quinta-feira, janeiro 19, 2006

Portugueses pouco produtivos


Os pilares que servem de suporte à tão badalada crise económica estão já sobejamente identificados. E todos, economistas, (alguns) empresários, analistas e até candidatos a Presidentes da República, são unânimes em afirmar que a culpa da crise é da inadequada organização das empresas e da sua pouca competitividade, da insuficiente taxa de exportações e da deficiente formação dos trabalhadores e do seu baixo nível de produtividade.

Conhecido o diagnóstico, não deixamos, no entanto, de nos surpreender quando olhamos para as conclusões dos trabalhos publicados por consultores independentes e, nomeadamente, quando esses trabalhos fazem comparações entre os números de Portugal e os de outros países.
Foi o que aconteceu recentemente quando foram publicados os dados do último relatório sobre produtividade, elaborado pela consultora Proudfoot.
De um conjunto de 9 países analisados, Portugal está no penúltimo lugar da tabela.
Mas, o que mais me choca e preocupa é que em cada hora de trabalho, nós portugueses, conseguimos ser 64% menos produtivos do que os franceses, que ocupam o 1º lugar, e 21% do que os espanhóis que estão imediatamente acima de nós.
Como se sabe, a baixa produtividade é o principal factor que influencia o “PIB Per Capita”. E, por isso se percebe que os nossos vizinhos espanhóis que têm, como se disse, uma produtividade 21% acima da nossa, tenham um “PIB Per Capita” 14% superior ao português.
Aliás, todo o tempo desperdiçado pelos trabalhadores portugueses – absentismo, baixas, pontes, feriados, greves, puro tempo perdido e pausas para café – traduziu-se em 2004 num saldo médio de 42 dias de trabalho perdidos que, à média de 8 horas diárias, dá qualquer coisa como 65 milhões de dias de trabalho perdidos. O que, a um custo médio de €5,17 por hora de trabalho, representará um total de 8143 milhões de euros, o equivalente a 5,8 do PIB nacional.
E a responsabilidade deste estado de coisas e de tanto dinheiro atirado à rua deve ser atribuído a quem? Aos trabalhadores portugueses, uma vez que, aparentemente, os motivos acima descritos apenas são de sua inteira responsabilidade?
Não. Em artigo publicado há uns tempos neste blogue manifestei a minha opinião sobre o assunto, opinião que, de resto, foi agora corroborada pela Proudfoot (de onde se prova que este blogue é consultado cada vez mais). O baixo nível de produtividade deve-se, sobretudo, ao fraco nível de planeamento e organização das empresas e à sua insuficiente gestão operacional. Mas deve-se, também, à falta de liderança e de supervisão e aos sistemas de controlo que, muitas das vezes, são desadequados.
Outro dado curioso apontado como reflexo directo nos níveis de produtividade são as múltiplas reuniões de trabalho que muitas vezes se realizam sem qualquer necessidade.

Temos aqui um bom motivo para reflexão. De todos, dos gestores e dos empregados. Poderemos, certamente, melhorar muito, esforçarmo-nos mais. No que me diz respeito, estou pronto para esse esforço mas, acabar com as pausas para o café, isso não, por favor!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Adeus aos galheteiros

Como sabem, desde o início do mês está proibida a utilização dos tradicionais galheteiros em unidades hoteleiras e de restauração, já que passou a ser obrigatório servir o azeite em embalagens invioláveis e munidas de um sistema de abertura que perca a sua integridade após a primeira utilização e que não sejam passíveis de reutilização.

Dizem os responsáveis que esta medida visa acabar com uma prática de muitíssimos anos que se considera inadequada em termos de higiene e segurança alimentar e protecção da saúde dos consumidores. Mais, com esta medida, passará a haver a possibilidade de identificar a origem do azeite.

Fico agradecido com o cuidado das autoridades alimentares. Se é para o nosso bem, tudo bem. Somos até capazes de deixar de ter galheteiros com azeite marado. Se calhar o azeite até começa a ter alguma qualidade, num país que tão bom azeite produz. Eu sei tudo isso, mas, mesmo assim, não me conformo.

É que há tantos anos que eu me habituei a ter um utensílio daqueles à mesa. O galheteiro e a azeitoneira fazem parte da mesa tradicional.
E, depois, nos restaurantes, já era tradição pedir-se ao empregado “por favor, pode trazer-me um galheteiro que tenha azeite?” ou, aquele outro pedido também muito frequente “não se importa de me trazer outro galheteiro que este está todo besuntado?”

Não, não me conformo!

Todavia tenho alguma esperança. Quando se fala em galheteiros, está a pensar-se numa embalagem que tenha o conjunto do azeite, do vinagre, do sal e da pimenta. Ora, esta medida imposta por Bruxelas (sempre os eurocratas a quererem acabar com as nossas tradições, com a nossa cultura), embora determine a proibição dos galheteiros, o que na verdade proíbe é a utilização do galheteiro do azeite, não o do vinagre, ou o do sal ou o da pimenta.

Não estou é bem a ver como é que os nossos restaurantes vão resolver a situação. Será que continuam a apresentar os galheteiros tradicionais mas … coxos? De um lado o vinagre e do outro … nada? Também pode ser que se lembrem de mandar fazer novos galheteiros, adequados aos novos tempos. Aliás, no Rio de Janeiro, os restaurantes têm nas suas mesas, galheteiros com latinhas de azeite … português. Ora toma!

Mas se esta medida, em termos de saúde pública é bem-vinda, ela já não é tão saudada pelos industriais do azeite nem pelas associações de defesa do ambiente. Os primeiros, dizem não ter capacidade para desenvolver a curto prazo um novo tipo de embalagens para cumprir a lei. Os segundos, afirmam que as embalagens, por não serem bio degradáveis, vão constituir um grave problema ambiental .

Bem, já nos tiraram as colheres de pau, os barros e, agora os galheteiros. O que é que se seguirá?

terça-feira, janeiro 17, 2006

Proibido Morrer

Se, aquando da minha última visita ao Brasil, eu já tinha sentido uma grande vontade de ir viver para lá, pelo menos uma boa parte do ano, agora reforcei essa vontade ao ter conhecimento de uma notícia que veio a público nos últimos dias.

É que em Biritiva Mirim, uma cidadezinha do Estado de São Paulo, o Prefeito, o senhor Roberto Pereira da Silva, decidiu aprovar uma lei que proíbe os seus concidadãos de morrer. Isso mesmo, os habitantes de Biritiva Mirim estão expressamente proibidos de morrer, sob pena de serem severamente punidos.

Ainda não se sabe quais as sanções a aplicar aos que se atreverem a desrespeitar a lei, mas o prefeito está decidido a fazê-la cumprir, pelo menos até as autoridades estaduais arranjarem uma solução para resolver o problema do cemitério superlotado. Na verdade, não há qualquer lugar vago para albergar mais mortos. Daí …

Só que, cansado de tanto esperar e farto de se sujeitar a tal lei, o senhor Romeu Maria, de 86 anos, decidiu falecer. Decidiu e cumpriu.

Agora a sua família espera com ansiedade as sanções inerentes que, como se disse, ainda não foram determinadas.

Pelo menos parte da história tem um final feliz. É que uma outra família, condoída com a possibilidade do morto ficar eternamente em câmara ardente, por falta de uma outra morada, ofereceu um espaço da própria família para o senhor Romeu descansar, enfim, em paz.

Mas, leis são leis e são para respeitar. Escrupulosamente, digo eu. Por isso, como a Prefeitura de Biritiva Mirim proíbe os seus habitantes de morrerem, meus amigos, vou transferir-me de “armas e bagagens” para aquela cidade. E é já!

domingo, janeiro 15, 2006

Portugal vai ser campeão

Não sei qual vai ser o comportamento da selecção nacional de futebol no próximo mundial que se realiza este ano na Alemanha. Tenho esperança, no entanto, que possamos fazer uma boa campanha. Quanto a resultados, bem … prognósticos só no fim do campeonato.
Pressente-se, no entanto, que o Zé-povinho, depois do excelente 2º lugar do Europeu de 2004, está com um grande optimismo quanto à classificação e já se fala por aí em vitória.
Talvez a culpa até nem seja do “povão”, mas sim dos sinais que alguns agentes vão transmitindo, por exemplo, os manifestados por dois dos principais candidatos à Presidência da República.

Mário Soares diz que
ACREDITA em Portugal” e
o professor Aníbal afirma, com confiança,
Sei que Portugal pode vencer

Perante isto, o que dizer? Eu também começo a acreditar que Portugal pode ser o próximo campeão do mundo de futebol.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

A Noite de Passagem de Ano


Justificações para tamanha ausência – parte VII

A última razão que me levou a afastar do vosso convívio durante estes dias, tem a ver com a noite de fim de ano. É uma noite que, devo confessá-lo, sempre me deu alguma nostalgia e que, raramente, me entusiasmou.

Tal como nunca me encantou por aí além, a “obrigação” de, nessa noite em especial, ter que estar alegre, barulhento e sempre aos pulos. Se querem saber, acho mesmo que, na generalidade dos casos, se faz muito mais de conta do que, na verdade, se sente essa alegria.

Talvez tenha ver com a característica das pessoas, não sei. O que é verdade é que, ao longo dos anos, tenho observado que, durante a noite, todo o mundo se mantem numa calmaria incrível, comendo e bebendo até perto da meia-noite. Nessa altura, e de repente, dá uma agitação danada ao pessoal, que dura no máximo sete ou oito minutos (tal como no lusco fusco) e depois, tudo acaba de novo. Toda a gente regressa à pacatez da ceia, enfia mais uns copos e arrasta-se até às tantas.

Volto a dizer que talvez tenha a ver com a maneira de ser das pessoas, dos povos. Os espanhóis, por exemplo, não são como nós. Há uns anos fiz uma passagem de ano num hotel de Madrid e, essa sim, foi muito divertida. Desde que as pessoas chegaram para o jantar até ao romper da manhã foi uma animação enorme e constante. Nessa altura, senti que havia alegria verdadeira. Lá está, deve ser da maneira de ser deles. Temos que reconhecer que os “nossos hermanos” são muito mais alegres do que nós.

