras é outro. Ainda assim, dizer aos jovens que um betinho é aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante é o mesmo que instigar a rapaziada a correr ao primeiro dealer que encontrarem para comprar uns pacotinhos de uma erva qualquer.

Quem é que, na minha juventude ou agora, queria/quer passar por betinho? Seguramente ninguém. Portanto, para que isso não aconteça, para que jamais alguém pense ou diga que o rapaz é um betinho, um tipo conservador, desprezível e desinteressante e, ainda por cima, que não consome droga, o melhor é começar a consumir. Ainda mais se já tiverem ouvido dizer que as drogas, apesar de fazerem muito mal à saúde, proporcionam sensações agradáveis.

João Goulão, o responsável pelo IDT diz que “um jovem que desconheça o termo pode sentir-se menorizado”. Pois eu acho que o jovem corre muito mais perigo se fizer fé no modo como o Instituto “traduziu” as tais palavras.

Investida da ASAE nas IPSS

Para quem não está muito familiarizado com estas coisas é bom esclarecer que uma IPSS é uma Instituição Particular de Solidariedade Social. E, já agora, que estas instituições não têm fins lucrativos e são o amparo de muita gente com dificuldades. Dão apoio aos pobres, aos doentes e aos excluídos.

Assim sendo, e tendo em conta a acção altamente meritória que desenvolvem junto das comunidades mais carenciadas e com meios que a maioria das vezes mal dá para sobreviverem, ficamos na expectativa de saber como é que estas instituições vão dar a volta à situação para poderem corresponder às exigências agora suscitadas pela ASAE.

Mas o que pretende, então, a ASAE, perguntarão? Simplesmente que todas as IPSS estejam equipadas com cozinhas que tenham os mesmos requisitos de qualquer restaurante, que não aceitem alimentos dados pelas populações e que deitem fora toda a comida congelada em arcas normais.

E como é que vão conseguir isso? Aí está uma pergunta a que eu não sei responder. Nem eu nem, certamente, a maioria das Direcções das IPSS que já hoje lutam com grandes dificuldades e que, agora, têm pela frente um obstáculo muito difícil de ultrapassar.

É verdade que o Estado dá algum apoio às instituições, mas as grandes ajudas vêm da chamada sociedade civil, das empresas, dos particulares, dos Bancos Alimentares e de uns quantos sócios e beneméritos. Mas tudo isto, na generalidade dos casos, não é muitas vezes suficiente para as despesas do dia-a-dia.

Então, com tamanhas dificuldades, como é que as instituições vão ser capazes de dar andamento às transformações que a ASAE agora impõe? Ou como vão poder prescindir de continuar a alimentar os seus utentes com yogurtes, congelados e outros produtos que têm datas de validade, só porque estas estão prestes a chegar ao fim?

Por força da força da ASAE a situação está a tornar-se insustentável. Compreende-se que aquela autoridade queira aplicar com rigor os regulamentos, nacionais ou estabelecidos pela UE, em nome da higiene e segurança alimentar, mas tem que haver algum bom-senso e alguma razoabilidade na sua actuação.

A prosseguirem com tamanha intransigência, acreditamos que, a breve prazo, haverá muitos milhares de pessoas que deixarão de ser apoiadas (deixarão de comer) pelas IPSS e muitos dos que ali trabalham perderão os seus empregos.

Alguém tem que pôr mão nisto.

domingo, maio 18, 2008

Mais fácil e mais rápido ...

José Sócrates sentiu-se indisposto com sintomas de febre e arrepios. Porque acabara de chegar de uma visita oficial à América Latina, e receando que pudesse ter contraído por lá qualquer doença do tipo malária ou dengue, o pessoal do INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) que geralmente o acompanha, aconselhou-o a recorrer ao Hospital de Santo António, no Porto, onde, ao fim de 15/20 minutos saíu já medicado ao encontro de militantes do PS de Braga.

Sócrates fez bem em não descurar a sua saúde, fez bem em ser assistido nas urgências de um hospital público e fez-lhe muito bem demorar por lá tão pouco tempo e sair aparentemente recuperado.

Quando aqui dei conta (post do dia 7 de Abril passado) da minha própria experiência vivida nas urgências do mesmo Hospital de Santo António, no Porto, em que permaneci quase onze horas, tendo em conta o que vi por lá e o tempo exagerado que os doentes são obrigados a esperar, deixei uma sugestão aos membros do governo e aos restantes responsáveis pela saúde:

“... seria bom que eles se disfarçassem de povo anónimo e se fossem misturar com os demais, para verem, ao vivo e sem disfarces, como as coisas acontecem verdadeiramente”.


