sexta-feira, outubro 19, 2012

Somos mesmo bons ...


Apesar dos resultados decepcionantes da nossa selecção de futebol nos dois últimos jogos, que não foi além de uma derrota com o nosso principal adversário e de um empate com a modesta Irlanda do Norte (as "desculpas" para o fracasso foram o relvado sintético no primeiro caso e a chuva no segundo), apesar disso, fiquei contente em saber que o nosso país, pequenino como é, conseguiu guindar-se ao lugar de maior vencedor do troféu que é atribuído aos melhores marcadores dos campeonatos europeus. Temos nada menos que seis Botas de Ouro. A saber, Eusébio, Fernando Gomes e Cristiano Ronaldo venceram o troféu duas vezes cada um. A Holanda é o segundo país com mais Botas de Ouro, umas modestas quatro.

Fiquei muito orgulhoso da façanha e fiquei na expectativa de ouvir os nossos jovens (e não só) responder pronta e sabiamente quando uma das nossas televisões se lembrar de fazer um inquérito de rua sobre os notáveis portugueses que alcançaram os maiores prémios do mundo.

Quanto ao futebol não tenho qualquer dúvida que o farão. Já terei algumas se aos inquiridos for perguntado quais os portugueses que ganharam o Prémio Nobel. "Salazar??" "Durão Barroso??", responderão interrogativamente alguns ...

Pois o nosso orgulho seria total se todos soubéssemos que, para além dos magos da bola, Egas Moniz, em 1949, foi galardoado com o Nobel da Fisiologia ou Medicina, José Saramago, em 1998, com o Nobel da Literatura e Siza Vieira e Souto Moura, respectivamente em 1992 e 2011, com o Prémio Prizzker (O Nobel da Arquitectura).

E refiro só os vencedores do Nobel (porque são menos) mas poderia ir muito mais além se pretendesse saber outros vencedores das mais diversas áreas (o que iria complicar a questão).

Aí sim, diríamos, de peito cheio, "Somos mesmo bons"!

 

quinta-feira, outubro 18, 2012

Parece-me que eles estão a "esticar a corda" em demasia ...



Ainda não há muito tempo escrevemos aqui sobre os luxos gastronómicos dos restaurantes da Assembleia da República, que são suportados pelo orçamento da própria AR. E ficámos atónitos, agora, com duas notícias recentes que davam conta de mais uns luxos também contemplados pelo orçamento (elástico) da Assembleia.

Então não é que o Orçamento da Assembleia da República para 2013 vai manter as verbas destinadas à Associação de ex-Deputados e Grupo Desportivo para a organização de eventos desportivos, nomeadamente torneios de golfe (em 2012 estas duas entidades receberam 57 mil euros)?

E o que dizer da renovação da frota automóvel do grupo parlamentar do PS que também foi custeado pelo Orçamento da Assembleia (210 mil euros)?

Bem pode dizer o Conselho de Administração da Assembleia da República que teve a preocupação de reduzir verbas em dotações. Bem pode o Partido Socialista afirmar que teve o cuidado de substituir carros de topo de gama por outros mais económicos ... mas também de topo de gama, como se apenas existissem no mercado os Audi, os BMW, os Wolkswagen e os Mercedes ... de gama alta.

Sabemos todos que a democracia tem custos. Porém, o que está em causa é o significado, o exemplo, que transmitem à população. Quando se pede um esforço gigantesco aos cidadãos, a roçar o desumano, é de uma completa insensibilidade e falta de bom-senso a ostentação que os nossos representantes continuam a demonstrar ... à conta dos contribuintes.
 
 
 

quarta-feira, outubro 17, 2012

Agradecidos ...



A apresentação do Orçamento de Estado para 2013 veio confirmar aquilo que já esperávamos: no próximo ano, os portugueses vão viver um verdadeiro inferno. Vamos ser sujeitos à mais alta subida de impostos de sempre e, por consequência, haverá mais falências e desemprego, piores condições de vida e os movimentos de indignação e manifestações terão um aumento exponencial e serão (porventura) mais violentos.

O Ministro das Finanças diz que “não há margem no OE e este é o Orçamento necessário". Já não sei se será bem assim, ainda há pouco ouvi notícias que alguma coisa ainda pode mudar. Entretanto, a antiga Ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, disse acreditar que a proposta governamental de Orçamento do Estado para 2013 é inviável e que não vai poder ser executada. Isto, claro está, se o Orçamento chegar a ser aprovado porque o CDS, através do vice-presidente José Manuel Rodrigues, defende que o partido deve "chumbar" este Orçamento do Estado e tirar daí "todas as consequências políticas". A ver vamos ...