As passas e os correspondentes desejos para o ano que vai nascer são outra coisa que eu sinto que se faz mais por tradição do que propriamente por convicção. Tretas! Quando se chega à terceira ou quarta passa, já não se sabe muito bem o que pedir e volta tudo à estaca zero, mais saúde, mais dinheiro, mais saúde, mais saúde, mais dinheiro, e por aí fora. Penso até que, nesses momentos, a criatividade das pessoas se evapora de todo, talvez em consequência do álcool ingerido. Ou, quem sabe, por causa do fogo de artifício que é lançado precisamente à mesma hora em estamos justamente a pensar naquilo que gostaríamos que o ano novo nos trouxesse.

Eu ficaria mais assumidamente aconchegado se me quedasse pela tal pacatez da noite, beijasse e desejasse aos meus amigos e familiares mais à mão, muita saúde, sorte e dinheiro para gastos, porque isso já contem praticamente tudo aquilo que nós queremos, e, depois, me atirasse à minha champanheca e aos petiscos que estivessem à minha beira.

Mas, se todo aquele folclore, já faz parte da tradição, não sei porque não poderemos voltar a ter as outras tradições que há uns anos atrás, quando éramos um povo mais boçal e mais genuíno, faziam furor na noite da passagem de ano, que era atirar pelas janelas tudo o que de velho havia em casa. Tudo menos as sogras, naturalmente…

Mas para que não julguem que eu me furtei à tradição das passas, este ano preparei meticulosamente a lista dos meus desejos. Não vou revelá-los, como é óbvio, porque daria azar, mas direi apenas que consegui arranjar doze grandes desejos que começam pela saúde e pelo dinheiro e passam – eis uma ideia inovadora - pela vontade de mantermos este convívio através do blogue.
Dadas as justificações, desejo-vos

Bom Ano Novo!

quarta-feira, janeiro 11, 2006

O Meu Aniversário


Justificações para tamanha ausência – parte VI

A comemoração do meu dia de anos é, de facto, uma razão de peso para fazer uma paragem, não acham? Como, quantos anos fiz? Não, isso não digo, aliás, não se perguntam os anos a um senhor. Nem isso interessa. O que interessa é que em 28 de Dezembro foi o dia do meu aniversário e eu sempre gostei de comemorar esse dia.

Ao longo dos anos, comemorei-o sempre em casa dos meus pais, com festinhas que eles sempre fizeram questão de me proporcionar, desde pequenino até ao momento de sair de casa para casar. Depois as festas acabaram mas não acabou o meu gosto por festejar o aniversário. Sabendo embora, que todos os anos vou envelhecendo um pouco mais, mesmo assim, continuo a gostar muito de fazer anos, continuo a gostar muito que me dêem os parabéns (logo de manhã de preferência) e continuo, também, a gostar muito de receber prendas, se possível, no próprio dia do aniversário.

Há pessoas que não ligam muito ao seu dia de anos, mas não é o meu caso. Como perceberam, eu gosto mesmo. Talvez fosse natural que, com o tempo, pudesse, hoje, ter pena por já não ter as festas animadas e as mesas repletas de acepipes de outros tempos. Talvez pudesse estar um tanto ou quanto desinteressado porque já partiram muitos dos que me apaparicaram nesses dias. Talvez eu pudesse sentir-me, agora, um sobrevivente de mim mesmo. Mas não, com outras pessoas e noutro tempo, continuo hoje a gostar tanto de fazer anos como outrora e a não dispensar os presentes, o bolo do aniversário, o champanhe e as saúdes à minha saúde e aos que me estão mais próximos.

“Hoje já não faço anos. Duro” ... dizia um belíssimo poema de Álvaro de Campos.

Embora sem a beleza poética do Pessoa, eu comporia o texto de uma outra maneira:

“Hoje continuo a fazer anos. Porque continuo a viver ... e porque gosto”

Amanhã falaremos sobre a sétima razão.

terça-feira, janeiro 10, 2006

O Presépio e a Árvore de Natal

Justificações para tamanha ausência – parte V

A quinta razão para este intervalo teve a ver com o facto de eu necessitar de um pouco mais de tempo para tratar dos retoques finais do Presépio e da Árvore de Natal.
Devo confessar que, na minha infância, raramente se construía o Presépio a tempo e horas. Por vezes, o meu pai chegou a fazê-lo apenas no dia 5 de Janeiro, ou seja, um dia antes de terminarem as festas natalícias.
E isso afectou-me de tal maneira que, ao longo dos anos, tenho feito um esforço grande para tentar construir o conjunto Presépio/Árvore durante a primeira semana de Dezembro. Ainda hoje, com os filhos já adultos, procuro fazê-lo com a mesma veneração e carinho de sempre, a tempo de recebermos o Natal.

A palavra Presépio vem do hebraico e significa manjedoura, estábulo. Fazer o Presépio de Natal é uma tradição muito antiga e, ainda hoje, na maior parte dos países latinos, ele é mais importante do que a Árvore de Natal. Aliás, o presépio é talvez a mais antiga forma de caracterização do Natal.

Sobre o Presépio conta-nos uma lenda que à meia-noite da véspera de Natal, todas as abelhas que estavam a hibernar acordaram nos seus cortiços e começaram a zumbir em uníssono o Salmo 100. Ao mesmo tempo, as portas do Paraíso abriram-se durante alguns instantes e deixaram passar abençoados e pecadores para que pudessem entrar directamente no Céu.

A Árvore de Natal, apesar de ser hoje muito popular, não tem o mesmo significado que o presépio. Mas, na verdade, a árvore é também um símbolo que nos cativa e tem um lugar especial nos nossos corações.

Sobre a árvore de Natal existe, igualmente, uma lenda. Conta-se que um pobre lenhador encontrou uma criança perdida e esfomeada na véspera de Natal. Apesar de também ser muito pobre, o lenhador ofereceu-lhe comida e abrigo para essa noite. Ao acordar pela manhã, o homem deparou com uma magnífica árvore enfeitada de estrelas brilhantes à sua porta. A criança era, na realidade, o Menino Jesus, que erguera a árvore como forma de agradecimento pela generosidade do pobre lenhador.

Devo dizer, porém, que muito embora continue a ficar extasiado perante a árvore com todos os seus enfeites e luzes a brilhar, o que de facto me fascina é o conjunto Presépio/Árvore, que, no seu todo, constitui o verdadeiro símbolo do Natal.
Amanhã falaremos sobre a sexta razão.

O Pai Natal


Justificações para tamanha ausência – parte IV

É verdade, a quarta razão tem a ver com o Pai Natal, com essa figura mítica e pagã, criada a partir de São Nicolau, que nasceu por volta do ano 270 e a quem foram atribuídos milagres relacionados com as crianças.

Pois a aparição do velho senhor, que a lenda pôs a conduzir renas pelos céus e a descer pelas chaminés para deixar as prendas do Natal, veio a impor-se através dos anos, catapultado sobretudo por interesses comerciais (principalmente depois da Coca Cola o ter usado na publicidade) que foram tirando partido (e de que maneira) do seu aspecto simpático e bonacheirão.

Mas se é certo que hoje todos aceitam que o Pai Natal é o transportador das prendas natalícias por excelência, o facto é que, pelo menos para os mais velhos, com o protagonismo do Pai Natal foi-se muito do que considerávamos ser o “espírito do Natal”, aquele que era corporizado pelo Menino Jesus. Era o Jesus (e não o Pai Natal) que nos deixava as prendas nos sapatinhos que ficavam junto da chaminé ou na base da árvore de Natal.

Nesses tempos, sentia-se um misto de espiritualidade e de ingenuidade e a figura do Menino Jesus tinha um destaque único. Hoje a conversa é outra, perdeu-se a magia e reina a fúria do consumo sabiamente dirigida pela publicidade, que usa sem pudor e constantemente, a imagem do Pai Natal.

O tal espírito de Natal foi substituído por campanhas publicitárias vigorosas, divulgadas nas montras, em outdoors, nas televisões e na Internet.

Mas aquilo que, afinal, determinou a pausa no nosso encontro habitual foi, nem mais nem menos, o espanto que me levou a olhar, a olhar, a olhar, a olhaaaaaaaaaaaaaaaaar… para os muitos Pais Natal que se lembraram de escalar as paredes dos prédios deste país.

A loucura do “Pai-Natal Alpinista”, que contraria ideia feita do Pai Natal a descer pela chaminé, brotou com uma fúria tal que não haverá rua que se preze desse nome, que não tivesse pelo menos um Pai Natal pendurado na sua escada de corda. O que não consegui perceber é se a intenção dele era a de trepar pela escada e entrar pelas janelas ou, se pelo contrário, já tinha deixado as encomendas e já ia de saída. Bom, mas isso interessa pouco …

Amanhã falaremos sobre a quinta razão.

domingo, janeiro 08, 2006

As Prendas de Natal



Justificações para tamanha ausência – parte III

A terceira razão está associada à necessidade de ter tempo para pensar nas prendas que tínhamos que comprar para oferecer. Sim, porque é preciso ter disponibilidade mental e de tempo, para escolher aquilo que se vai dar a cada pessoa, tendo em conta, sobretudo, as características, os gostos e os hábitos de cada um, o que na generalidade dos casos, se torna numa missão ingrata e quase sempre impossível.

Também impossível é o cumprimento do orçamento previamente estabelecido. Não me lembro de, alguma vez, ter conseguido gastar apenas o que tinha programado. À semelhança das obras públicas em Portugal, os desvios orçamentais relativos ao previsto são sempre enormes, só que, neste caso, existe um rosto a quem se deve atribuir a culpa desse incumprimento e esse responsável sou eu, pelo que vou ter que arcar com esse prejuízo.

O que é facto é que nesta questão das compras, todos os anos se jura que no ano seguinte a coisa vai mudar, que vai haver mais racionalidade e que, por isso, se vai gastar muito menos dinheiro. A verdade é que todos admitem que esta onda consumista que nos envolve não pode continuar.

Fala-se da crise económica do país e das famílias mas parece que, afinal, todos conseguem sobreviver a ela.
Mas crise é crise e atinge toda a gente, pelo que, nesta fase de rescaldo das compras do Natal de 2005, já me estou a mentalizar que para o Natal de 2006 o que verdadeiramente vai contar é o estarmos todos juntos e em família. Quanto a lembranças … só simbólicas.

Aliás o professor Marcelo Rebelo de Sousa (de quem se pode dizer que não será tão afectado pela crise como à maioria da população) já começou a praticar essa racionalização e constitui um belíssimo exemplo do que acabo de referir. Segundo ele divulgou, neste Natal estabeleceu um limite máximo de 25 euros por prenda, à excepção das destinadas aos netos e à namorada.

