sexta-feira, abril 17, 2015

Falando de Presidenciais ...



Quando eu julgava que o mais importante nesta altura era discutir qual seria o próximo Governo de Portugal, ou seja, o que poderíamos esperar dos partidos que vão concorrer às legislativas de Setembro ou Outubro, o que agora parece ser realmente importante é a eleição para Presidente da República, o que acontecerá só no próximo ano. É certo que tudo leva o seu tempo a organizar mas, que diabo, existem prioridades e, neste momento, deveríamos estar mais interessados em saber como e por quem a nossa vida vai ser gerida. Mas isto, sou eu a dizer ...

A comunicação social, os politólogos, os opinadores do costume e os comentadores em geral acham exactamente o contrário. O que, na verdade, interessa é saber quem vai ocupar a cadeira presidencial. Daí que, todos os dias, sejamos bombardeados com todo o tipo de programas em que se debate (à exaustão) tão candente matéria. E, pelos vistos têm muito que comentar.

Os candidatos a candidatos a PR têm aparecido, muitos deles atraídos apenas pelos seus "segundos de fama". Todos os dias chega mais um e, apenas um (António Guterres), já disse que não está para aí virado. Mas outros - e já são sete - anunciaram as candidaturas: Paulo Freitas do Amaral, Castanheira de Barros, Henrique Neto, Paulo Morais, Manuel João Vieira, Manuel Almeida e, agora, Orlando Cruz. E hão-de candidatar-se mais. Desde logo, Sampaio da Nóvoa, Marcelo Rebelo de Sousa e, provavelmente, Santana Lopes.

E se eu tenho uma especial predilecção pelo candidato Manuel João Vieira, por ser um artista multifacetado, com um humor inteligente e bizarro, porque sei ao que vem (em anterior candidatura anunciou que a primeira medida que tomaria, se ganhasse, era demitir-se), o agora apresentado Orlando Cruz merece-me um pequeno comentário. Vi há poucos dias a sua apresentação como candidato, tendo a seu lado três elementos da sua comissão de quem ele - lamentavelmente - nem sabia os nomes. É um bom começo ... Mas quem é este homem? É o que em 2013 decidiu desistir da candidatura à Câmara do Porto para concorrer a Matosinhos, onde chegou montado num burro. Agora, quer ir para Belém. O mesmíssimo homem que teve duas quase-candidaturas a Belém (que não chegaram a materializar-se), algumas a deputado, uma à Câmara de Gondomar e outra à presidência de uma junta de freguesia. Exactamente aquele que já se apresentou como “empresário falido”, depois de ter sido taxista, camionista, actor de novelas, dono de restaurantes e de supermercados sendo, agora, escritor.

É certo que Orlando Cruz nunca foi eleito para o que quer que fosse. Será desta vez? Como também é certo que eu critico os que agora tanto falam sobre Presidenciais e - eu próprio - acabei de fazê-lo. Acontece!

quarta-feira, abril 15, 2015

Ai se eu soubesse antes ...



Só uns tempos depois de eu decidir que tinha que perder uns quilitos é que soube que há uns quantos países que subsidiam os seus cidadãos para emagrecerem. Porém, cá pelo burgo, embora digam que a maioria da população tem excesso de peso, lá arranjar uma motivação (umas "massas") para a rapaziada a emagrecer é que já é uma outra conversa.

Pois na Grã-Bretanha - onde mais de dois terços dos adultos são obesos - o Serviço Nacional de Saúde decidiu, para evitar gastar 6 milhões de euros por ano no tratamento de doenças provocadas pelo excesso de peso, lançar um programa que oferecerá isenções fiscais e vales-compra a quem emagrecer.

No Dubai, o Estado oferece um grama de ouro (cerca de 25 euros) aos habitantes por cada quilo perdido.

Em Itália, numa cidade do norte do país, o município - também para combater a obesidade - ofereceu 50 euros a quem conseguisse emagrecer três quilos num mês (quatro quilos para os homens). Se após emagrecerem os cidadãos conseguirem manter o peso durante cinco meses consecutivos ganham mais 100 euros e se conseguirem durante um ano ganham 500 euros.