Apesar de ser discutível a existência de formas diferenciadas de tratamento entre pessoas – as vidas não respondem por nomes ou por cargos – ainda assim, compreendo que um primeiro-ministro possa ter alguma prioridade sobre os demais. Alguma, sublinho. Não, certamente, uma disparidade de tal monta que vai de 20 minutos a onze horas.

José Sócrates não leu a minha recomendação e não se disfarçou de povo anónimo. Por isso, tudo foi mais fácil e mais rápido...



quinta-feira, maio 15, 2008

Não, não pode ser ...

Na praceta em frente da minha casa a Câmara Municipal está a fazer um trabalho de saneamento, em cuja obra participa uma retroescavadora que faz um barulho dos diabos e que está a pôr todos os moradores à beira de um ataque de nervos. De tal forma esse ruído é ensurdecedor que não consegui ouvir em condições a notícia que estava a ser dada num dos telejornais.

Pareceu-me que estavam a dizer que Administração da EDP tinha decidido aumentar-se em 118%, enquanto os aumentos para os trabalhadores não chegariam aos 2%.

Devo ter percebido mal, certamente que não podia ter ouvido tamanha barbaridade. A Administração daquela empresa, que presta serviços públicos, não cometeria tamanha injustiça. Seria a completa falta de vergonha, de bom-senso, de pudor e de ética. Seria imoral.

E embora notícias deste tipo sejam, infelizmente, frequentes, penso que aquela Administração não chegaria a tanto. 118% para os Administradores e menos de 2% para os trabalhadores?

Não, não pode ser. Tenho que escrever à Câmara a queixar-me do barulho que a máquina faz.

quarta-feira, maio 14, 2008

Bem prega Frei Tomás ...

Pois é, a equipa ministerial que se deslocou à Venezuela, chefiada pelo primeiro-ministro José Sócrates, foi apanhada a fumar no avião que os transportava. Apanhada não é bem o termo porque eles nem sequer fizeram questão de se esconder.

Sejamos claros, a lei do tabaco define que “é proibido fumar em transportes aéreos" e não existe nenhum regime de excepção mesmo para fumadores que sejam ministros. A lei foi aprovada, consta do nosso ordenamento jurídico e é para ser cumprida. Por todos.

Portanto, Sócrates, Manuel Pinho e restante comitiva só tinham que fazer uma coisa – NÃO FUMAR.

Eu não sei o que passa pela cabeça destas gentes. Ainda por cima quando estas gentes são conhecidas de todos e, ainda pior, quando estas gentes são governantes do país, os mesmos que aprovam as leis que, afinal, eles próprios não cumprem.

Que moral é que tem José Sócrates de exigir aos portugueses que sejam fieis cumpridores da lei aprovada em Janeiro deste ano, quando ele não é capaz de o fazer?


Como que a querer branquear a situação, a TAP considera que fumar num voo fretado é tão "normal" como solicitar uma "refeição especial". De acordo com António Monteiro, porta-voz da transportadora, "o cliente que freta um avião pode ter regras diferentes das da companhia". Balelas, digo eu. E dizem-no também os constitucionalistas Jorge Miranda e Vital Moreira que afirmaram peremptoriamente: “o primeiro-ministro, José Sócrates, violou a Lei do Tabaco, ao fumar no avião fretado à TAP que o transportou de Lisboa para Caracas”.
E o resto são cantigas, tanto mais que a própria TAP se encontrar algum passageiro a fumar num voo comercial o convida imediatamente a deixar de o fazer.

Ao que parece a situação, apesar de muito contestada, não é inédita. Alguns jornalistas que viajaram com Cavaco Silva (que não fuma), confirmaram que nos voos da Presidência também se instalou o hábito de fumar.

Num voo realizado em 2004, na Varig, entre Portugal e o Brasil, um actor conhecido da nossa praça fumou na casa de banho do avião e, apesar das advertências, recusou-se a apagar o cigarro. A situação foi comunicada ao comandante do avião, que informou a Polícia Federal Brasileira sobre o sucedido. O resultado? O actor foi proibido de entrar no país e repatriado em pouco mais de uma hora.

Repatriados já não podem ser, mas estes fumadores-ministros têm que se justificar perante o país. Que sansões lhes vão ser aplicadas? Provavelmente nenhumas.


Por princípio, a lei é para todos, incluindo, naturalmente, os membros do Governo. Ou seja, uma lei da República deve ser cumprida por todos sem excepção.

E não basta que José Sócrates tenha já lamentado a ocorrência e pedido desculpa por ter transgredido. O que está aqui em causa não é o facto de uns quantos senhores terem fumado uns cigarritos mas sim o aspecto político da questão.

Porque são muitos os casos em que a classe política não cumpre as leis, o que preocupa, afinal, o cidadão é saber até que ponto pode confiar na creditibilidade dos políticos. Como se costuma dizer “o exemplo deve vir de cima”.



terça-feira, maio 13, 2008

Uma cena lamentável


Foi lamentável o que vimos na SIC na noite do passado domingo, na gala dos Globos de Ouro de 2008, atribuídos por aquela estação de televisão e pela revista Caras.

