quarta-feira, novembro 09, 2005

E o Rio de Janeiro continua lindo

Oi!

Tal como prometi, estou de volta depois de umas pequenas férias.

Como os meus amigos (inteligentes e perspicazes como sempre) já perceberam pelo título desta crónica e, também, pelo Oi! com que vos saudei, estive no Brasil, mais propriamente no Rio de Janeiro.
Desta vez num Rio de Janeiro diferente daquele que a maioria das pessoas, e eu próprio, normalmente imagina quando se pensa na Cidade Maravilhosa. De facto, quando se fala do Rio de Janeiro, pensa-se em sol, em calor e em mar. Pois o Rio que eu visitei agora não teve nada disso. Ao contrário, teve muita chuva, muita trovoada e um pouquinho de frio, sobretudo à noite.
Como me disse um motorista de táxi, “o Rio de Janeiro com chuva mais parece um cemitério”.
Bom, mas exageros à parte e mesmo tendo em conta as condições adversas do tempo, a verdade é que o Rio de Janeiro continua lindo. E se é certo que não houve um único dia em que o Cristo Redentor se mostrasse perfeitamente descoberto de nuvens, a ponto de nos deixar admirar as magníficas vistas que se costumam observar do alto do seu Corcovado, ainda assim, vale sempre a pena visitar o Rio. Oh, se vale …

É que a cidade maravilhosa não tem este título por acaso. É um lugar de rara beleza, de muitos rostos e muitos ritmos. O Rio de Janeiro é quase um estilo de vida, de gente alegre e de atractivos naturais e culturais. É a terra do futebol mas também da música. Da música de Tom Jobim, de Vinicius, de Caetano, de Betânia, de João Gilberto e de tantos outros. Da música que está presente no andar insinuante das mulheres e que está patente na forma e no jeitinho de falar dos seus habitantes.

Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil …”, os versos iniciais da conhecidíssima canção de André Filho, convidam a conhecer o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Baía da Guanabara, o Maracanã, a Floresta da Tijuca, a Catedral, os Arcos de Santa Teresa e, naturalmente, todas as praias, cujos os nomes nos fazem sonhar com o doce sabor das ondas e das brisas, Copacabana, Ipanema e o Leblon. É, de facto obrigatório conhecer e admirar, sempre, estes lugares, com bom ou mau tempo.

Mas, tanta e tanta beleza não impede, porém, de constatar que o Rio é, também, uma cidade de profundas assimetrias, de tremenda exclusão social e de favelas de onde emana uma violência assustadora e incontrolável.

Pois apesar desses contrastes, das más condições de vida da maioria da população e da violência, sente-se que esta é a capital da beleza e da sensualidade. É o lugar onde encontramos um povo que nos contagia com a sua simpatia e que nos deixa a sensação, quando partimos, de termos já saudades e de quererermos voltar. E, ao partir, essa melancolia faz-nos trautear canções como “Menino do Rio” ou “Garota de Ipanema”.

Gosto de quem gosta deste céu, desse mar, dessa gente feliz…” como dizia a canção...

Mesmo com muita chuva e sem sol, o Rio de Janeiro continua lindo.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Um primeiro balanço

Estão a completar-se dois meses do “Por Linhas Tortas”. Olhando para o que foi feito – os temas, a participação dos amigos e a periodicidade da publicação dos textos – a questão que se me coloca é “será que valeu a pena entrar nesta aventura?”. Considerando os prós e os contras, sou levado a concluir que tem sido bom.
Como afirmei logo no início, propus-me escrever sempre que me desse na gana ou quando os assuntos despertassem a minha atenção. Declarei então que este seria um espaço reservado às minhas opiniões pessoais, aos relatos, aos desabafos, aos estados de alma e onde responderia a eventuais provocações dos que tivessem a paciência de frequentar o blogue (já viram que continuo a recusar escrever blog. Tenho a esperança que, pelo menos, se tenda para o aportuguesamento da palavra que até poderá ser blogue).
Desse ponto de vista, e com o dia a dia, procurei, dentro do espírito enunciado, achar um rumo. Quero intervir, denunciar, alertar os mais adormecidos, criar um espaço cívico, falar de viagens, de poesia. Tudo isso tratado umas vezes em tom mais sério, outras de forma mais bem humorada ou com ironia e, sempre que possível, diversificando os assuntos.
Sinto-me a isso obrigado. Ao fim e ao cabo, aceitei partilhar convosco a minha escrita.
Apesar de tudo, e este tudo é a trabalheira que me dá escrever tantos e (alguns) tão elaborados textos, penso que a experiência tem sido agradável.
Só não sei exactamente qual é a vossa aceitação. Muito embora o meu contador de visitas ao blogue indique cerca de 70 mil presenças nestes dois meses (mentira, não tenho nenhum contador, apenas me apeteceu dizer isto), a verdade é que não têm sido muitos os comentários que fazem. E, quanto a provocações, nada. Estarão, porventura, com medo que eu me zangue e, qual Valentim, saia a terreiro a perguntar
“Afinal, quantos são, quantos são …”
Participem também neste espaço, que é de todos.
Vou ausentar-me uns dias. Encontrar-nos-emos, de novo, lá para o dia 10 de Novembro.
Até breve.

segunda-feira, outubro 24, 2005

A classe média

Ao reler o que publiquei aí há tempos sobre a (hipotética) crise da classe média deu-me um baque. Eu disse que a classe média estava em crise? Disse isso mesmo?

Mas, afinal, qual classe média, se em Portugal foi coisa que nunca existiu? Sabemos apenas que sempre houve os ricos e os pobres mas nunca se sentiu a falta de mais alguém. Se bem que, na minha juventude, na casa dos meus pais, sempre se disse que nós não éramos nem ricos nem, tão pouco pobres, éramos apenas “remediados”. Donde, afinal, para sermos rigorosos, talvez devêssemos considerar não a tal classe média, mas a classe dos “remediados”.

É que isto das classes sociais é basicamente uma questão de mentalidade, muito mais do que de dinheiro. O dinheiro é sempre relativo. Com as mesmas moedas no bolso pode ser-se um príncipe no Rio de Janeiro e um teso em Nova Iorque.

Um pobre está sempre inconformado e nunca se esquece que passou a vida cheio de dificuldades. Mesmo que ganhe o totoloto ou que um tio radicado na Venezuela lhe deixe uma pipa de massa, o pobre nunca abdica do seu estatuto de pobre. Quando muito assume-se como um ... remediado, mas nunca como um rico.

Os ricos podem ser obrigados a comer sardinhas em lata durante todo o mês, que nunca deixam de sentir que vivem num mundo tremendamente diferente e distante do resto da rapaziada.

O que é curioso neste tipo de atitudes, assumida quer por uns, quer por outros, é que nunca ninguém está satisfeito ou tranquilo.
Os pobres passam a vida inteira a reclamar contra o destino e nunca desistem de dizer mal dos endinheirados, muito embora, bem no íntimo, gostassem de estar na sua situação - ter o seu dinheiro, os seus carros e as suas casas.
Os ricos vivem no pânico permanente de perderem a exclusividade do “seu” mundo e do pavor de sentirem que no “seu” restaurante, na mesa ao lado da “sua”, o filho do “seu” jardineiro, emigrado na Alemanha, está a gabarolar-se - entre arrotos e gargalhadas alarves - de pretender comprar o palacete ao lado do “seu”, onde vai espetar dois grandessíssimos e imponentes leões de pedra no portão da entrada.

E porque nunca houve classe média cá no burgo, e porque sempre se gozou este saudável equilíbrio que demorou séculos de História a conquistar, fica-se terrivelmente chateado quando se vê alguém a querer dar nas vistas, sem qualquer vergonha na cara, a dizer-se e a assumir-se como sendo da classe média! Um escândalo. Um escândalo, meus amigos...

Esses tipos não são, nem nunca foram, da classe média. Eles nem sequer são ricos nem pobres, nem o que quer que seja. São, isso sim, tipos que estão muito satisfeitos consigo próprios, orgulhosos por demais da câmara de vídeo que compraram no Jumbo, da camisa Lacoste que é, em si mesma, um símbolo da sua satisfação e das férias que passarem na Eurodisney de Paris com a família.
Levam o tempo a imaginar o que é que podem comprar para aumentar a inveja da vizinhança, mas o único acto de rebeldia de que são capazes é de, quando muito, surripiar um pacote de alcagoitas de um hipermercado.

Este tipo de pessoas da dita “classe média” – os chamados “médios” que, definitivamente, não conseguem chegar a ser classe média – estão completamente satisfeitos com o seu estatuto. Não querem, de todo, ser pobres porque sentiriam vergonha, mas os ricos assustam-nos porque não conseguem perceber que raio valores são aqueles que fazem os ricos passar as férias sentados numa cadeira a ler um livro, enquanto o carro de topo de gama vai ficando dias e dias sem sair da garagem.
Os sonhos dos “médios” são todos iguais e, ainda por cima, são todos estupidamente concretizáveis – ter um apartamento de férias na Marina da Praia da Rocha, um carro novo ao fim de três anos e um emprego como alguma estabilidade para os filhos, se possível num Banco.
Outro dos sonhos dos “médio” é viajar. É vê-los por essa Europa fora, pelo nordeste brasileiro ou por Cuba, sempre acompanhados pela família, a cumprirem escrupulosamente os programas organizados pelas agências de viagem, repetindo incessantemente fotografias a monumentos e panoramas, comprando as mesmas lembranças inúteis de sempre e exibindo a sua imensa felicidade estampada nos rostos por serem exactamente aquilo que são.

E porque os “médios” têm terror à diferença, por pequena que ela seja, acabam infalivelmente por casar com pessoas médias, com quem terão filhos médios e em número médio, para cumprir cabalmente a sua missão cá na terra. Então, poderão morrer felizes e em paz ... e dentro da média, é claro ...

domingo, outubro 23, 2005

Turquia, ainda tão longe

A Turquia moderna é herdeira de milénios de História. Foi a cabeça do Império dos Hititas, do Império Romano do Oriente e do Império Otomano, que se estendeu em África até Marrocos e na Europa até às portas de Viena. É um país que foi, ao longo de séculos, encruzilhada de civilizações.