Mas esta apresentação do OE permitiu-nos assistir, uma vez mais, às tiradas peculiares (surpreendentes e um pouco demagógicas) de Vítor Gaspar. Ainda há dias na Assembleia da República afirmava:
 
"o povo português revelou-se o melhor povo do mundo e o melhor activo de Portugal".
Agora, saiu-se com esta:
"O país investiu muito na minha educação, durante algumas décadas, e é minha obrigação estar disponível para retribuir. A minha permanência [no Governo] dependerá da utilidade que ela [a minha educação] terá para a República".
Perante isto, e independentemente do Orçamento passar ou não, só podemos dizer ao Ministro Gaspar que estamos todos muito "AGRADECIDOS"!
 
 

terça-feira, outubro 16, 2012

Na manifestação do dia 15 de Setembro faltava lá um cartaz!


Fez ontem um mês que eu participei na manifestação do 15 de Setembro, em Lisboa. Éramos muitos milhares a desfilar pelas ruas, a entoar palavras de ordem e cânticos contra o Governo, contra alguns (quase todos os) Ministros, contra a troika, contra o desemprego, contra, afinal, o assalto aos nossos bolsos e à degradação das condições de vida e à falta de perspectivas.

Eram muitos os braços no ar, como muita era convicção de que "o povo unido jamais será vencido", como muitos eram os cartazes e faixas que exprimiam o sentir (desesperado) de quem se sente no limite.

E, como digo, cartazes eram muitos. A troika, evidentemente, era um dos temas mais em destaque. Porém, não vi um só cartaz contra os carteiristas que assaltaram um dos elementos da troika a residir em Lisboa desde Outubro do ano passado.

E não posso deixar de referir o assunto porque não me parece justo andarmos sempre a dizer que a troika anda a meter a mão nos bolsos dos portugueses (e anda) e quando o representante do FMI,
o austríaco Albert Jaeger, que andava a passear pela capital, ficou sem a carteira no eléctrico 28, vá de batermos palmas de contentes e acharmos que foi bem feito. Quase como que a dizer "até que enfim, um português foi ao bolso da troika" ou "o eléctrico da carreira 28 entrou no mundo da alta finança mundial".

É que não pode haver dois pesos e duas medidas ...
 
 

segunda-feira, outubro 15, 2012

Acordai


 
"Acordai" é um poema do escritor e poeta português José Gomes Ferreira (1900 - 1985), que foi musicado por Fernando Lopes-Graça (1906 - 1994), um dos maiores compositores portugueses do século XX.

"Acordai" é, também, uma “canção heróica” e - hoje - uma das bandeiras dos muitos milhares de descontentes em Portugal.

E será bom que os políticos acordem de vez. É que, como dizia o ex-Presidente Jorge Sampaio numa entrevista à SIC Notícias, "a austeridade rebenta com o país. Há um caminho que pode deslizar para um certo desespero".
 
 
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

 

sexta-feira, outubro 12, 2012

Como se educa uma criança




Conhecem, certamente, aquela história de um homem que tinha sete teorias sobre como educar os filhos. Depois, teve sete filhos e ficou sem teoria nenhuma.

Pois é! Convenhamos que educar crianças não é fácil. E por uma série de razões que vão desde a falta de aptidões para a tarefa dos próprios educadores (pais e/ou outros) às características específicas de cada criança. Ainda por cima elas não vêm com um manual de instruções e continua a não existir regras uniformes de aplicação à totalidade dos miúdos. Acaba por ser um pouco “cada caso é um caso”.

Por isso não resisti a partilhar convosco uma cena a que assisti num restaurante. A criança, com um ou dois anos de idade muito irrequietos, almoçava à mesa com a família. De repente (e isto com as crianças é mesmo de repente), dá-lhe uma birra daquelas e desatou num berreiro danado. Provavelmente o sono estava ali para as curvas e vá de chorar que não havia chucha que o calasse. O pai levantou-se de um salto, arrancou o miúdo (arrancou-o da cadeira, literalmente), sem qualquer delicadeza e zás, encostou-o a uma parede do restaurante de cara voltada para a dita. O berreiro continuou forte por mais uns escassos minutos e a criança manteve-se sempre na posição em que fora “plantada” sem que os demais lhe ligassem peva. De súbito, o choro parou, o miúdo (ainda na mesma posição) voltou a cabeça para a sala do restaurante e a sua carinha bonita e os olhos maravilhosos, aparentavam uma calma como nada se tivesse passado. O pai pegou nele e voltou a colocá-lo no seu lugar à mesa. O almoço continuou e toda a família pôde terminar a refeição em paz.
 