Quando Jorge Palma foi chamado ao palco para receber o globo por ter sido considerado o melhor intérprete individual e tentava fazer os agradecimentos da praxe, foi “atropelado” pelo Herman José e caíram os dois ao chão. A pretensa brincadeira de Herman foi deprimente e completamente desajustada. E prosseguiu com cenas que pretendiam ter graça e que culminaram com o “humorista” a arrastar o cantor pelo chão até desaparecerem para além do cenário. Tudo planeado por Herman em nome de uma suposta rábula humorística.

Mas poder-se-á chamar àquilo humor? Não achei. Nem eu, nem muitas das pessoas com quem contactei ontem, nem, presumo, por quem tenha um mínimo de sensatez. Apesar de muitos dos presentes na sala do Coliseu terem rido com o número de contorcionismo entre o humorista e o cantor, a cena foi deplorável e triste.

Em comentários que vi em vários sítios da net, alguns diziam que Palma ia “tocado” e, por isso, Herman quis tirar proveito da situação. Ainda assim, mesmo com o cantor “bem bebido” mas completamente consciente, Herman José não tinha o direito de “roubar” a Jorge Palma aquele momento significativo da sua carreira, em que o músico tinha acabado de ser premiado com uma distinção que o elegia como o melhor daquela área.

Roubou-lhe a dignidade do momento, tirou-lhe a possibilidade de usufruir a alegria de um prémio conquistado.

Em consciência, poderá alguém de bom-senso classificar este acto, praticado perante milhões de espectadores, como alguma coisa que se assemelhasse, ainda que ao de leve, a um quadro de comédia?

Herman excedeu-se. Em desesperada queda de inspiração e de graça pretendeu capitalizar umas quantas gargalhadas que pudessem justificar a sua continuidade na SIC. Perdida a esperança de voltar a ser figura central de outras épocas em que arrecadou vários dos Globos de Ouro, Herman procurou desta forma, ridícula, patética e alucinada voltar a brilhar mesmo que, para isso, tivesse que espezinhar e humilhar um companheiro.

Termino como comecei. Assistimos a uma cena extremamente lamentável a que nem o conhecido espírito “porreiro” do cantor justifica. Ele não merecia isto. Herman deve um pedido de desculpas a Jorge Palma.

segunda-feira, maio 12, 2008

O melhor do mundo

Embora seja, de facto, “o melhor do mundo”, não vou falar hoje sobre o glorioso Sport, Lisboa e Benfica. Por motivos óbvios.

O tema da presente crónica tem a ver com a notícia absolutamente incrível de que o TGV vai destruir parte das vinhas da casta Syrah, da Casa Ermelinda Freitas, de Fernando Pó, Palmela. Aquela mesma vinha que produziu o fantástico Syrah 2005 que foi recentemente considerado, em prova cega, o melhor tinto entre mais de três mil vinhos concorrentes de todo o mundo.

Não questionando, de novo, a necessidade de virmos a ter um comboio de alta velocidade, ficaremos hoje apenas pela perplexidade em admitir que a construção de um pedaço de via obrigue a arrasar parte de uma vinha, cuja casta é a responsável por sermos o país que produz o melhor vinho tinto do mundo. Um bocado de vinha, nada menos que 18 hectares, que vai ser sacrificada em nome da “modernização” do país.

Segundo parece essa travessia do TGV será feita em viaduto mas, de qualquer forma, terão que ser construídos pilares para esse viaduto, o que acabará por destruir a vinha. E será bom lembrar que são precisos sete anos para criar uma vinha de boa produção.

A pergunta é a de sempre: Será que vale tudo em nome do progresso?

quinta-feira, maio 08, 2008

A bem da poupança

Num boletim informativo (“Newsletter”, como se diz agora) enviado por uma empresa municipal de águas e resíduos de certa Câmara Municipal aos seus clientes, pode ler-se, com o devido destaque:


“Sabia que ... a descarga de um autoclismo num país ocidental requer o mesmo volume de água que a consumida por um habitante dos países subdesenvolvidos, para a sua higiene e restantes tarefas durante um dia inteiro?”


Receio não ter entendido completamente a mensagem. Será que eles pretendiam:

- dar uma informação?

- fornecer um mero dado estatístico?

- fazer um apelo à preservação deste recurso tão escasso? ou,

- sugerir que esqueçamos determinados comportamentos que nos levem à não utilização do autoclismo sempre que haja a necessidade de nos servirmos da sanita? Já agora, e como complemento, será que o autor da mensagem se esqueceu de sensibilizar as pessoas para a dispensa da lavagem das mãos ... em qualquer situação?