Há uns anos passei duas semanas de férias na Turquia e para além de ter “bebido” toda aquela riqueza histórica e cultural, senti que a sua população era amistosa e hospitaleira. Não raro, no primeiro encontro, e em simultâneo com o aperto de mão franco, lá vinha a pergunta “De que país é que são?”, feita mais pelo prazer do contacto com pessoas de outras latitudes do que por mera curiosidade. Achei, sinceramente, os turcos acolhedores e amáveis.

Talvez por isso, fiquei muito satisfeito pelo facto da Europa ter aberto recentemente as negociações para a entrada da Turquia na União Europeia. Achei que a esta entrada, ainda que se venha a verificar só daqui a dez ou quinze anos, vai beneficiar o país e os cidadãos.

Claro está que a Turquia tem ainda grandes problemas para resolver antes de entrar para o “clube”. Nomeadamente o problema com os curdos, o não reconhecimento de Chipre e as violações dos direitos humanos. Mas há que reconhecer, porém, que a Turquia fez uma rápida evolução para aderir à União, quer na economia, quer na legislação, quer no funcionamento das instituições democráticas. De resto, num processo de ocidentalização que já existiu quando Mustafá Kemal Ataturk governou o país.

Mas mesmo que os turcos avancem rapidamente e cumpram as exigências impostas pela Europa, o acordo não vai ser fácil. E porquê? Porque os europeus temem os turcos. De acordo com sondagens publicadas recentemente só 35% dos europeus querem que os turcos se juntem à União Europeia. E entre os que têm mais medo, encontram-se países de grande peso no seio da União, como a França, a Áustria e a Alemanha da nova chanceler Ângela Merkel.

Não obstante, a generalidade dos analistas turcos parece acreditar que o seu país poderá dar uma contribuição importante para o significado estratégico do bloco europeu e o mundo empresarial turco também reagiu bem ao início das negociações.

Mas, se a Europa fechar as portas à Turquia, poder-se-á perder a ponte que permita o diálogo entre o Ocidente e o mundo muçulmano e estar-se-á, porventura, a empurrar os turcos para se juntarem às fileiras dos fanáticos muçulmanos que pretendem, por qualquer meio, derrubar a civilização ocidental. E é bom não esquecer que o fundamentalismo muçulmano turco, embora ainda minoritário, é extraordinariamente activo e está bem posicionado junto dos órgãos da Administração.
Mas, para além isso, a Europa estará a fechar a porta a um mercado de 70 milhões de pessoas.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Desigualdade

Comemorou-se na última segunda-feira o Dia Mundial Para a Erradicação da Pobreza.
Segundo os dados já revelados, Portugal é o país da União Europeia onde há mais desigualdade entre ricos e pobres, onde os ricos são os mais ricos e os pobres os mais pobres, característica, de resto, comum aos estados em vias de desenvolvimento.

O problema da desigualdade é tão chocante que basta ver que as 100 maiores fortunas portuguesas representam 17% do Produto Interno Bruto e 20% dos mais ricos controlam 45,9% do rendimento nacional.

E o que é mais confrangedor ainda é que, apesar de todos saberem que esta desigualdade existe (com um fosso que tem aumentado nos últimos anos), parece haver uma grande apatia da sociedade (de todos nós, portanto) relativamente a esta desigualdade e à pobreza em particular.

Pese embora alguma preocupação social manifestada ao nível de medidas tomadas pelo actual governo, o facto é que o discurso político, de uma maneira geral, está mais preocupado com a redução do deficit do que, propriamente, com a situação da enorme injustiça que separa cidadãos de primeira (poucos) de cidadãos de segunda (a maioria)

As estatísticas indicam que um em cada cinco portugueses vive no limiar da pobreza. Mas a realidade da pobreza em Portugal é ainda pior. Porque pobreza não é apenas a falta de dinheiro, é também a falta de acesso às necessidades que conferem dignidade à população.

No nosso país existem dois milhões de pobres e dez por cento da população vive com menos de 60 por cento do ordenado médio nacional.

E este problema não deveria resolver-se apenas com recurso às Instituições Particulares de Segurança Social ou às Misericórdias. Os problemas da pobreza são estruturais e por isso merecedores de resoluções que não passem tão somente por pequenas acções de cosmética ou soluções meramente pontuais.
Desde que Portugal entrou para a Comunidade Europeia, temos assistido ao gasto de milhões e milhões e continuamos praticamente na mesma. Se calhar pior. Há cada vez mais pobres e cada vez há problemas mais graves.
É, pois, absolutamente necessário que o país, de uma vez por todas, acorde (mas acorde mesmo) e actue de forma eficaz para conseguir erradicar a pobreza. Um país que se mostre solidário e justo.

Preferências


Dias depois de se terem realizado as eleições autárquicas de 9 de Outubro, dei de caras com um cartaz (eu sei que estavam à espera que escrevesse “outdoor”, mas enganaram-se) do candidato de um dos partidos concorrentes à Câmara Municipal da Amadora.
É claro que o cartaz já lá estava há mais de um mês e que todos os dias eu olhava para ele.
Só que, naquele dia, no mesmíssimo sítio onde o tal candidato afirmava "que o melhor da terra eram sempre as pessoas", o cartaz tinha uma tira de papel colada na parte de baixo, onde se podia ler:
“Obrigado Amadorenses”

O agradecimento deveu-se, naturalmente, ao facto do candidato ter sido eleito Presidente da Câmara. Vá lá, teve um gesto de boa educação e eu gosto de pessoas educadas.
Mas aquela frase teve o condão de me irritar. Não gostei que me chamassem “amadorense”. Sei lá, podiam-me chamar outra coisa, não sei. Até agora nunca tinha pensado que eu também era aquilo (isto é, amadorense).

Ao fim e ao cabo, é capaz de não ser assim tão mau como isso. Até porque os habitantes da maioria das nossas terras também são qualquer coisa em “enses”. São os figueirenses, os portuenses, os setubalenses, os farenses, os lacobrigenses, os leirienses, os calipolenses e outros que tais.
Se calhar até é por isso que eu gostaria de ser uma outra coisa que não “enses”, por exemplo, ser lisboeta ou escalabitano.

Bem, mas pensando melhor, prefiro ser um “amadorense” do que ser um “porcalhoto” (que não tem ense) que, provavelmente, seria a designação que seria atribuída aos habitantes da Porcalhota, que foi, como se sabe, a povoação que deu origem à actual Amadora.

Apesar de tudo, e mesmo não gostando, prefiro ser um “amadorense” do que um “gondomarense” ou um “felgueirense” e está-se mesmo a ver porquê, não “tá-se”?

quarta-feira, outubro 19, 2005

Orçamento de Rigor

Título da 1ª Página do “Correio da Manhã” de ontem, dia 18 de Outubro

“Orçamento de Estado Ataca Pensões”

Que o orçamento para 2006 ia ser de rigor já o sabíamos, o governo do Engenheiro Sócrates já o tinha anunciado. O estado a que chegaram as contas públicas é de tal maneira lamentável que não restava grande alternativa a qualquer governo decente, que não fosse o de ser rigoroso com um orçamento de verdade e sem malabarismos financeiros. Portanto, ainda que isso nos afecte as carteiras, venha o tal orçamento de rigor e de transparência, que eu aplaudo.
Mas, senhor primeiro-ministro e senhor ministro das finanças, o orçamento prever o ataque às pensões, aí já não posso estar mais em desacordo.

Ao fim e ao cabo, razões terão os partidos da oposição à esquerda do PS, quando dizem que o governo penaliza sempre os trabalhadores e que é incapaz de se meter com o grande capital, nomeadamente com a Banca (bom, face às notícias que vieram ontem a público sobre a investigação que está ser levada a cabo pela Polícia Judiciária e pela Direcção Geral dos Impostos, precisamente a grandes grupos financeiros, já não sei não).
E, as razões apresentadas por esses partidos, acabam por estar, afinal, retratadas no título do Correio da Manhã “Orçamento de Estado Ataca Pensões”

Mas, pergunto, porquê o ataque às Pensões? E porque não às Residenciais? E porque não às Albergarias? E porque não aos Hotéis?

São sempre os mesmos a pagarem a crise!

segunda-feira, outubro 17, 2005

Jogadas


Já passaram dois dias e ainda não consegui compreender porque é que no jogo do FC do Porto com o Benfica, o Nuno Gomes levou uma grandessíssima cabeçada daquele defesa do FCP que, ao que parece, se chama Bruno Alves. Será que o Bruno pensava que "jogar com a cabeça" era dar cabeçadas noutro jogador?
Pus-me a pensar e, das duas quatro. Bruno, ou tu és mesmo muito mau, mau como as cobras, o que não acredito, muito embora aquela cabeçada já fosse a tua segunda agressão só naquele jogo; ou andas a precisar de óculos e não conseguiste distinguir entre a bola e a cabeça do Nuno Gomes, que, por acaso, até nem se parecem porque a cabeça do Nuno é mais bonitinha; ou, finalmente, não conheces mesmo nada das leis do jogo e, nesse caso, tens que aprendê-las se queres continuar a jogar futebol.
Assim é que não, Bruno, senão ainda corres o risco de um dia destes, quando entrares em campo, alguém gritar: “É um g’anda jogador este Bruto Alves”.

domingo, outubro 16, 2005

Objectivo ou Obsessão?

No mundo das empresas como na vida, nem sempre é fácil definir objectivos. E, se calhar por não ser fácil é que, neste momento em Portugal, muita gente anda preocupada com a obtenção de dois objectivos que considera ser essenciais para o nosso bem-estar:

- o primeiro, sobretudo alimentado (e de que maneira) pela imprensa, era o de saber quando é que o Pedro Pauleta era capaz de ultrapassar o número de golos marcados pelo Eusébio ao serviço da Selecção Nacional de Futebol. Bem, esse problema foi ultrapassado recentemente mas, a minha dúvida mantém-se. Será que era assim tão importante o Pauleta marcar mais golos do que o Eusébio? Quem foi o cérebro que definiu esse objectivo? Que Pauleta marque muitos golos em cada jogo que faz, acho óptimo. A ele deve dar-lhe uma grande gozo, à Selecção pode significar que a equipa sempre vai ganhando, mas, para os portugueses, o que é que isso adianta?
Desculpem lá, mas ter como objectivo ultrapassar o recorde dos 41 golos do Eusébio parece-me, francamente um bocadinho de menos.
Afinal, seria objectivo ou obsessão?

