quarta-feira, janeiro 22, 2014

Ouvindo Beethoven



De José Saramago





 


Ouvindo Beethoven


Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a presa de registro, o verso acta.



Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.



terça-feira, janeiro 21, 2014

Falácias e mentiras sobre pensões





Vale a pena ler o artigo de opinião escrito por Bagão Félix no Público do último dia 13, com o mesmo título desta crónica. Como sempre, Bagão Félix é claro, é sensato e põe o dedo na "ferida certa".


Só para espicaçar a vossa curiosidade, transcrevo um excerto:


"... no Governo há “assessores de aviário”, jovens promissores de 20 e poucos anos a vencer 3.000€ mensais. Expliquem-nos a razão por que um pensionista paga CES e IRS e estes jovens só pagam IRS!

Ética social da austeridade?”


Uma pergunta bem pertinente mas a que ninguém do Governo estará interessado em responder.



segunda-feira, janeiro 20, 2014

O referendo sobre a co-adopção ... e as crianças, senhor?





A verdade é que não deveríamos ficar admirados pelos resultados obtidos quando se deixam certos assuntos nas mãos de rapazolas que, por iniciativa própria ou a mando de alguém, tomam decisões que vão contra o mais elementar bom-senso. Como esta de querer fazer um referendo sobre a co-adopção de miúdos por casais do mesmo sexo.


Aliás, esta aberração do referendo que se quer fazer vai um pouco mais longe. Não se pretende apenas saber a opinião dos portugueses sobre a questão da co-adopção (uma lei que já tinha sido aprovada em Maio no Parlamento, embora na generalidade) como, no mesmo documento, também pretendem saber o que pensamos sobre a adopção de crianças por casais do mesmo sexo (coisa que não é permitida por Lei). Enfim!


Mas a proposta para a realização do referendo foi mesmo aprovada. Foi uma votação tão complicada que até muitos dos deputados do PSD ou não "alinharam" ou, fazendo-o, apresentaram declarações de voto. Isto é, votaram sim mas não estavam nada de acordo com aquilo a que deram o seu aval. Uma coisa que é difícil de entender mas que se percebe bem quando se pensa que defender o "tacho" é mais importante que manter a verticalidade da sua coluna vertebral ... se a tiverem.


Podemos estar, ou não, preparados para as "novas famílias" constituídas por casais do mesmo sexo. A sociedade tomou este rumo e, goste-se ou não, é o que temos e as crianças naturais ou adoptadas não podem ser prejudicadas por isso. E a realização deste referendo (a acontecer) em nada vai beneficiar os "superiores interesses das crianças". O preconceito continuará a esquecer as mais de 17 mil crianças que estão institucionalizadas e que esperam ansiosamente por um lar. Quer tenham dois pais ou duas mães, tanto faz. Tenho grande dificuldade em compreender que se prefira o internamento de uma criança numa instituição social em vez de lhes dar o calor afectivo de uma família, seja ela de que natureza for. Uma família que acolha, eduque e dê amor.


Estou em crer que toda esta lamentável encenação - esta Golpada Política, como lhe chamou Marques Mendes - dê em nada. Cavaco Silva já disse que está contra o referendo e o Tribunal Constitucional, se o assunto lá chegar, terá certamente o bom-senso de o chumbar. Mas houve uma coisa que foi conseguida. É que durante uns dias ninguém falou das medidas muito gravosas que resultam do Orçamento de Estado para 2014 (e já aí vem um rectificativo a caminho). Entretanto, as famílias e as crianças continuam à espera de uma resolução.



sexta-feira, janeiro 17, 2014

A costumada "confusão entre a política e os negócios"





O assunto não é novo mas voltou agora à ribalta quando se soube que o super-Ministro de Passos Coelho, Vítor Gaspar, quer ir (e seguramente irá com o apoio do nosso Governo e da Chanceler Merkel e do seu Ministro Schauble) para o FMI e que o simpático ex-Ministro da Economia Álvaro Santos Pereira será o economista número 2 da OCDE. É um filme que já vimos, protagonizado por outros intérpretes, que depois de prestações duvidosas ao serviço do nosso país, deram o salto para cargos importantes lá fora. E estou a lembrar-me, vá lá saber-se porquê, de Vítor Constâncio e de Durão Barroso, só para citar dois deles.

