segunda-feira, março 30, 2015

"A última bilha de gás durou dois meses e três dias"


Herberto Hélder de Oliveira (1930 - 2015) foi um poeta português, considerado o maior da segunda metade do século XX.

De Herberto Helder, "a última bilha de gás durou dois meses e três dias"


a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

sexta-feira, março 20, 2015

O meu "Dia do Pai"



Aproveitando a efeméride do "Dia Internacional da Felicidade", que se comemora hoje, quero dizer-vos como fiquei feliz ontem, "Dia do Pai". Para além do presente que os meus dois filhos me deram, eles também ofereceram um cartãozinho encantador que dizia a começar:


O meu pai é o melhor do mundo,
é muito educado e inteligente,
sabe de tudo um pouco
e também é o mais valente.


e por aí fora, e por aí fora ...

tudo feito - letra e traço - com a candura de duas crianças de pouca idade. Adorei o conjunto mas o desenho do "pai gigante", maior que a casa e que a árvore e o pormenor do "pai tem um carro" (na gravura acima) são maravilhosos. Ah, e falta referir, porque é importante, a filha tem 43 anos e o filho 36.

Tenho razões para ser um Pai baboso. Muito Obrigado, meus filhos. Pelo presente, pela imaginação e pelo Amor que sempre me dedicam.

quinta-feira, março 19, 2015

As listas VIP ...



Na minha crónica de ontem escrevi sobre a confiança (ou da falta dela) dos cidadãos nas Instituições, nos Governos e nos órgãos de decisão. Pois bem, tenho que voltar ao assunto a propósito da tão badalada "Lista VIP de contribuintes".

Depois de semanas de notícias que ora confirmavam ora desmentiam a existência da tal lista (ou de um projecto de lista) e, mais recentemente, de que ela de facto existia mas que o Governo e a Autoridade Tributária não tinham qualquer responsabilidade na sua elaboração, caiu que nem uma bomba as demissões do Director-Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira e do Subdiretor-Geral da Justiça Tributária e Aduaneira. Não se sabem as razões que os levaram a tomar essa atitude mas ninguém acredita que se trate de uma precipitação. "Houve procedimentos internos e propostas no âmbito da Autoridade Tributária nesta matéria" ouve-se em surdina nos corredores, mas todos enjeitam que tivessem alguma coisa a ver com o facto.


Chega. Estamos fartos de tantas confusões. Ninguém aprovou e nem ninguém decidiu mas a verdade é que a lista parece existir. Mas, ainda que tivesse vindo do além, o que nos deve preocupar é para que efeito a lista foi pensada. E também queremos saber quem é que tem acesso aos registos dos contribuintes e se o acesso desses funcionários está devidamente autorizado e fica registado.

O que está em causa é a confiança no sistema fiscal português. Não pode haver contribuintes VIP ou contribuintes de segunda, com procedimentos distintos para cada um. As fragilidades (que se comprova existirem) do nosso sistema fiscal têm que ser corrigidas. Vamos esperar por novos desenvolvimentos e, eventualmente, por novas demissões. A "teia" parece estar ainda muito emaranhada.

quarta-feira, março 18, 2015

Coincidências?



Sabe-se que a confiança dos cidadãos nas Instituições, nos Governos e nos órgãos de decisão traduz-se em democracias mais fortes e saudáveis. Como acontece, reconhecidamente, nos países do norte da Europa. Cá no nosso cantinho, pelo contrário, a crescente abstenção às eleições (sejam elas para o que forem) e a crença generalizada que os políticos e os partidos são todos iguais, demonstram a fragilidade da nossa democracia.

Porém, às vezes, vê-se brilhar uma luzinha de esperança e ficamos com a sensação de que, afinal, nem tudo está perdido. Foi essa a convicção com que eu (e muitos mais, certamente) ficámos quando foi criada a "Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP)" destinada a escolher os melhores dirigentes para o Estado. Pensámos, então, que os "boys" e os amigalhaços do costume jamais ascenderiam a lugares de topo porque, "a partir de agora, doravante e p'ro futuro", a selecção de candidatos seria pautada pelo rigor, isenção e competência para os cargos. Enganei-me, quero dizer, enganámo-nos.