 

quinta-feira, outubro 11, 2012

Um novo consultor em perspectiva?




Vi numa reportagem de televisão um "ignorante" cidadão da Guarda afirmar que os helicópteros que combatiam os fogos que lavravam incontroláveis por várias frentes, teriam mais eficácia se tivessem outros pontos de abastecimento mais próximos. Dizia, em tom humilde "É que, enquanto vão e voltam, demoram vinte minutos e quando chegam já se reacendeu o que tinham apagado. E temos tanta água por aqui...".

 
Nessa altura não pude deixar de pensar nos versos de António Aleixo:

"Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma ciência".

 
A sabedoria está em arranjar soluções simples e viáveis. Será que ninguém tinha tido uma ideia tão óbvia? Não tarda que vão buscar o desconhecido cidadão da Guarda para consultor do órgão a quem cabe a responsabilidade de combater os fogos. E se calhar, bem ...
 
 

quarta-feira, outubro 10, 2012

Porque razão hei-de acreditar desta vez?



Corria o ano de 2003 e Passos Coelho era consultor da Tecnoforma, empresa que, nesse ano, recebeu 82% do valor das candidaturas aprovadas pelo programa “Foral”, composto por dinheiros do Fundo Social Europeu e do Estado português, destinados à formação profissional ao nível das autarquias. Programa que era tutelado pelo então secretário de Estado Miguel Relvas. Aliás, entre 2002 e 2004, 63% do número de projectos aprovados a privados foram para a mesma empresa.

Coincidência, ou não, Miguel Relvas fazia parte do governo de Durão Barroso, Paulo Pereira Coelho o seu gestor na região Centro, Pedro Passos Coelho consultor da Tecnoforma, João Luís Gonçalves era sócio e administrador da empresa e António Silva era director comercial e vereador da Câmara de Mangualde. Todos eles eram destacados dirigentes da JSD ou deputados do PSD.
 
Passos Coelho nega que houvesse quaisquer favorecimentos. Mas porque razão hei-de acreditar agora no Primeiro-Ministro se já lhe ouvi afirmações como:

"acabar com 13º mês? isso é um disparate"; "posso garantir que não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para cumprir um programa de saneamento financeiro no Estado Português"; "aquilo que o primeiro-ministro (Sócrates) nos acusou foi o de querer acabar com o IVA intermédio da restauração (13%). É absolutamente falso"; "nós não devemos aumentar os impostos"; "a política de privatizações em Portugal será criminosa se visar apenas vender activos ao desbarato para arranjar dinheiro" ou "não contarão connosco para mais ataques à classe média em nome dos problemas externos" ... e por aí adiante ...
e sabemos que tudo isso era mentira?
Bem pode negar, veementemente, Passos Coelho. Mas lá que desconfiamos, desconfiamos.
Ainda no sábado, Nuno Amado, Presidente do BCP, dizia ao Expresso:
"um dos problemas de Portugal chama-se "Amiguismo".
 
 
 

terça-feira, outubro 09, 2012

Um assalto à mão armada


Quando, em criança, me faziam a velha pergunta "Então, o que queres ser quando fores crescido?" nunca me imaginei ser cowboy nem a viver no faroeste entre índios e duelos ao pôr-do-sol. Os meus objectivos eram mais próximos e mais ingénuos. Queria ser apenas revisor dos caminhos de ferro ou jogador de hóquei em patins.

Afinal, e tantos anos mais tarde, cá estou no tal faroeste (em Portugal) onde os bandidos (o Governo) "assaltam" sem piedade os trabalhadores e os índios (também os do Governo e os seus impiedosos consultores) "matam" a classe média e lhes tiram cruelmente o respectivo escalpe.

E este estado de coisas chegou a um ponto que até já é repudiado por muitos dos apaniguados dos partidos da coligação que está no poder. Marques Mendes, conselheiro de Estado e ex-presidente do PSD, classificou estas últimas medidas de austeridade como um "assalto à mão armada aos contribuintes. Isto é um assalto fiscal. Não é um agravamento fiscal, nem um aumento fiscal enorme como dizia o ministro das Finanças, isto é uma espécie de assalto à mão armada ao contribuinte".

Ainda por cima, feito "ao melhor povo do mundo", como disse Vítor Gaspar. Ao melhor e ao mais paciente, digo eu.
 
 
 

segunda-feira, outubro 08, 2012

O país está às avessas


O facto da bandeira de Portugal ter sido hasteada de pernas para o ar pelo Presidente Cavaco Silva, na varanda do Município de Lisboa, no início das comemorações do 5 de Outubro, não teria uma importância por aí além (pese embora a bandeira nacional seja um símbolo da Pátria e com os símbolos há que ter todos os cuidados), não fosse o facto da situação miserável em que o país se encontra.