Mas a "promoção" que mais me chocou e, certamente a muitos portugueses, foi a de José Luís Arnaut. O advogado e político, que foi Ministro no executivo de Santana Lopes, foi convidado para um alto cargo no banco norte-americano Goldman Sachs, o mesmo banco que detém, após privatização, a maior participação accionista nos CTT e em que Arnaut trabalhou, simultaneamente, como consultor do Banco e do Estado Português.

De resto, José Luís Arnaut está intimamente ligado a um conjunto de privatizações levadas a cabo pelo actual Governo, nomeadamente a ANA, a REN e os CTT. E esteve também presente (embora não se tivesse concretizado) na pretendida privatização da TAP. Umas vezes trabalhando para o Estado, outras para as empresas vendidas, outras ainda para as empresas compradoras. Um verdadeiro super-homem!

É a costumada confusão entre a política e os negócios, o habitual jogo de influências, em que uns quantos se saem muito bem (à custa de operações pouco transparentes), e em que os interesses de Portugal e dos portugueses saem invariavelmente lesados.



quinta-feira, janeiro 16, 2014

Não sei, não ... o melhor é não confiar demasiado ...





Nos últimos tempos tem-se ouvido com uma certa frequência que "Portugal é um país de brandos costumes" e que "a austeridade trará inevitavelmente confrontos sociais".

No primeiro caso, a frase já vem de longe, dos tempos da propaganda salazarista, mas a nossa História desmente-a. Basta lembrar que só nos séculos XIX e XX, contam-se por milhares os mortos em guerras civis e revoluções. No fim da monarquia, o penúltimo rei de Portugal, D. Carlos e o príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, foram assassinados e já na República, o Presidente Sidónio Pais teve o mesmo fim. Face a estes factos será que Portugal poderá ser mesmo considerado um país de brandos costumes?

Quanto aos confrontos sociais que muitos anunciam, teremos mesmo motivos para nos preocuparmos? Ainda não há muito Mário Soares descreveu a situação do país como “de grande risco”, “a caminho da ditadura" e que “a violência está à porta”. Dois dias depois O Papa Francisco alertou para o perigo de violência devido à actual situação económico-social.


E isto são alertas que têm que ser tomados em devida conta. Não são ameaças, não são incentivos à violência, são, na minha perspectiva, olhares lúcidos sobre o que se pode passar em Portugal e no mundo com as crescentes desigualdades sociais e com as dificuldades por que passam os povos.


Poderemos vir a ter, então, a exemplo do que temos visto noutros países, violência nas ruas? A sensatez que os portugueses têm mostrado apesar do desespero do desemprego, dos aumentos de impostos, da falta de medidas que nos levem para níveis de vida mais dignos não afasta totalmente a ideia de que a desordem, quiçá o caos, poderão chegar. É que "os brandos costumes" poderão não ser eternos.


Para já, e a confiar no que vi expresso nas redes sociais, podemos ficar descansados. Para 2014 a generalidade dos votos dos portugueses vão no sentido de esperar um novo ano com saúde, alegria, amizade, muito amor, menos crise e pouca troika e um jackpot no euromilhões. Até por que, como se costuma dizer, a esperança continua a ser a última a morrer.




quarta-feira, janeiro 15, 2014

Afinal, este país é para quem?







Mau, ainda no último dia me referi aos "velhos" reformados que, pelos vistos, pouca serventia têm, e já estou hoje, de novo, a bater na mesma tecla. E tenho razões para isso porque tenho observado, para meu desprazer, que existe uma obsessão com os reformados e com os velhos de uma forma geral, um certo instigar à luta entre gerações, muitas das vezes, oriunda da parte de quem nos Governa.


Mas hoje a história tem a ver com um artigo escrito há duas semanas pelo sub-director do "Expresso", João Vieira Pereira, com o título "Este país é velho, de velhos, e para velhos", todo ele um bota abaixo, desde logo para com os velhos mas também com o Tribunal Constitucional e com a própria Constituição.