Segundo o jornal "Público", desde que a Comissão foi criada foram apresentadas às diferentes tutelas 339 propostas. Coincidência, ou não, das que foram rejeitadas registou-se um ponto comum: quase todos os candidatos têm uma ligação ao Partido Socialista. Curiosamente, de todos os três melhores classificados em cada concurso, o Governo escolheu maioritariamente o candidato que está próximo ou filiado no PSD e no CDS. Como é bem patente nas últimas 14 nomeações para as direcções dos centros distritais da Segurança Social em que todos os escolhidos tinham (por mero acaso) um cartão de militante dos partidos que estão actualmente no poder.

"Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay". E o que parecia ser um bom princípio para a administração, nomeadamente no que à transparência e competência dizem respeito, manifestou-se uma completa intrujice. Depois queixem-se que os portugueses estão completamente alheados da política. Pudera ...


segunda-feira, março 16, 2015

Os troca-tintas



Ainda não há muito o Governo incitava aqueles que não conseguiam encontrar emprego em Portugal a sair da sua zona de conforto e a emigrar. Ideia, aliás, que foi reforçada várias vezes, chegando até a relativizar-se os efeitos negativos da ida de portugueses para o estrangeiro.

Contudo, na semana passada, ouvimos outro discurso bem diferente. Na quinta-feira, foi aprovado em Conselho de Ministros o Plano Estratégico para as Migrações 2020, com o intuito de estimular o regresso de emigrantes a Portugal. Uma contradição ou uma mudança de estratégia? Nada disso, segundo a explicação esfarrapada de um elemento do actual executivo "quando as pessoas saem do país - seja em mobilidade estudantil ou profissional, de forma livre ou forçada -, o que precisam é de condições para poder voltar. A mobilidade é positiva, mas não é apenas sair. Também é poder regressar". Tretas!

E qual é (qual vai ser) o fabuloso plano que irá ser posto em prática para fazer regressar os portugueses? De entre as medidas que estão previstas no tal Plano Estratégico, destaca-se o programa VEM - Valorização do Empreendedorismo Emigrante (bolas, que já não posso com a palavra empreendedorismo ...), que procura apoiar o regresso dos emigrantes através da possibilidade de estes concorrerem a projectos de criação do próprio emprego ou empresa. E será que vai ser acessível a todos os que queiram voltar à Pátria? Não, numa primeira fase, serão apoiados 40 ou 50 projectos que serão apreciados (com que critérios, ninguém sabe ainda) e consta que a cada um dos seleccionados será atribuída a fantástica verba de dez mil euros que - seguramente - será mais do que suficiente para se montar qualquer negócio. É só uma questão dos tais "empreendedores" serem criativos.

Resumindo, no início o Governo disse vai, agora diz vem. Ou seja, um vaivém de políticas contraditórias "pensadas" por governantes inconsequentes. No fundo, uns troca-tintas em que já poucos confiam.


sexta-feira, março 13, 2015

"Canção", de António Botto


De António Botto (1897 - 1959), grande poeta e dramaturgo português, um dos mais originais e polémicos do seu tempo, "Canção".


"Canção"

Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!

O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojo, tem rasgos
De luxúria provocante.

Avanço. Procuro olhá-lo
Mais de perto... A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso...


Anda nu - saltando e indo,
E sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.

Procuro olhá-lo; - e os seus olhos
Amedrontados, recusam
Fixar os meus... - Entristeço...

Mas nesse olhar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço...

quarta-feira, março 11, 2015

Uma penhora (muito) ridícula ...



Há muito que se sabe que certas situações só se resolvem quando são divulgadas pela comunicação social. Basta serem escarrapachadas nas páginas dos jornais ou nas televisões e, como num passe de mágica, logo se arranja uma solução. Exactamente o que aconteceu há dias com a penhora feita pelas Finanças a uma Instituição de Solidariedade Social do Porto, a qual só foi levantada quando o caso veio a público.