Claro que por cá, e embora se oiça recorrentemente que se gasta menos dinheiro na prevenção do que no combate às doenças provocadas pelo excesso de peso, continuamos como sempre. Prevenção só se - nós próprios - tivermos a coragem e a determinação suficientes para, estoicamente, fecharmos a boca (que é como quem diz, sabermos comer) e mexermos o corpinho, que o exercício só faz bem à saúde.

Imaginem se eu tivesse ido para o Dubai. Certamente que hoje estaria mais esbelto e com a carteira muito mais recheada ...

terça-feira, abril 14, 2015

Desperdício alimentar



Arrepiam-se-me as entranhas sempre que oiço falar em desperdício alimentar. Resultado (provavelmente) da forma como fui educado e do facto dos meus pais me terem ensinado a dar valor à comida. Talvez porque se recordavam ainda dos efeitos da escassez de alimentos que a Grande Guerra provocara, a política lá de casa regia-se por dois princípios fundamentais impostos pelo Pai e que nunca se questionavam: o primeiro era "aqui gosta-se de tudo" e, o segundo, "come-se tudo o que está no prato" (e ai de quem não comesse, gostássemos ou não).

Os anos passaram, vieram épocas de vacas gordas e o consumismo chegou. E, com ele, o desperdício. Hoje, apesar das dificuldades provocadas pela austeridade (as vacas emagreceram muito), continuamos a desperdiçar muitos alimentos. A começar nas nossas casas onde se deita fora (por má gestão doméstica) uma quantidade enorme de alimentos já cozinhados ou passados de prazo. Mas também nos restaurantes onde é frequente verem-se pratos de comida quase cheios serem despejados directamente para o lixo. Ainda há dias foi noticiado que nas Cantinas de Coimbra foram registadas oito toneladas de desperdício alimentar por mês. Tudo isto enquanto milhares de portugueses não têm que comer.

Mas o desperdício alimentar tem uma outra vertente que reflecte uma profunda desigualdade entre a parte desenvolvida do mundo e a outra parte mais desfavorecida. Segundo a FAO, Organismo das Nações Unidas para a Alimentação, no tal mundo desenvolvido (de que fazemos parte) todos os anos são deitados para o lixo um terço dos alimentos que não consome (um terço dos 4 mil milhões de toneladas de alimentos produzidos), enquanto na outra parte (sobretudo em África) há 805 milhões de pessoas com fome. Por ano morrem 2,5 milhões de crianças devido à má nutrição. É tremendamente injusto. E não acham que é de nos arrepiarmos?

quarta-feira, abril 08, 2015

O "Absurdistão"



Li recentemente (já não sei onde) notícias que davam conta de uma série de "esquemas" - muito preocupantes, por sinal - que têm acontecido nos últimos tempos e que, depois do espanto inicial, parecem ter caído no esquecimento. Coisas como, por exemplo:

"- um antigo alto quadro das Polícias de Investigação Criminal, montou uma rede organizada de roubos, utilizando para o efeito rufias de uma claque de futebol e fardamentos da polícia. Esta gente especializou-se em roubar idosos solitários".

- "um Comandante de Polícia (SEF) e vários outros altos quadros do Governo Central criaram uma rede de corrupção e extorsão no sistema de atribuição dos chamados “Vistos Gold”.

- "um grupo de altos dirigentes da Segurança Social montaram um esquema de corrupção para a emissão de declarações falsas (lesando directamente o Estado e as contas públicas)".

- "um grupo de médicos, farmacêuticos e quadros superiores de empresas farmacêuticas e do Governo Central, montaram uma rede de falsificação de receitas para roubar o Estado".

- "um banqueiro e todos os administradores que o acompanharam ao longo de anos montaram um esquema fraudulento, com a conivência do regulador (Banco de Portugal), que arruinou várias centenas de cidadãos. Ao serem ouvidos por uma comissão parlamentar de inquérito todos afirmaram não saberem (ou não se lembrarem) dos casos em apreço".

- "existem constantes fugas ao segredo de justiça e o problema tende a eternizar-se sem que seja resolvido".

E nós que vamos assistindo a tudo isto (e a muitas outras coisas mais), limitamo-nos a comentar, a mostrar uma veemente indignação e a considerar que todos estes factos são um completo absurdo. Mas, "mansamente", deixamos que tudo continue a acontecer. Que os absurdos prossigam e que façam (naturalmente) parte do nosso dia-a-dia. O que já levou alguém a sugerir que se altere o nome do nosso país que, em vez de dar pelo nome de Portugal, passe a denominar-se ABSURDISTÃO. Vistas bem as coisas até talvez não fosse má ideia ...

segunda-feira, abril 06, 2015

Eu é mais bolos ...