Da mesma forma pensou Rafael Mora, o patrão da Heidrick & Struggles (a empresa de caça talentos) que considerou que as prendas que foram dadas ao seu filho Rafinha, de 18 meses, eram em número tão exagerado que decidiu oferecer esses brinquedos a crianças hospitalizadas na Maternidade Alfredo da Costa.

Dois bons exemplos que nos fazem reflectir.

Amanhã falaremos sobre a quarta razão.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Justificações para tamanha ausência – parte II - o Bolo-Rei


Falar sobre Bolo-Rei precisamente no dia de Reis vem mesmo a calhar.

Pois a segunda razão para a pausa, tem a ver, entre outras coisas, com o facto de ter tido necessidade de ter algum tempo para visitar as minhas recordações.

Ao que parece, o Bolo-Rei terá surgido em França, no tempo de Luís XIV, o Rei Sol. Em Portugal, o Bolo que tinha sido introduzido no final do século XIX, viu a sua existência ameaçada aquando da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, não por ser bolo mas, como é óbvio, por ser Rei em plena República. Contudo, os pasteleiros portugueses deram azo à sua imaginação e passaram a chamar ao Bolo, o “Bolo-Presidente” e o “Bolo Arriaga”, em homenagem (em bajulação, diria) ao primeiro Presidente da República, Manuel de Arriaga).

Sem querer entrar nos pormenores das receitas e dos seus ingredientes, gostaria, no entanto, de recordar que antigamente o Bolo-Rei trazia dentro da massa um brinde (que mais recentemente foi proibido por questões de segurança) e uma fava.

E é exactamente a fava escondida no Bolo que eu hoje quero recordar. Conta a lenda que os Reis Magos, seguindo a estrela que indicava o caminho para o Salvador, não conseguiam decidir quem seria o primeiro a entregar o ouro, o incenso e a mirra a Jesus.
Resolveram então mandar fazer um bolo e esconder no seu interior uma fava. O Rei Mago que tirasse a fatia com a fava seria o primeiro a entregar a prenda ao recém-nascido.

Isto é o que diz a lenda, mas lembro-me que sempre ouvi dizer que o próximo bolo-rei teria que ser comprado pela pessoa que tivesse tido a "sorte" de lhe ter saído a fava.

O meu avô paterno, a quem era atribuída alguma avareza, foi muitas vezes acusado de comer a fava do bolo para não ter que comprar o próximo. Nunca cheguei a saber se ele tinha a sorte de nunca lhe calhar a fava mas, dizia-se, que lhe tinham visto cometer tal “façanha” e, de facto, nunca o vi comprar um Bolo-Rei que fosse.

Contudo, o não querer ser o próximo “voluntário/à força” não era um atributo exclusivo do meu avô Mário. Há uns anos atrás, um responsável de um serviço onde eu trabalhava na altura, mandou confeccionar um enorme Bolo-Rei para oferecer à rapaziada. E foi com alguma surpresa que chegámos à conclusão que, apesar do tamanho, aquele Bolo não tinha uma só fava. Tínhamos, no entanto, concluído mal. O que se passou é que o Bolo tinha, não uma, mas 30 favas, tantas quantas as pessoas que participavam na festança. Só que, a maioria dessas pessoas tinha aprendido a “receita” do meu avô e, não fosse o diabo tecê-las, trataram de engolir as favas que iam aparecendo ou, em alguns casos, esconderam-nas cuidadosamente nas mãos e depois nos bolsos.

Foi, também, para eu ter tempo para reflectir sobre o que fazer com uma fava que me calhou no último Bolo-Rei que decidi fazer esta pausa.

Na próxima semana falaremos sobre a terceira razão.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Justificações para tamanha ausência – parte I – o Natal


Prometi voltar a 5 de Janeiro de 2006 e aqui estou. Neste início de ano, quero aproveitar para desejar um

FELIZ ANO NOVO!

Entretanto, algumas pessoas perguntaram que motivos de peso me levaram a estar ausente desde 22 de Dezembro do último ano até agora. Afinal, porque carga de água é que estive treze dias sem escrever, que razão ponderosa foi essa que justificou tal balda?
Os menos novos lembrar-se-ão de um cómico mexicano – Cantinflas (Mario Moreno), de seu nome – que fez muito sucesso na sua época e que é hoje um clássico do cinema. Pois ele, num dos seus filmes respondia a uma pergunta desta maneira: Eu vou fazer … por três razões. A primeira, a segunda e a terceira.
Respondo quase da mesma forma. Interrompi momentaneamente o nosso convívio por 7 razões. Só que eu, vou mesmo explicar quais foram essas razões.
E a primeira razão foi: o Natal

Com efeito, levei em consideração que as pessoas que habitualmente estão connosco, tinham muito mais coisas com que se preocupar nesta quadra de festas que atravessamos, do que propriamente andar com atenção ao que pudesse ser escrito neste espaço.
Por isso, decidi fazer um intervalo, exactamente para que todos nós pudéssemos andar tranquilos às compras (como se isso fosse possível) e, para que depois delas feitas (isto é, perto das dez da noite do dia 24 de Dezembro), tivéssemos então a disponibilidade necessária “àquela pausa” que o Natal requer.
Ao fim e ao cabo, muito embora a letra da canção do Paulo de Carvalho sugira que “Natal é sempre que um homem quiser”, a maioria das pessoas esquece-se disso no dia a dia, e só na época de Natal propriamente dita, nos sentimos mais disponíveis para os outros, mais solidários com o próximo, para com aqueles que estão mais carenciados do que nós, quer em termos económicos quer espirituais.

Na verdade, no Natal, e para além da fúria consumista que ataca em força (a uns mais do que a outros) e que nos leva a comprar desalmadamente o que queremos e o que não queremos, o que podemos e o que não podemos, sentimo-nos, de facto, com o espírito mais aberto e mais sensível.

Mas o Natal e a proximidade do fim de cada ano leva-nos, também, como que a fazer um balanço do que se passou nos últimos doze meses e a meditar um pouco mais sobre a vida e, mesmo, sobre a própria morte. Em regra, é quando dedicamos um pouco mais de tempo à recordação daqueles que já nos deixaram.

Dar, pois, a possibilidade de ter algum tempo para meditar e de estarmos mais próximos e solidários com os outros foi, fundamentalmente, a primeira razão para esta ausência.

Amanhã falaremos sobre a segunda razão.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

A maior árvore de Natal da Europa

Mais de dois milhões de luzes iluminam este ano a Praça do Comércio, em Lisboa, na maior árvore de Natal da Europa. Tem 72 metros de altura (o que corresponde a 23 andares) e uma estrutura de 170 toneladas de peso. A sua montagem envolveu 350 pessoas, ao longo de 44 dias consecutivos de trabalho.
Amigos, esta é

A MAIOR ÁRVORE DE NATAL DA EUROPA

Nós portugueses somos assim. Ou somos uns perfeitos incapazes, ou se fazemos alguma coisa de jeito, temos que ser sempre os melhores da Europa ou até do Mundo.

Ainda há dias, no Algarve, milhares de pessoas assistiram à confecção (e até o comeram) de um bolo-rei que era tão comprido, tão comprido, que se candidatou a entrar para o Guiness. A exemplo, de resto, do que aconteceu com a célebre feijoada que celebrou a inauguração da Ponte Vasco da Gama.

Assim somos. Na falta de outros motivos de orgulho vamo-nos deleitando com estes pequenos luxos de país de terceiro mundo *.

A todos, desejo

BOM NATAL

FESTAS FELIZES

e … cuidado com o excesso de doces e de álcool

BOM ANO DE 2006


* Atenção, eu não disse que éramos um país de 3º. Mundo. O que eu escrevi é que esses pequenos luxos eram de país de terceiro mundo. Entenderam?

Estarei de volta no dia 5 de Janeiro do próximo ano. Até lá!


terça-feira, dezembro 20, 2005

Diferentes maneiras de contar 5 minutos

De uma maneira geral é perigoso generalizar. Sobretudo se estamos a falar de pessoas. Há a consciência que as pessoas não são todas iguais, que têm diferentes formas de sentir e de exteriorizar as suas convicções e emoções.

Por isso, quando se fala de um determinado grupo profissional, corporativo, político, social, religioso ou o que seja, não devemos emitir uma opinião sobre ele, como se aquilo que dizemos sirva como uma luva a todas as pessoas desse grupo.

No entanto, machismos à parte e assumindo correr tal perigo, arrisco a dizer que é muito diferente a interpretação que homens e mulheres fazem de um mesmo período de tempo.

Enquanto que o homem está condenado a esperar três quartos de hora, pelo menos, que a mulher se acabe de arranjar, depois de ela lhe ter dito que em cinco minutos estaria pronta, a mesma mulher exige que os cinco minutos que o marido lhe disse que faltavam para terminar o jogo de futebol a que ele estava a assistir na televisão, sejam exacta e escrupulosamente cinco minutos e não seis ou dez.
Afinal, quem é que iria adivinhar que, no último minuto da partida, a equipa adversária ao empatar o jogo, levaria o seu clube a mais meia hora de prolongamento?

segunda-feira, dezembro 19, 2005

O adeus ao selo




A notícia apanhou-me completamente de surpresa e confesso que me deixou muito preocupado: o selo tem os seus dias contados.
Vamos deixar de poder colá-lo no canto superior direito das cartas.
Ao que parece, o selo está seriamente ameaçado, não só pelas novas tecnologias de comunicação, como pelas modernas máquinas de franquiar dos correios e das empresas, pelo que, a sua utilização, poderá resumir-se, em breve, a uma mera peça de colecção.

Os responsáveis dos correios dizem que, cada vez mais, as pessoas comunicam por SMS e por e-mail e não tanto por carta, aquela mesma carta que, ainda há poucos anos, constituía um meio de correspondência por excelência, sobretudo pela proximidade pessoal que transmitia.

Assim, a subsistência do nosso selo, parece resumir-se ao mercado filatélico, já que os coleccionadores continuam a reivindicar a sua emissão.

Mas, e eu? Como é que eu vou resistir a tamanha perda? Como vou aguentar o suplício de não poder saborear a cola que os selos têm? Um hábito que estava tão enraizado na maioria dos portugueses de há uns anos atrás, e que foi de resto transversal a várias gerações, que utilizaram sistematicamente a língua para lamber o verso do selo, na tentativa de conseguir alguma aderência ao papel da carta.