E não era para menos, convenhamos. O "Coração da Cidade" é uma IPSS do Porto que ajuda diariamente 600 famílias (cerca de 2300 pessoas) carenciadas, distribuindo 2500 quilos de alimentos, alimentos esses que lhes são doados por hipermercados. Pois bem, a Instituição "teve o descaramento" de passar por umas quantas portagens de umas ex-Scuts sem pagar e isso foi o suficiente para a autoridade tributária decidir penhorar alimentos que tinham sido doados. De repente, ficaram sem pão, fruta, hortaliças, massas, arroz e leite que, por acaso ou por ironia do destino, até já tinham sido distribuídos. Nem mais, quem não paga (as ex-Scuts) arrisca-se a ficar sem os bens, ainda que os mesmos sejam alimentares e não sejam propriedade do "prevaricador".

E aqui, para além do caricato da situação e do facto de - ao que dizem - as coimas em questão já terem sido regularizadas, não posso deixar de colocar duas questões: 1 - Que coisa é esta de penhorar bens alimentares, o que, em princípio, são bens impenhoráveis e, ainda por cima, que tinham sido doados? 2 - E porque carga de água as IPSS - muitas delas (como esta) funcionam apenas com trabalho voluntário, com escassos recursos e sem apoio do Estado - estão sujeitas ao pagamento deste tipo de despesas? E, já agora, nestes casos, não seria possível arranjar uns descontos no preço dos combustíveis?

Ainda por cima - por descontrolo, organização deficiente ou má-fé - o Estado actua (de forma cega) contra uma Instituição de apoio social que, no limite, está a prestar os serviços que deveriam ser da responsabilidade do próprio Estado. Enfim, o levantamento da referida penhora já foi efectuado mas só depois da imprensa ter aparecido e após a confirmação de que a mercadoria em causa se destinava à realização do fim de utilidade pública.

Como li algures "quando colocamos sistemas informáticos a fazer as penhoras, ao invés de funcionários, dá nisto" ...

segunda-feira, março 09, 2015

Carta aos meus Filhos ...



Nem sempre a voz da experiência (embora ela seja lembrada amiúde como a da sabedoria suprema) se revela a mais correcta. Contudo, nós, como pais, tentámos ao longo dos tempos transmitir-vos valores que achámos serem fundamentais como a honestidade, a verticalidade e o respeito pelos outros. Anos e anos a dizer-vos das nossas convicções e como elas nos guiaram pela vida, lutando pela liberdade e por esse conjunto de valores. Uma educação dada não por cartilha mas pelo exemplo. E - por virtude nossa ou pela vossa inteligência - vimo-los crescer e tornarem-se pessoas de bem.
Porém, lamento dizê-lo, já não tenho tantas certezas. E digo-vos porquê.

Recordam-se quando ambos conseguiram trabalho (temporário e a recibos verdes), como foi difícil percebermos os tortuosos enredos das leis de então, nomeadamente as que à Segurança Social diziam respeito? Pois nunca nos deixámos esmorecer pela (defendida por muitos) ignorância ou má interpretação dessas leis, que nos levariam ao seu incumprimento e, mais tarde, às sanções nelas estabelecidas. Com muita persistência (e com muito cansaço também) calcorreámos os balcões da Segurança Social e das Repartições de Finanças onde fazíamos milhentas perguntas e procurávamos as explicações - tantas vezes contraditórias - para não falharmos. As leis (pese embora as diversas interpretações que delas se façam) são para se cumprir. E ninguém deveria ser excepção à regra.

Mas nem sempre é assim. O caso muito falado nos últimos dias de um cidadão que, por acaso, também é o actual Primeiro-Ministro do nosso país, demonstra inequivocamente como indivíduos que deviam estar bem informados sobre as obrigações que cabem a qualquer cidadão são com frequência incumpridas. Custa-me entender como é que certas pessoas desconhecem (?) que as contribuições para a Segurança Social são obrigatórias. Será que pensam um dia reformar-se sem ter que fazer descontos?

É verdade que Passos Coelho até veio a pagar uma dívida (que até já estava prescrita) depois de um jornalista "chato" ter começado a investigar o homem. É verdade que Passos já veio a público dizer (em tom aparentemente humilde que até dava dó ... ou raiva) que não é um cidadão perfeito, que teve algumas vezes falta de memória, outras, simplesmente, falta de dinheiro (coisa que dificilmente acontece a qualquer outro cidadão). É verdade que ele entregou declarações e pagamentos fora de prazo. E é quase certo que Passos ainda tem dívidas a regularizar com a Segurança Social.