Se, noutros tempos, em termos militares, a bandeira virada ao contrário já significou território ocupado, a bandeira agora hasteada pode perfeitamente ser o sinal da “invasão económico/financeira do país" por aqueles que são os nossos credores.

Houve mesmo quem afirmasse "É o estado do país". E a analogia é capaz de fazer sentido. A bandeira ao contrário, pode "traduzir" o desespero e a falta de esperança de um povo que não consegue vislumbrar uma luzinha que seja ao fundo do túnel.

E num gracejo (mesmo nos piores momentos há sempre quem ainda consiga ter algum humor), houve quem dissesse que a tal falta de luz no final do túnel se deveu ao facto de já nem sequer haver dinheiro para pagar a electricidade. Cá para mim, no entanto, o episódio da bandeira não passou de uma vingançazinha de alguém por este 5 de Outubro ser a última vez que foi feriado no nosso país.
 
 
 

quinta-feira, outubro 04, 2012

Entre a raiva e a esperança



Hoje lembrei-me da pergunta clássica “tenho duas notícias, uma boa e uma má, qual queres saber primeiro?”.

Já que posso escolher, começo pela que me dá uma raiva dos diabos. A que tem a ver com a descarada discrepância que se verifica entre o que a quase extinta classe média entrega ao Estado, qualquer coisa como 70% dos seus rendimentos (entre impostos directos e indirectos) e aquilo que é despendido por quem vive do rendimentos do capital que coloca ilegalmente no exterior e que paga uma reduzida taxa de 7,5% para o legalizar, podendo continuar a mantê-lo lá fora com todo o descanso. Acho isto uma obscenidade, apesar do Estado, com este expediente, ter conseguido recolher cerca de 258 milhões de euros .

Por contraponto, o que me transmite alguma esperança nos homens e no futuro foi a o facto de, perante a notícia de que a Fundação “O Século” (que desde 1927 organiza colónias de férias para crianças carenciadas) deixar de poder continuar a desenvolver este trabalho meritório já a partir deste ano devido a dificuldades financeiras, ter havido um empresário da indústria farmacêutica – Paulo Paiva dos Santos – que em 35 segundos decidiu doar 100 mil euros para que a Fundação "O Século" possa, em 2013, voltar a acolher os miúdos. Um belo exemplo de solidariedade.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Falando de Fundações




Dado que muitos dos meus Amigos ainda estão de boca aberta com a quantidade de Observatórios que existem em Portugal, e que aqui vos dei conta em 25 de Setembro último, decidi voltar ao tema "onde se gasta o nosso dinheirinho sem que haja utilidade visível", desta vez para falar de Fundações. Instituições que, de resto, não se sabe bem quantas existem. Há quem diga que são umas quantas centenas, mas já ouvi falar em 1 100.

O curioso é que o Governo prometeu que ia acabar com quem anda a receber indevidamente milhões do Estado (as tais gorduras do Estado) e, afinal, parece que só vai extinguir três Fundações e reduzir os subsídios a umas quantas mais, não se conhecendo exactamente quais são, e com que critérios o vai fazer. E ainda há um outro problema, é que mais de um terço das Câmaras Municipais não acata a proposta de extinguir Fundações.
 
Mas a questão de fundo é a seguinte: para que servem as Fundações? Há quem jure que não recebem verbas do Estado mas, então, porque é que tantas dessas Fundações ameaçam acabar com a actividade se houver cortes de subsídios? E porque precisam de ser Fundações?

Pessoalmente, gostaria que me dissessem para que servem e quanto dinheiro sai do Orçamento Geral do Estado para Instituições como, por exemplo:
 
- Fundação Cronse para a Pesquisa Religiosa;
- Fundação Lapa do Lobo;
- Fundação LMCE - Lisboa Mais Bela Cidade da Europa;
- Fundação Mister Freedman;
- Fundação Work Deaf World;
- Fundação Lar do Emigrante Português no Mundo;
- Fundação da Obra Social das Religiosas Dominicanas Irlandesas;
- Fundação de Ensino e Resposta a Desastres;
- Fundação para a Preservação da Cultura Tibetana;
- Fundação Austronésia Borja da Costa; ou
- Fundação Ajuda à Igreja que Sofre.
 
Não me passa pela cabeça pôr em causa a utilidade de qualquer das Fundações. Mas gostava que se fizesse um trabalho sério e criterioso que premiasse apenas as Fundações que têm realmente utilidade pública. Quanto às outras ...
 
 
 

terça-feira, outubro 02, 2012

Racionar ou racionalizar?