É perigoso fazer extrapolações de um texto, ainda por cima longo. Corre-se o risco de especular em ideias "tiradas do contexto" que, por junto, quereriam (eventualmente) dizer outra coisa. Ainda assim, as palavras estão lá, com as letrinhas todas e as citações que se seguem não terão, a meu ver, interpretações que possam suscitar dúvidas por aí além. Como por exemplo:

"os velhos querem manter aquilo que dizem ter conquistado. E muitos dos novos ambicionam apenas ter o que os velhos têm. Injusto? Para quem? É mais injusto reduzir os pretensos direitos adquiridos (expressão que me causa calafrios) ou hipotecar o futuro dos jovens?


Se pudesse escolher entre cortar pensões e reduzir o emprego jovem que está nos 44% qual escolheria? ... as gerações mais velhas estão a matar a esperança dos mais novos".


Se compreendo que uma boa parte do Orçamento do Estado vai para salários, pensões e prestações sociais e que a sustentabilidade das contas públicas está gravemente ameaçada, repudio totalmente esta guerra aberta contra os velhos.


Durante anos a fio eles trabalharam, em muitos casos sem as condições mínimas exigíveis, em muitíssimos casos sendo explorados por número excessivo de horas de trabalho e baixas remunerações e cumprindo as suas obrigações fiscais. Que culpa lhes podem agora ser imputadas sobre as dificuldades do país?

Que culpa têm eles de que um dos problemas estruturais mais graves deste País seja a sua baixíssima taxa de natalidade? E sobre insustentabilidade da nossa segurança social também foram eles que falharam? Eles a quem muitas vezes lhes fizeram descontos nos salários, descontos esses que nunca foram entregues pelos patrões.


São os velhos que têm culpa que a economia esteja num tal estado que obrigue os jovens a emigrar e que, deste modo, não possam contribuir com os seus descontos para o pagamento dos que já estão reformados?


São ainda estes velhos sem préstimo que têm a culpa dos cortes na educação e na investigação e das taxas de desemprego?


Para além de uma completa insensibilidade social, esta gente é incapaz de pensar para além do orçamento de cada ano. E têm o despudor de considerar os "direitos adquiridos" (leia-se, as justas expectativas criadas por pensionistas e reformados a uma reforma - para a qual descontaram - tranquila e com dignidade) um privilégio. E afirmar que "as gerações mais velhas estão a matar a esperança dos mais novos", é uma perfeita afronta a quem tanto lutou e sofreu durante anos e anos.


Portugal não é definitivamente um país para os velhos, tão-pouco para os jovens que não têm futuro. Afinal, este país é para quem?





segunda-feira, janeiro 13, 2014

Prontos a "bater as botas"?

                                                             



19 de Dezembro de 2013. O dia em que foi anunciado o chumbo do Tribunal Constitucional à proposta do Governo sobre a Convergência das Pensões. Uma decisão, recorde-se, que foi tomada por unanimidade pelos juízes e uma derrota em toda a linha para o Governo que mais uma vez quis desafiar a Constituição ...

Pouco depois, na SIC Notícias, José Gomes Ferreira, António José Teixeira e Tiago Duarte comentavam o assunto abordando as diversas perspectivas: económica, política e constitucional. Todos eles admitiam que este era mais um chumbo a juntar a uma já longa lista e, mais uma vez, resultante de uma grande incompetência legislativa e/ou de uma matriz ideológica que não concede desvios.

Às tantas, Tiago Duarte, constitucionalista, dizia que o Tribunal tinha levado em consideração que as pessoas que iam ser afectadas pelos cortes propostos (os pensionistas e reformados da Caixa Geral de Aposentações) "eram pessoas frágeis, em fim de vida". Juro que me apeteceu bater-lhe. Verdade ... Só porque são pensionistas e reformados, só porque são mais velhos estão, como dizer, prontos a "bater as botas"? É assim que são vistas as pessoas que já não estão no mercado de trabalho mas que ajudaram, cada um à sua maneira, a construir e a desenvolver as empresas e o país?