Mas Passos Coelho não é um contribuinte qualquer, é Primeiro-Ministro e foi deputado. E o exemplo que deu aos seus concidadãos (a que se juntam outras trapalhadas ainda mal explicadas como os casos da Tecnoforma e do Centro Português para a Cooperação) são inadmissíveis, especialmente vindos de alguém que tem exigido tamanhos esforços aos portugueses. Dois pesos e duas medidas?

Apesar de tudo, e sabendo como é difícil manter uma coluna vertebral direita neste país de esquemas e habilidades, continuamos a acreditar que a ética, a seriedade e o trabalho valem a pena. E por sabermos que também pensam desta forma, queremos manifestar, queridos filhos, o nosso grande orgulho em vós.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Os "novos" sacos de plástico ...



Sabíamos de há muito que a ideia mirabolante de pôr os portugueses a pagar 10 cêntimos por cada saco de plástico - para além de aspectos ambientais que se compreendiam - tinha sido arquitectada, fundamentalmente, para sacar mais umas massas à rapaziada. Estimou-se na altura que à volta de 40 milhões de euros. Ao fim e ao cabo mais um imposto, rotulado simpaticamente de "fiscalidade verde".

Mas, azar dos Távoras, depois de uma data de estudos que se fizeram sobre o assunto, o que as cabecinhas pensadoras não conseguiram atingir é que os privados, nomeadamente as grandes superfícies, deram sumiço aos sacos tradicionais e "inventaram" uns outros sacos (também de plástico) mais resistentes e maiores, que evitam o imposto e ... vendem-nos aos clientes. Ou seja, lá se foram os 40 milhões que o Fisco pensava arrecadar e aumentou o lucro dos empresários. Uma jogada de antecipação que destruiu o encaixe previsto.

E não fosse uma dor lombar com que fiquei por ter pegado em sacos enormes e pesados (antes o esforço físico era repartido por vários sacos), eu estaria ainda a rir da partida que os privados pregaram ao Estado. É que a medida aprovada, pouco ou nada tinha a ver com a defesa do ambiente. Queriam apenas mais dinheiro. Não foi desta mas, cuidado, eles não desistem ...

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Mais um "tiro" ao lado ...



Se bem que Cavaco Silva já nos tenha habituado a situações pouco comuns (chamemos-lhes assim) - e lembro, por exemplo, um indulto que concedeu há anos a um proprietário de discotecas de Évora, ignorando que, afinal, o homem era procurado pelas autoridades policiais portuguesas e estrangeiras - achei muito curioso o facto do nosso Presidente condecorar o ex-autarca de Murça, precisamente no dia em que se soube que o Tribunal de Contas decidiu não homologar (por terem sido ultrapassados os limites legais de endividamento) as contas de 2008, 2009 e 2010 do município a que presidia então o agora comendador. Ainda que as multas já tenham sido pagas.

Realmente não passa pela cabeça das pessoas que uma condecoração seja atribuída como prémio pela má gestão de um autarca. Foi mais um "tiro" ao lado do Presidente. Parece não restarem dúvidas que Cavaco anda a precisar urgentemente de assessores mais atentos e competentes.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

E agora, Passos?



No mínimo, o que qualquer português gostaria de saber é qual vai ser a reacção do Primeiro-Ministro depois do Presidente da Comissão Europeia ter admitido que a troika beliscou a dignidade dos portugueses.


"Pecámos contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, Portugal e, muitas vezes, da Irlanda também". As palavras Jean-Claude Juncker soaram como um trovão e puseram em causa não só a actuação da troika como a anterior Comissão Europeia, liderada por Durão Barroso, de confiar “cegamente” nela. Aliás Juncker admitiu que a troika nem sequer tem legitimidade democrática.

Já se adivinhava que depois da vitória do Syriza na Grécia a Europa jamais seria a mesma. E aí está o desabafo do Presidente da Comissão Europeia a confirmá-lo. Mas, claro está, o Governo português, através do seu porta-voz, o Ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares, Marques Guedes, já reagiu, afirmando que considera infelizes as declarações de Juncker: "Nunca a dignidade dos portugueses foi beliscada"". A sério?