Senti-me desconfortável com o parecer do Conselho de Ética para as Ciência da Vida que sugere racionar os medicamentos para o tratamento de cancro, SIDA e doenças reumáticas. Ao que percebi - e muitos outros entenderam exactamente o mesmo - os doentes poderão deixar de ser tratados ou, na melhor das hipóteses, serão tratados com medicamentos muito mais baratos (e não sei se com a mesma eficácia) em vez daqueles que, em princípio, seriam os adequados. Tudo, claro está, por razões de natureza economicista. Devo confessar que me custa aceitar a medida. Acho-a desumana.

E quem é que vai decidir o tal racionamento? Os economistas e gestores que estão apenas preocupados com os números do balanço e não conseguem perceber que o que está em causa são as pessoas? Quem vai perguntar aos doentes (se é que eles têm alguma palavra na matéria) se querem prescindir de viver mais uns meses? Afinal, na perspectiva de um gestor, o doente mais barato é o doente morto.

Vão faltando pessoas que saibam o que digam ou que, no mínimo, saibam exprimir exactamente o que querem dizer. Como parece ter sido caso (afirma agora um membro do tal Conselho de Ética), uma vez que usaram a expressão "racionar" em vez de "racionalizar", o que tem um significado completamente diferente.

Vivem-se hoje tempos muito difíceis em que o dinheiro escasseia e há escolhas que têm que ser feitas. Compreendemos que alguns medicamentos possam atingir os 500 mil euros por doente e por ano e, por isso, será razoável que se utilizem medicamentos mais baratos se, os mesmos, conseguirem atingir - mais ou menos - os mesmos fins. Mas, o Conselho de Ética, a gestão dos hospitais e o poder político, têm que assegurar, no mínimo, aquilo que foi dito pelo Professor Daniel Serrão:

“Está em causa a substituição do óptimo pelo bom. Não é do óptimo por nada".


 

segunda-feira, outubro 01, 2012

A Arrogância



Eu não gostei, os empresários não gostaram, muitos militantes e responsáveis do PSD e do CDS também não gostaram e, acho eu, que ninguém de bom-senso deve ter gostado de ouvir o conselheiro do primeiro-ministro para as privatizações - António Borges - dizer a uma plateia de empresários portugueses e estrangeiros:

“Que a medida (TSU) é extraordinariamente inteligente, acho que é. Que os nossos empresários, que se apresentaram contra a medida, são completamente ignorantes, não passariam no primeiro ano do meu curso da faculdade, isso não tenham dúvida”.

Uma arrogância desmedida!
 
É que é inacreditável como os nossos empresários, de tão burros que são, não conseguiram compreender esta "medida extraordinariamente inteligente", saída da cabeça iluminada de António Borges. Os tais empresários burros que são (na maioria) gente esforçada, que cria emprego e gera riqueza. E é, também, inacreditável que sendo uma medida de tamanha qualidade ela não tenha sido posta em prática pelo Governo.
O Presidente da CIP, António Saraiva, respondeu de pronto:
“Se tivéssemos que reagir emotivamente a estas declarações de António Borges (que foram infelizes e excessivas), se calhar a maioria dos empresários portugueses também não o contrataria, não passaria na selecção dos recursos humanos das empresas, porque só tem um determinado conhecimento e não tem uma visão alargada”.
Mas a reacção com a qual mais me identifiquei foi a de Daniel Oliveira que escreveu:

"Pior do que um idiota é um idiota atrevido. Pior do que um idiota atrevido é um idiota avençado".
Contudo, não nos esqueçamos que António Borges - que é "apenas" um contratado (a quem pagamos muito bem), não faz parte do Governo e não foi eleito por nenhum de nós - tem o poder de aconselhar/decidir a forma como as nossas principais empresas vão ser desbaratadas. A exemplo do que já aconteceu com outras recentes privatizações. A não ser que alguém tenha a coragem de o mandar embora rapidamente.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Alberto João, sempre ele …



Alberto João Jardim desafiou o Governo de Passos Coelho a ter a coragem de permitir um referendo na Madeira sobre a autonomia da região. Uma vez mais quis agitar o "papão da autonomia". Mas atenção, o que ele queria mesmo era realizar o referendo apenas na Madeira. Ou seja, queria perguntar aos madeirenses qualquer coisa como “se eles (nós, os "cubanos", o Governo da República) não nos derem melhores condições para enfrentar a difícil situação que atravessamos queremos, ou não, ser independentes?”.