Mas preocupa-me, ainda, uma outra coisa. Com a diminuição da circulação das cartas, o governo poderá vir a entender que não valerá a pena manter o serviço tal como hoje o conhecemos (e, então, adeus carteiros deste país) e, assim, determinar que essas poucas cartas ainda sobreviventes, possam vir a ser transportadas pelos novos “funcionários”, pombo azul e/ou pombo verde, que substituirão os antigos correio azul e correio verde, respectivamente.

sábado, dezembro 17, 2005

Louçã desiste da corrida a Belém


Passadas poucas horas depois de, no “lado a lado” Soares/Louçã, transmitido pela SIC, Francisco Louçã ter respondido que se fosse eleito Presidente da República usaria gravata sempre que necessário, este candidato anunciou que se o governo não alterar imediatamente a política de financiamento da campanha eleitoral para a Presidência da República, o qual venha a contemplar um suplemento especial destinado à aquisição de gravatas,
ele desistirá da corrida a Belém, a favor do candidato do Partido Socialista Mário Soares.
O anúncio foi feito hoje de manhã, na sede de campanha de Francisco Louçã.
Em fundo podia ver-se um cartaz onde se lia
Olhos
nos olhos
Subsídio para gravatas

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Alentejanos

“O que é que os Alentejanos fazem ao fim de um dia de trabalho?Tiram as mãos dos bolsos”

Anedotas como esta sobre alentejanos, quando bem contadas e se usado convenientemente o característico e delicioso sotaque da região, fazem as delícias de qualquer encontro.

O pior é que, para além da graça das próprias anedotas, a maioria delas tem implícita a ideia de que os “compadres” são um tanto ou quanto lerdos e que gostam demasiado do descanso.

“Sabem porque é que os alentejanos são baixos?Porque quando são crianças, os pais dizem:- Come tudo filho, para quando fores grande ires trabalhar”

Estão a ver a ideia?

Claro que, quem gosta de contar este tipo de anedotas, jura a pés juntos que, no fundo, não pretende diminuir quem quer que seja, antes deseja manifestar o respeito, o apreço e o carinho que têm pelos alentejanos.

“Tá bem, dexa …”

Só que, e há sempre o reverso da medalha, quando são os próprios alentejanos a contar as anedotas, sabem-nas escolher, de modo a fazer realçar a sagacidade, a inteligência e a graça que são uma característica da sua personalidade.

“Por que é que o Alentejo é um deserto? É para que os camelos dos Lisboetas façam a travessia para o Algarve”

Toma e embrulha…

Mas, piadas à parte, penso que a maioria das pessoas tem um carinho muito especial pelos nossos amigos do Além Tejo.

Razão acrescida agora, de resto, para sentirmos especial carinho e admiração, uma vez que foi anunciado que a cidade de Évora, capital do Alto Alentejo, é uma das “smart communities” seleccionadas pelo Intelligent Community Fórum para a eleição das “Sete Cidades Inteligentes de 2006”. O galardão distingue as cidades com melhores modelos de banda larga e tecnologias de informação, que vão ser anunciadas em 17 de Janeiro em Honolulu (Hawai).

Grande motivo de orgulho para Évora, para o Alentejo e para Portugal. Só não sei se, a partir de agora, os alentejanos, com a alta estima ao rubro, não vão querer passar a chamar à sua região AquemTejo, em vez de Alentejo.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Ainda Sobre a Boa Educação

Os comentários que aqui foram feitos a propósito do texto “A Boa Educação Também se Aprende” levaram-me a considerar que faria todo o sentido voltar ao assunto. Aliás, não só os comentários mas, também, uma mensagem que um amigo me enviou pela net.

E começo exactamente por fazer referência a essa mensagem que, resumidamente, me questionava sobre se eu não estaria fora deste tempo. Por outras palavras, o meu amigo perguntava se, actualmente, ainda se justificará uma forma de tratamento como as que eu, no fundo, acabei por defender. E a minha resposta é, claramente, que continua a justificar.

Quanto aos comentários propriamente ditos, parece-me que dois deles estão em sintonia com o que escrevi, mas relativamente ao comentário subscrito pelo nosso companheiro MR, verifiquei que, aparentemente, tem uma opinião diferente da minha. E, porque este é um espaço plural, poderemos discutir livremente os argumentos de cada um.
Ao fim e ao cabo, sinto a necessidade de voltar ao tema porque, para mim, as formas de tratamento têm a ver com questões de princípio.

Antes, porém, gostaria de contar uma pequena história acontecida poucos anos depois da revolução de Abril de 74, numa época em que as mulheres davam passos decisivos para a sua emancipação na sociedade, embora com muitos erros de percurso à mistura e, quanto a mim - o principal – o de quererem afirmar à viva força, uma igualdade total e absoluta com os homens.
E a história é esta. Esperava um elevador e, quando chegou ao piso onde me encontrava, abri a porta e ofereci passagem à senhora que estava ao meu lado. A reacção dela não podia ser mais violenta e inesperada. Disse-me para passar primeiro porque ali, homens e mulheres, eram todos iguais. Lembro-me bem de que chegou a dizer “Dá-me passagem só porque sou uma mulher? Não, nós mulheres temos os mesmos direitos dos homens, você estava primeiro, logo, entra primeiro”.

O que aquela mulher não percebeu é que exactamente por sermos homens e mulheres somos diferentes. Não me refiro ao aspecto físico, naturalmente. Tão-pouco à questão dos direitos e deveres. Felizmente nessa matéria foram conseguidos resultados importantíssimos e decisivos para uma igualdade entre os sexos, muito embora, por enquanto, ela só se registe verdadeiramente ao nível da legislação.
Mas a verdade é que somos definitivamente diferentes. E é exactamente nessa diferença que se encaixam na perfeição as tais regras de cortesia e de amabilidade a que chamei regras de boa educação.

Por exemplo, regras como a de um homem abrir uma porta para deixar passar uma senhora, a de um homem subir ou descer uma escada à frente da senhora, a de o homem dar a parte de dentro do passeio a uma senhora, a de o homem abrir a porta do carro para a senhora entrar, a de o homem segurar/ajustar a cadeira para a senhora se sentar e, eu sei lá, tantas outras manifestações de cortesia, como … o tratamento por Srª. D. Maria João (ou, simplesmente, D. Maria João) mas nunca, e jamais, por senhora Maria João.

Reparem que eu estou apenas a dar exemplos de manifestações de cortesia na relação homem/mulher. Mas, algumas delas, e muitas mais, poderiam ser evocadas em outros tipos de relação, nomeadamente com as pessoas mais velhas.

Voltando, agora, ao comentário do MR, devo confessar que desconheço como e quando começou a forma de tratamento em apreço. Mas é legítimo pensar que o tratamento por dona é, em si mesmo, um tratamento respeitoso, provavelmente originado na monarquia, onde os nobres eram todos dons e donas e não consta que essas donas, assim fossem tratadas por serem donas de casa. Quanto à questão que levanta dos apelidos das senhoras, penso que actualmente ela já não se coloca. Como se sabe, hoje em dia há muitas mulheres que adoptam os nomes de família dos maridos mas, muitas outras, preferem manter os seus próprios nomes de solteiras.
Mas estou de acordo consigo, MR, quando diz que há gente de todas as idades que são muito mal-educados. É verdade que sim, infelizmente. E sou capaz de concordar também consigo (pelo menos em parte) quando refere que este tipo de tratamento não é uma questão de boa educação mas trata-se, isso sim, de uma convenção e que a boa educação vai para além das convenções. De facto, a boa educação vai para além de todas as convenções e, exactamente por isso, é necessário que se estimulem as pessoas a terem padrões de comportamento adequados à vida em sociedade, nomeadamente, a serem pessoas educadas e respeitosas. Por isso, quanto a esse tratamento não passar de uma mera convenção, não sei o que lhe diga. Há boas e más convenções e, se esta for boa, então, que se mantenha.

Mas, independentemente dos conceitos que cada um de nós tem sobre o que é, ou o que deve ser, a educação e para além do tema não se esgotar com os exemplos atrás referidos, atrevo-me a dizer, correndo o risco de me chamarem (pelo menos) “cota”, que apesar de poderem estar em desuso certas regras de delicadeza, elas continuam a ser apreciadas pela maioria das mulheres e, curiosamente, por muitas mulheres jovens.
O que acho é que muitos homens jovens ainda não perceberam isso …

terça-feira, dezembro 13, 2005

Gestor Poupadinho


Já aqui tenho escrito sobre alguns casos de má gestão das empresas públicas e de “aproveitamentos” dos dinheiros públicos por parte dos administradores dessas empresas.

E, “água mole em pedra dura …”, faz com que, por vezes, as críticas sejam ouvidas e se consigam resultados como aquele que agora nos chega do Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro.

O Conselho de Administração do Hospital, comprou 3 carros novos para os administradores que entraram recentemente em funções. O custo dos três carros foi de 72 mil euros, pelo que, em média, cada carro terá custado qualquer coisa como 24 mil euros o que, convenhamos, não é assim nada de especial.

Mas o que eu achei curioso nesta notícia, dada em tempo de contenção de despesas e provavelmente em nome da tão falada transparência das contas públicas, foi a explicação que o administrador do Hospital de Aveiro entendeu prestar aos contribuintes. É que o contrato dos gestores prevê a compra de um carro para cada administrador até ao montante de 35 mil euros. Como foram comprados três, a um preço unitário bastante mais baixo, conseguiu-se poupar 33 mil euros.

Muito bem, senhor gestor, o povo agradece …

segunda-feira, dezembro 12, 2005

O Verdadeiro Alegre?



"EU É QUE SOU O MANUEL ALEGRE"

Esta a declaração de Manuel João Vieira, vocalista dos grupos Ena Pá 2000 e Irmãos Catitas, aquando da apresentação da sua candidatura presidencial.

A frase caiu como uma verdadeira bomba e surpreendeu todos os presentes.
Afinal, ele, Manuel João, é que é o verdadeiro MANUEL ALEGRE.

Mas para quem tem acompanhado a carreira política, perdão, queria dizer a carreira artística de Manuel João ao longo dos últimos anos, sabe bem que a afirmação corresponde à verdade. Ele é, de facto, muito mais alegre que o outro Alegre, o político poeta.

E se ele se mostra tão credível como candidato à Presidência, também não temos motivos para duvidar que ele vai cumprir uma das suas promessas eleitorais, sempre reafirmada em todas as campanhas a que concorre.