Achei um tremendo mau gosto. Tiago, cuidado, já não estás muito longe de lá chegar. É que o tempo passa muito rapidamente.




sexta-feira, janeiro 10, 2014

As decisões emocionais podem ser precipitadas ...



Compreendo que a emoção tenha influenciado o espírito de muitos portugueses e daí tivesse surgido um sentimento que rapidamente ganhou força: os restos mortais de Eusébio deveriam ser trasladados para o Panteão Nacional. E o coro dessa vontade foi de tal modo forte, que a decisão política tomada após conferência de líderes parlamentares não podia ser outra. De forma unânime, e com uma celeridade pouco habitual noutras matérias, os partidos com assento parlamentar apoiaram a iniciativa.


Alberto Martins, do PS, disse : “Esta é uma deliberação política de grande relevo, é uma exigência democrática, há um consenso unânime entre todos os grupos parlamentar de reconhecimento do Eusébio como uma grande figura nacional, um atleta ímpar, genial que foi uma referência de Portugal e da lusofonia”.

Nada de mais verdadeiro. E o Panteão Nacional é o lugar onde repousam muitos dos vultos da história portuguesa. Mas se me permitem a opinião, onde os restos mortais do "Pantera Negra" deveriam descansar era mesmo no Estádio da Luz. Ainda que Eusébio seja uma figura transversal a todos os clubes, era ali na Luz - porventura naquele estádio que poderia ostentar o seu nome e que já tem uma estátua glorificando-o - que Eusébio deveria ser homenageado para sempre. Nunca ninguém como ele representou a alma, a raça e o amor benfiquista. O Panteão Nacional, apesar da imponência e da solenidade, parece ser demasiado austero e frio para o "Rei Eusébio".





quinta-feira, janeiro 09, 2014

O vocabulário político não pára de surpreender ...



Ainda ontem aqui me referi às dificuldades de comunicação de Assunção Esteves e volto agora a escrever sobre a Presidente da Assembleia da República para, desta vez, reconhecer publicamente a minha incapacidade em perceber muitas das coisas que diz.


Como no caso de uma declaração à Renascença sobre os seus desejos e receios para 2014, em que Assunção Esteves afirmou:


"Temos sempre um receio humano de não conseguir. O meu medo é o do inconseguimento, em muitos planos: o do inconseguimento de não ter possibilidade de fazer no Parlamento as reformas que quero fazer, de as fazer todas, algumas estão no caminho; o inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustacional derivado da crise."


ao que acrescentou:


que o seu maior receio é de “um não conseguimento ainda mais perverso: o de a ..."

Conseguimento, inconseguimento e frustacional ... disse ela!


De facto, não estou preparado para tanto. É um vocabulário demasiado elaborado para mim ...





quarta-feira, janeiro 08, 2014

Assunção Esteves não acerta uma!



É certo que havia demasiado emoção. A morte do Rei Eusébio provocou uma incontrolável onda de dor e de união pela perda de um dos símbolos mais queridos dos portugueses. Dos que o viram jogar e o acompanharam pela vida e daqueles que tinham apenas uma vaga ideia daquilo que ele representava. E o funeral foi uma coisa nunca vista, um "funeral de Estado" como raramente se terá assistido no nosso país, a que assistiram muitos milhares de pessoas. Sobretudo o povo, a que Eusébio sempre pertenceu e de que nunca se quis afastar, apesar de ser uma vedeta interplanetária.


Os políticos, claro está, não faltaram. Pareceria mal. Nem os repórteres da comunicação social que cobriram, ao milímetro, todos os movimentos desta cerimónia fúnebre e que a propósito de tudo (e muitas vezes de nada) tentavam sacar desabafos e estados de alma de quem estava presente.