Há menos de um mês escrevi aqui sobre uma penhora de alimentos que tinham sido doados a uma Instituição de Solidariedade Social para serem distribuídos a famílias carenciadas. Soube-se agora que um restaurante, por causa de uma dívida ao Estado no montante de 92 mil euros, viu o Fisco penhorar-lhe as contas bancárias e ... pasmem-se, quatro bolos que custam 30 cêntimos cada. Quanto às contas bancárias, compreende-se. Mas os bolos, o que dizer? No mínimo, que é uma situação insólita.

Ouvidos alguns fiscalistas, uma acção como esta apenas serve como coacção dos devedores ao pagamento, não tendo quaisquer efeitos práticos, tanto mais que estavam em causa bens perecíveis. Mas, parece que, tal como certos caçadores, o Fisco "está a atirar a tudo o que mexe".

Li algures que, afinal, talvez haja uma outra explicação: os bolos não foram realmente penhorados. Apenas terão servido para atenuar a gulodice dos agentes do Fisco. A ser verdade, ao que isto chegou ...

quarta-feira, abril 01, 2015

Hoje é o dia das mentiras ...



Hoje é dia 1 de Abril, também conhecido pelo "dia das mentiras". Independentemente das explicações mais ou menos históricas que dão conta dos porquês desta denominação, sem que, contudo, haja certezas absolutas da sua origem, as "comemorações" da data já tiveram melhores dias. Provavelmente porque perdemos a ingenuidade de outros tempos, se calhar porque nos habituámos a ouvir mentiras com frequência.

Ao longo de anos assisti às mentiras mais descaradas (e criativas) do 1º de Abril, sobretudo as veiculadas pela comunicação social (mas não só), que eram por vezes tão bem propaladas que eu caía que nem um patinho. Lembro-me especificamente de duas delas e, ambas, tiveram a ver com a televisão pública.

Por exemplo, a de um dia 31 de Março de um ano que já nem lembro, em que a RTP transmitiu o Festival da Eurovisão e a nossa canção ficou mal classificada. O programa eternizava-se e, às tantas, o saudoso Fialho Gouveia dá uma notícia de última hora. A canção vencedora tinha sido desclassificada (já não me recordo porquê) e as outras que lhe sucediam na classificação tinham abandonado o certame por solidariedade para com o país, os autores e os cantores desclassificados. Assim, a canção portuguesa tinha sido declarada a vencedora do Festival. O contentamento foi grande e deram-se vivas à "merecida" vitória alcançada. No dia seguinte, porém, o Telejornal anunciou que a notícia, já transmitida depois da meia-noite, era, afinal, a "mentira do 1º de Abril".

A segunda história, passada também há muitos anos (ainda a televisão era a preto e branco, calculem), tem a ver com uma notícia bombástica que dava conta que a RTP aderira a um projecto inovador na Europa, que permitia assistir a programas a cores. E foi tão bem dada que todos acreditámos que a partir das não sei quantas horas e por um período de uns poucos minutos, os portugueses teriam a oportunidade, pela primeira vez, de ver televisão a cores. Escusado será dizer que à hora indicada toda a minha famelga estava, ansiosa, à espera da última maravilha da tecnologia em Portugal. Pois bem, esperámos durante horas. Sentados e em vão. Aquela era a "mentira do 1º de Abril".

Hoje, muito mais maduro e bastante menos ingénuo, ainda continuo a acreditar em mentiras. Em mentiras (promessas) de políticos. Mas cada vez menos, confesso.



segunda-feira, março 30, 2015

"A última bilha de gás durou dois meses e três dias"


Herberto Hélder de Oliveira (1930 - 2015) foi um poeta português, considerado o maior da segunda metade do século XX.