“Quando tomar posse como Presidente da República, a minha primeira medida é demitir-me”.

domingo, dezembro 11, 2005

Contrastes




Apesar de estarmos a viver uma época de profunda crise económica e das grandes dificuldades sentidas pela população em geral, a campanha de recolha de alimentos promovida, há dias, pelo Banco Alimentar Contra a Fome conseguiu estimular milhares e milhares de cidadãos anónimos e de empresas e, o resultado de toda essa solidariedade, traduziu-se em mais de mil toneladas de alimentos, um aumento de quase 19% em relação à campanha de Dezembro do ano passado.
Estamos, pois, todos de parabéns por nos termos associado a uma causa tão nobre.

Mas, claro está, neste tipo de iniciativas, ninguém é obrigado a dar. Quem não acredita n
a causa, quem não tem possibilidades de ajudar ou, ainda, quem não ajuda porque, ela própria, também necessita de ajuda, não contribui. Pelo que, mais uma vez nesta campanha, deu quem quis ou quem poude.

No entanto, em três pequenas histórias a que eu assisti durante o fim de semana da recolha, vejam como a motivação das pessoas, para dar ou para não dar, pode ser tão diferente.


1ª. História

A manhã estava muito chuvosa e a convidar as pessoas a ficarem em casa. Uma senhora já bastante idosa, com dificuldade em andar e apoiada por duas canadianas, chegou junto dos voluntários e disse-lhes:
“Não precisava de nada do supermercado mas, porque pensei que outros necessitam de ajuda, vim de propósito para contribuir”
E, distribuindo um sorriso doce, dirigiu-se para o interior do super, andando vagarosamente, com evidente sacrifício físico.

2ª História

Numa das grandes superfícies da Grande Lisboa, encontrei um amigo que não via há muito. A conversa começou animada e tentámos pôr em dia tantos assuntos em atraso.
Antes da despedida, disse-lhe, meio a sério meio a brincar, para não se esquecer de entregar o saquinho à saída aos voluntários do Banco Alimentar.
O ar afável que o meu amigo ostentara até aí desapareceu e a postura tornou-se agressiva, provocadora até:
“Para esses gatunos não dou nem um grão de arroz”.
“Mas, porque é que dizes isso?...” perguntei,
“Porque mais de metade do que se dá, é vendido lá fora…”
Ainda tentei argumentar mas ele, decidido, exclamou:
“Não, já disse, são gatunos e por isso não levam nada”
E, voltando-me as costas, desapareceu a caminho das caixas.

3ª História

Um deputado da nação, por sinal um daqueles políticos que até são bem conhecidos do grande público, entrou no supermercado e foi abordado por dois jovens voluntários que tentaram entregar-lhe o saco do BA.
O senhor deputado passou por eles num rompante, não lhes prestou a menor atenção e nem sequer se dignou falar com os dois jovens, mesmo que fosse para lhes dar um não. E seguiu em frente sob o manto da sua “importância”.

Como disse, percebo perfeitamente quem não possa ou não queira contribuir, mas já não consigo admitir a arrogância e a má formação de algumas pessoas.

Como aconteceu com a triste figura que fez o meu amigo ao demonstrar, no mínimo, má informação e lamentável intolerância.
Como aconteceu com o senhor deputado, de postura altiva e arrogante, que ignorou aqueles jovens que estavam a colaborar voluntariamente, porque acreditavam que a sociedade pode ser melhor e mais solidária.

Perante histórias como estas, temos que insistir na informação. É absolutamente indispensável que se proceda a uma maior divulgação da obra do Banco Alimentar, de modo a que essa gente quando não tiver interesse em colaborar o faça, unicamente, por esse motivo e nunca por suspeição de que alguém se anda a aproveitar da generosidade de tantos.

A finalizar, um beijinho para aquela senhora idosa e anónima que foi, ela própria, um verdadeiro exemplo de solidariedade.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A Boa Educação Também se Aprende


Acreditem que se há coisas com que eu afino de verdade, é a de me tratarem por “Senhor Mário”. Sei lá, é uma coisa que me arrepia e quase me leva a responder “Olhe, senhor Mário era o seu …”

Talvez eu seja antiquado, não sei! O que sei é que, noutros tempos, se ensinava aos miúdos como se deviam tratar os adultos. Aos homens pelo apelido e às senhoras pelo primeiro nome, antecedido de senhora dona.
O senhor António Silva Borges era o Sr. Borges e, a esposa, Miquelina Antunes Horácio Borges era a Sr.ª D. Miquelina.
Este era o tratamento que estava incluído nas regras de boa educação que, como disse, se ensinava desde cedo.

Mudaram-se os tempos, foram-se perdendo certos valores e, entretanto, chegou-nos dos “states” um outro tipo de tratamento. Aliás dois, e que depressa se impuseram.

O primeiro deles, foi o de passar a haver uma certa liberalização, um certo intimismo no relacionamento que fez com que as pessoas se passassem a tratar apenas pelo primeiro nome. Era o António, o Mário, a Leopoldina.
No outro, que apareceu logo de seguida, as pessoas tratavam-se na mesma pelo primeiro nome mas, para lhe dar um pouco mais de formalismo, juntavam-se aos nomes próprios a indicação de senhor ou senhora, conforme os casos. Passaram, então, a ser o senhor António (ou, às vezes, o shôr António), o senhor Mário e a senhora Leopoldina.

E se
, com o primeiro, enfim, sobretudo entre colegas de trabalho a quem, no dia a dia, se dispensa uma formalidade por aí além, eu até estou de acordo, quanto ao segundo tipo de tratamento não posso estar mais em desacordo. Acho mesmo que, no mínimo, é um tratamento de mau gosto, mas é sobretudo, um tratamento de má educação.

E, na minha opinião, ele verifica-se não porque os costumes se alteraram, mas porque as pessoas que os utilizam não foram devidamente ensinadas ou, provavelmente, quem as ensinou também desconhecia essa forma básica de cortesia e de boa educação.

Ainda nos últimos dias tive a oportunidade de ser presenteado com as duas formas de tratamento. A primeira aconteceu na Caixa Geral de Depósitos, onde fui atendido por uma funcionária que aparentava estar na casa dos cinquenta anos. Tratou-me por Sr. XXX (apelido). A segunda, veio de uma diligente, simpática, bem-falante e educada empregada de uma loja de electrodomésticos que me tratou, do princípio ao fim, por sr. XXX (primeiro nome).
E se já disse que a simpática atendedora até era educada, porque razão não me tratou ela pelo apelido? Provavelmente porque nunca a ensinaram.

E este tipo de tratamento generalizou-se de tal forma pelo comércio em geral, pelos centros de atendimento das empresas (João Paulo, eu sei que são mais conhecidos por “call centers”), por tudo quanto é sítio, que eu tenho receio que seja assimilado rapidamente por todos. Se é que o não foi já!

Mudam-se os tempos mas será que se mudaram as regras de educação?

domingo, dezembro 04, 2005

Até quando?

Não paro de me interrogar. Os dias vão passando, já lá vão oito meses desde que tomou posse e, todas as semanas são anunciadas novas medidas que vêm mexer em interesses instalados há muito. Até quando, Engenheiro Sócrates, vai aguentar todas as pressões que lhe são dirigidas de todos os quadrantes, sem que se deixe desfalecer?
A agitação social está ao rubro. Pudera, o que me admiraria é que estando a pôr em causa tantos privilégios, esses senhores não começassem a fazer uma guerra dos diabos.

Mas, Engº. Sócrates, o senhor foi mais papista que o Papa. Então deu-lhe para questionar uma data de coisas em meia dúzia de meses, coisas essas que os sucessivos governos (incluindo os do seu próprio partido) desde há trinta anos nunca quiseram pegar, nem ao de leve que fosse?
Aliás, eu acho que não lhe fez nada bem ter ouvido o Major Valentim Loureiro afirmar que o senhor era um homem de coragem. É que, notou-se, encheu-se de brios e vá de querer imitar o major-valentão a saltar para a praça pública e a disparar em todas as direcções : “quantos são, quantos são?”.

Começou logo no discurso de posse quando desafiou o lobby das farmácias - sector intocável! - e jurou que os medicamentos sem prescrição médica iriam ser vendidos noutros locais. Não terá começado mal?

A partir daí tem sido um nunca mais acabar. Enfrentou as polícias, as magistraturas, os professores, a administração pública, os laboratórios farmacêuticos, as moageiras, os sindicatos e, máximo dos máximos, teve a ousadia de mandar investigar instituições financeiras suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Mais, acabou com os dois meses de férias dos tribunais, aumentou a idade de reforma, terminou com muitos dos privilégios dos políticos e, pela primeira vez em tantos anos, sente-se uma vontade determinada em atacar a corrupção.

Mais ainda, tem posto cobro a múltiplas situações inacreditáveis de clientelismo e fraude nas empresas públicas e sabe-se que a Autoridade da Concorrência está de olho em muitas empresas e sectores, para pôr cobro aos cartéis existentes.

E, agora, até quer mandar retirar os crucifixos das escolas? Das mesmas escolas que acolhem muitas crianças dos mais diversos credos. Das mesmas escolas que são do Estado, do mesmo Estado que até é laico?

E já não quero falar das montanhas de problemas que lhe caíram em cima com projectos tão polémicos como os da Ota e do TGV.

Em muito pouco tempo o governo, que o senhor dirige, incomodou os mais poderosos sectores da sociedade. Por acaso pensou que muitos desses interesses instalados contavam que se eternizassem a incompetência e a desonestidade dos múltiplos governantes que por aí passaram?
Já viu como poderia andar descansado a esta hora se embarcasse na inércia em que o país mergulhou há muitos anos?

É preciso coragem para tão grande empreitada. Os portugueses já quase não acreditavam que um dia ainda iriam ter um governo sério, que quisesse mesmo resolver os problemas do país. A desilusão estava instalada.

E é por isso, por essa coragem, pela honestidade e pela determinação em querer fazer de Portugal um país, que lhe pergunto, com toda a admiração:
Até quando vai conseguir aguentar, Sr. Engº. José Sócrates?

terça-feira, novembro 29, 2005

A Idade dos Porquês

A brasileira Adriana Calcanhoto tem no seu reportório um poema intitulado “oito anos”. A canção é muito engraçada e os versos retratam bem a curiosidade própria dos miúdos dessa idade.

Quem tem ou já teve crianças nessas idades, sabe que eles tudo questionam e a toda a hora, e sabe bem como é difícil dar resposta à maioria das perguntas, pelo menos respostas coerentes e que façam algum sentido.