- o segundo objectivo tem a ver com os candidatos presidenciais de esquerda já conhecidos. Como é público, todos eles dizem concorrer para derrotar Cavaco Silva, para derrotar a direita.
Para já, e que eu saiba, Cavaco até pode ser apoiado pelos partidos de direita mas ele não é, de facto, de direita. Depois porque acho uma ideia peregrina alguém se candidatar à Presidência da República apenas com o objectivo de derrotar a direita e não por uma razão mais válida. Sei lá, por exemplo, por Portugal, pelos portugueses, pela moralização da vida pública e dos partidos políticos, para constituir um factor agregador da sociedade. Mas, apenas para derrotar a direita? Não será um pouco redutor?
Afinal, será objectivo ou obsessão?

Quando os objectivos são mal definidos ou mal explicados, os resultados ou não têm interesse ou não são lá grande coisa. O que, muitas vezes, nos faz questionar se serão realmente objectivos ou tão-somente obsessões?

quinta-feira, outubro 13, 2005

O Zé Povinho

Sou capaz de jurar que todos conhecem a figura do Zé Povinho. Quem não deu já de caras com aquela pujante figura que usa o manguito como expressão corporal? Aquele que, de calças remendadas e botas rotas, é a eterna vítima dos partidos, e do poder em geral, dando a vitória a uns e a outros em épocas eleitorais. Como aconteceu, de resto, na última semana.
Mas já não tenho a mesma certeza quanto a saberem quem foi o seu autor.
Pois o criador desta figura-símbolo do povo português foi Rafael Bordalo Pinheiro.
Raphael Augusto Bordallo Prestes Pinheiro, de seu nome, nasceu em Lisboa, em 21 de Março de 1846. Foi uma figura marcante da cultura portuguesa da segunda metade do século dezanove e distinguiu-se – apenas - como desenhador, aguarelista, caricaturista político e social, jornalista, ilustrador, ceramista, actor e professor. A sua genialidade única, atravessou todas estas especialidades e, apesar de ter morrido no início do século vinte, a actualidade da sua obra faz com que seja intemporal.
Começou a fazer caricatura por brincadeira. Ilustrou e compôs desenhos para almanaques, anúncios e revistas estrangeiras e para largas dezenas de livros e publicações. Foi percursor do cartaz artístico em Portugal.
Caricaturista também no barro, deu forma a notáveis figuras como o sacristão, o padre, o polícia, a ama de leite e o genial "Zé Povinho" ao lado de quem colocou a inseparável Maria da Paciência, velha alfacinha alcoviteira.
E, quando lhe perguntavam onde tinha aprendido as artes, respondia:

"Nunca cursei academias. Tenho o curso da Rua do Ouvidor...Cinco anos. Canto de ouvido"

No entanto, Rafael matriculou-se sucessivamente na Academia de Belas-Artes (desenho de arquitectura civil, desenho antigo e modelo vivo), no Curso Superior de Letras e na Escola de Arte Dramática, para logo de seguida, e sempre, desistir.
Por ser avesso a qualquer disciplina, apaixonou-se antes pelo lado boémio da vida lisboeta e estreou-se como actor no Teatro Garrett e no luxuoso Theatro Thalia, na costa do Castelo.
Mas o riso era, de facto, a vocação de Rafael Bordalo Pinheiro. Com o traço irreverente e satírico constrói uma galeria de figurões políticos e financeiros, intervindo decisivamente na demolição das estruturas caducas duma monarquia decadente e na rápida ascensão e propagação dos ideais republicanos.
Mas, muito mais interessante do que esta breve evocação, será admirar a obra deste grande e genial mestre, irmão do pintor Columbano, que pode ser apreciada no Museu Bordalo Pinheiro, onde é possível ter uma visão retrospectiva do seu brilhante trabalho gráfico e cerâmico.
Rafael Bordalo Pinheiro foi um artista empreendedor e multifacetado que reflectiu quase sempre de forma crítica o quotidiano cultural, político e social da época em que viveu.
Mas o que é muito curioso observar é que podemos descobrir nas suas críticas uma tal actualidade que parecem ter sido feitas, à medida, para a sociedade de hoje. Lá estão os temas como o défice, a insegurança e a corrupção. Lá encontramos, por exemplo, figuras e figurões como os políticos desonestos e os troca-tintas.
Pena foi que o boémio incorrigível em que se tornou, sempre de olhos maliciosos a cintilar por entre o monóculo, ter tido uma vida tão curta, porém atribulada.
Uma visita a não perder.
Museu Bordalo Pinheiro
Campo Grande, 382, em Lisboa – 3ªs a Domingo das 10h00 às 18h00
Encerra às 2ªs e feriados

terça-feira, outubro 11, 2005

Conversas de miúdos

Há dias, ao sair de casa, dei de caras com um casalinho de miúdos que caminhava pelo passeio, de mãos dadas. Eram giríssimos os dois, teriam à volta de sete, oito anos, mas percebia-se pela sua desenvoltura que eram desenrascados (perdoem-me o plebeísmo). E, muito senhores do seu papel, iam conversando animadamente.

Alguém que os conhecia bem, acercou-se deles e perguntou-lhes onde iam passear. Os miúdos responderam a isso e a uma série de outras perguntas, daquelas que os adultos costumam fazer às crianças há séculos. Confirmaram que eram namorados e, a simpatia deles era tão grande, que levou a que esse alguém lhes fizesse aquela pergunta sacramental que é comum ouvir-se:
“Então e quando crescerem o que é que querem ser?
“Magistrado”, respondeu o rapazinho. “E porquê?”, questionou o mesmo alguém.

O rapaz que, pelos vistos, ouvia tudo o que se passava lá em casa e provavelmente tinha ouvido a indignação dos pais sobre aquela notícia que saíra nos jornais, respondeu num fôlego:
“Ora, porque os magistrados recebem um subsídio de renda de casa de 700 euros por mês, mesmo que residam em casa própria e na sua terra. O mesmo dinheiro que recebem quando estão colocados a centenas de quilómetros. E quando um dia eu estiver reformado, eles (o miúdo sabia que eles era o governo) incluem esse subsídio na reforma. E, ainda por cima, esse subsídio não conta para o IRS”.
“Mas, como é que tu sabes essas coisas?”, perguntou o alguém, deveras admirado.
“Ouvi, pronto”, volveu o rapaz, acrescentando: “E ouvi também que se eu trabalhar no Supremo Tribunal Administrativo ou no Tribunal Constitucional e morar fora da área da Grande Lisboa, além dos 700 euros, eles ainda me pagam ajudas de custo por cada dia de sessão nos respectivos tribunais. E mais, para ir trabalhar ainda vou ter viagens totalmente gratuitas em todos os transportes públicos terrestres e fluviais, incluindo os comboios Alfa”.

O alguém estava completamente aparvalhado. Isto é, estava ele e estava eu que também tinha ouvido a conversa. No meu caso, porém, não percebia bem se a minha estupefacção era devido às benesses atribuídas (incompreensivelmente) aos magistrados, se à esperteza daquele miúdo que desfiava tão bem toda aquela prosa, cujo significado ele (neste caso o miúdo), por certo, não devia compreender totalmente.

“E tu, querida, o que é queres ser quando fores grande?”, perguntou o alguém.
Ela, agarrou a mão do companheiro com mais força, sorriu para o alguém e respondeu:
“Como eu gosto muito dele, quero casar com ele e quero ser, também, magistrada”
“E magistrada porquê? voltou a perguntar o alguém.
“Porque, assim, eles também me dão 700,00 euros para a renda de casa e podemos, os dois, sacar 1400,00 euros, percebes?”

Não me recordo de mais nada. Quando acordei estava deitado numa marquesa e, segundo me disseram, estava branco como a cal das paredes …

domingo, outubro 09, 2005

Ganhámos

Neste último fim-de-semana fomos chamados a exercer o nosso dever cívico, isto é, fomos votar nos candidatos que mais mereceram a nossa confiança, aqueles que, ao fim e ao cabo, nos pareceram ser os mais aptos para dirigir e controlar os destinos das nossas autarquias.

Isto, muito embora a maioria deles, para além do voluntarismo e da boa vontade, não terem a mínima ideia sobre o que é, de facto, a gestão autárquica.
Naturalmente que todos os candidatos deveriam ter conhecimentos (pelo menos mínimos) de planeamento estratégico, de associativismo intermunicipal, de controlo orçamental, de conhecimento nas áreas sociais, culturais, ambientais e de ordenação do território.
Mas, enfim, sabemos todos que temos os candidatos que temos e, sabemos também, que a maioria deles é proveniente dos partidos que regem e dominam o sistema.
Bom, nós fizemos a nossa parte, votámos e, por isso, ganhámos.

Quanto aos partidos políticos, também ganharam todos. Ou se não ganharam, consolidaram ou reforçaram as suas posições nas Câmaras, nas Freguesias e nas Assembleias Municipais. Todos são vencedores, como de costume.

Mas ganharam também os independentes. Aqueles que à revelia dos respectivos partidos se candidataram e levaram de vencida os candidatos desses mesmos partidos. Todos eles, à excepção de Avelino Ferreira Torres em Amarante. Aí quem ganhou foi o bom senso e a democracia.

E ganhou também a abstenção que, em certos municípios, chegou a ultrapassar os 50%


Mas se pensaram que eu me dispunha a fazer análise política às eleições de ontem, tirem o cavalinho da chuva. Não é isso que me interessa neste momento.
Não, não é destes ganhos e destes ganhadores que vos vim falar. Hoje, gostaria antes de realçar a vitória da Selecção Portuguesa de Futebol sobre a selecção do Liechtenstein, que permitiu a nossa classificação para o Mundial da Alemanha de 2006.
E levou a cabo esse feito fazendo um jogo com uma equipa classificada para além do centésimo lugar na tabela da UEFA. Num jogo de baixíssima qualidade, de uma alta percentagem de passes mal executados, de malabarismos individualistas despropositados (lembro que este é um jogo de equipa) e de apostas duvidosas em jogadores sem ritmo competitivo e que não actuam nos seus respectivos clubes. Para além da elevada taxa de não concretização e de uma grande penalidade falhada, este foi um jogo em que quase tudo aconteceu, até um frango que, ainda por cima, se encaixou na nossa baliza.