De Herberto Helder, "a última bilha de gás durou dois meses e três dias"


a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

sexta-feira, março 20, 2015

O meu "Dia do Pai"



Aproveitando a efeméride do "Dia Internacional da Felicidade", que se comemora hoje, quero dizer-vos como fiquei feliz ontem, "Dia do Pai". Para além do presente que os meus dois filhos me deram, eles também ofereceram um cartãozinho encantador que dizia a começar:


O meu pai é o melhor do mundo,
é muito educado e inteligente,
sabe de tudo um pouco
e também é o mais valente.


e por aí fora, e por aí fora ...

tudo feito - letra e traço - com a candura de duas crianças de pouca idade. Adorei o conjunto mas o desenho do "pai gigante", maior que a casa e que a árvore e o pormenor do "pai tem um carro" (na gravura acima) são maravilhosos. Ah, e falta referir, porque é importante, a filha tem 43 anos e o filho 36.

Tenho razões para ser um Pai baboso. Muito Obrigado, meus filhos. Pelo presente, pela imaginação e pelo Amor que sempre me dedicam.

quinta-feira, março 19, 2015

As listas VIP ...



Na minha crónica de ontem escrevi sobre a confiança (ou da falta dela) dos cidadãos nas Instituições, nos Governos e nos órgãos de decisão. Pois bem, tenho que voltar ao assunto a propósito da tão badalada "Lista VIP de contribuintes".

Depois de semanas de notícias que ora confirmavam ora desmentiam a existência da tal lista (ou de um projecto de lista) e, mais recentemente, de que ela de facto existia mas que o Governo e a Autoridade Tributária não tinham qualquer responsabilidade na sua elaboração, caiu que nem uma bomba as demissões do Director-Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira e do Subdiretor-Geral da Justiça Tributária e Aduaneira. Não se sabem as razões que os levaram a tomar essa atitude mas ninguém acredita que se trate de uma precipitação. "Houve procedimentos internos e propostas no âmbito da Autoridade Tributária nesta matéria" ouve-se em surdina nos corredores, mas todos enjeitam que tivessem alguma coisa a ver com o facto.


Chega. Estamos fartos de tantas confusões. Ninguém aprovou e nem ninguém decidiu mas a verdade é que a lista parece existir. Mas, ainda que tivesse vindo do além, o que nos deve preocupar é para que efeito a lista foi pensada. E também queremos saber quem é que tem acesso aos registos dos contribuintes e se o acesso desses funcionários está devidamente autorizado e fica registado.

O que está em causa é a confiança no sistema fiscal português. Não pode haver contribuintes VIP ou contribuintes de segunda, com procedimentos distintos para cada um. As fragilidades (que se comprova existirem) do nosso sistema fiscal têm que ser corrigidas. Vamos esperar por novos desenvolvimentos e, eventualmente, por novas demissões. A "teia" parece estar ainda muito emaranhada.

quarta-feira, março 18, 2015

Coincidências?



Sabe-se que a confiança dos cidadãos nas Instituições, nos Governos e nos órgãos de decisão traduz-se em democracias mais fortes e saudáveis. Como acontece, reconhecidamente, nos países do norte da Europa. Cá no nosso cantinho, pelo contrário, a crescente abstenção às eleições (sejam elas para o que forem) e a crença generalizada que os políticos e os partidos são todos iguais, demonstram a fragilidade da nossa democracia.

Porém, às vezes, vê-se brilhar uma luzinha de esperança e ficamos com a sensação de que, afinal, nem tudo está perdido. Foi essa a convicção com que eu (e muitos mais, certamente) ficámos quando foi criada a "Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP)" destinada a escolher os melhores dirigentes para o Estado. Pensámos, então, que os "boys" e os amigalhaços do costume jamais ascenderiam a lugares de topo porque, "a partir de agora, doravante e p'ro futuro", a selecção de candidatos seria pautada pelo rigor, isenção e competência para os cargos. Enganei-me, quero dizer, enganámo-nos.

Segundo o jornal "Público", desde que a Comissão foi criada foram apresentadas às diferentes tutelas 339 propostas. Coincidência, ou não, das que foram rejeitadas registou-se um ponto comum: quase todos os candidatos têm uma ligação ao Partido Socialista. Curiosamente, de todos os três melhores classificados em cada concurso, o Governo escolheu maioritariamente o candidato que está próximo ou filiado no PSD e no CDS. Como é bem patente nas últimas 14 nomeações para as direcções dos centros distritais da Segurança Social em que todos os escolhidos tinham (por mero acaso) um cartão de militante dos partidos que estão actualmente no poder.

"Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay". E o que parecia ser um bom princípio para a administração, nomeadamente no que à transparência e competência dizem respeito, manifestou-se uma completa intrujice. Depois queixem-se que os portugueses estão completamente alheados da política. Pudera ...


segunda-feira, março 16, 2015

Os troca-tintas



Ainda não há muito o Governo incitava aqueles que não conseguiam encontrar emprego em Portugal a sair da sua zona de conforto e a emigrar. Ideia, aliás, que foi reforçada várias vezes, chegando até a relativizar-se os efeitos negativos da ida de portugueses para o estrangeiro.

Contudo, na semana passada, ouvimos outro discurso bem diferente. Na quinta-feira, foi aprovado em Conselho de Ministros o Plano Estratégico para as Migrações 2020, com o intuito de estimular o regresso de emigrantes a Portugal. Uma contradição ou uma mudança de estratégia? Nada disso, segundo a explicação esfarrapada de um elemento do actual executivo "quando as pessoas saem do país - seja em mobilidade estudantil ou profissional, de forma livre ou forçada -, o que precisam é de condições para poder voltar. A mobilidade é positiva, mas não é apenas sair. Também é poder regressar". Tretas!

E qual é (qual vai ser) o fabuloso plano que irá ser posto em prática para fazer regressar os portugueses? De entre as medidas que estão previstas no tal Plano Estratégico, destaca-se o programa VEM - Valorização do Empreendedorismo Emigrante (bolas, que já não posso com a palavra empreendedorismo ...), que procura apoiar o regresso dos emigrantes através da possibilidade de estes concorrerem a projectos de criação do próprio emprego ou empresa. E será que vai ser acessível a todos os que queiram voltar à Pátria? Não, numa primeira fase, serão apoiados 40 ou 50 projectos que serão apreciados (com que critérios, ninguém sabe ainda) e consta que a cada um dos seleccionados será atribuída a fantástica verba de dez mil euros que - seguramente - será mais do que suficiente para se montar qualquer negócio. É só uma questão dos tais "empreendedores" serem criativos.

Resumindo, no início o Governo disse vai, agora diz vem. Ou seja, um vaivém de políticas contraditórias "pensadas" por governantes inconsequentes. No fundo, uns troca-tintas em que já poucos confiam.


sexta-feira, março 13, 2015

"Canção", de António Botto


De António Botto (1897 - 1959), grande poeta e dramaturgo português, um dos mais originais e polémicos do seu tempo, "Canção".


"Canção"

Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!

O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojo, tem rasgos
De luxúria provocante.

Avanço. Procuro olhá-lo
Mais de perto... A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso...


Anda nu - saltando e indo,
E sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.

Procuro olhá-lo; - e os seus olhos
Amedrontados, recusam
Fixar os meus... - Entristeço...

Mas nesse olhar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço...

quarta-feira, março 11, 2015

Uma penhora (muito) ridícula ...



Há muito que se sabe que certas situações só se resolvem quando são divulgadas pela comunicação social. Basta serem escarrapachadas nas páginas dos jornais ou nas televisões e, como num passe de mágica, logo se arranja uma solução. Exactamente o que aconteceu há dias com a penhora feita pelas Finanças a uma Instituição de Solidariedade Social do Porto, a qual só foi levantada quando o caso veio a público.

E não era para menos, convenhamos. O "Coração da Cidade" é uma IPSS do Porto que ajuda diariamente 600 famílias (cerca de 2300 pessoas) carenciadas, distribuindo 2500 quilos de alimentos, alimentos esses que lhes são doados por hipermercados. Pois bem, a Instituição "teve o descaramento" de passar por umas quantas portagens de umas ex-Scuts sem pagar e isso foi o suficiente para a autoridade tributária decidir penhorar alimentos que tinham sido doados. De repente, ficaram sem pão, fruta, hortaliças, massas, arroz e leite que, por acaso ou por ironia do destino, até já tinham sido distribuídos. Nem mais, quem não paga (as ex-Scuts) arrisca-se a ficar sem os bens, ainda que os mesmos sejam alimentares e não sejam propriedade do "prevaricador".

E aqui, para além do caricato da situação e do facto de - ao que dizem - as coimas em questão já terem sido regularizadas, não posso deixar de colocar duas questões: 1 - Que coisa é esta de penhorar bens alimentares, o que, em princípio, são bens impenhoráveis e, ainda por cima, que tinham sido doados? 2 - E porque carga de água as IPSS - muitas delas (como esta) funcionam apenas com trabalho voluntário, com escassos recursos e sem apoio do Estado - estão sujeitas ao pagamento deste tipo de despesas? E, já agora, nestes casos, não seria possível arranjar uns descontos no preço dos combustíveis?