Por vezes, os miúdos lembram-se de perguntar as coisas mais estranhas (ou mais simples), deixando os adultos embaraçados, quantas vezes confusos, e porque se calhar nunca tinham pensado naquelas questões, acabam por responder com um “Não sei”, quando muito com um “Sei lá”.

Vejam só, e digam-me se tenho razão:

“Porquê você é Flamengo e meu pai Botafogo?
O que significa impávido colosso?
Porquê os ossos doem enquanto a gente dorme?
Porquê os dentes caem?
Por onde os filhos saem?

Porquê os dedos murcham, quando estou no banho?
Porquê as ruas enchem, quando está chovendo?
Quanto é mil trilhões vezes infinito?
Quem é Jesus Cristo?
Onde estão meus primos?

Porquê o fogo queima?
Porquê a lua é branca?
Porquê a terra roda?
Porquê deitar agora?
Porquê as cobras matam?
Porquê o vidro embassa?
Porquê você se pinta?
Porquê o tempo passa?

Porque é que a gente espirra?
Porque é que as unhas crescem?
Porque é que o sangue corre?
Porque é que a gente morre?

Do que é feita a nuvem?
Do que é feita a neve?
Como é que se escreve reveillon”

Quando ouço a Adriana cantar imagino as crianças a fazer perguntas. E, tal como elas, ponho-me a pensar “Porque é que as unhas crescem?” E, tal como elas, também me dá vontade de perguntar:

“Porque é tão grande o fosso entre ricos e pobres?
Porque é que, às vezes, o amor dói?
Porque é que não valorizamos o que temos?
Porque é que a gente mal nasce começa a morrer?
Porque é que depois de chegar, temos que partir?
Porque é que os jogadores de futebol cospem tanto?
Porquê não dizemos amo a quem gostamos?
Porquê o tempo passa?”

domingo, novembro 27, 2005

Licenciados e desemprego

Na última semana os jornais noticiaram que o desemprego em Portugal atingiu em Setembro último, o nível mais alto desde 1998, chegando aos 7,7% e afectando qualquer coisa como 430 mil portugueses.
Segundo alguns especialistas, o aumento do desemprego era inevitável. Talvez pela conjuntura internacional, talvez por culpa da globalização, talvez pela incapacidade dos sucessivos governos em desenhar planos de desenvolvimento que pudessem inverter a situação. E será que, também, por falta de formação?
Acredito que todas essas hipóteses tenham contribuído para o descalabro que se afigura muito preocupante mas, relativamente à educação, é bom dizer que Portugal tem sido dos países onde mais se investe na educação em termos de PIB, nomeadamente no ensino superior. Então, se é gasto tanto dinheiro na educação e se, cada vez mais, saem tantos licenciados das universidades, porque é que se continua a falar tanto na falta de preparação dos portugueses e porque é que uma boa percentagem desses desempregados é ocupada exactamente por licenciados?

Bem, eu tenho uma teoria sobre o assunto. É que, para mim, no actual sistema educativo, ser licenciado não representa um atestado de competência, mas uma mera credencial em como um indivíduo frequentou o ensino durante uns quantos anos e cumpriu certas formalidades legais. Ou, como dizia o Professor Adriano Moreira nas suas aulas: “a licenciatura é apenas a licença para aprender”.

Na verdade, os jovens de hoje, do ponto de vista da sua preparação académica, são claramente mais credenciados do que eram os jovens de gerações anteriores. No entanto, regista-se uma grande discrepância entre as competências transmitidas pelas escolas e universidades e aquilo que é exigido pelas empresas. Isto porque o sistema não consegue ajustar os programas escolares às exigências do mercado de trabalho e da sociedade.

Em Portugal o Estado não impõe uma "educação obrigatória" mas uma escolaridade obrigatória, que é uma coisa bem diferente.
O que o Estado certifica é que um jovem cumpriu um determinado número de anos de escolaridade e não que ele possui um certo número de competências relevantes. Este sistema não produz competências, produz formalidades. E, claro está, que os empregadores não estão mesmo nada interessados em pagar um salário a quem provou ter frequentado a escola durante uns anos. O que os empregadores procuram são competências, ou seja, dito de outro modo, querem quem esteja preparado para trabalhar.

Da mesma forma no ensino superior, aquilo que o Estado atesta a um jovem recém-licenciado é que ele possui uma licenciatura, isto é, que ele cumpriu um certo número de formalidades, tais como ter uma escolaridade de quatro ou cinco anos numa universidade oficialmente reconhecida, durante umas tantas semanas por ano, com tantas horas por semana, que frequentou um certo programa de cadeiras numa certa área do saber.

Quanto aos programas e quanto às cadeiras neles incluídos, muito haveria certamente para dizer e, se calhar, para dizer mal. Ou, pelo menos, para colocar muitas dúvidas quanto ao interesse real de algumas das matérias que fazem parte dos programas dos cursos do ensino superior.
Mas, enfim, estamos a falar dos cursos que temos e, o certo é que todos esses programas e cadeiras são aprovados por um Ministério, dito da Educação, e avalizados por uns senhores professores, que nunca serão avaliados pelo seu "julgamento", ainda que possa não ter sido o melhor. Afinal, professores/burocratas que possuem uma visão tremendamente estática da vida e da sociedade, do mundo real, enfim.

Resumindo, ter uma licenciatura não é sinónimo de ter competência, por muito que isto custe a muitos licenciados. Ter licenciatura, do meu ponto de vista, para além do cartão de visita que isso representa, é possuir uma ferramenta que poderá proporcionar uma melhor compreensão e um melhor aproveitamento das tarefas que o licenciado vai ter que executar no futuro.
Daí que, muitos dos licenciados, só venham a ser competentes depois de algum tempo de trabalho. Não, apenas, por terem um curso, mas porque - com a ajuda desse curso e com as suas capacidades próprias - se tornaram realmente competentes.

E o que é que pensarão os empregadores? Que lhes basta terem um candidato com um curso superior, uma ou duas pós-graduações, um mestrado, talvez até um doutoramento? Afinal, isso prova o quê? Que o candidato ao emprego é muito bom e que vai ser uma mais valia para a empresa? Não, para os empregadores o que todas aquelas certificações provam não é que o candidato sabe trabalhar de facto, mas que, tão simplesmente, teve jeito para estudar.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Bocas …

1 -
Título de primeira página do Jornal de Notícias de há uns dias
TGV de Lisboa a Madrid e Porto com atraso de quatro anos
Isto só em Portugal! Como é possível que um comboio, ainda por cima de alta velocidade, se atrase tanto mesmo antes de ser construído?

2
Notícia de última hora
Um dos nossos deputados contraiu gripe das aves. De acordo com os procedimentos universalmente aceites, vai ter que se abater todo o bando!

quarta-feira, novembro 23, 2005

Manhã de Outono


A manhã de Outono estava soalheira e amena, muito embora o vento suave fizesse lembrar que o Inverno se aproximava. E, não fora o trânsito intenso que passava sem cessar, quase se podia dizer que aquela era uma bela manhã.
As árvores centenárias que ladeavam a rua comprida, iam-se despindo lentamente de folhas que caíam nos passeios, formando pequenos tufos verde/amarelados.

Enquanto contemplava aquela beleza bucólica, um varredor ia apanhando as folhas do chão e deitava-as no seu carrinho de lixo. Vagarosamente repetia os gestos que prometiam eternizar-se.

O varredor avançava ao longo da rua e as folhas continuavam a cair. E, uma a uma, voltavam a tecer tapetes na calçada.

É ingrato o trabalho dos varredores nesta época, não acham?

terça-feira, novembro 22, 2005

“Milagres”

Ainda mal tinha completado o texto publicado ontem, em que falava sobre o Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa e fui surpreendido por um artigo publicado no Expresso de sábado passado, intitulado “O Milagre das Peras”.

Já toda a gente ouviu falar no “Milagre das Rosas” ou no “Milagre da Multiplicação dos Pães” mas no “Milagre das Peras”, que milagre é esse que nunca ninguém ouviu falar?
Muito simplesmente o milagre de se poder transformar 275 toneladas de peras em vias de se estragarem, em compotas para serem distribuídas a famílias carenciadas pelo Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa (BACF).
A coisa parece fácil mas, todos sabemos, que não é tão simples assim. Eu diria mesmo que só a forte e determinada iniciativa da presidente do BACFL e da Federação dos Bancos Alimentares contra a Fome, Isabel Jonet, foi essencial para que o milagre acontecesse.
E a receita utilizada para se fazer esta compota “resumiu-se” a estes ingrediente: as peras foram cedidas pelo INGA, a DAI cedeu parte do açúcar, a Calimenta procedeu à transformação, a Sotancro ofereceu os frascos e a Luís Simões assegurou o transporte. Simples, não acham?
Donde, graças à iniciativa da Isabel Jonet e das diversas boas vontades referidas, desta milagrosa receita resultaram 188 mil frascos que encheram 95 paletes de compota.

E agora, uma vez apanhado o jeito, os milagres não vão ficar por aqui. Há outras ideias do género que já estão a andar, nomeadamente o “milagre do tomate” e o “milagre do peixe”.
No primeiro caso, o BACF conta com a ajuda da Compal (para a transformação) e da Tetra Park (para as embalagens) para transformar 120 toneladas de tomate fresco em 50 toneladas de polpa de tomate.
Quanto ao projecto do peixe, a Federação dos Bancos Alimentares contra a Fome juntamente com o BACF de Setúbal, com a colaboração da Doca Pesca e com a adesão entusiástica dos pescadores, vai congelar 3800 toneladas de peixe que iria ser “devolvido ao mar”. Com este peixe é possível alimentar 100 mil pessoas, com 200 gramas de peixe, todos os dias do ano.

Pois é, ficamos de rastos quando ouvimos falar na forma como se pode evitar o desperdício. E há tanto desperdício por aí.

De uma maneira geral os “milagres” não se questionam, é uma questão de fé.