Ouvi depoimentos sentidos, ouvi palavras de circunstância e ouvi também - quando questionada sobre a possibilidade dos restos mortais de Eusébio serem trasladados para o Panteão Nacional (o desejo de muitos portugueses) - a Presidente da Nossa Assembleia da República pronunciar-se sobre os custos elevados que essa operação acarretaria. Realmente Assunção Esteves tem dificuldades de comunicação. No próprio local onde decorria o velório, falar em dinheiro demonstra uma grande insensibilidade. E também desconhecimento do que estava a dizer. Segundo ela essa eventual transladação poderia custar aos cofres do Parlamento centenas de milhares de euros o que, mais tarde, o próprio Gabinete da Presidente veio esclarecer que essa operação andaria à volta de 50 mil euros. Assunção Esteves não acerta uma!





segunda-feira, janeiro 06, 2014

"Recomeçar"




Neste início de 2014, um lindo poema.

De Miguel Torga,

 

"Recomeçar"


Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Boas Festas




                                                                       Nesta época de festas,

                                                              Desejo-vos SAÚDE, PAZ e AMOR

                                                          ... e que 2014 vos traga tudo de bom


                                                                              BOAS FESTAS!

                                                                           BOM ANO NOVO!



 

quarta-feira, dezembro 18, 2013

O Benvindo



A história do Benvindo cruza-se com a minha própria história dos tempos de infância e juventude. Conheci-o ainda miúdo na aldeia da minha mãe para onde eu ia todos os anos passar o Verão. Corríamos, jogávamos a bola, brincávamos com a despreocupação própria dos nossos tenros anos.

Benvindo era filho de uma família muito humilde. No entanto, e apesar da falta de perspectivas que, nesse tempo, era comum à maioria dos miúdos das aldeias, notava-se nele uma ambição que mal conseguia disfarçar. De facto, era notória a atitude que transparecia na forma como jogava o futebol ou nas corridas que fazíamos rua acima rua abaixo, sobretudo pela mais íngreme da terra, a Rua Direita, que por acaso era a que, de todas, mais curvas tinha.
 
Já adolescente, essa ambição fazia-se sentir ainda mais fortemente, sobretudo no modo como tentava impressionar as raparigas, quase todas estudantes na capital e que viam nele um pobre coitado, sem dinheiro e sem estudos e, que desdenhavam por ser desengonçado e de fraca beleza, pelo menos aquela que correspondia aos cânones exigidos na época.

Estivemos muitos anos sem nos vermos. Ele ficou por lá e eu andei um pouco pelo mundo, levado pelos acasos e necessidades da vida.

Quando regressei à aldeia, quis rever esses amigos da minha juventude, aqueles poucos que tinham fugido à emigração para a Europa, para a América ou para Lisboa.

Estive, então, com o Benvindo. O olhar continuava vivo, mas agora algo perdido num corpo desgastado pelas azáfamas da vida do campo. Falámos durante boa parte da noite enquanto empurrávamos a broa e os pedaços de chouriço acompanhados do vinho carrascão oriundo de um dos lagares da aldeia.

 
Benvindo fez pela vida. Sempre andou no amanho das poucas terras da família e, mais tarde, foi regedor da aldeia e presidente da junta de freguesia. Era considerado pelas pessoas da povoação e dos burgos vizinhos.

Importante, considerado e muito narcisista. A tal ponto que, levado mais pelo culto de si próprio do que pela falta de estudo, mandou colocar nas duas entradas da aldeia placas bem grandes que diziam:

“Benvindo a Santa Maria”

Quando lhe disse, meio a brincar já se vê, que tinha que mandar rectificar as tais placas, porque em português, a saudação escreve-se “bem-vindo” ele sorriu e respondeu-me de imediato:

E tu julgas que eu não sei isso? É que assim o meu nome fica para sempre na História da aldeia, percebes?"

Claro que tinha percebido. E continuámos tagarelando e petiscando alegremente.

terça-feira, dezembro 17, 2013

Afinal (e até ver) o chocolate não engorda ...



Até que enfim, uma boa notícia. Infelizmente não tem a ver com a melhoria da situação do país ou dos portugueses mas diz respeito a um alimento que, para a maioria e de alguma forma, nos consola e nos "aconchega" nos piores dias (e nos melhores também). Estou a falar do chocolate.