Ainda por cima - por descontrolo, organização deficiente ou má-fé - o Estado actua (de forma cega) contra uma Instituição de apoio social que, no limite, está a prestar os serviços que deveriam ser da responsabilidade do próprio Estado. Enfim, o levantamento da referida penhora já foi efectuado mas só depois da imprensa ter aparecido e após a confirmação de que a mercadoria em causa se destinava à realização do fim de utilidade pública.

Como li algures "quando colocamos sistemas informáticos a fazer as penhoras, ao invés de funcionários, dá nisto" ...

segunda-feira, março 09, 2015

Carta aos meus Filhos ...



Nem sempre a voz da experiência (embora ela seja lembrada amiúde como a da sabedoria suprema) se revela a mais correcta. Contudo, nós, como pais, tentámos ao longo dos tempos transmitir-vos valores que achámos serem fundamentais como a honestidade, a verticalidade e o respeito pelos outros. Anos e anos a dizer-vos das nossas convicções e como elas nos guiaram pela vida, lutando pela liberdade e por esse conjunto de valores. Uma educação dada não por cartilha mas pelo exemplo. E - por virtude nossa ou pela vossa inteligência - vimo-los crescer e tornarem-se pessoas de bem.
Porém, lamento dizê-lo, já não tenho tantas certezas. E digo-vos porquê.

Recordam-se quando ambos conseguiram trabalho (temporário e a recibos verdes), como foi difícil percebermos os tortuosos enredos das leis de então, nomeadamente as que à Segurança Social diziam respeito? Pois nunca nos deixámos esmorecer pela (defendida por muitos) ignorância ou má interpretação dessas leis, que nos levariam ao seu incumprimento e, mais tarde, às sanções nelas estabelecidas. Com muita persistência (e com muito cansaço também) calcorreámos os balcões da Segurança Social e das Repartições de Finanças onde fazíamos milhentas perguntas e procurávamos as explicações - tantas vezes contraditórias - para não falharmos. As leis (pese embora as diversas interpretações que delas se façam) são para se cumprir. E ninguém deveria ser excepção à regra.

Mas nem sempre é assim. O caso muito falado nos últimos dias de um cidadão que, por acaso, também é o actual Primeiro-Ministro do nosso país, demonstra inequivocamente como indivíduos que deviam estar bem informados sobre as obrigações que cabem a qualquer cidadão são com frequência incumpridas. Custa-me entender como é que certas pessoas desconhecem (?) que as contribuições para a Segurança Social são obrigatórias. Será que pensam um dia reformar-se sem ter que fazer descontos?

É verdade que Passos Coelho até veio a pagar uma dívida (que até já estava prescrita) depois de um jornalista "chato" ter começado a investigar o homem. É verdade que Passos já veio a público dizer (em tom aparentemente humilde que até dava dó ... ou raiva) que não é um cidadão perfeito, que teve algumas vezes falta de memória, outras, simplesmente, falta de dinheiro (coisa que dificilmente acontece a qualquer outro cidadão). É verdade que ele entregou declarações e pagamentos fora de prazo. E é quase certo que Passos ainda tem dívidas a regularizar com a Segurança Social.

Mas Passos Coelho não é um contribuinte qualquer, é Primeiro-Ministro e foi deputado. E o exemplo que deu aos seus concidadãos (a que se juntam outras trapalhadas ainda mal explicadas como os casos da Tecnoforma e do Centro Português para a Cooperação) são inadmissíveis, especialmente vindos de alguém que tem exigido tamanhos esforços aos portugueses. Dois pesos e duas medidas?

Apesar de tudo, e sabendo como é difícil manter uma coluna vertebral direita neste país de esquemas e habilidades, continuamos a acreditar que a ética, a seriedade e o trabalho valem a pena. E por sabermos que também pensam desta forma, queremos manifestar, queridos filhos, o nosso grande orgulho em vós.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Os "novos" sacos de plástico ...