Mas há milagres que têm que ser ajudados ... perceberam? Volto a lembrar que se realiza já no próximo fim-de-semana, dias 26 e 27 de Novembro a recolha de alimentos do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa. Colaborem.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Dar sim, mas …

Todos nós somos abordados constantemente por alegados membros de “associações de protecção a qualquer coisa”, de “ligas nacionais e humanitárias de …”, de “bombeiros voluntários de…”, de “organizações a favor de…”, enfim, das mais diversas áreas de assistência e solidariedade para pedir a nossa ajuda para uma determinada causa, seja em dinheiro, em géneros ou na compra de um qualquer objecto ou coisa.
E, muito embora, muitas dessas instituições sejam reconhecidamente da mais absoluta confiança, o facto é que, de forma quase inconsciente, muitas vezes somos levados a pensar se o nosso contributo se destina efectivamente à organização que o solicita ou se, pelo contrário, vai reverter para outros fins não identificados, nomeadamente para o proveito de trapaceiros que se sustentam à custa da boa fé das pessoas.
Não duvido que, na maioria dos casos, as razões invocadas sejam as mais justas e as mais credíveis mas, o assalto continuado ao comum do cidadão, começa a ser um exagero.
Ainda há dias num semáforo, uma Corporação de Bombeiros Voluntários não sei das quantas (ainda por cima de uma terra que fica a mais de 50 km da capital) me pediu para os ajudar. Depois, quando cheguei ao supermercado, pediram-me para comprar um boneco a favor de uma instituição de assistência social. Ao sair, junto ao parque de estacionamento, pediram-me uma contribuição para a luta contra já não sei o quê.
Tudo isto, quase no mesmo sítio e num curtíssimo espaço de tempo.
Naquele momento, juro que cheguei a pensar que se a pedinchice continuasse àquele ritmo, não me restaria outra hipótese do que montar a minha própria banca para promover uma recolha de fundos a favor de … mim.
Mas a verdadeira questão é esta. É que, para além do facto dos portugueses não terem – ainda que o quisessem – a possibilidade de contribuir para todas as causas que consideram justas, existe um outro problema. Na maioria dos casos não se conhecem essas instituições nem fazemos ideia da sua obra.

Essa questão não se coloca relativamente à instituição de que vos vou falar hoje – O Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa. Uma instituição reconhecida como “Instituição de Superior Interesse Social”.
Trata-se de uma organização bem estruturada e da máxima confiança, que luta contra o desperdício alimentar para minorar as carências alimentares de pessoas comprovadamente necessitadas.
Com a colaboração de uma lista numerosa de empresas doadoras de produtos e de serviços, com a generosidade de muitos particulares e com a dedicação de um grupo de voluntários e funcionários, o Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa (BACF) recebe os alimentos dos doadores e distribui-os às Instituições Beneficiárias.
E para que tenham uma ideia da dimensão da acção do BACF de Lisboa, referirei que em 2004 foram recolhidos 6.750.249.71 de quilos de produtos, os quais foram distribuídos por 258 Instituições, envolvendo um total de 54.210 pessoas assistidas. Tudo isto com instituições que mantêm um acordo com o BACF.
Relativamente às instituições que ainda se encontram em lista de espera, o BACF não as esqueceu e, mesmo a essas, entregou 309 toneladas de alimentos. É obra!
Mas para responder àquela dúvida que se coloca, tantas vezes, a quem dá - se os alimentos vão mesmo parar às pessoas que precisam - direi o seguinte:
O BACF acompanha em permanência as diversas instituições de solidariedade social com três objectivos principais:
- assegurar que os produtos sejam efectivamente entregues a quem deles necessita;
- evitar os desperdícios;
- e, naturalmente, inviabilizar as utilizações indevidas.
Deste modo o BACF recebe os alimentos dos doadores, distribui-os e assegura-se que eles chegam ao seu verdadeiro destino, ou seja, às pessoas carenciadas.
E, se alguma vez, se detecta algum procedimento inadequado por parte de alguém de qualquer Instituição, o BACF suspende imediatamente o fornecimento de alimentos.
Por tudo isto, o BACF é uma organização que merece toda a nossa confiança.

Porém, o Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa só pode dar aquilo que recebe. E recebe durante todo o ano das empresas doadoras a maior parte dos alimentos que redistribui, quer ao nível dos chamados produtos frescos, quer dos não perecíveis.
A restante ajuda chega através das doações efectuadas pelos particulares – por nós consumidores – nas duas recolhas em Abril e em Novembro de cada ano – efectuadas em diversos supermercados e hipermercados da zona de Lisboa.
E é muito reconfortante constatar que, nestas recolhas anuais, as pessoas, apesar das dificuldades sentidas, estão de ano para ano mais participativas e mais solidárias. Sente-se que existe a consciência de que “Há quem viva muito pior do que nós”

Dito isto, quero convidar-vos a participar na próxima recolha de alimentos que se realizará nos próximos dias 26 e 27 de Novembro – portanto, já no próximo fim-de-semana.
Vamos estar juntos por uma boa causa. Tenho a certeza que se vão sentir muito mais felizes por estarem envolvidos neste grande movimento de ajudar a quem necessita mais.

domingo, novembro 20, 2005

As ruas do nosso Estado (ou estado das nossas ruas)

Com excepção do fatídico momento em que um dos pneus do nosso carro cai redondamente num buraco, já se deram bem conta do estado miserável em que se encontram os pavimentos da generalidade das nossas ruas?

São ruas cheias de buracos e com falta de alcatrão. São ruas com rasgões profundos provocados por obras diversas, que as atravessam em toda a sua largura e que, ainda por cima, estão todos muito mal remendados. São ruas com alcatrão a transbordar sobre os passeios ou, não caso raro, com os lancis demasiados altos e sobranceiros ao alcatrão. São ruas feitas de paralelepípedos, a maior parte das vezes impróprias para a circulação automóvel.
São, enfim, as ruas onde nunca encontramos a conjugação perfeita, a harmonia desejável entre os pavimentos e as diversas caixas de esgotos, de electricidade, dos telefones ou do que quer que seja. Ou as caixas estão mais altas do que os pavimentos ou estes estão acima das caixas. Nunca quem efectua estes trabalhos, consegue colocar os dois ao memo plano.

E quem é que são os verdadeiros prejudicados com esta situação? Para já, os próprios carros que ficam cheios de ruídos, com direcções desalinhadas, que ficam com os tampões amolgados, ou sem eles, que batem após os despistes provocados por alguns buracos mais manhosos. Depois, são prejudicados os proprietários dos carros que têm que pagar chorudas contas das oficinas.

É que, cá pelo burgo, esventrar as ruas para os mais diversos trabalhos é um acto rotineiro. O que já é raro, é ver fechar as mesmas ruas duma forma correcta, ou seja, proceder à sua repavimentação e não, tão-somente remendá-las, como, isso sim, parece ser rotineiro.

Mas a rapaziada já se habituou de tal forma a este estado de coisas que, no dia a dia, limitamo-nos a resmungar e pronto, no fundo já não damos muita importância ao assunto. E só reagimos quando, um dia (quase sempre de noite e com chuva) o nosso querido carrinho se lembra de cair redondamente num buraco.

quinta-feira, novembro 17, 2005

A Bandeira do Santana, uma vez mais

Sem que seja necessário tirar uma vírgula ao que escrevi em 19 de Setembro sobre a bandeira portuguesa, “plantada” por Santana Lopes no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, terei forçosamente de acrescentar mais alguma coisa à história, que só agora veio a público, para a completar … por agora.

E esse aditamento tem a ver com a visita que um miúdo, o Tomás Carvalho, de nove anos, efectuou a Madrid com os pais e com a forma com que ele ficou impressionado perante a grandeza da bandeira de Espanha, erguida na Plaza Colón.
No regresso, decidiu escrever uma carta ao Presidente da República a sugerir que fosse colocada uma bandeira de Portugal na cidade de Lisboa. Jorge Sampaio respondeu a Tomás Carvalho, agradecendo a sugestão e dizendo que ia pôr a ideia à consideração do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Bem, o resto já se sabe. O Presidente da Autarquia (não sei se foi Santana ou Carmona) concordou com a sugestão do Tomás e a nossa bandeira (inaugurada por Santana Lopes, aí não restam dúvidas) lá está, garbosa e a ondular ao vento.

quarta-feira, novembro 16, 2005

O seu a seu dono

Antes de mais, e para que não subsistam dúvidas quanto à isenção das minhas opiniões, devo dizer que não tenho uma simpatia por aí além pela Teresa Ricou, a conhecida “mulher-palhaço”.
E se me perguntarem porque razão é que eu não simpatizo com a senhora (que até nem conheço, a não ser dos meios de comunicação social), digo-vos com toda a franqueza que não faço a mínima ideia. Deve ser uma questão de pele ou, talvez, por ser uma mulher palhaço, que é uma actividade pela qual eu tenho o maior respeito mas com que nunca tive uma grande afinidade.
Declarado o princípio, há que dizer que trabalho é trabalho e conhaque é conhaque, pelo que, muito embora eu não simpatize com a Teresa Ricou não significa isso que não lhe reconheça um enorme mérito no trabalho que vem desenvolvendo há anos.
Na verdade, esse trabalho da mulher-palhaço não é muito conhecido. Ou antes, quando se ouve falar na Teresa Ricou e no seu Chapitô, pensa-se, de uma forma geral, numa escola de arte, vocacionada sobretudo para o circo, mas essa ideia representa uma parte muito limitada da actividade daquela escola.
A escola artística “O Chapitô” é, de facto, uma escola de arte mas é, também, um local que desenvolve há 25 anos em Lisboa, um trabalho de Acção Social destinado a integrar na sociedade as crianças e os jovens em situação de risco, através de actividades artísticas.
Mais, o Chapitô (onde já trabalham 120 pessoas) é uma associação privada sem fins lucrativos, criada em 1981, que presta um serviço cultural, social e educativo, ao cruzar o ensino e o divertimento com a intervenção social, através das artes e do espectáculo.
Também na área da Acção Social, o Chapitô está actualmente a construir uma residência aberta para jovens maiores de idade e que vivem em situações de risco.
Assim, e pelo conjunto da sua obra, a escola artística Chapitô, na pessoa da sua fundadora, recebeu recentemente no Parlamento Europeu em Bruxelas, o prémio europeu "Rosa de Prata", atribuído anualmente pela organização não-governamental Solidar, como reconhecimento pelo seu serviço na área social. Os prémios "Rosa de Prata", destinam-se a reconhecer pessoas ou organizações que trabalhem junto da sociedade civil para criar um mundo mais justo.

E justo, é exactamente a palavra adequada para definir o meu sentimento quanto à atribuição deste galardão. Em Portugal, onde o Estado não consegue dar resposta a muitas das carências mais básicas de tantas e tantas pessoas, o papel das instituições não-governamentais é absolutamente fundamental no apoio da população mais fragilizada. Instituições como é o caso do Chapitô.