Mas, afinal, o que interessa tudo isso quando o resultado acabou por ser uma vitória das nossas cores que, para mais, permitiu a classificação da nossa Selecção para a Alemanha?
Portanto, o que vale verdadeiramente é que ganhámos.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Ai como tudo isto anda viciado

Sempre que posso, gosto de ver e ouvir o programa “O Eixo do Mal” na SIC Notícias. É um programa cheio de ironia, de maledicência também e de muita crítica ao que se vai passando no mundo, mas especialmente cá pelo burgo. E, a brincar, a brincar, vão-se dizendo coisas bastantes sérias.
Bom, mas falo nisto para dizer que num dos últimos programas, quando se discutia um qualquer assunto que já não recordo o tema, um dos participantes argumentou:
“É por isso que os jornais e revistas da especialidade nunca dizem mal dos carros quando são lançados modelos novos”.

O assunto ficou por ali mas fiquei a pensar na frase. É que, muito recentemente, comprei carro novo e no dia em que fui escolher a cor do automóvel, ao passar por uma das dependências do representante da marca, vi uma placa a indicar “Parque da Imprensa”.

Perguntei ao vendedor que me acompanhava que espaço era aquele e ele, num repente e sem qualquer relutância, esclareceu-me que era o parque onde ficavam estacionados os carros destinados à imprensa.

“Que carros?”, questionei. Respondeu que eram os modelos acabados de lançar e que a marca põe à disposição dos jornalistas da especialidade para eles passarem fins-de-semana e férias.

“E porque cedem os carros?”, voltei a perguntar. A resposta veio envolta num misto de indignação e de surpresa pela minha ignorância.
“Para que não digam mal dos nossos carros”, ao que acrescentou “Aí há tempos, tivemos um problema porque a Administração entendeu não ceder um carro a determinada pessoa e ela, no seu jornal, fez-nos a vida negra durante meses a fio, sempre a colocar defeitos no carro.

Realmente andava muito distraído. Como é que eu fui achar normal que todos os artigos publicados sobre carros novos, fossem unânimes em dizer que esses carros, todos eles, são os melhores do mundo.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Assim não, Senhor Engenheiro

Ao contrário do que prometeu, que era criar uns milhares de postos de trabalho, o senhor engenheiro Sócrates enveredou pelo ataque cerrado, sistemático e injustificado aos pobres trabalhadores, levando muitos deles ao desemprego.

Foi exactamente o que aconteceu a um humilde empregado da Refer (empresa pública criada para gerir a infra-estrutura da rede ferroviária nacional), por acaso seu presidente, o Dr. Luís Braamcamp Sobral.
Braamcamp Sobral, até há pouco tempo para além de presidente da Refer, e porque o seu vencimento não dava para grandes coisas era, ainda e em acumulação, presidente da Rave, responsável pela futura rede de alta velocidade (apesar do projecto do TGV não estar, ainda, definido). Ou seja, era um bi-Presidente que tinha direito a dois ordenados.

E era um Presidente à séria, ao que sabemos. Muito embora no ano passado a Refer tivesse apresentado prejuízos da ordem dos 150 milhões de euros, e a Rave tivesse tido, também, resultados negativos, o que importa aqui salientar é que o Senhor Presidente, apesar desses maus resultados, conseguiu pagar prémios de "produtividade" a 540 dos mais de 5 mil trabalhadores, no valor de 600 mil euros. E, para os colaboradores próximos, o prémio de "produtividade" foi para cada um superior a 5 mil euros.

Sempre defendi que a boa gestão deve ser recompensada. E, neste caso, parece evidente que houve uma excelente gestão, pois mesmo tendo em conta que estas empresas tiveram défices tão significativos, mesmo assim, o homem, perdão o Senhor Presidente, ainda arranjou umas massas para premiar “os que conseguiram ser mais produtivos”.

Mas Braamcamp Sobral fez muito mais. Sob a sua gestão, admitiu, na Refer e na Rave, mais de 200 pessoas, muitas das quais amigos e colaboradores do ex-ministro da tutela, António Mexia, e de Carmona Rodrigues. Esta medida, a de criar mais de duzentos novos postos de trabalho, deveria ser citada por si, Sr. Engenheiro, como um bom exemplo de criatividade empresarial.

Perante isto, Senhor Engº. Sócrates, vai mandar o ex-bi-presidente para o desemprego? Assim, do pé para a mão?

Entretanto, alguém me confidenciou que Braamcamp Sobral, sendo um homem previdente, arranjou maneira de não ir para o desemprego. Com um grupo de personalidades (de que faz parte) que ocupa lugares nos conselhos de gestão de várias empresas públicas (Refer, CP, Metro...) fez contratações cruzadas (numa fantástica troca de cadeiras...), pelo que agora estão em condições de ocupar as prateleiras de luxo que inventaram para si próprios.
Desta forma, o presidente da Refer e da Rave, o Dr. Braamcamp Sobral, foi contratado pela CP, como assessor da administração, tendo acordado um ordenado de 4.700 euros, a que acrescem 995 euros para despesas de representação. Nada mal!

Bem, agora falando a sério. Resta-me dizer que toda esta aldrabice poderá não ficar assim. FELIZMENTE.
É que a Inspecção-Geral de Finanças, que já detectara a situação durante a vigência do anterior governo, propôs a exoneração dos membros dos conselhos de gestão das empresas públicas que se envolveram nestas manobras.
Até o magistrado do Ministério Público, que exerce as funções de auditor jurídico do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, não teve dúvidas em considerar, há dias, que "foram seriamente atingidas a credibilidade, o prestígio, a boa imagem e a fé pública da administração e das instituições públicas", pelo que, em sua opinião, se verifica "a existência de fundamento válido para a hipótese de exoneração das pessoas em apreço sem direito à percepção de qualquer indemnização".

Vamos ver o que isto dá …

segunda-feira, outubro 03, 2005

Contra sons não há argumentos

O comentário do “pródigo” à “história do pinguim e do sapo”, quando dizia que “Flato, não fosse o seu significado, até que soaria bem” fez-me lembrar uma outra história acontecida há uns largos anos, numa aldeola bem perto de Lisboa.

E a história tem a ver com um padre alemão que estava há pouco tempo em Portugal. Esse padre quase não falava a nossa língua, conhecia apenas uma ou outra palavra. No entanto, havia uma que ele conhecia e que usava com alguma frequência: “merda”.

Quando percebemos que pronunciava a dita palavra mais do que devia, chamámos a atenção dele para o seu significado, aconselhando-o:
“Padre, não deve dizer essa palavra. É muito feia, é calão …”

Depois de reflectir um pouco, o padre soltou uma gargalhada contagiante e respondeu:
“Ummmm, merda, está bem, está bem, já percebi … merda pode ser uma palavra feia, pode até ser calão, mas soa tão bem”.

sábado, outubro 01, 2005

Porque hoje é sábado

Porque hoje se completa o primeiro mês de existência do “Por Linhas Tortas”,
porque sempre gostei destes versos e deste poeta,
e, também, porque hoje é sábado,
aqui vos deixo o belíssimo poema “O dia da Criação” de Vinicius de Morais

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espectáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado
do Livro das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De facto, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas
cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das
terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até
praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Era uma vez um pinguim e um sapo

Devo confessar que não me sinto muito à-vontade com o tema de hoje. Em primeiro lugar porque sei de antemão que algumas pessoas me vão considerar moralista. Depois, porque a minha esmerada educação na Suiça, me impede de empregar determinadas palavras que se encaixariam às mil maravilhas naquilo que quero transmitir. Sinceramente não sei como começar.

Bem, alguém conhece aquele anúncio do Sapo Messenger que passa na televisão, aquele em que entram um pinguim e um sapo? Estão a ver aquele pinguim que dá um arroto monumental e um sapo que dá um … quer dizer, o sapo dá … isto é, em que o arroto do sapo perde o elevador, estão a ver? Esse mesmo.

É sabido que a publicidade tem que ser imaginativa, muito embora na maior parte dos casos ela nada invente. Bastas vezes recorre à procura na sociedade daquilo que ela tem de bom ou de mau e cria e inventa anúncios de forma a poder chegar ao respectivo público-alvo. Quantas vezes com muita originalidade e graça, outras transpondo situações de forma nua e crua.

Mas é aqui que surgem as minhas dúvidas. Será aceitável que a publicidade faça anúncios de mau gosto só porque o mau gosto existe na sociedade?

O facto de na sociedade ser “normal” tanta gente andar para aí a arrotar (não me estou a referir às pessoas que “arrotam postas de pescada", e são mais que muitas) não justifica que a comunicação social e, nomeadamente, a publicidade, devam utilizar isso, dando-lhe até maior realce, como se o arroto fosse uma coisa que se possa considerar civilizada (na civilização ocidental, entenda-se) e de “bom tom”. Eu disse “bom-tom” e não” bom som”, que é o que na maior parte das vezes se ouve.

Não posso estar de acordo com a apologia da má educação mas parece que é isso mesmo que se pretende.
A continuarmos assim, os próximos anúncios apelarão para o “cuspir para o chão” (de resto, um gesto tão caro aos portugueses), depois será o atirar cascas de fruta pela janela do automóvel e, a seguir, certamente, o palitar dos dentes à mesa, quem sabe se o tirar a prótese no fim da refeição.

Meus amigos, a boa educação é transversal às diversas gerações. E se em casa e na escola esses valores não são transmitidos às crianças e adolescentes, pelo menos não criemos nelas a ilusão de que essa boa educação é coisa de outros tempos.
Agora, pretender que um anúncio seja engraçado com esse tipo de coisas não parece ser a melhor forma de educar. Pelo contrário.

E se começássemos a cultivar, no dia a dia, a elegância nos gestos e nas palavras, para que, depois, a comunicação social e os publicitários possam inspirar-se neste novo modelo? Não acham que seria uma boa ideia?

Repito, a publicidade apenas retrata o que já existe na sociedade. Eu sei disso, mas, garanto, que não é por eu conhecer a maior parte dos palavrões que vou andar para aí a gritá-los.

Agora uma coisa tenho que reconhecer, os bichos têm um grandessíssimo fôlego. Foi pena foi que os criativos não tivessem aproveitado esse atributo de uma outra forma.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Um caso de sucesso

Em 2004 foram roubados das lojas portuguesas – em especial nas de roupa e nas de produtos alimentares – artigos no valor de 181 milhões de euros, o que corresponde a cerca de 1/4% dos lucros desses sectores.