Sabíamos de há muito que a ideia mirabolante de pôr os portugueses a pagar 10 cêntimos por cada saco de plástico - para além de aspectos ambientais que se compreendiam - tinha sido arquitectada, fundamentalmente, para sacar mais umas massas à rapaziada. Estimou-se na altura que à volta de 40 milhões de euros. Ao fim e ao cabo mais um imposto, rotulado simpaticamente de "fiscalidade verde".

Mas, azar dos Távoras, depois de uma data de estudos que se fizeram sobre o assunto, o que as cabecinhas pensadoras não conseguiram atingir é que os privados, nomeadamente as grandes superfícies, deram sumiço aos sacos tradicionais e "inventaram" uns outros sacos (também de plástico) mais resistentes e maiores, que evitam o imposto e ... vendem-nos aos clientes. Ou seja, lá se foram os 40 milhões que o Fisco pensava arrecadar e aumentou o lucro dos empresários. Uma jogada de antecipação que destruiu o encaixe previsto.

E não fosse uma dor lombar com que fiquei por ter pegado em sacos enormes e pesados (antes o esforço físico era repartido por vários sacos), eu estaria ainda a rir da partida que os privados pregaram ao Estado. É que a medida aprovada, pouco ou nada tinha a ver com a defesa do ambiente. Queriam apenas mais dinheiro. Não foi desta mas, cuidado, eles não desistem ...

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Mais um "tiro" ao lado ...



Se bem que Cavaco Silva já nos tenha habituado a situações pouco comuns (chamemos-lhes assim) - e lembro, por exemplo, um indulto que concedeu há anos a um proprietário de discotecas de Évora, ignorando que, afinal, o homem era procurado pelas autoridades policiais portuguesas e estrangeiras - achei muito curioso o facto do nosso Presidente condecorar o ex-autarca de Murça, precisamente no dia em que se soube que o Tribunal de Contas decidiu não homologar (por terem sido ultrapassados os limites legais de endividamento) as contas de 2008, 2009 e 2010 do município a que presidia então o agora comendador. Ainda que as multas já tenham sido pagas.

Realmente não passa pela cabeça das pessoas que uma condecoração seja atribuída como prémio pela má gestão de um autarca. Foi mais um "tiro" ao lado do Presidente. Parece não restarem dúvidas que Cavaco anda a precisar urgentemente de assessores mais atentos e competentes.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

E agora, Passos?



No mínimo, o que qualquer português gostaria de saber é qual vai ser a reacção do Primeiro-Ministro depois do Presidente da Comissão Europeia ter admitido que a troika beliscou a dignidade dos portugueses.


"Pecámos contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, Portugal e, muitas vezes, da Irlanda também". As palavras Jean-Claude Juncker soaram como um trovão e puseram em causa não só a actuação da troika como a anterior Comissão Europeia, liderada por Durão Barroso, de confiar “cegamente” nela. Aliás Juncker admitiu que a troika nem sequer tem legitimidade democrática.

Já se adivinhava que depois da vitória do Syriza na Grécia a Europa jamais seria a mesma. E aí está o desabafo do Presidente da Comissão Europeia a confirmá-lo. Mas, claro está, o Governo português, através do seu porta-voz, o Ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares, Marques Guedes, já reagiu, afirmando que considera infelizes as declarações de Juncker: "Nunca a dignidade dos portugueses foi beliscada"". A sério?

Pois os cidadãos acham (e têm sentido na pele) que essa identidade (cumplicidade) estranha entre o Governo português e a troika e as "medidas virtuosas" que a troika quis implementar em Portugal e mais aquelas que o nosso obediente governo entendeu acrescentar lhes roubaram a possibilidade de viver com a dignidade que merecemos. Retirada, aliás, com uma receita (à base de "reformas" assentes em mais impostos e cortes) que muitos já adivinhavam não ir dar bons resultados.

O mea-culpa de Juncker veio tarde mas chegou. Mas nem mesmo assim o Governo português é capaz de reconhecer que as políticas europeias foram demasiado duras e injustas para os cidadãos. O PSD apenas se desculpou com "as metas e objectivos terem sido manifestamente desajustados porque tinham sido mal negociados de início (culpa exclusiva do PS, segundo dizem) e o CDS - de forma hipócrita, convenhamos - afirmou "Aquilo que o senhor Juncker disse foi aquilo que o CDS ao longo dos tempos, de uma forma mais ou menos explícita, foi alertando, um governo de protectorado é um vexame".