Pois os cidadãos acham (e têm sentido na pele) que essa identidade (cumplicidade) estranha entre o Governo português e a troika e as "medidas virtuosas" que a troika quis implementar em Portugal e mais aquelas que o nosso obediente governo entendeu acrescentar lhes roubaram a possibilidade de viver com a dignidade que merecemos. Retirada, aliás, com uma receita (à base de "reformas" assentes em mais impostos e cortes) que muitos já adivinhavam não ir dar bons resultados.

O mea-culpa de Juncker veio tarde mas chegou. Mas nem mesmo assim o Governo português é capaz de reconhecer que as políticas europeias foram demasiado duras e injustas para os cidadãos. O PSD apenas se desculpou com "as metas e objectivos terem sido manifestamente desajustados porque tinham sido mal negociados de início (culpa exclusiva do PS, segundo dizem) e o CDS - de forma hipócrita, convenhamos - afirmou "Aquilo que o senhor Juncker disse foi aquilo que o CDS ao longo dos tempos, de uma forma mais ou menos explícita, foi alertando, um governo de protectorado é um vexame".

A declaração pública e clara de Jean-Claude Juncker não foi suficiente para o "bom aluno" dar o braço a torcer. Vá lá, Passos, a sério, o que é que tens para nos dizer?

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

"Vamos supor"



Como diria uma amiga minha "é chato" fazer comentários sobre uma ficção ou sobre especulações (ficcionadas ou não). Ainda assim, não resisto à tentação de lembrar o artigo escrito na revista oficial da Ordem dos Advogados pela advogada de defesa de dois dos implicados no caso Sócrates, sob o título (sugestivo, por sinal) "Vamos supor".

Paula Lourenço, a dita advogada, sem referir os nomes dos seus clientes (um empresário e um advogado), dizia nomeadamente:

“Suponhamos agora que os cidadãos chegam ao aeroporto num voo proveniente de Paris, pelas 18h, que são presos sem mais, sem que lhes seja entregue um mandado de detenção, que lhes são retirados os telemóveis das mãos para que não possam fazer qualquer contacto, revistados e apreendidos todos os documentos que transportavam consigo sem que igualmente houvesse um mandado para o efeito” ...

“Suponhamos agora que por não ter sido entregue o mandado de detenção nem feita a constituição do arguido, nem garantida a presença do advogado, as buscas que continuaram na casa de um dos putativos detidos são complementadas com “interrogatório” de várias horas ao seu cônjuge” ...

“Suponhamos agora que, movidos pelo poder desmedido e adrenalina circundante (…) “agarram”, literalmente, no advogado, o levam para a sua própria casa e aí fazem busca não autorizada, apreendem documentação vária na presença da mulher, filho de cinco anos e bebé com dois meses que assistem horrorizados à violência com que despejam gavetas e lhes circulam (…) pela casa.” ...

“Suponhamos agora coisas descabidas: suponhamos que os arguidos, durante os cinco dias que duraram as diligências do primeiro interrogatório (…) não tiveram sequer direito a tomar banho, a mudar de roupa, a apresentar-se condignamente perante o juiz que os vai interrogar” ...

A serem verdadeiras as conjecturas - e agora sem "vamos supor", "suponhamos" ou "supônhamos" - parece que a "justiça" é bem capaz de andar a violar princípios básicos do Estado de Direito.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Uma explicação reconfortante ...



Há dias um amigo mandou-me uma mensagem com uma informação que me deixou muito mais tranquilo. Dizia ele:

"Afinal, os cérebros das pessoas mais velhas são lentos só porque elas sabem muito.
As pessoas não declinam mentalmente com a idade. Os cientistas acreditam que elas apenas têm mesmo mais tempo para recordar factos e acumulam muito mais informações nos seus cérebros. Exactamente como acontece nos discos rígidos dos computadores quando ficam cheios, dificultando assim o tempo de acesso às informações pretendidas.
Resumindo, e segundo os investigadores, esta desaceleração não é o mesmo que o declínio cognitivo. O cérebro humano funciona mais lentamente na velhice porque temos armazenadas mais informações".