Mas, até agora, havia um porém. A sombra de que a ingestão de chocolate fazia engordar travava o nosso entusiasmo e, quantas vezes, o nosso desejo transformado em necessidade era imediatamente sustido. Era até costume ouvir-se que "o chocolate não engorda, quem engorda é quem o come". Até que, há pouco, ouviu-se falar de um estudo desenvolvido em adultos por cientistas da Universidade da Califórnia que concluíra que uma maior frequência no consumo de chocolate também se associa com um menor índice de massa corporal. Mas era mais estudo feito pelos americanos e, muitos de nós continuámos com dúvidas sobre se, afinal, o chocolate engorda ou não.

Pois bem, um outro estudo agora apresentado mas, desta vez, levado a cabo por investigadores da Universidade de Granada demonstra cientificamente que um alto consumo de chocolate está associado a níveis mais baixos de gordura total e abdominal. Portanto, e agora de forma científica - até ver - o chocolate não engorda.

Para aqueles que não acreditam no que vem das Américas ou que repetem que "de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos", para os que, na verdade, são cépticos em relação a tudo, sugiro - nesta época propícia a alguns excessos alimentares - o consumo moderado de chocolate e, sobretudo, chocolate preto. Vão ver que tanto o vosso corpo como o vosso espírito vão-vos agradecer.


segunda-feira, dezembro 16, 2013

Multibanco: mais uma tentativa para taxar as operações ...



A questão já é velha e remonta ao início das ATM (a rede Multibanco) em Portugal. Lembro-me bem de quando apareceram as primeiras máquinas nas agências bancárias, nos primeiros anos da década de 80 do século passado. Embora Portugal fosse um dos últimos países da Europa ocidental a instalá-las, o equipamento era o que havia de mais avançado na época. Ainda assim, e por verem nos funcionários do seu Banco os amigos em quem podiam confiar, os clientes fugiam delas a sete pés. Foi necessário formar equipas de bancários que, devidamente preparados, foram "ajudá-los" a conhecer as máquinas, a fazer as transacções que pretendessem e a evitar as malfadadas filas que, nessa altura, eram imensas.

Foi o princípio. A clientela estranhou a inovação mas a verdade é que, rapidamente, aderiu de alma e coração. Foi então que para incentivar ainda mais a utilização das máquinas, as instituições bancárias lançaram uma taxa (alta) para cobrar a quem quisesse levantar dinheiro aos balcões em vez de ir às máquinas. Percebia-se bem o interesse dos Bancos: queriam fazer dos seus clientes empregados bancários não remunerados e, por já não serem necessários tantos, reduzir os seus funcionários de Balcão. Isto é, haveria uma significativa redução de custos.

E o facto é que o sucesso da utilização era tal (praticamente toda a gente já tinha aderido ao serviço Multibanco) que, anos passados, a Banca tentou cobrar uma taxa por cada operação realizada. Não resultou porque foi muita a indignação vinda de vários sectores. De tal jeito que até se legislou para impedir a cobrança dessa nova taxa.

Agora, volvidos mais alguns anos, a Banca está de novo ao ataque, a influenciar o poder (como sempre faz) para que a lei seja revogada e que, enfim, possam obrigar os clientes a pagar para poderem mexer no seu próprio dinheiro, efectuar pagamentos e consultar as suas contas. Uma verdadeira vergonha.

Ou seja, aliciaram-nos para utilizarmos as máquinas e depois de nos habituarmos já não podemos passar sem elas. Bem podemos dizer que "primeiro estranhámos e depois entranhou-se a necessidade". E agora querem obrigar-nos a pagar todas as transacções que efectuarmos. É imoral! Tanto mais que se sabe que o sector poupa 300 milhões por ano pelo facto dos clientes utilizarem a rede ATM.

Que iremos pagar parece não haver dúvidas. Resta saber é quando?


sexta-feira, dezembro 13, 2013

E agora quem é que nos reembolsa?