Segundo a CheckPoint Meto, empresa especializada em soluções de segurança, esses roubos terão sido efectuados por clientes (53,9%), pelo pessoal das lojas (22,4%) e por fornecedores (9,1%), sendo os restantes 14,6% atribuídos a erros de funcionamento interno, que não foram, no entanto, especificados.

Com este resultado, Portugal conseguiu alcançar o 3º lugar do campeonato europeu dos países em que mais se rouba, sendo ultrapassado apenas pelo Reino Unido e pela Finlândia.

Esta é, sem dúvida, uma boa notícia. Numa época em que os portugueses andam tão deprimidos, talvez este sucesso possa contribuir para aumentar auto-estima dos cidadãos.

Sim porque, pelo menos neste sector (o do roubo) demonstrámos, de forma inequívoca, a grande capacidade, a organização, o empenho e o profissionalismo da nossa rapaziada. Na Europa do “gamanço” conseguimos, finalmente, atingir os primeiros lugares.

Uma nota final para referir que neste ano de 2004, apesar da “honrosa” classificação conseguida, apenas foram detidos 9720 “amigos do alheio”

É que – e vá lá saber-se porquê – embora Portugal esteja entre os 3 países com maior percentagem de roubos está, paradoxalmente, entre os 4 países que registam menores detenções neste tipo de furto. Ou seja, rouba-se mais mas nem sempre se é apanhado.

E digam lá se não somos mesmo bons.

terça-feira, setembro 27, 2005

Mais duas histórias

Acho que a dose (reforçada) de Sedoxil que tomei há pouco, deve ser suficiente para me manter mais ou menos calmo nas próximas horas. Contudo, as duas histórias (mais duas) que a seguir dou conta, são demasiado fortes para deixar qualquer pessoa indiferente. Senão, vejamos:

A primeira diz respeito à EPUL – Empresa Pública de Urbanização de Lisboa que pagou em Abril passado uma indemnização de 110.081 euros (mais de 22 mil contos) a Albertino Madeira Henriques, gestor de pequenos negócios, para este abandonar os quadros da empresa, onde trabalhava desde 2002 (há três/quatro anos, portanto). Mas, no mês seguinte, pagou-lhe um salário mensal de 7259 euros (1455 contos), correspondente a um contrato de prestação de serviços externos por três anos, pelo exercício das mesmíssimas funções como consultor externo.
De referir, ainda, que esta rescisão, e de mais 15 quadros da empresa, foi negociada e justificou-se porque, segundo a presidente da EPUL, “a empresa estava com o orçamento excessivamente pesado”.

Pergunto: e só viram isso três anos depois de terem contratado todos esses senhores? Que raio de gestão é essa?


A outra história tem a ver com membros de conselhos de administração de 89 hospitais públicos que receberam indevidamente mais de meio milhão de euros, um montante que daria para construir um centro de saúde de grandes dimensões.
Esta verba foi utilizada para comprar viaturas de cilindrada não permitida por lei, para pagamento de hotéis e viagens de férias particulares e para despesas de representação excessivas, sendo que, relativamente a estas últimas, eram recebidas não nos 12 meses, como a lei também determina, mas em 14 meses.
Depois da auditoria que descobriu estas fraudes (o sistema de controlo interno dos hospitais mostrou-se ineficaz para detectar, em tempo, os problemas) muitos dos gestores já devolveram o dinheiro recebido indevidamente. Só um deles devolveu 19 mil euros, mais de 3 três mil e oitocentos contos.
Mas, e apesar de tudo, dez desses senhores, recusam-se a obedecer à lei. Feitios …

E o escândalo continua no reino dos hospitais quando se sabe que muitos médicos recebem de horas extraordinárias, em média, 300% da sua remuneração-base, chegando alguns a atingir 755%.

Para quem não saiba, de acordo com a lei em vigor, os funcionários hospitalares, médicos incluídos, não devem receber remunerações relativas a extraordinários superiores a 1/3 do ordenado mensal.

Assim sendo, pergunto:

- Se as leis existem porque não se cumprem?
- O que é acontece àqueles que prevaricam?
- Existem ou não sistemas de controlo interno? E, existindo, funcionam?

É que, meus senhores, estamos uma vez mais a falar de dinheiros públicos. Do nosso dinheiro.

A continuarmos com todo este descontrolo, corremos bem o risco de um dia destes, um auditor perguntar a um responsável a que é que se refere determinado custo, e ele responder que corresponde ao pagamento de salários de uns quantos empregados de determinado serviço que está instalado no 13º. Piso e o auditor confirmar que não existe o tal serviço, nem os empregados e nem sequer existe um 13º. Piso.

Acho que, desta vez, não é preciso agarrarem-me. Mas que continuo a "passar-me", disso não tenho dúvida.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Impaciências

Apesar da minha curta experiência como escrevinhador de blogues, já aprendi que, de uma maneira geral, as pessoas não têm lá muita pachorra para ler textos extensos. Provavelmente a dimensão das prosas é inibidora e, daí, vá de procurar coisas mais simples, que se leiam mais rapidamente.

Mas, como perceberão mesmo os leitores mais apressados, se há assuntos que podem ser tratados num texto curto, outros há em que é necessária uma exposição mais longa. E, depois, um texto grande não é necessariamente chato, em muitos casos pode até ser bem interessante. Tudo depende do tema e da pena mais ou menos inspirada do autor.

Ler a obra de um clássico através de um resumo, pode ser mais fácil, mas, com toda a franqueza, parece-me ser um pouco redutor e, de certeza, muito menos estimulante. Dessa leitura poder-se-á ficar com uma vaga ideia, mas não se chegará, certamente, à alma do autor.

Daí que, de vez em quando, haja a necessidade de estender o texto. Em certos assuntos, poucas palavras poderão não ser suficientes.

Está entendido?

domingo, setembro 25, 2005

Pura Sedução


Naquela manhã, ao acordar, alguma coisa me sussurrava ao ouvido que aquele iria ser um dia muito especial. E a sensação foi de tal modo forte que pensei ter chegado o momento exacto para, enfim, dar asas aos meus sonhos mais profundos. Queria tentar novas experiências.
Decidi, pois, lançar-me à aventura, na exploração de alguma coisa que me pudesse dar um novo sentido à vida.

Foi então que, ao abrir a porta, melhor dizendo, ao abrir a porta da vitrina, tive um baque, como se algo tivesse sido atirado violentamente contra mim.
Fiquei assarapantado, estático mesmo, quando dei de caras com aquele naco de prosa empolgante. Senti ali sensibilidade, senti poesia.

No rótulo da embalagem de congelados podia ler-se:

“as nossas empadas diferenciam-se pela delicadeza da massa folhada e subtileza do recheio. Preparadas com ingredientes naturais e capazes de seduzir os mais exigentes”

Aturdido, peguei em três caixas e corri, como louco, para casa.

Ansioso, coloquei as empadas no forno.
Emocionado, tentei absorver a delicadeza da massa e a subtileza do recheio. Depois, deixei-me seduzir, seduzir, seduzir

quinta-feira, setembro 22, 2005

Nossa Senhora de Fátima

Independentemente da senhora ser ou não culpada, esta história do “caso Felgueiras” incomoda-me. E sabem porquê? Em primeiro lugar porque, na minha opinião, uma pessoa que é acusada de 23 crimes e teima em candidatar-se a um cargo público, parece revelar, no mínimo, uma grande falta de sentido político e uma enorme ausência de ética.

Recordo, a propósito, que há uns anos um senhor que tinha sido ministro e era, na altura, figura destacada de uma representação diplomática no estrangeiro, por causa de um deslize de um filho seu, pediu imediatamente a exoneração do cargo.
Há bem menos tempo, o então ministro António Vitorino, também saiu do governo porque não tinha pago uma verba irrisória relativa à sisa de uma casa que comprara.
Estes dois casos demonstram bem a lisura de carácter de ambos, em situações relativamente às quais não foram sequer acusados. Aliás, no primeiro caso, o erro não foi cometido pelo político mas sim pelo seu filho.

Repito, a senhora pode vir a ser considerada inocente de todos aqueles crimes de que é acusada, mas nunca deveria – antes de tudo estar esclarecido – ser candidata à Câmara de Felgueiras.
Aliás, o mesmo se passa relativamente a outros candidatos a presidências de câmara, nomeadamente o Major Valentim Loureiro em Gondomar, Avelino Ferreira Torres em Amarante e Rosa Damasceno em Leiria, que terão ser julgados por aludidas irregularidades, cometidas no âmbito do caso “saco azul”

A outra coisa que me incomoda é o fanatismo patenteado por uma boa parte da população de Felgueiras que, sem estarem minimamente informados do que se passa, cantaram as maiores hossanas à “Deusa Fátima”, a Amiga do Povo.
E que se cuidem aqueles que não manifestam a mesma simpatia pela ex-autarca. Ainda ontem, num dos telejornais, assistiu-se em directo a um cidadão que não comungava a mesma opinião que a multidão presente à porta do Tribunal de Felgueiras e, por um pouco, não era linchado pela populaça.

Mas, incómodo à parte, o que me preocupa deveras é o modo como todo o processo se desenrolou, uma vez que existem factos que foram muito mal contados e que suscitam muitas interrogações.
Fátima Felgueiras fugiu para o Brasil ao saber que ia ser detida e sujeita a prisão preventiva. Como soube, quem lhe disse? Dois anos depois, regressa agora como se nada se tivesse passado, numa conjuntura que lhe é favorável e vendo a pena anteriormente aplicada, ser alterada pela juíza do Tribunal de Felgueiras (não deve ter tido outra alternativa, senão a populaça linchava-a também) para termo de identidade e residência.
Mediática, isto é, com apetência pelas câmaras, voltou candidata. Depois de um dia intenso, apresentou-se, na conferência de Imprensa repleta de cidadãos eufóricos, com um ar rejuvenescido, para dizer "Mostraram-me que Felgueiras precisa de mim".

A sensação com que nós ficamos é que o crime compensa. Ou seja, faz-se uma aldrabice (ou 23), foge-se e, uns tempos depois, regressa-se e é-se aclamado.
Por isso, o descrédito no sistema de justiça vai crescendo, por isso, a descrença nos nossos políticos vai aumentando, por isso, a nossa democracia, vai definhando.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Internacionalização, Glogalização, Mundialização

Mão amiga fez-me chegar um texto que, na minha opinião, todos deveríamos ler com a máxima atenção.