De qualquer forma, a preocupação daquela empresa pública percebe-se e, na minha opinião, poderia ter uma leitura:

“Tudo a bem da poupança ...”


quarta-feira, maio 07, 2008

Isto é “fair play” meus senhores

Eu sei que há uns tempos o Primeiro-Ministro Sócrates foi a uma escola onde julgava estar a falar para uma turma de estudantes. Afinal, veio a descobrir-se mais tarde que os tais estudantes não passavam de figurantes contratados por uma agência de publicidade.

Por isso, já não sei se posso acreditar em tudo o que parece real.

No vídeo que se passa em baixo, um jogador da equipa de vermelho e branco (Ajax), sofreu uma falta e ficou estatelado. Como (quase) sempre acontece, a equipa adversária (de amarelo), atirou a bola para fora para que o jogador pudesse ser assistido.
Logo que se levantou, o jogador do Ajax devolveu a gentileza e a bola mas, sem querer, acabou por fazer um golaço. Todos, inclusive o que fez o golo, ficaram boquiabertos, mas o golo foi validado pelo árbitro. Ao reiniciar o jogo, os jogadores do Ajax não se mexeram um passo que fosse e permitiram que a equipa de amarelo marcasse também um golo. Sem resistência. Com desportivismo.

Nunca vi nada assim.

A ser verdade, e eu acredito que será, pergunto-me se isto seria possível cá no burgo?


terça-feira, maio 06, 2008

Gerido por criminosos

Quando no âmbito do projecto “Futuro Sustentável”, o Semanário Expresso e o Banco Espírito Santo pensaram em convidar o cantor e activista Bob Geldof para falar durante um almoço-conferência, cujo o tema era “Making a difference”, nunca imaginariam que ele só tivesse concordado em estar presente só para dizer umas coisas e provar uns vinhos e petiscos cá do burgo. Quem o conhece sabe bem que Geldof raramente veste a casaca do politicamente correcto e, dele, pode vir o mais inesperado.

Pois o homem, cantor e activista mas também organizador de grandes festivais em prol dos direitos humanos, desta vez não fez por menos e acusou o Estado angolano de ser gerido por criminosos. E não ficou por aqui. Disse que as casas mais ricas do mundo estão na baía de Luanda e algumas das pessoas mais influentes de Angola têm estilos de vida dos mais faustosos do planeta.

É claro que o embaixador angolano em Lisboa saíu da sala e o Banco Espírito Santo apressou-se a divulgar um comunicado onde se demarca das afirmações do cantor por as achar “injuriosas”.

Não me espanta as atitudes tomadas pelo Sr. Embaixador e pelo BES. Ambos defendem posições. O que me espanta é a incredulidade de muitos em não quererem ver o que frequentemente nos é relatado sobre a falta de democracia em Angola e a extrema pobreza em que vivem os angolanos em contraste revoltante com as grandes fortunas e a vida faustosa da classe dominante.

Bob Geldof apenas veio pôr o dedo na ferida. Com a coragem e o desassombro que lhe são característicos.

segunda-feira, maio 05, 2008

Os novos heróis

O Banco Alimentar Contra a Fome, na campanha do último fim-de-semana, angariou 1.702 toneladas de géneros alimentares. Um resultado que ultrapassou as expectativas mais optimistas e que foi mesmo superior ao da campanha de Maio do ano passado.

Mais uma vez os portugueses demonstraram que continuam a ser solidários para com aqueles que mais necessitam. Apesar de todas as crises e de todas as dificuldades que afectam a generalidade da população, “insistem” em querer ajudar os mais desfavorecidos.

O facto é relevante e merece destaque especial. Tanto mais que se têm registado aumentos muito significativos, sobretudo desde o início do ano passado, que são claramente superiores às diminutas subidas dos salários – para os que as tiveram, é claro – mas que, ainda assim, não demoveram os portugueses a deixar de ser solidários e a pensar que muitos outros estarão ainda em pior situação que eles próprios e, muitos deles, já à beira da ruptura total.

É que os preços dos alimentos de primeira necessidade subiram tão alto que, para muitos portugueses, é perfeitamente impossível alcançá-los, que o mesmo é dizer que já não têm dinheiro para se alimentar.

Atentem nos aumentos de certos produtos alimentares. Por exemplo, só em 2007, o leite subiu 74%, o arroz 71%, os óleos 36%, as massas 34%, as farinhas 34% e os ovos 24%. E os chamados produtos brancos, que são sempre mais em conta, mesmo esses tiveram aumentos significativos que rondaram entre os 20% e os 39%.

Pois os portugueses - sempre generosos – tendo consciência que milhares de concidadãos estão em muito pior situação do que eles, continuaram a abrir as suas já magras carteiras e não deixaram de responder à chamada para contribuir, dentro das suas possibilidades, ao apelo que lhes era feito.