A declaração pública e clara de Jean-Claude Juncker não foi suficiente para o "bom aluno" dar o braço a torcer. Vá lá, Passos, a sério, o que é que tens para nos dizer?

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

"Vamos supor"



Como diria uma amiga minha "é chato" fazer comentários sobre uma ficção ou sobre especulações (ficcionadas ou não). Ainda assim, não resisto à tentação de lembrar o artigo escrito na revista oficial da Ordem dos Advogados pela advogada de defesa de dois dos implicados no caso Sócrates, sob o título (sugestivo, por sinal) "Vamos supor".

Paula Lourenço, a dita advogada, sem referir os nomes dos seus clientes (um empresário e um advogado), dizia nomeadamente:

“Suponhamos agora que os cidadãos chegam ao aeroporto num voo proveniente de Paris, pelas 18h, que são presos sem mais, sem que lhes seja entregue um mandado de detenção, que lhes são retirados os telemóveis das mãos para que não possam fazer qualquer contacto, revistados e apreendidos todos os documentos que transportavam consigo sem que igualmente houvesse um mandado para o efeito” ...

“Suponhamos agora que por não ter sido entregue o mandado de detenção nem feita a constituição do arguido, nem garantida a presença do advogado, as buscas que continuaram na casa de um dos putativos detidos são complementadas com “interrogatório” de várias horas ao seu cônjuge” ...

“Suponhamos agora que, movidos pelo poder desmedido e adrenalina circundante (…) “agarram”, literalmente, no advogado, o levam para a sua própria casa e aí fazem busca não autorizada, apreendem documentação vária na presença da mulher, filho de cinco anos e bebé com dois meses que assistem horrorizados à violência com que despejam gavetas e lhes circulam (…) pela casa.” ...

“Suponhamos agora coisas descabidas: suponhamos que os arguidos, durante os cinco dias que duraram as diligências do primeiro interrogatório (…) não tiveram sequer direito a tomar banho, a mudar de roupa, a apresentar-se condignamente perante o juiz que os vai interrogar” ...

A serem verdadeiras as conjecturas - e agora sem "vamos supor", "suponhamos" ou "supônhamos" - parece que a "justiça" é bem capaz de andar a violar princípios básicos do Estado de Direito.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Uma explicação reconfortante ...



Há dias um amigo mandou-me uma mensagem com uma informação que me deixou muito mais tranquilo. Dizia ele:

"Afinal, os cérebros das pessoas mais velhas são lentos só porque elas sabem muito.
As pessoas não declinam mentalmente com a idade. Os cientistas acreditam que elas apenas têm mesmo mais tempo para recordar factos e acumulam muito mais informações nos seus cérebros. Exactamente como acontece nos discos rígidos dos computadores quando ficam cheios, dificultando assim o tempo de acesso às informações pretendidas.
Resumindo, e segundo os investigadores, esta desaceleração não é o mesmo que o declínio cognitivo. O cérebro humano funciona mais lentamente na velhice porque temos armazenadas mais informações".

É uma explicação reconfortante, admito. E, como se costuma dizer, "Se non è vero, è ben trovato."

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

"Vivá" liberdade



Ao certo não se sabe bem o que é (e o que significa) a liberdade. A definição que mais comummente se ouve é aquela que diz: "a Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa. É a sensação de estar livre e não depender de ninguém. Liberdade é também um conjunto de ideias liberais e dos direitos de cada cidadão". Mas isto, sendo verdade, não passa de uma teoria que nem sempre tem aplicação prática. Se não vejamos ...

Então não é que um senador norte-americano defende que os trabalhadores da restauração devem ter a liberdade de não lavarem as mãos quando em serviço. Segundo ele: "Deixemos a indústria ou negócio decidir, desde que eles divulguem essa decisão... desde que essas empresas assumam publicamente que não exigem aos seus empregados que lavem as mãos depois de usar a casa de banho. O mercado tratará disso", sugeriu.

Era o que mais faltava, deixar ao cuidado dos mercados uma situação de saúde pública, que é disso que se trata. Tanto mais que temos más experiências quanto a essa questão dos mercados. Liberdade sim, naturalmente, mas quando estamos a falar de higiene em trabalhadores de cafés e restaurantes talvez seja melhor não exagerarmos ...