A história – verdadeira, censurada e não publicada – passou-se a 21 de Março deste ano, numa universidade dos Estados Unidos e teve como protagonista o Ministro Brasileiro da Educação, Cristovam Buarque.

Durante o debate, um aluno perguntou ao ministro brasileiro o que pensava sobre a internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência nalguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros).

O jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro.

Esta foi a resposta do Sr. Cristovam Buarque:

“De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também, de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser Internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.
Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!"


O Ministro Cristovam Buarque foi fabuloso. Ainda que de uma forma elegante, ele deu uma grande lição àqueles estudantes americanos. Só espero que eles tenham percebido!

E, quanto a
nós, talvez fosse bom que também pensássemos nas palavras sábias deste humanista.

terça-feira, setembro 20, 2005

A Bandeira

A bandeira portuguesa que foi “plantada” por Santana Lopes no alto do Parque Eduardo VII é deveras imponente. Com os seus 20 metros por 12 e com um mastro de 35 metros, a bandeira “esmaga” qualquer um.

Foi exactamente o que me aconteceu quando passei por lá no último sábado. Passei tão perto, que quase senti o forte ondular da bandeira verde/rubra. Nunca antes tinha visto uma bandeira tão grande. Nunca antes uma bandeira me tinha dominado tanto.

Santana Lopes terá justificado a sua iniciativa da seguinte forma:

é uma manifestação de confiança no futuro de Portugal e exalta as virtudes do são patriotismo

Pode ser que sim. A bandeira pode, efectivamente, levantar a auto-estima dos portugueses mas, conhecendo já o ex-primeiro ministro de “outros carnavais”, é legítimo que nos surja a dúvida se esta não será, apenas, mais uma obra para Santana continuar a estar na ribalta, agora que saiu da presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

A propósito, a imprensa fez já constar que nos partidos da oposição, corre a piada de que Santana Lopes começou por concorrer para o Guiness dos primeiros-ministros com menos tempo em exercício, mas acabou nos recordes das bandeiras.

Seja como for, acho interessante a ideia. A partir da Avenida da Liberdade, do Marquês de Pombal ou do próprio Parque Eduardo VII, podemos apreciar o “monumento do Santana” a flutuar ao vento lá no alto.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Esquecimentos

A Barragem da Sobrena, na zona do Cadaval está pronta desde 1996. Era uma infra-estrutura considerada vital para toda a região como apoio à agricultura, de uma forma geral e, mais em particular, aos inúmeros pomares por ali existentes.
Repito, a barragem foi concluída em 1996. Só que nunca foi utilizada porque alguém se esqueceu de construir alguns dos canais necessários para abastecer a barragem.
Na época foram investidos dois milhões de euros.
Não muito longe, na zona do Bombarral, terra de uvas e de vinhos, da pera rocha e da boa maçã reineta, foi construída há uns anos, uma piscina municipal.
A obra, de real interesse público, deixou muito entusiasmados os munícipes. Só que, alguém se esqueceu que a piscina só podia funcionar se tivesse água. E, as ligações para o efeito, não tinham sido construídas.
Parece mentira, mas são esquecimentos como estes que, às vezes, nos fazem desabafar:
“Isto só em Portugal

quinta-feira, setembro 15, 2005

Um príncipe inteligente

Esteve esta semana em Portugal para falar de cultura, o príncipe Khalid al-Faisal bin Abdul Aziz al-Saud, filho do falecido rei Faisal e sobrinho do rei Abdallah, da Aráubia Saudita.
O príncipe Khalid, de 65 anos, é um dos mais importantes embaixadores da cultura árabe, tendo publicado vários livros e participado em diversas exposições em todo o mundo. “Culto”, “sensível” e “afável” são os adjectivos mais utilizados para o descrever, por aqueles que com ele privam.
O príncipe é dono de uma enorme fortuna mas, dizem, é uma pessoa simples.
Pois apesar de ser considerado um homem simples, chegou a Lisboa num Boeing 777, alugado à ‘Saudi Arabia Airlines’, que longe de ser um avião comum, é um autêntico apartamento de luxo, com sala de jantar e suite, decorado a verde, cor da Arábia Saudita.
E muito mais simples se mostrou ao ficar hospedado no Hotel Ritz, onde reservou os últimos quatro andares para a sua comitiva e onde pagou 3550 euros por cada noite da suite presidencial que ocupou durante uma semana.
Mas, simplicidade à parte, a verdade é que o príncipe Khalid mostrou ser, para além de culto, sensível e afável, um homem muito inteligente. Senão vejamos:
- É casado com uma só mulher, contrariando a tradição muçulmana; e
- Regressou a casa com uma camisola do Benfica autografada por Eusébio.

quarta-feira, setembro 14, 2005

E depois, o dinheiro é vosso?

Para desmobilizar uma manifestação de militares que estava marcada para ontem à tarde, parece que o Estado-Maior da Armada mandou dar banho aos navios (com as respectivas guarnições) e fez sair em missão para o mar – logo ao fim da manhã - o navio de transporte ‘Berrio’, as fragatas ‘Sacadura Cabral, e ‘Vasco da Gama, além de várias corvetas, algumas das quais, por falta de condições de segurança, não foram além do mar da Palha, no estuário do Tejo.

Ou seja, para que os cerca de mil militares não estivessem presentes na manifestação, o Estado-Maior da Armada decidiu que só havia uma coisa a fazer – mandá-los para o mar e pronto!...

Pronto, não, falta dizer que com esta movimentação gastaram-se milhares de contos. O que, na verdade, não interessa nada. O dinheiro era vosso, por acaso? Não, não era, o dinheiro era da Marinha, por isso, não é da vossa conta o que eles gastaram e como gastaram!!! …

Devo dizer, no entanto, que não vejo nada de criativo nesta iniciativa das Altas Chefias da Armada.
Aqui há uns tempos, tive um procedimento exactamente igual. Depois de um desaguisado com os meus filhos e para que eles não me azucrinassem (vá lá eu ajudo, apoquentassem) os ouvidos com as suas reivindicações (que, aliás, até eram justas) sabem o que fiz? Comprei-lhes passagem de avião para os “estates”, marquei quartos em hotel de 5 estrelas e dei-lhes cartões de crédito para gastarem à vontade. Eu sei que fui duro com eles mas acabei com o problema de uma vez.
E, perguntam, saiu-me caro? Claro que saiu. E depois, o dinheiro é vosso?

terça-feira, setembro 13, 2005

O turismo no Algarve e a crise da classe média

Há muito que não mergulhava em águas tão agradáveis no Algarve. Não propriamente quentes como outrora mas, ainda assim, bem amenas.
Enfim, “a tradição já não é o que era”. As águas estão mais frias e, até no que respeita às famigeradas “invasões” de pessoas de que tanto nos queixávamos, sobretudo no mês de Agosto, também elas têm vindo a diminuir.
Significa isto que o Algarve deixou de ser um destino de férias interessante?

Não foi bem isso que constatei quando estive por lá, a confirmar, de resto, as diversas reportagens efectuadas pelas televisões e pelos jornais que são unânimes em afirmar que o turismo daquela região vai de vento em popa no que se refere à ocupação dos hotéis, o mesmo não sucedendo, no entanto, no que respeita à utilização dos restaurantes. Ou seja, a rapaziada - portugueses e estrangeiros - continua a querer ir de férias para o Algarve, só que a carteira não dá para tudo. Assim, preferem instalar-se em hotéis mas, quanto à alimentação, procuram soluções mais económicas.
Como dizia um hoteleiro “Muitos turistas sobem para os quartos com sacos de supermercado. Chegam a vir de férias com dois carros, um com a família e outro cheio de comida, geleiras e tudo …”
O que parece querer dizer que os turistas passam menos tempo fora de férias e têm menos dinheiro para gastar.
Mesmo os estrangeiros, de quem costumamos dizer que têm um nível de vida muito superior ao nosso (e têm), mesmo esses, têm cada vez menos dinheiro.
Resumindo, e segundo a notícia do Expresso, mais gente nos hotéis, menos nos restaurantes e mais, muito mais, nos supermercados. Há quem diga que este é o Verão do Lidl, do Marrachinho e do Alisuper.

Claro está que os hotéis de cinco estrelas e restaurantes de luxo nem sequer ouviram falar da tal crise. Por exemplo, a gerente de um hotel em Vale de Lobo chega a recusar clientes no verão, num estabelecimento que tem diárias que vão dos 350 aos 800 euros. E, pasme-se, há famílias que ocupam quatro e cinco quartos.
O que quer dizer que só existe crise onde há classe média.

Apesar de tudo, a tão badalada crise para os restaurantes, não é assim tão visível como isso. A contrariar o que dizem os responsáveis da restauração, constatei que, por exemplo, os restaurantes da agradabilíssima zona ribeirinha de Portimão, quer os do chamado “Pátio dos Restaurantes” quer os que estão situados um pouco mais à frente, mesmo junto ao Rio Arade, e principalmente os dois primeiros - a “Casa Bica” e o “U Venâncio” (nome bem engraçado, este) - têm bastante gente quer ao almoço quer ao jantar.

Também quando visitei a “Fatacil – Feira de Artesanato, Turismo, Agricultura, Comércio e Indústria de Lagoa” (uff…) verifiquei que os restaurantes, tascas e tasquinhas estavam permanentemente cheios e com filas de espera, por vezes demorada.

Assim sendo, em que ficamos? Afinal, a classe média sempre está em crise?...

segunda-feira, setembro 12, 2005

Idosos

No passado sábado, dia 10 de Setembro, Maria de Jesus fez 112 anos, o que é verdadeiramente notável. Nascida em 1893, é a mulher mais idosa de Portugal. Parabéns.

Por isso digo – e penso que com toda a propriedade - esta senhora é, de facto, idosa.

É frequente, no entanto, ler ou ouvir notícias na imprensa e nas televisões, que dizem especificamente (e com todas as letras) que uma pessoa de 50 ou mais anos é uma pessoa idosa.
Ainda há dias, ouvi num telejornal
“um idoso foi internado por …”, ao que o jornalista acrescentava “... o homem de 50 anos sofreu um ataque cardíaco …”

Idoso, aos 50 anos?
Numa altura em que a esperança média de vida anda pelos 80 anos?