HERÓIS, é o mínimo que se pode chamar a este povo tão altruísta.

Como que a ilustrar o que disse, não posso deixar de lhes contar uma história que li hoje algures e que rezava assim:

“... Sobre a solidariedade deixo aqui um pequeno episódio que me comoveu quando hoje fui fazer umas compras ao supermercado. Depois das compras feitas encontrei à saída, já lá estava quando entrei, um homem, já velhote, que conheço daquele sítio há muito tempo. É um homem pobre que vive parte do tempo à porta do supermercado. Está ali por necessidade a pedir e encontra ali uma forma de “socialização”. As pessoas já o conhecem, são simpáticas com ele e ajudam-no. Sente-se bem ali. Ali ninguém o trata mal. É por assim dizer o seu ambiente “familiar”. Pois hoje pediu-me uma ajuda especial e explicou “É para ir lá dentro comprar alguma coisinha para dar ao Banco Alimentar”. E disse com um ar alegre: “Sabe minha menina, sei o que é ser pobre, já estou habituado, tenho muita pena das crianças que não comem ...”.


quinta-feira, maio 01, 2008

Contamos consigo no próximo fim-de-semana


Nos dias 3 e 4 de Maio (o próximo fim-de-semana), os Bancos Alimentares Contra a Fome levam a cabo uma nova campanha de recolha de alimentos em 993 estabelecimentos comerciais das zonas de Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Évora, Beja, Aveiro, Abrantes, S. Miguel, Setúbal, Cova da Beira, Leiria-Fátima, Oeste, Algarve e Portalegre.

Para aderir a esta campanha basta aceitar um saco de plástico entregue pelos voluntários do Banco Alimentar Contra a Fome devidamente identificados (localizados à entrada de cada um dos estabelecimentos comerciais), colocando no seu interior bens alimentares de preferência não perecíveis, tais como leite, conservas, azeite, bolachas, açúcar, farinha, massas, óleo, etc.

No próximo fim-de-semana os Bancos Alimentares contra a Fome apelam, mais uma vez, à solidariedade generosa de todos para que novamente saibamos, em conjunto, dar uma resposta global da nossa capacidade em contribuir para minorar as carências alimentares com que se debatem ainda muitos portugueses.

quarta-feira, abril 30, 2008

“O país dos brandos costumes”

Dizer-se, hoje, que “Portugal é um país de brandos costumes”, não corresponde à verdade e a frase, em si mesma, não passa de uma forma de retórica.

Mas não o sendo, de facto, continua-se a fazer supor que o nosso país continua a ser o tal paraíso à beira-mar plantado.

E o certo é que não é. Se o fosse seria improvável que uma esquadra de polícia fosse invadida, em pleno dia, por um grupo de mais de dez homens com o intuito de agredir um jovem que tentava apresentar queixa contra, precisamente, esses “invasores”. E a esquadra foi mesmo invadida.

E, pergunta-se, eles não foram impedidos de entrar pelas forças policiais? Não, não foram. E porquê? Porque na esquadra - que apoia uma população de doze mil e tal pessoas – apenas havia um polícia que se viu impotente para impedir a invasão.

Perante tão insólita situação, a responsável pela esquadra atacada procurou justificar o injustificável, alegando que, tratando-se daquela hora e daquele dia, o número de efectivos – UM, apenas um – era razoável.

Posições diferentes tiveram, quer a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, que considerou que a presença de um único agente na esquadra era “rídicula”, quer o Ministro da Administração Interna que afirmou que "Não é prática aconselhável haver uma esquadra da PSP em que esteja apenas um agente da polícia. As esquadras não podem ser locais vulneráveis".

Concordo em absoluto com a ASPP e com o Ministro. Têm toda a razão. Só que, com a presença de um único polícia, as esquadras tornaram-se efectivamente muito vulneráveis e a verdade é que o tal polícia único não consegue garantir nem a segurança dos cidadãos (como foi o caso), nem a sua própria.

Para mais, é suposto que as esquadras tenham armamento. E, caso sejam invadidas, é bem provável que essas armas e munições venham a cair em mãos erradas, com todos os perigos daí decorrentes.

Mas a minha curiosidade inquieta-se quando penso que não se chegou a saber o que a senhora responsável pela esquadra entende por “horas e dias não perigosos” ou como vai, de imediato, o senhor Ministro da Administração Interna, que tutela a PSP, resolver a situação de postos de polícia guardados por um único agente, quando corre por aí que a falta de mais polícias nas esquadras é consequência dos cortes orçamentais determinados pelo governo.

Não é a primeira vez que uma esquadra é invadida. Já aconteceu mais vezes e em várias localidades do país.

Definitivamente, o “Portugal, país dos brandos costumes” já não existe.

segunda-feira, abril 28, 2008

Tardou mas veio ...