O Governo de Passos Coelho sempre fez ouvidos de mercador a quem se opôs às medidas drásticas impostas pela troika e, nomeadamente, à possibilidade de renegociar os prazos de pagamento da dívida. Vários entendidos na matéria, alguns deles da cor dos próprios partidos da coligação governamental, defenderam essa renegociação do programa, afirmando que austeridade em cima de austeridade só podia ter um resultado: a economia iria definhar e, consequentemente, o desemprego subiria e a falência das empresas e das famílias seria inevitável. Mas o Governo manteve-se firme e hirto, irredutível na submissão aos mercados e à Alemanha, sem querer perceber o rumo que o país seguia.

Ainda não há muito, o FMI já tinha admitido que, se calhar, tinha errado em tantas políticas de austeridade impostas aos países com programa. Até Olli Rehn, comissário europeu para os Assuntos Económicos afirmou que Portugal já empobreceu demasiado e que não vivemos acima das nossas possibilidades. Faltava a toda poderosa Directora-Geral do FMI, Christine Lagarde, fazer o "mea culpa". Reconheceu, enfim, que o "erro" em relação aos efeitos da austeridade obrigou Portugal e Grécia a aplicarem programas de ajustamento num espaço de tempo demasiado curto.

Levou tempo a estes "iluminados" reverterem a sua posição e considerarem que "é preciso dar tempo ao tempo". E de reconhecerem, também, os seus erros, nomeadamente que alguns temas não foram suficientemente abordados e explorados a fundo.

Mas o que fazer com tanto arrependimento? Sentimento que, ao que parece, não é assumido pelos técnicos da troika que estão no nosso país a efectuar mais uma avaliação. O que nós gostaríamos mesmo de saber é de que forma vamos ser ressarcidos dos efeitos provocados pelas medidas cegas que têm destruído o tecido económico e dado cabo - a todos os níveis - dos portugueses? Quem é que nos reembolsa?


quinta-feira, dezembro 12, 2013

Para além de um jogo de futebol ...



Na última terça-feira o meu filho convidou-me a ir à "Catedral" ver um jogo do meu Glorioso para a "Champions". Há muito que não assistia ao vivo a uma partida de futebol, logo eu que em miúdo tanto ia ao velho Estádio da Luz com o meu pai e com o meu avô. Claro que não estou a contar com o último jogo europeu na Luz (com os gregos do Olympiakos) porque, nessa noite, nem sequer fiquei para a segunda parte, tanta era a chuva.

Desta vez a noite estava boa e o Benfica até ganhou, embora isso não lhe tivesse servido de muito em termos de qualificação. Mas isso são outras contas.

O que achei extraordinário é que passado tantos anos, e tendo havido uma notável melhoria na educação e na formação das sucessivas gerações, tivesse ouvido imensos palavrões (dos fortes), frases inteiras em "português vernáculo" dirigidas aos árbitros (trajados de amarelo), aos jogadores, ao treinador e, admito eu sem ter certezas, a terceiros por serem culpados de irregularidades cometidas ou adivinhadas. Longe vão os tempos em que se atacavam apenas os árbitros (estes, então, vestidos de negro) e as suas mães ou que se dizia em tom de comentário coisas como "aquele jogador não estava a carbonizar bem" quando o que realmente pretendiam expressar é que o visado ainda não estava a carburar totalmente.

Agora, porém, os impropérios vinham de bocas aparentemente insuspeitas. Por exemplo, um rapaz com bom aspecto, duas filas à minha frente, ainda o jogo não tinha começado e já tinha despejado um rol de insultos dirigido ao árbitro assistente que estava mais perto de nós. Um amigo fez-lhe notar precisamente que o jogo ainda nem começara e a resposta veio de pronto: "pois é, mas é para ele se ir habituando, o cabr.....".

Na minha fila havia uma senhora (?) que, de quando em vez, lançava, furibunda, umas quantas injúrias que fariam corar de vergonha um guarda-republicano. Uma outra, com o filho pequeno sentado ao colo, gritava igualmente chorrilhos de insultos. Tenho a certeza que o filho nem precisará de muito esforço para aprender o vocabulário da sua mamã.

Melhor estavam duas jovens sentadas mesmo na minha frente a quem o Pai Natal já lhes tinha entregue a prendinha. Certamente tinham-se portado bem durante o ano e, logo no dia 10 de Dezembro, o "Papai Noel" tinha-lhes dado um "tablet" com que se entretiveram durante todo o jogo, de que viram praticamente nada. E vai aquela gente a um estádio. Não há pachorra.