E, tão mau como isso, é ouvir esses senhores noticiarem factos (sobretudo coisas más, desastres, nomeadamente) acontecidos com pessoas na casa dos sessentas ou setentas, por exemplo:

“foi atropelado na Av. Da Liberdade um sexagenário …”,
ou
“vítima de ataque súbito, uma septuagenária foi transportada por …”

Sexagenários? Septuagenários? As criaturas terão, por acaso, nomes e idades?

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!, como isto me irrita.

E depois digam que sou eu que tenho mau feitio.

domingo, setembro 11, 2005

Quadrilha

Como que para aliviar da tristeza provocada pela derrota do "meu SLB" perante os leões, só a ajuda (e a boa disposição) de uma poesia do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa, que amava Raimundo,
que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili,
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


É deliciosa, não é?

quinta-feira, setembro 08, 2005

Atenção companheiros

Horários longos causam prejuízos à saúde

As actividades profissionais com horários de trabalho superiores a oito horas por dia implicam um risco acrescido de 61 por cento em prejuízos para a saúde dos trabalhadores, revela um estudo realizado nos Estados Unidos.

Os investigadores destacam a crescente evidência científica sobre o facto de horários de trabalho muito longos afectarem de forma negativa a saúde e o bem-estar dos trabalhadores

Estes estudos revelaram uma associação entre a realização frequente de horas extraordinárias e um horário de trabalho superior a oito horas diárias a um aumento do risco de problemas de saúde como a hipertensão, doenças cardiovasculares, fadiga, stress, problemas músculo-esqueléticos e doenças crónicas.


E só agora é que me dizem isto ??????????????????????............

Quero aplaudir

A mãe do presidente norte-americano, Barbara Bush, disse estar convencida de que os indigentes recebidos em Houston (Texas) estão melhor do que antes da passagem do furacão Katrina pelo Luisiana, Mississipi e Alabama

"Quase todos com quem falei dizem-me que se querem mudar para Houston", afirmou, acrescentando de imediato: "E como de qualquer forma muitas das pessoas que estão aqui no estádio são realmente indigentes, então tudo isto não é assim tão mal para eles

Apetece-me dizer

“Há males que vêm por bem”, ou

“Tal mãe, tal filho”

quarta-feira, setembro 07, 2005

Corrente de ar, precisa-se

Eu também acho que o Dr. Mário Soares não deveria concorrer a novo mandato. É necessário que haja – urgentemente - uma lufada de ar fresco no panorama político português. Sinceramente.
Mas, estou fartíssimo de procurar em todo o espectro político, e não consigo arranjar um candidato que seja jovem e, sobretudo, que tenha o perfil para o lugar. Ajudem por favor.

Mensagens

1 - P’ra Maria
Minha Amiga, tanto quanto eu conheça, a palavra “abazurdido” não consta no Dicionário de Língua Portuguesa. Digamos que pertencerá ao idioma “palmês” e que faz parte das expressões que vos transmiti. Pode, por isso, continuar a ficar “abazurdida” sempre que o seu espanto ou a sua perplexidade sejam do tamanho do mundo.
2 - Para os que leram “Resposta a um leitor anónimo ou … porque é que não falamos mais vezes em português?”
Não confundir a minha vontade de não querer empregar, de forma sistemática, os tais “estrangeirismos” com o não utilizar algumas expressões em latim. Não tem nada a ver. Afinal o latim é a língua científica por excelência e é a base do português. Na verdade, utilizo algumas vezes expressões como “mutatis mutandis” (mudando o que deve ser mudado), ou “pró forma” (pela forma) ou, ainda, "ex aequo" (com igual mérito). Mas, para ser sincero, a que mais gosto de usar é a “e pluribus unum” (o Benfica é o maior do Mundo … e arredores)

domingo, setembro 04, 2005

“Estou a passar-me …”

Correspondendo, de certo modo, ao desejo manifestado pelo Skinnypt, gostaria hoje de abordar um tema que mais tem que ver com “demónios” do que com os “deuses” (com letra pequena), invocados pelo nosso amigo. E faço-o de uma forma que nada tem de filosófica, pelo contrário, procuro ser o mais terra a terra possível.

No dia a dia, toda a gente se vai apercebendo que o oportunismo e a aldrabice se instalaram de vez na nossa sociedade. Infelizmente. A pouco e pouco vão-se conhecendo cada vez mais casos em que a trafulhice e o compadrio andam de mãos dadas. Graça o despudor e a desonestidade. E isso revolta-me. Como deve acontecer com a maioria da população.

Há anos que os diversos governos pedem os maiores sacrifícios aos portugueses, em nome do controlo do défice e do cumprimento do pacto de estabilidade. E a rapaziada amocha e vai fazendo os sacrifícios possíveis e impossíveis e, ingénuo como sempre, espera que as contas do Estado se equilibrem, o país se desenvolva e que, rapidamente, a vida melhore para todos. A começar pela vida do dito povo, claro. Sujeita-se, por isso, a vencimentos reais abaixo da inflação, a congelamento de salários por períodos mais ou menos longos, a acordos com as empresas que prejudicam gravemente as suas condições de trabalho e de vida. Todos os sacrifícios em nome da tal estabilidade e da mais ou menos rápida recuperação da economia. Mesmo assim, quando se fala em pouca produtividade faz-se crer que a culpa é maioritariamente dos trabalhadores, quase nunca de quem gere as empresas. E isto porque não há interesse em referir, que o sector bancário, a Auto Europa ou a Siemens, por exemplo, registam produtividades acima da média europeia dos respectivos sectores, apenas porque as Instituições estão bem organizadas, foram-se preparando para o futuro e estão convenientemente geridas.
Ou seja, o que nos estão a dizer é que, salvo honrosas excepções, as empresas portuguesas são pouco competitivas porque os trabalhadores têm uma produtividade reduzida e ganham salários bem acima do que a economia permite. Por isso, é justo que lhes sejam pedidos (exigidos) sacrifícios atrás de sacrifícios.
Mas, em contraponto e ainda que tímida e pacientemente, o povo espera também ver que no topo da pirâmide também se fazem sacrifícios, pelo menos em percentagem idêntica aos que lhes são exigidos. Como se costuma dizer, o exemplo deve vir de cima. O pior é que esses exemplos não aparecem, e o povo desespera, desespera cada vez mais.

Mas o desespero torna-se revolta quando na primeira página de um jornal (neste caso, o “Expresso” de 16 de Julho de 2005) se pode ler, com todas as letras, uma afirmação do presidente do BPI, Fernando Ulrich:

“a situação é grave e estrutural, mas os portugueses não estão mobilizados nem preocupados com a competitividade, querem é passar mais tempo na praia”.

Isto, depois de defender que:

“os portugueses deviam ter uma redução de 10% nos salários, como forma de ajudar a resolver a má situação das contas públicas. E, quem ganha mais, devia ter uma redução entre 12 e 15%”.

Redução de salários, será que li bem? O que o homem disse foi mesmo que os portugueses têm que ganhar menos? Mas, a que portugueses é que ele se estará a referir? Será ao Dr. Vítor Constâncio ou ao Engº. Mira Amaral? Ou será à grande massa de trabalhadores que mal ganham para comer, ou à generalidade dos reformados e pensionistas cujos proventos quase não chegam para comprar os remédios de que necessitam, quanto mais para o resto.
É que, se a redução dos 10% se aplicar àqueles que têm ordenados ou pensões acima dos dez mil euros (2 mil contos), bem, parece que essas pessoas poderão, ainda assim, sobreviver com menos mil euros (200 contos) por mês. Ainda lhes restam nove mil euros, qualquer coisa como mil e oitocentos contos para “governar a vida”. E, isto, só para os que ganham dez mil euros. E para os (muitos) que ganham acima disso, obviamente que também têm condições para ver baixar os seus proventos.
Mas poderão “governar a vida” (senão de forma satisfatória, pelo menos digna), aqueles cujos rendimentos não ultrapassam os 500 euros (100 contos) e a quem ainda querem tirar 10%? Isto para não falar daqueles (e são tantos) que ganham bastante abaixo dos 500 euros.

Em 2003, segundo o INE, o aumento médio do salário líquido dos portugueses que trabalham por conta de outrem foi de apenas UM euro. Médio, se bem me entendem …
Apesar disso, tudo vai aumentando. Aumentam o desemprego, o petróleo, o dólar, a concorrência dos países do Leste e, em especial da China, o IVA e, atrás dele, quase tudo por arrasto.
Os aumentos anuais (quando os há) raramente cobrem a inflação e o poder de compra é cada vez mais baixo.
E as queixas por este estado de coisas vêm de todos os lados, desde o sector da saúde aos professores, dos empregados do comércio e serviços aos militares e aos polícias e até aos próprios políticos. E vêm, sobretudo, daqueles cujos vencimentos e pensões são tão pequeninos que já não dão sequer para viver.

Mas apesar de todos os problemas das contas públicas e apesar de todos os enormes sacrifícios que o Zé povinho vai sendo obrigado a fazer, continuamos a olhar para as nossas empresas públicas, cujo accionista é maioritária ou totalmente o Estado (nós, portanto) e a observar a quantidade de desmandos que continuam a verificar-se. E não digo isto apenas por dizer, senão vejamos:

Na mesma edição do Expresso, e curiosamente logo acima da douta opinião do Presidente do BPI, vinha publicada uma notícia intitulada “Gastos Milionários na GALP” (como se sabe, uma empresa com capitais públicos), e nela se davam a conhecer enormidades tais (e tantas) que não pude evitar um arrepio de revolta. Por exemplo, casos como a contratação:
- de um cunhado de Morais Sarmento (que foi ministro do PSD de Durão Barroso), que entrou na empresa, negociando uma antiguidade de 17 anos;
- do filho de Miguel Horta e Costa (presidente da PT), que entrou na empresa com 28 anos e um ordenado de 6.600 euros (mais de 1.300 contos);
- de jovens quadros de apelidos sonantes, quase todos ligados, directa ou indirectamente, à política;
- de um engenheiro agrónomo que foi trabalhar para a área financeira por 10.000 euros;
- de um especialista em finanças que foi para o Departamento de Marketing por 9.800 euros;
- de um administrador para uma empresa do grupo, com um único trabalhador efectivo;
- da contratação de um quadro superior muito próximo de António Mexia (ex-ministro das Obras Públicas e Transportes de Santana Lopes), com um ordenado de 8.700 euros, num contrato de vários anos de antiguidade que lhe renderam, dois anos depois quando saiu da Galp, uma indemnização de quase 300 mil euros. De salientar que este quadro entrou para a Galp quando António Mexia assumiu a presidência da empresa e saiu para o sector imobiliário da Refer quando Mexia foi para o governo para a pasta que tutelava (por coincidência) a mesma Refer.