Demorou muito a reacção dos médicos oftalmologistas portugueses à crescente indignação pública sobre a sua evidente ineficácia, cuja consequência maior se traduz nos muitos milhares de pessoas que, desesperadamente, estão à espera de uma cirurgia oftalmológica ou de uma simples consulta.

Eu esperava que os médicos viessem a terreiro mais cedo, mas só ontem vi na televisão uma mal amanhada resposta à procura de ajuda que os nossos concidadãos conseguem em Cuba (por não a obterem em Portugal), com o precioso auxílio das suas Câmaras Municipais.

Vi e ouvi um médico pôr em questão a qualidade dos seus colegas cubanos mas não o ouvi sugerir soluções para ultrapassar o problema.

Também o Bastonário da Ordem dos Médicos veio dizer que era uma vergonha para Portugal e para os seus médicos este tipo de “peregrinação” a Cuba. Afirmou que o país tem uma má distribuição geográfica destes especialistas e uma concentração despropositada em alguns hospitais.

O que o especialista que acima referi e o que o Sr. Bastonário não disseram é que aqui mesmo em Portugal um médico espanhol fez 234 operações em seis dias, enquanto os colegas que trabalham no mesmo hospital fazem, cada um, cinquenta operações num ano (post do dia 8 deste mês “Contra factos ...”).

Pois é, sobre isso disseram nada e, portanto, cada um que tire as ilações que quiser. Enquanto isso, as Câmaras de Vila Real de Santo António (que já teve idêntica iniciativa o ano passado) e de Santarém celebraram protocolos com médicos oftalmologistas de Cuba para que os seus munícipes possam ser operados rapidamente.

E, ao que consta, outras autarquias estão-se a preparar para lhes seguir as pisadas.

Os doentes agradecem.


domingo, abril 27, 2008

Lembrem-se como foi

Abril não é só um mês nem o 25 de Abril é apenas uma data e um feriado. Ambos fazem parte da História recente do nosso país e têm um significado profundo para os portugueses, independentemente das ideologias de cada um. Uma data muito importante – mas infelizmente bastante esquecida mesmo pelos que viveram em ditadura - que é sempre bom relembrar e comemorar.

Nesse sentido, e a exemplo do que aqui já tem acontecido noutros anos, trago-vos desta vez um excerto de um artigo publicado no Diário de Notícias de 25 de Abril, da autoria da jornalista Fernanda Câncio.

A escolha deste texto obedeceu a dois critérios: O primeiro, porque está muito bem escrito e retrata com verdade algumas das diferenças de como se vivia em Portugal antes do 25 de Abril de 1974 e como se passou a viver depois. O segundo, porque este tipo de testemunhos ajuda, por um lado, a preservar a memória dos que viveram antes da revolução dos cravos e, por outro, para aqueles que nasceram depois daquela data, a conhecer algumas das principais transformações e conquistas que se registaram nestes últimos 34 anos e que, naturalmente, não caíram do céu, como alguns poderão julgar. Tanto mais que para estes últimos, nem a escola nem as famílias, foram capazes de lhes transmitir toda a riqueza de uma época absolutamente extraordinária, que mudou em definitivo a vida dos portugueses.



“… Quando oiço ou leio elogios a Salazar e ao "outro tempo" a gente que tem idade para se lembrar, fico estupefacta. Nunca deixa de me espantar que se considere que "se vivia melhor" ou "havia mais segurança". É que não é uma questão subjectiva: não me venham com questões subjectivas. Nada há mais objectivo que os indicadores do Instituto Nacional de Estatística, e a forma como nos últimos 34 anos as provas do bem-estar dos portugueses aumentaram de modo quase milagroso. A mortalidade infantil e materna, por exemplo: passámos de um índice de país do Terceiro Mundo para um dos mais honrosos da UE. A esperança de vida. A electricidade, a água canalizada, as casas de banho dentro das casas. A quantidade de jovens que conseguem aceder ao ensino superior. Quem acha que isso não tem nada a ver com a democracia e que era inevitável deve questionar-se, por exemplo, sobre o motivo pelo qual em quase todos os países totalitários, independentemente da sua riqueza, a maioria das pessoas vive tão mal.

Porque antes da democracia a esmagadora maioria dos portugueses vivia mal. Havia miséria como não há, nem por sombras, hoje. Havia pobreza como não há, nem por sombras, hoje. Há gente a viver mal hoje, idosos com reformas miseráveis. Mas antes da democracia não havia sequer reforma garantida para todos - lembram-se? E podia não haver carjacking - não havia sequer carros que chegassem para isso - mas havia tropa obrigatória, lembram-se? E minas nas picadas, e emboscadas na selva. Quantos portugueses morreram, obrigados, na guerra? Quantos voltaram deficientes? Quantos tiveram de fugir para não serem enviados para África? Quantos fugiam, "a salto", para tentar uma vida melhor no estrangeiro? Quantos morriam de medo de dizer alguma coisa errada que os levasse a serem considerados anti-regime, a perder o emprego, a serem presos? Era seguro, ser português? Era seguro, viver numa ditadura?