Bem podem dizer que o futebol é um jogo de emoções. Será, se bem jogado. O que não tenho dúvidas é que, para além do jogo, há todo um conjunto de emoções, muitas delas "vestidas" de um vocabulário "rico" e ordinário, com ou sem novo acordo ortográfico.

terça-feira, dezembro 10, 2013

Ai, as dívidas!



Continuam as manifestações de alegria pelo (relativo) sucesso conseguido por Portugal na "ida aos mercados" na semana passada. É certo que não se tratou propriamente de uma ida aos mercados mas Maria Luís Albuquerque, tal como já o fizera Vítor Gaspar no ano passado, conseguiu convencer uns quantos investidores em dívida pública portuguesa a só receberem em 2017 e 2018 o que deveriam receber em 2014 e 2015. Tratou-se, pois, de uma renegociação da dívida, de um empurrar das nossas responsabilidades lá mais para a frente, para termos alguma folga durante algum tempo. Fez-se, portanto, e bem, aquilo que normalmente é conhecido por gestão da dívida.

Só que as mesmas coisas ditas ou feitas por pessoas diferentes têm, muitas vezes, interpretações diversas. Como aconteceu, e eu lembro-me bem, de quando, há cerca de um ano, José Sócrates disse numa conferência em Paris que "a dívida dos Estados não é para pagar, mas para ir pagando". Caíram-lhe logo em cima, o coitado. E ele só estava a falar na tal gestão da dívida, exactamente o que foi feito agora.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Porque continuamos a não consumir Cultura?



A pergunta é pertinente mas a resposta não é nada fácil. Porque continuamos a não consumir Cultura? É um facto que as verbas para a cultura são cada vez mais reduzidas e, por isso, quem cria tem cada vez menos possibilidades para fazer arte, mas também é verdade que os portugueses consomem muito pouca cultura. Vão pouco ao cinema e ao teatro, muito pouco aos museus e lêem quase nada. Porquê, é a grande questão. Por falta de educação ou por falta de dinheiro?

Costuma-se dizer que primeiro temos que pôr a comida na mesa e só depois se pode pensar em alimentar o espírito. Mas pode não ser bem assim. As duas "necessidades" são fundamentais para a vida e, às vezes, é uma questão de gestão dos orçamentos. Coisa que, para as famílias, vai sendo cada vez mais difícil.

Mas números são números e segundo o relatório do Eurobarómetro, os portugueses são dos cidadãos da União Europeia, ao lado de países como a Roménia ou a Bulgária, com menores taxas de participação em actividades culturais. Só 6% dos inquiridos, em Portugal, tem uma actividade cultural frequente enquanto que, por exemplo, na Suécia (43%), Dinamarca (36%) e Países Baixos (34%) os cidadãos são muito mais participativos. Mesmo os espanhóis têm uma taxa de 19%.

Mas, por outro lado, vemos e ouvimos muita televisão - é cómodo, entra pela casa adentro e podemos ver filmes e séries à-vontade. Temos muitos iPads, iPhones, Tablets e Facebook que já nos distraem bastante. Para quê gastar mais em cultura se temos tanto entretenimento à mão?

Portanto, a crise económica pode explicar grande parte dos números (embora haja uma muitos eventos culturais gratuitos, há sítios na internet que os anunciam) mas tenho a convicção que é também uma questão de educação. Desde há muito que nos habituaram ao que é mais imediato. Para quê esperar pelo final de um livro que leva tanto tempo a ler? O que nos leva à falta de estímulo no ensino cultural nas escolas. Coisa que a sociedade em geral não tem considerado um bem essencial mas que, na verdade, é um importante investimento.

E o desinvestimento na educação e na cultura verificado nestes três últimos anos estão a destruir o muito que foi feito em tempos não muito longínquos. É preocupante, é uma vergonha e vamos pagar caro por isso.

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Invictus




"Invictus", o poema do britânico William Ernest Henley


que inspirou Nelson Mandela


 

Invictus


Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.