Parece evidente que as sempre invocadas “regras de mercado” não justificam por si só as contratações milionárias acima descritas, como nos querem fazer crer. Trata-se, isso sim, de situações de compadrio e de protecção que, infelizmente, se vão banalizando.

Aliás, virou moda a contratação nas empresas públicas de quadros que negoceiam, à cabeça, anos de antiguidade.
É, também, o que se passa nos CTT (em que o Estado é o accionista único) que tem contratado quadros que, ao entrar, ficam com muitos anos de antiguidade. O que quer dizer que, quando for nomeada uma nova Administração (e sempre que o governo muda de cor, a Administração muda também), esses quadros poderão ser despedidos com direito a chorudas indemnizações.

Aliás, os CTT constituem um exemplar paradigma da má gestão dos dinheiros públicos e da protecção de amigos pessoais e da política. É um escândalo.
Como entender que:
- directores de primeira linha tenham tido um aumento de 2.000 euros (quatrocentos contos)? Repito, um aumento de 2.000 euros.
- a alguns desses mesmos directores tenham sido atribuídos carros novos quando os que estavam ao seu serviço tinham apenas um ano?
- que administradores em fim de mandato tivessem auto-requisitado novos carros, continuando a andar com os que já estavam ao seu serviço para, depois de cessarem as suas funções, levarem com eles os carrinhos (de topo de gama, claro) novinhos e a brilhar?

Mas, voltando ainda ao Expresso de 16 de Julho, destaco uma outra notícia que exemplifica bem os desmandos das nossas empresas públicas, neste caso a “Parques de Sintra Monte da Lua”. Aqui a situação é tão calamitosa que até já houve investigação da Polícia Judiciária. Entre as ilegalidades já detectadas contam-se, por exemplo:
- a fuga aos impostos para cobrir despesas de representação como complemento de salários;
- o compadrio com situações de fraude em concursos públicos e o levantamento de cheques dirigidos a fornecedores por funcionários da empresa, nomeadamente pelo director financeiro;
- a atribuição para si próprio (do mesmo director financeiro), de quatro subsídios de férias, sem a aprovação do conselho de administração;
- o aumento de 20% dos salários do presidente, da esposa deste (também funcionária da empresa) e do (tal) director financeiro, decididos por este último.


Perante estes exemplos que demonstram bem a desonestidade, a má gestão e a falta de controlo das empresas públicas e dos nossos dinheiros, dá vontade de perguntar se os nossos governos acham justo que só os trabalhadores tenham que suportar tantos sacrifícios? Se assim for, é imoral e é obsceno.
Façamos a nossa parte mas dêem-nos, pelo menos, um sinal que não somos só nós a fazer os sacrifícios. Para não desesperarmos e para que o nosso desespero não se torne numa revolta ainda maior.


PS: Já depois de ter acabado de descrever a minha irritação, li na Revista Única do Expresso de 30 de Julho uma pequena notícia, intitulada “Secretária Diligente” que dizia textualmente o seguinte:

“Os CTT têm novos administradores. E, com eles, novas secretárias. Uma das quais não perdeu tempo. Mal se instalou, tratou de pegar no telefone e ligar para todas as colegas da tutela – o das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, de Mário Lino – convidando-as para um repasto no Solar dos Presuntos. Onde, diligentemente, reservou mesa a preceito. Tudo normal, não fosse a conta do dito jantar aparecer na secretária propriamente dita da tesouraria dos CTT”.

Que me dizem a isto?...

Depois de mais esta preciosidade, por favor agarrem-me que “estou a passar-me” …

Resposta a um leitor anónimo ou … porque é que não falamos mais vezes em português?


Noutras circunstâncias, teria dito ao anónimo que fez um comentário à introdução do blogue que não responderia a provocações mas, neste caso, até fui eu que incitei os meus amigos a serem provocadores. Por isso, não posso deixar de responder à sua “provocação inofensiva” para lhe dizer o seguinte:

Eu sei que você sabe que eu sei a quem me estou a dirigir. Digamos que, por um momento, hesitei em identificá-lo mas o texto traiu-o, meu caro. A velha questão entre o imprimir e o “printar” foi sempre um tema que fomos discutindo ao longo do tempo que trabalhámos juntos. Por isso …

De resto, quem me conhece, sabe bem que eu, longe de me considerar um (fanático) purista da nossa língua, que não sou, tento – sempre que possível – utilizar no discurso escrito e falado, não os termos estrangeiros que entraram no nosso dia-a-dia, mas as palavras em português que querem dizer rigorosamente o mesmo. O que não significa que, de quando em quando, eu não caia nessa tentação. E você sabe disso.

Reconheço, no entanto, que em certas áreas, existe uma probabilidade acrescida de se utilizarem os tais estrangeirismos. Como na informática, por exemplo. Termos como o “upgrade” ou o “delete” (e quinhentas mil outras expressões que tais) entraram de tal forma no léxico dos informáticos que é delicioso (e irritante, ao mesmo tempo) ouvir uma conversa entre eles.

A propósito, recordo uma reunião que tive há uns anos com um analista informático. Durante mais de uma hora, tentámos discutir um assunto técnico que deveria ser suportado por uma aplicação. Pois o homem, esquecendo-se que eu não era da sua área de especialização, tratou de arranjar uma argumentação cheia de termos em inglês (termos técnicos banais para quem trabalha naquela área, claro), que atirou em velocidade estonteante e que apenas era sustida por uns recorrentes e interrogativos Ok?. Quando a reunião acabou e saí para a rua, valeu-me a brisa fresca de fim de Outono que me refrescou a cara e as ideias. Devo confessar que em toda a minha vida profissional, nunca me aconteceu coisa semelhante. Saíra daquela reunião e não conseguira entender minimamente as razões apresentadas pelo meu colega informático. Pior, eu nem sequer tinha percebido o que ele dissera. Mas, admito, que o problema foi todo meu. Ok?

Contudo, o que me preocupa mais é que essas mesmas pessoas que empregam esses termos nas suas áreas profissionais – e isto diz respeito a uma panóplia imensa de actividades e não só aos informáticos - acabam por utilizá-los também, na sua vida pessoal.

Digam-me, por exemplo, se há alguma necessidade de informar a agência de viagens, que gostariam de fazer um “upgrade” do hotel inicialmente reservado?

E se o Gerente/Chefe/Director/o que seja, convocar o seu “staff” para um "briefing" ao fim da tarde?

E se alguém nos propuser para irmos fazer compras ao “shopping”?

E quando nomeamos as vantagens ou inconvenientes das empresas de “outsourcing”?

Não haverá forma de dizer a mesmíssima coisa mas … em português?

Penso que deveremos valorizar mais a nossa língua, que é tão rica. De certeza que existirão palavras e expressões portuguesas que poderemos utilizar em substituição dos tais termos estrangeiros. Porém, há que ter cuidado. É que se falarmos (e escrevermos) em português, poderemos correr o risco que essas pessoas cheguem à conclusão de que nós, afinal, não dominamos lá muito bem o assunto que estamos a abordar. Por outro lado, pode acontecer que se falarmos ou escrevermos apenas em português, poderemos dar a ideia a certos “iluminados” de que não estamos muito familiarizados com os termos mais “in” utilizados com frequência por determinadas elites. Afinal, ninguém quer dar parte de fraco, não é verdade?

A terminar, meu caro Anónimo, a minha “printer” ainda não está em condições, muito embora eu tivesse feito um “restart”, seguido do “log off”, como sugeriu.

Disponha sempre.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Uma introdução, para que nos entendamos ...

Nunca como agora se assistiu ao lançamento de tantos livros. Dá a impressão que a exemplo dos fogos que vieram para ficar, também as musas decidiram estabelecer-se por cá para iluminar os nossos candidatos a escritores, independentemente desses candidatos saberem, ou não, escrever. E vá de publicar livros e mais livros, sobre os mais diversos assuntos e de escrevinhar o que quer que seja na net. Acho mesmo, que não há “bicho careta” que se preze, que não tenha o seu próprio blogue. Alguns, de gosto muito duvidoso e muitos outros sem qualquer conteúdo aproveitável. Aliás, os blogues viraram blogomania e quase parece mal - sob pena de parecer não acompanhar as novas tecnologias - não entrar na onda, que é como quem diz, não participar na blogosfera.

Assim, e porque eu nunca gostei de ser menos do que os outros, daria a impressão que rapidamente criaria o meu próprio blogue. Por um lado, para estar na crista da tal onda, por outro, porque até gosto de escrever. Mas não, a verdade é que nunca tinha pensado nisso. Sempre escrevi, é verdade, mas (quase) sempre só para mim. Às vezes, em livros devidamente encadernados, que publiquei para serem lidos apenas por mim, o que, confesso, me dava um certo prazer porque o êxito era absoluto. Um único exemplar de cada livro colocado no “mercado”, era adquirido imediatamente por … mim. Autênticos “best-sellers”.

Até que, e “a pedido de várias famílias …”, como dantes se dizia, fui pressionado a partilhar alguns dos meus textos com algumas pessoas amigas. Devo dizer que, se isto não correr bem, e se o meu futuro como escritor ou jornalista estiver condenado ao fracasso, sei bem a quem me devo dirigir … vocês sabem de quem eu estou a falar (agora, até parecia o Octávio Machado …).

Acabei, então, por criar este blogue. Escreverei nele até que me apeteça e sempre que me der na gana, ou quando houver assuntos que, na minha perspectiva, o justifiquem. Neste arranque, não sei, ainda, que rumo vou seguir mas, penso que os meus textos poderão vir a ser, essencialmente, constituídos por opiniões pessoais, relatos, desabafos, estados de alma, quem sabe se por respostas a “provocações” que os meus amigos leitores me queiram fazer. Aproveito, pois, para convidá-los a participar nesta minha aventura, através dos vossos comentários. Leiam, comentem, imprimam e divulguem os textos, se assim o entenderem.

Sejam bem-vindos ao “Por Linhas Tortas