Há, claro, sonhos que se perderam e traíram. Não somos todos felizes - mas só nos cartazes das ditaduras toda a gente sorri. Os amanhãs cantaram, mas desafinados para muitos ouvidos. Desafinam ainda, e ainda bem - porque agora depende tudo de nós, e cada voz canta diferente. Sobretudo, não me digam que "há medo de falar" nem usem a palavra "fascismo" a torto e a direito. Porque é ridículo, demasiado ridículo, mas porque, sobretudo, é um insulto a todos os que realmente souberam o que era ter medo e viver num regime totalitário, todos os que no "dia inicial, inteiro e limpo" de Sophia se sentiram, enfim, inteiramente inteiros.”


quarta-feira, abril 23, 2008

Liberdade

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.



O rio corre,
bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor,
quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia,
a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...








Fernando Pessoa, de seu nome completo Fernando António Nogueira Pessoa, nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1888 e morreu também em Lisboa em 30 de Novembro de 1935.

É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa.
Trabalhou em várias actividades como jornalismo, publicidade e no comércio mas foi através da poesia e da literatura – assinadas com o seu próprio nome ou sob o manto dos vários heterónimos que adoptou – que se tornou uma figura maior das nossas letras.

















terça-feira, abril 22, 2008

Pipocas


Para começar, uma declaração de interesses. Detesto ver filmes ao som da mastigação de pipocas.

A esta hora já começaram a vociferar alguns dos meus amigos – espectadores incondicionais de filmes e de televisão que se costumam aconchegar a baldes ou taças de pipocas - que não devo estar bom da cabeça.

Mas é isso mesmo. Detesto ouvir o ruído daquela trituração infindável quando, o que eu pretendo, é tão simplesmente concentrar-me na película. E se em casa de cada um, são livres de fazer o que lhes der na real gana – podem comer pipocas, arrotar ou andar vestidos com fatos de treino bizarros – porque estão no seu território, estão à vontade e não incomodam ninguém, já nas salas de cinema a coisa muda de figura.

Acho deprimente quando as pessoas entram na sala carregadas com baldões enormes a transbordar de pipocas e uns copázios de dois litros de coca-cola. Não só acho que é deselegante como define logo o tipo de pessoa que transporta tais carregos. É, mal comparado, como aqueles que vestem uma roupinha catita mas que calçam uns sapatos mal amanhados. O pormenor dos sapatos faz toda a diferença, exactamente da mesma forma como acontece com o balde das pipocas.

E depois, é todo o remexer no balde, é toda a mastigação que não pára, é toda a agitação dos braços que cruzam o espaço para ir buscar mais uma mão-cheia de pipocas. Tudo enquanto o pacato cidadão se procura concentrar – inutilmente - na trama do filme que está a ser exibido.

No final, e como se a irritação já não chegasse, toda a minha gente se levanta e vai abandonando a sala, deixando atrás de si um enorme e aviltante “campo de batalha”, os copos de coca-cola abandonados, as poças de refrigerante derramado, os baldes de pipocas (por vezes meio cheios) espalhados pelo chão, tudo a lembrar um confrangedor e terrível cenário de guerra.

Tanta coisa que poderíamos ir copiar aos americanos e logo fomos importar esta moda. “Americanices”, como diz um amigo meu!

Para além do mais, considero que este negócio veio desferir um rude golpe na privacidade de cada um. Eu estou ali apenas para ver um filme e não incomodo ninguém. O mínimo que esperaria é que também não me incomodassem com a palpitante deglutição do milho empacotado. Ao fim e ao cabo, tudo se resume a uma simples questão de respeito.


Solidariedade social?

Embora muita gente soubesse da existência desses casos, a notícia não deixou de despertar um sentimento de revolta a muitos portugueses: “Há lares para a terceira idade apoiados pelo Estado que, por falta de dinheiro, vendem vagas em troca de donativos, deixando em lista de espera idosos mais carenciados”. Ou seja, para que os idosos consigam entrar nos lares, os familiares são obrigados a “oferecer” donativos às instituições.

Na sequência desta notícia, uma estação de televisão entrevistou um cidadão que tinha feito um donativo de uns largos milhares de euros para que o pai fosse admitido num determinado lar. Como o senhor acabou por falecer dois meses depois de lá estar, a instituição “generosamente” devolveu ao filho metade da quantia “oferecida”.