Alberto João é capaz de ter arriscado demasiado. Primeiro porque a haver um referendo ele poderia ser a nível nacional e, neste caso, não creio que o resultado fosse ao encontro da pressão que, mais uma vez, está a fazer. Depois, porque mesmo a nível interno as vozes discordantes das suas políticas (sobretudo agora que as dificuldades apertam) têm aumentado.

O desafio pode não ser a melhor estratégia. É que, um dia destes, alguém pode fartar-se e dizer "Muito bem, querem ser independentes? Fazemos-lhes a vontade ...”.
 
 
 

quinta-feira, setembro 27, 2012

Angola – para além das desigualdades, os abusos



Ontem, dia 26, José Eduardo dos Santos tomou posse como Presidente de Angola. No seu discurso, o Chefe de Estado prometeu mais atenção para a juventude e uma melhoria da qualidade de vida dos angolanos.
Angola é um país rico. Porém, os benefícios do crescimento económico do país não são distribuídos por toda a população. Enquanto que muitos, ligados aos sectores político, administrativo e militar enriquecem rapidamente, a maioria da população é pobre e regista-se uma grande desigualdade social, que se tem agravado nos últimos anos.
Se, por um lado, nos habituámos, desde há um tempo, a ver as elites angolanas a frequentar as melhores lojas de marca de Lisboa (salvando-as, em alguns casos, da falência), por outro, não podemos ficar indiferentes aos abusos que vão sendo conhecidos, cometidos por altos funcionários angolanos que utilizam os dinheiros públicos para alimentar os seus vícios privados.
É o caso de Manuel Vicente, putativo sucessor de Eduardo dos Santos como Presidente da República. Sabe-se de há muito que Manuel Vicente tem um gosto refinado por vinhos e conhaques caríssimos. Daí enviar periodicamente a França e a Portugal, um avião executivo (o luxuoso Falcon-900 ou o sofisticado Falcon X-7), como cargueiro para o transporte exclusivo dos seus vinhos e conhaques. Os voos são operados pela VipAir, uma empresa comparticipada pela Sonangol, e não são permitidos passageiros durante as referidas viagens.
Algumas das garrafas de vinho Petrus, adquiridas em Paris, são reservadas apenas a multimilionários. O Petrus 1989 Magnum custa cerca de 9,700 euros, enquanto o Petrus 1990 Magnum atinge os 11,000 euros por garrafa. Já o conhaque habitual de Manuel Vicente, o Rémy Martin Louis XIII, custa em média 2,500 euros, enquanto as garrafas especiais, da mesma marca e também ao gosto do dirigente angolano, custam acima dos 8,000 euros.
É revoltante, temos que convir. Manuel Vicente, que já foi o todo-poderoso Presidente da Sonangol (na qual, ao que consta, constituiu uma fortuna pessoal incalculável e de forma ilícita) mostra-se indiferente às condições de vida da maioria dos cidadãos angolanos. O uso exclusivo de um avião de luxo adquirido com fundos da Sonangol, logo propriedade do Estado, para o transporte de vinhos e conhaque para satisfazer os seus caprichos etílicos é um acto inqualificável de corrupção e esbanjamento de fundos do Estado.
Manuel Vicente nasceu e cresceu pobre mas parece ter esquecido rapidamente as suas origens. Talvez seguindo as pisadas do seu ideólogo – o Presidente José Eduardo dos Santos – que afirmou em público que, quando nasceu filho de um pedreiro e de uma lavadeira, “já havia pobreza em Angola” e a culpa não era nem é sua.
 
Perante isto … resta esperar que as palavras proferidas pelo Presidente - mais atenção para a juventude e uma melhoria da qualidade de vida dos angolanos - se venham a concretizar. Os Angolanos merecem.
 
 
 

quarta-feira, setembro 26, 2012

Beber muito, pouco ou nada …


Dado que este espaço também pretende ter uma componente de utilidade pública, aqui vos deixo uma informação que poderá surpreender alguns mas que considero ter interesse para todos.

À polémica, tantas vezes discutida, sobre a quantidade de álcool que se pode beber – tanto mais que hoje se bebe muito e mal e, sobretudo, os jovens - sem pôr em risco as vidas dos outros e as próprias e sem que se corra o risco de se ser penalizado por excesso de alcoolemia, leiam um extracto de uma interessante entrevista ao Expresso concedida por Rui Tato Marinho, médico no Hospital de Santa Maria e Coordenador do Colégio de Hepatologia da Ordem dos Médicos:

“…deixou-se de falar em mililitros e passou-se a usar o conceito de bebida. Dizemos que uma cerveja é igual a um copo de vinho, a um uísque ou a um shot. O teor alcoólico é diferente mas o tamanho da bebida também, pelo que podem equivaler-se. Por exemplo, um shot tem uma quantidade de álcool muito elevada mas a dose é pequena. Na prática, equivale a uma cerveja …

… a quantidade de álcool que uma pessoa ingere com dez shots é equivalente a dez cervejas, mas dez cervejas são 3 litros … não é fácil nem rápido beber 3 litros. Já dez shots são aí uns 200 mililitros. Por isso, atingem rapidamente uma alcoolemia muito elevada …”

Palavras de especialista!
 