Parabéns, pois, à Teresa Ricou pela sua obra em prol das crianças e dos jovens em situação de risco.
Pode-se simpatizar, ou não, com a Teresa mas temos que reconhecer que é uma mulher notável. O seu a seu dono.

terça-feira, novembro 15, 2005

Mais um caso …

No parque industrial português existe uma empresa pública chamada Urbindústria que tem apenas 3 funcionários e uma actividade muito pouco significativa. Tão pouco significativa que, segundo a lei, faz parte das empresas públicas classificadas no Tipo C.
Para além dos tais 3 empregados, a empresa tem 2 administradores. Como se trata de uma empresa do Tipo C, esses administradores deveriam ganhar, naturalmente, como administradores de empresas do Tipo C. E ganham? Não, eles ganham como administradores de empresas do Tipo A. O seu presidente (Hermínio Carreira) recebe 4.753 euros por mês, acrescido de 1.663 euros de despesas de representação e a vogal (Ivone Ferreira) recebe 4.204 euros mensais mais 1.621 euros de despesas de representação. Isto, para além de carros da empresa para uso pessoal, cartão de crédito sabe-se lá de quanto e PPR’s de valor não revelado.
Mas, para que a tão grande azáfama de gerir uma empresa com tantos empregados (3) e de uma tamanha actividade (muito reduzida) tivesse uma retribuição que, minimamente, fosse compensadora, o Estado decidiu atribuir um suplemento de 844 euros mensais aos dois elementos do Conselho de Administração da Urbindústria. E porquê? Porque eles são, também, administradores da Siderurgia Nacional – Empresa de Serviços SA (SNES), uma empresa que até 2001 esteve integrada no grupo das maiores empresas públicas mas que, agora, está ao mesmíssimo nível da Urbindústria. Isto é, quase não tem actividade.

Portanto, o Sr. Presidente e a Srª. Vogal por tão árdua tarefa de gerir uma empresa praticamente paralisada e que não suporta sequer os custos de funcionamento (tal como a SNES), recebem 14 vezes no ano pequenos salários mensais de 7.260 euros e 6.309 euros, respectivamente.

Ainda por cima, e apesar da Urbindústria ter terminado o ano de 2004 com um resultado negativo, cujo défice foi duas vezes superior ao do ano anterior, o Sr. Hermínio e a D. Ivone tiveram ainda direito a um prémio de gestão (que premiou os magníficos resultados obtidos, já se vê) de 15 mil euros e de 13.500 euros.

Mais um caso de empresas públicas em que o dinheiro dos contribuintes está a ser desbaratado. É demais!

segunda-feira, novembro 14, 2005

Ode ao futebol

Confesso que a minha “cultura futebolística” não passa lá muito pela leitura dos jornais desportivos. Raramente os leio. Por sorte, num dos últimos dias, ao folhear o Jornal Record, dei de caras, num espaço de opinião assinado pelo Jorge Gabriel, com um poema que tentava encontrar há anos.

Trata-se da “Ode ao futebol”, escrita pelo poeta Tossan e que, um dia, tive a felicidade de ouvir dizer - pelo próprio poeta - no saudoso programa televisivo “Zip-Zip”, do Carlos Cruz, Raul Solnado e Fialho Gouveia.

Acho o poema muito bem escrito e divertido. Por isso o transcrevo, esperando que os meus amigos – mesmo os que não gostam de futebol – o apreciem devidamente:

“Rectângulo verde, meio de sombra meio de sol
Vinte e dois em cuecas jogando futebol
Correndo, saltando, ziguezagueando ao som dum apito
Um homem magrito, também em cuecas
E mais dois carecas com uma bandeira
De cá para lá, de lá para cá
Bola ao centro, bola fora.
Fora o árbitro!
E a multidão, lá do peão
Gritava, berrava, gesticulava
E a bola coitada, rolava no verde
Rolava no pé, de cabeça em cabeça
A bola não perde, um minuto sequer
Zumbindo no ar como um besoiro,
Toda redonda, toda bonita
Vestida de coiro.
O árbitro corre, o árbitro apita
O público grita
Gooooolllllooooo!
Bola nas redes
Laranjadas, pirolitos,
Asneiras, palavrões
Damas frenéticas, gordas esqueléticas
esganiçadas aos gritos.
Todos à uma, todos ao um
Ao árbitro roubam o apito
Entra a guarda, entra a polícia
Os cavalos a correr, os senhores a esconder
Uma cabeça aqui, um pé acolá
Ancas, coxas, pernas, pé,
Cabeças no chão, cabeças de cavalo,
Cavalos sem cabeça, com os pés no ar
Fez-se em montão multidão.
E uma dama excitada, que era casada
Com um marinheiro distraído,
No meio da bancada que estava à cunha,
Tirou-lhe um olho, com a própria unha!
À unha, à unha!
Ânimos ao alto!
E no fim, perdeu-se o campeonato!”

domingo, novembro 13, 2005

Comemorações

Ao ver espalhados pela cidade, montanhas de cartazes a anunciar a celebração dos 250 anos do terramoto de Lisboa de 1755, confesso que fiquei um tanto ou quanto abazurdido.
O quê, pensei, esta gente quer fazer a celebração de um terramoto? Querem comemorar uma das maiores catástrofes que aconteceram em Lisboa? Esta gente está doida, ou quê? Se calhar, a seguir, até são capazes de quererem comemorar o incêndio do Chiado. Ou até as grandes cheias de Lisboa de 1969. Não, não acredito...

Mas antes que passasse a escrito a minha surpresa, quiçá a minha indignação, tratei de consultar o dicionário para saber quais os diversos significados da palavra comemoração.
E o dicionário “respondeu-me” que o termo pode querer dizer:

- acção de comemorar
- celebração
- recordação
- memória
- lembrança
- preceito em homenagem ou memória de pessoa ilustre ou de facto histórico
importante

Bom, fiquei muito mais descansado. Os promotores da celebração tinham empregue a palavra correctamente. Não pretendiam comemorar (no sentido de celebrar) o terramoto, pretendiam, antes, comemorar (lembrar) a tragédia.

Ainda assim, e para o meu gosto, preferiria que nos anúncios a um evento deste tipo, usassem a palavra memória (quando muito recordação) dos 250 anos do terramoto de Lisboa. Porque, meus amigos, para mim celebração é festa, é alegria.

Como se sabe, a língua portuguesa, para além de traiçoeira, é muito rica e as palavras a usar têm que ser aplicadas criteriosamente.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Entre as canções e a política


Nada melhor para uma pessoa que regressa ao país, depois de uns dias de férias lá por fora, do que ler num jornal que uma entrevista de uma conhecida cantora pop (Shakira) dada a um canal de televisão cá do burgo, teve audiências muito superiores à de uma outra entrevista dada – à mesma hora - por um dos candidatos à Presidência da República (Mário Soares) a um canal de televisão concorrente. Nada menos de 32,8% contra 22,9% de audiência média.

Desculpem lá, mas acham isto normal? Eu sei que todos nós estamos um bocado fartos dos políticos e das “tretas” que na maioria das vezes nos tentam impingir. Mas será que os portugueses já se desinteressaram definitivamente da política e preferem ouvir meia dúzia de coisas ditas por uma cantora (por melhor e mais interessante que ela seja) a ouvir o que um dos candidatos à mais alta figura do Estado tem para dizer? Será que o nosso futuro nos interessa tão pouco?

Não sei, mas, no mínimo, acho preocupante …

quarta-feira, novembro 09, 2005

E o Rio de Janeiro continua lindo

Oi!

Tal como prometi, estou de volta depois de umas pequenas férias.

Como os meus amigos (inteligentes e perspicazes como sempre) já perceberam pelo título desta crónica e, também, pelo Oi! com que vos saudei, estive no Brasil, mais propriamente no Rio de Janeiro.
Desta vez num Rio de Janeiro diferente daquele que a maioria das pessoas, e eu próprio, normalmente imagina quando se pensa na Cidade Maravilhosa. De facto, quando se fala do Rio de Janeiro, pensa-se em sol, em calor e em mar. Pois o Rio que eu visitei agora não teve nada disso. Ao contrário, teve muita chuva, muita trovoada e um pouquinho de frio, sobretudo à noite.
Como me disse um motorista de táxi, “o Rio de Janeiro com chuva mais parece um cemitério”.
Bom, mas exageros à parte e mesmo tendo em conta as condições adversas do tempo, a verdade é que o Rio de Janeiro continua lindo. E se é certo que não houve um único dia em que o Cristo Redentor se mostrasse perfeitamente descoberto de nuvens, a ponto de nos deixar admirar as magníficas vistas que se costumam observar do alto do seu Corcovado, ainda assim, vale sempre a pena visitar o Rio. Oh, se vale …

É que a cidade maravilhosa não tem este título por acaso. É um lugar de rara beleza, de muitos rostos e muitos ritmos. O Rio de Janeiro é quase um estilo de vida, de gente alegre e de atractivos naturais e culturais. É a terra do futebol mas também da música. Da música de Tom Jobim, de Vinicius, de Caetano, de Betânia, de João Gilberto e de tantos outros. Da música que está presente no andar insinuante das mulheres e que está patente na forma e no jeitinho de falar dos seus habitantes.

Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil …”, os versos iniciais da conhecidíssima canção de André Filho, convidam a conhecer o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Baía da Guanabara, o Maracanã, a Floresta da Tijuca, a Catedral, os Arcos de Santa Teresa e, naturalmente, todas as praias, cujos os nomes nos fazem sonhar com o doce sabor das ondas e das brisas, Copacabana, Ipanema e o Leblon. É, de facto obrigatório conhecer e admirar, sempre, estes lugares, com bom ou mau tempo.

Mas, tanta e tanta beleza não impede, porém, de constatar que o Rio é, também, uma cidade de profundas assimetrias, de tremenda exclusão social e de favelas de onde emana uma violência assustadora e incontrolável.

Pois apesar desses contrastes, das más condições de vida da maioria da população e da violência, sente-se que esta é a capital da beleza e da sensualidade. É o lugar onde encontramos um povo que nos contagia com a sua simpatia e que nos deixa a sensação, quando partimos, de termos já saudades e de quererermos voltar. E, ao partir, essa melancolia faz-nos trautear canções como “Menino do Rio” ou “Garota de Ipanema”.

Gosto de quem gosta deste céu, desse mar, dessa gente feliz…” como dizia a canção...

Mesmo com muita chuva e sem sol, o Rio de Janeiro continua lindo.