É uma explicação reconfortante, admito. E, como se costuma dizer, "Se non è vero, è ben trovato."

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

"Vivá" liberdade



Ao certo não se sabe bem o que é (e o que significa) a liberdade. A definição que mais comummente se ouve é aquela que diz: "a Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa. É a sensação de estar livre e não depender de ninguém. Liberdade é também um conjunto de ideias liberais e dos direitos de cada cidadão". Mas isto, sendo verdade, não passa de uma teoria que nem sempre tem aplicação prática. Se não vejamos ...

Então não é que um senador norte-americano defende que os trabalhadores da restauração devem ter a liberdade de não lavarem as mãos quando em serviço. Segundo ele: "Deixemos a indústria ou negócio decidir, desde que eles divulguem essa decisão... desde que essas empresas assumam publicamente que não exigem aos seus empregados que lavem as mãos depois de usar a casa de banho. O mercado tratará disso", sugeriu.

Era o que mais faltava, deixar ao cuidado dos mercados uma situação de saúde pública, que é disso que se trata. Tanto mais que temos más experiências quanto a essa questão dos mercados. Liberdade sim, naturalmente, mas quando estamos a falar de higiene em trabalhadores de cafés e restaurantes talvez seja melhor não exagerarmos ...



terça-feira, fevereiro 10, 2015

"A bem da Nação"



Há quem diga que Yanis Varoufakis, o novo Ministro das Finanças do recém-empossado governo grego, é o "homem do momento". E tanto assim é que - apesar das dificuldades que enfrenta para tentar tirar a Grécia da situação complicadíssima que atravessa - ele, pela sua personalidade, pelo modo como veste e pelo seu olhar firme e enigmático, consegue cativar. É popular e simpático. Inegavelmente, Varoufakis tem carisma, o que pode não ser suficiente.

Mas Yanis Varoufakis rejeita transformar-se num político ... que é uma coisa que eu não percebo lá muito bem como vai conseguir. A não ser que nem ele próprio confie na classe política, o que, convenhamos, até é capaz de ter alguma razão.

Porém, como lembrava Henrique Monteiro no último número do semanário Expresso, também Salazar e Cavaco Silva diziam não querer ser políticos e o primeiro esteve lá 40 anos e o actual Presidente da República já vai fazer 20. Para quem não queria ...

Pode ser que, mesmo não sendo político, o espírito de missão de Varoufakis - "apenas" o economista - seja o de salvar a Grécia. "A bem da Nação".



sexta-feira, fevereiro 06, 2015

"As Sem Razões do Amor"



de Carlos Drummond de Andrade


"As Sem Razões do Amor"

 

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

A brincar, a brincar, se dizem certas coisas (utilizando peças de "Lego") ...



Nunca fui lá grande artista na montagem de "legos". A bem dizer, o melhor que consegui, juntando as peças multicores que pertenciam aos meus filhos, foi uma torre enorme em que me limitei a encaixar peças sobre peças tentando manter o máximo de equilíbrio para não caírem e umas pontes cheias de design mas que mal se percebiam o que pretendiam ser - apenas pontes. Com os anos fui vendo colecções e exposições de "lego" - e essas sim - eram umas autênticas obras de arte.

Na passada semana, graças à criatividade do deputado do PCP Paulo Sá que recorreu ao famoso jogo infantil da "Lego", pudemos assistir a uma engenhosa argumentação sobre o alegado alívio da carga fiscal (tão propalado pelo Governo) que, afinal, não será sentido pelas famílias.

Paulo Sá, recorrendo "à mais moderna técnica pedagógica" (nas suas palavras), manipulou as peças, pôs e tirou blocos de várias cores (todas elas tinham um significado) de forma a demonstrar que, nos "finalmentes", os portugueses vão ter que pagar em 2015 os mesmos impostos que já pagavam, se não mais.

Foi um momento original a que nem a própria Ministra das Finanças conseguiu resistir. Se quiserem recordar essa brilhante e insólita argumentação podem aceder ao seguinte endereço:


terça-feira, fevereiro 03, 2015

Sem gravata ...