 

terça-feira, setembro 25, 2012

Observatórios ...




Embora estejamos habituados a que a maioria das promessas dos políticos não sejam cumpridas, parece que, finalmente, ainda que de forma débil, se começou a cortar as famigeradas “gorduras do Estado”. Mas há muito caminho pela frente e quase se não ouve falar nos “Observatórios”. Por acaso têm ideia do número de Observatórios que existem no nosso país? Vejam só…

Observatório dos medicamentos e dos produtos da saúde; Observatório nacional de saúde; Observatório português dos sistemas de saúde; Observatório da doença e morbilidade; Observatório vida - só aqui vão cinco sobre a vida, a saúde e a doença;
Observatório do ordenamento do território; Observatório do comércio; Observatório da imigração; Observatório para os assuntos da família; Observatório permanente da juventude;
 
Observatório nacional da droga e toxicodependência; Observatório europeu da droga e toxicodependência; Observatório geopolítico das drogas - mais três para tratar da droga;
 
Observatório do ambiente; Observatório das ciências e tecnologias; Observatório do turismo; Observatório para a igualdade de oportunidades; Observatório da imprensa;
 
Observatório das ciências e do ensino superior; Observatório dos estudantes do ensino superior (dois para o ensino superior);
 
Observatório da comunicação; Observatório das actividades culturais; Observatório local da Guarda; Observatório de inserção profissional; Observatório do emprego e formação profissional; Observatório nacional dos recursos humanos;
 
Observatório regional de Leiria; Observatório sub-regional da Batalha (dois para a mesma região);
 
Observatório permanente do ensino secundário; Observatório permanente da justiça; Observatório estatístico de Oeiras; Observatório da criação de empresas;
Observatório do emprego em Portugal; Observatório português para o desemprego (um para o emprego e outro para o desemprego, faz sentido …);
Observatório Mcom; Observatório têxtil; Observatório da neologia do português; Observatório de segurança; Observatório do desenvolvimento do Alentejo;
Observatório de cheias; Observatório das secas (cheias e secas, estes também se justificam!);
Observatório da sociedade de informação; Observatório da inovação e conhecimento; Observatório da qualidade dos serviços de informação e conhecimento; Observatório das regiões em reestruturação; Observatório das artes e tradições; Observatório de festas e património; Observatório dos apoios educativos; Observatório da globalização; Observatório do endividamento dos consumidores; Observatório do sul Europeu; Observatório europeu das relações profissionais; Observatório transfronteiriço Espanha-Portugal; Observatório europeu do racismo e xenofobia; Observatório para as crenças religiosas; Observatório dos territórios rurais;
Observatório dos mercados agrícolas; Observatório dos mercados rurais (não estarão a exagerar?);
Observatório virtual da astrofísica; Observatório nacional dos sistemas multimunicipais e municipais; Observatório da segurança rodoviária; Observatório das prisões portuguesas; Observatório nacional dos diabetes; Observatório de políticas de educação e de contextos educativos; Observatório ibérico do acompanhamento do problema da degradação dos povoamentos de sobreiro e azinheira; Observatório estatístico; Observatório dos tarifários e das telecomunicações; Observatório da natureza; Observatório qualidade; Observatório quantidade;
Observatório da literatura e da literacia; Observatório nacional para o analfabetismo e iliteracia (e estes ?);
E por aí fora, por aí fora …