Claro que o presidente da Confederação das Instituições de Solidariedade Social, Lino Maia - um padre - apressou-se a esclarecer que a culpa é da Segurança Social que só comparticipa com 350 euros quando o custo real por mês e por idoso é de 650 euros.

Explicação um pouco grosseira, convenhamos, quando se sabe que na generalidade dos lares, para além do subsídio atribuído pelo Estado, todos os internados pagam a sua estadia com uma boa parte da sua pensão e que todos os custos chamados acessórios – fraldas, medicamentos, idas a hospitais e outros – são pagos à parte.

Conheço um lar que pertence à Santa Casa da Misericórdia de uma vila do nosso país, que recebe comparticipações do Estado e em que os utentes têm obrigatoriamente que ser sócios (pagam uma quota mensal) e pagam, ainda, 80% das suas pensões, além de todos os tais cuidados acessórios que necessitam.

Nesse lar quando um utente necessita de ser transportado ao hospital cobram 15 euros por esse serviço (motorista, desgaste do veículo, gasóleo). Pois se nesse mini-autocarro em vez de um, forem dois, ou três ou nove utentes, cada um paga os mesmos 15 euros, como se as despesas com o gasóleo e com o motorista não fossem rigorosamente iguais quer o autocarro transportasse apenas um idoso ou levasse a lotação esgotada.

Nesse mesmo lar tive conhecimento da situação de um casal que estava instalado cada um em seu quarto desde a sua entrada, até que, ao fim de uns anos, conseguiram partilhar o mesmo quarto, tendo pago por essa reunião 2.500 euros.


Será que estamos perante uma política de gestão financeira que tenta tão somente garantir a sobrevivência das instituições ou todos estes casos não passam de pura exploração?

No meio de tudo isto onde é que fica a solidariedade social? Estaremos, de facto, a cuidar convenientemente das pessoas que se encontram mais fragilizadas e carentes? Não deveriam estas pessoas receber da sociedade um outro tipo de atenção e de respeito?


domingo, abril 20, 2008

Para aliviar o stress

À primeira vista poder-se-ia pensar que esta história era coisa de americanos. Mas não, desta vez a ideia é espanhola e conta-se em duas palavras.

Com o objectivo de tentar acalmar os seus clientes executivos, a cadeia de hoteis espanhola NH Hoteles mandou equipar os quartos do seu hotel do centro de Madrid com martelos para que os clientes mais stressados pudessem partir à vontade tudo o que está no edifício - mobiliário, paredes, portas e janelas.

E o grupo hoteleiro foi ainda mais longe. Pôs psicólogos à disposição dos seus hóspedes para acompanhar todos os ataques de nervos dos seus clientes mais excitados.

Como diria o outro “este mundo está louco”, versão moderna do que dizia noutros tempos o Obelix “estes romanos são doidos”.

Resta saber se a verdadeira intenção da administração do NH Hoteles foi a de que os seus executivos voltassem aos seus afazeres mais calmos depois de tanta martelada ou se pretenderam simplesmente ter uns quantos malucos a destruir – ainda por cima pagando – um edifício que eles queriam reconstruir e modernizar.

quinta-feira, abril 17, 2008

O ano internacional da batata

Quando li que a UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - “decretou” que 2008 se comemoraria o Ano Internacional da Batata, veio-me à cabeça uma expressão muito em voga na minha adolescência:

“Nicles, Batatoide”

Não me perguntem o que significa nem o contexto em que se utilizava. É daquelas expressões idiotas, uma expressão de época, se assim se pode dizer, daquelas (muitas) que se empregam em qualquer geração e que querem dizer absolutamente nada. Dizem por que se dizem, mas não têm qualquer conteúdo. Funcionam apenas como se fossem um tique ou um arremedo mas que são perfeitamente inócuas e sem substância.

Mas foi, talvez, o “batatoide” que, por associação de ideias, me fez lembrar a batata e, esta, o ano internacional da dita. O que, à primeira vista, parece ser coisa de pessoas desocupadas.

Contudo, parece que a ideia da UNESCO ao promover a homenagem a este tubérculo milenar foi a de aumentar a consciência dos povos para a importância da batata, quer do ponto de vista agrícola, quer social quer, ainda, para o facto de o cultivo da batata poder ajudar a combater a fome no mundo.

Recorde-se que a batata é rica em hidratos de carbono e constitui uma boa fonte de energia. Para além do mais, contém também aminoácidos, vitamina C e potássio. Portanto, um bom alimento.

Apesar da sua importância e de ser o tubérculo mais consumido do mundo e apesar da facilidade com que certas cabecinhas conseguem fazer associações abstrusas de ideias, o Ano Internacional da Batata nada tem a ver, felizmente, com aquela infeliz e imbecil expressão - “Nicles, Batatoide” – que tanto se ouvia nos tempos idos da minha juventude. Expressão que passou à história sem deixar história. Apenas simples reminiscências.