Independentemente do que possa vir a acontecer na Grécia, depois da histórica vitória da coligação de esquerda radical Syriza, liderada por Alexis Tsipras, nas eleições legislativas da semana passada - se o Syriza vai ou não cumprir os acordos celebrados com a troika ou se vai ou não sair da União Europeia, do Euro ou da NATO - o que o Governo Grego nos mostrou é que existem outras maneiras - e mais céleres - de se conseguirem resultados. Por exemplo, num dia houve eleições, no dia a seguir, às onze da manhã, já havia uma coligação, ao meio-dia já estava um Primeiro-Ministro (sem gravata) indigitado, à uma hora tomou posse e ao fim da tarde apresentou o Governo.

Isto passou-se na Grécia. E em Portugal como é? Por cá tudo tem o seu tempo. Demasiado tempo, por sinal. Há gravatas mas não há pressas.

Até entendo que haja alguma formalidade nestas coisas de Estado. Mas tanta e ... com tanta demora?

quarta-feira, janeiro 21, 2015

À mesa com José Quitério ...



Há vários anos que seguia com deleite as crónicas gastronómicas que José Quitério escrevia no Expresso. Dava-me a conhecer restaurantes, orientava-me com as suas opiniões de conhecedor exímio (e honesto) na matéria e, para além disso, deliciava-me com expressões que não eram habituais em artigos da especialidade como: "amesendação sem mácula", "manducantes", "rol de comestíveis", "mastigantes" e outros que criaram um estilo único. Infelizmente José Quitério deixou de escrever "devido tão-somente à alta traição dos meus olhos ..." como deu a conhecer em entrevista ao Expresso nas últimas semanas.
Não posso deixar de transcrever algumas respostas (curiosas) dadas na citada entrevista. Por exemplo:
- "... há terras que se auto intitulam capitais de isto e de aquilo (a mais ridícula, cujo nome nem digo, por vergonha, é a capital do ovo) ... o ovo, o alimento primordial ... estão a brincar com a macacada)";

- "... os chefes querem ser considerados artistas, se lhes chamam artesãos ficam lixados. Mas depois o que fazem é, sobretudo, negócio";

- "que me interessa que o restaurante número um do mundo seja em Copenhaga? Nos países nórdicos não se come bem, mas quem vai à Dinamarca por causa do Norma? Meia dúzia ... uma vez levaram-me ao melhor restaurante de Oslo, caríssimo, e o que era aquilo? Comida francesa!";

- "... a cozinha foi capturada pela sociedade de espectáculo e os cozinheiros transformados em grandes vedetas, com tudo o que isso implica. Cozinheiros que não querem ser tratados por cozinheiros, nem sequer por chefes, mas por chefs ... chega a ser ridículo ouvir miúdos da escola de hotelaria a dizerem que estão a estudar para chefs".

Tenho muita pena que tenha acabado a deambulação semanal de José Quitério pelos restaurantes do país. Ele é uma referência da gastronomia portuguesa de quem vou sentir saudades.

terça-feira, janeiro 20, 2015

Quando o medo limita ...



As últimas acções terroristas levadas a cabo, nomeadamente em Paris, têm gerado um clima de medo que, em certos casos, leva à tomada de medidas que roçam a irracionalidade. Como aquela que a Oxford University Press, uma das maiores editoras do mundo, ligada à prestigiada Universidade de Oxford, levou a cabo ao retirar dos seus livros palavras como "porco", "salsichas" e outras afins do dito animal. Tudo para não ofender judeus e muçulmanos, já que para ambas as religiões o porco é considerado um animal impuro.

E são medidas realmente tão abstrusas que nem mesmo muitos muçulmanos as compreendem. Como aconteceu com o deputado muçulmano do Partido Trabalhista do Reino Unido, Khalid Mahmood, que se mostrou contra a orientação: “Discordo em absoluto. É um perfeito disparate. E quando as pessoas vão longe demais, toda a discussão cai em descrédito”. Ou como salientou o líder do Conselho de Liderança Judaica: “As leis judaicas proíbem comer porco, não a menção da palavra, ou o animal do qual deriva”.

Ao que se chegou. Os livros em vez de educar servem para alimentar preconceitos.