Observatório da inteligência económica; Observatório para a integração de pessoas com deficiência; Observatório da competitividade e qualidade de vida; Observatório nacional das profissões de desporto; Observatório das ciências do 1º ciclo; Observatório das ciências do 2º ciclo; Observatório nacional da dança; Observatório da língua portuguesa; Observatório de entradas na vida activa; Observatório europeu do sul; Observatório de biologia e sociedade; Observatório sobre o racismo e intolerância; Observatório permanente das organizações escolares; Observatório médico; Observatório solar e heliosférico; Observatório do sistema de aviação civil; Observatório da cidadania; Observatório da segurança nas profissões; Observatório da comunicação local; Observatório jornalismo electrónico e multimédia; Observatório urbano do eixo atlântico; Observatório robótico; Observatório permanente da segurança do Porto; Observatório do fogo; Observatório da comunicação (Obercom); Observatório da qualidade do ar; Observatório do centro de pensamento de política internacional; Observatório ambiental de teledetecção atmosférica e comunicações aeroespaciais; Observatório europeu das PME; Observatório da restauração; Observatório de Timor Leste; Observatório de reumatologia; Observatório da censura; Observatório do design; Observatório da economia mundial; Observatório do mercado de arroz; Observatório da DGV; Observatório de neologismos do português europeu; Observatório para a educação sexual; Observatório para a reabilitação urbana; Observatório para a gestão de áreas protegidas; Observatório europeu da sismologia; Observatório nacional das doenças reumáticas; Observatório da caça; Observatório da habitação; Observatório Alzheimer; Observatório magnético de Coimbra
Ainda aí estão? Perante a imensidade de Observatórios apraz-me perguntar: mas o que é que toda esta gente tanto observa? E não faltará ainda o Observatório dos Observatórios?
Gaspar, Gaspar, ainda há muito onde ir “cortar” …

segunda-feira, setembro 24, 2012

Os Bons Empregos conseguem-se ao jantar



Há uns anos, numa festa de casamento, encontrei um amigo que já não via há muito. Tínhamos convivido na tropa, ele era oficial de carreira e eu miliciano. Estivemos à conversa e vim a saber que depois de se reformar apenas tinha como ocupação umas quantas reuniões numa instituição de solidariedade gerida por militares na reserva. Achei interessante a actividade desenvolvida por essa instituição e perguntei se não necessitariam de mais um para ajudar. É verdade que nesse tempo não se falava em voluntariado como hoje, mas a minha intenção genuína era, tão-somente, colaborar de forma graciosa. Após breve hesitação, respondeu-me: "o montante de cada senha de presença é X. Interessa-lhe?"

 
Lembrei-me da história quando li há dias no Diário de Notícias um texto de André Macedo intitulado "Os Bons Empregos conseguem-se ao jantar". Nele se relatava um anúncio publicado na "Economist" em que "A Rainha de Inglaterra - na verdade o Ministério das Finanças - acabava de lançar um concurso para o cargo de governador do Banco Central de Inglaterra. O actual governador, Marvyn King, termina o mandato em Junho, é preciso encontrar um substituto e nada melhor do que um anúncio para escolher o mais capaz".

E acrescentava "Não me lembro de uma única oferta de emprego para cargos de topo nacionais. Nem no Banco de Portugal, nem em qualquer regulador, nem sequer em empresas públicas. Julgo até que poderia ser considerado perigoso um anúncio assim. Nós temos outro método de escolha. Resolvemos tudo em segredo, a meio de uma jantarada, e é nessa atmosfera íntima que se estabelece a cumplicidade que garante o êxito de Portugal".
 
Pois é ... o "êxito de Portugal"! Não quer dizer que no Reino Unido não existam, também, casos mais obscuros, mas por cá o costume é saltarem-se etapas, chatices e perdas de tempo com entrevistas e análise dos perfis de candidatos. Afinal, eles são quase sempre os mesmos e nesse "universo" toda a gente se conhece e existe uma permanente troca de favores. Hoje para mim, amanhã para ti e vice versa, num jogo pouco transparente mas que dura inalterável há demasiados anos.
Ah, e antes que me esqueça, não aceitei a proposta da tal colaboração em troca de umas quantas senhas de presença. Não pelo valor das mesmas mas porque, já nessa altura, eu tinha a mania de ter uma coluna vertebral.
 
 
 

sexta-feira, setembro 21, 2012

A boa gestão do tempo



Ouço meio mundo queixar-se de que o tempo voa, que não há tempo para nada. Porém, na maioria dos casos, o que dá a impressão é que não se sabe gerir o tempo da melhor forma.
Um bom exemplo de uma adequada gestão do tempo veio esparramado num relatório da CMVM que apurou que, em 2010, 17 administradores acumulavam, cada um, lugares de gestão em 30 ou mais empresas. O regulador até registou um caso de um gestor (que se sabe agora ser Miguel Pais do Amaral que tinha lugar na administração de 73 empresas.
O tema não é novo nem, tão-pouco, ilegal se o facto se passar em empresas privadas. O que me parece - e larachas à parte - é que tantos cargos de Administração numa só pessoa vai um pouco além do que é normal e razoável. E mais, deixa-me sérias dúvidas que a qualidade de desempenho seja, no mínimo, eficaz. É que, quando se tocam tantos instrumentos de uma só vez …
De qualquer forma, sempre é possível, com critério, organização e rigor, fazer-se um pouco mais e … melhor. Evitando-se, obviamente, os exageros.