quarta-feira, abril 09, 2008

Os maus e os bons exemplos

Ainda não tive oportunidade de me referir aos três excelentes comentários que foram feitos ao texto que aqui publiquei na sexta-feira 28 de Março último, sob o título “Ao que nós chegámos”. Penso que todos eles constituem magníficas reflexões sobre a indisciplina que campeia nas escolas, pelo que agradeço a presença dos três comentadores e das suas clarividentes exposições.


Para aqueles que não leram aquele post, recordo que afirmei o seguinte

“a responsabilidade do que está a acontecer, se a quisermos apurar, pode ser imputada à escola, aos professores, ao Ministério da Educação e aos seus ministros, aos pais dos alunos e, naturalmente, aos próprios alunos”,

tendo acrescentado

“é tempo de deixar de ter medo de dizer que os alunos são tão culpados como quaisquer outros agentes e é absolutamente necessário responsabilizá-los e castigá-los quando eles são os causadores dos problemas”.


Como calculam, são muitas as pessoas que pensam da mesma forma, como é o caso de Miguel Sousa Tavares que, no Expresso do passado sábado, dizia:

“ ... são os pais que acham que não têm o dever de educar os filhos e que basta dar-lhes telemóveis e iPod’s para que eles não chateiem; são os filhos que acham que não têm o dever de obedecer e respeitar os professores na escola; os professores e os concelhos directivos que acham que não têm o dever de impor disciplina e respeito, custe o que custar; e os teóricos da educação que acham que não têm o dever de castigar a sério os alunos mal-educados, pondo-os a fazer trabalhos para a comunidade nos dias de folga, em lugar de os suspender ou trasferi-los de escola”.


Toda a gente reconhece que a questão é complexa. E, para resolvê-la, é necessário que haja muita coragem e determinação. O diagnóstico dos problemas está feito e existe um amplo consenso na sociedade quanto à necessidade de serem tomadas medidas concretas e urgentes para que possamos ter uma escola com disciplina, apelativa para os alunos e com a dignidade e a autoridade que os professores necessitam e merecem.


A terminar, e porque, apesar de tudo, devemos continuar a acreditar, sugiro que esqueçamos por momentos os “maus exemplos” – aqueles que têm servido de suporte para tantas conversas na última semana - para olhar para um “bom exemplo” que nos transmite uma grande esperança no futuro.

E essa esperança responde pelo nome de Eloísa Pires, é estudante em Leiria e em 2007 ganhou o Campeonato Nacional de Língua Portuguesa (para concorrentes entre os 15 e os 18 anos) e, há duas semanas, venceu as Olimpíadas Portuguesas de Matemática.

Um belíssimo exemplo que faz com que confiemos na inteligência e no bom-senso da maioria dos nossos jovens.


terça-feira, abril 08, 2008

Contra factos ...

Como que a corroborar a minha indignação sobre a desorganização dos serviços dos hospitais públicos, expressa no texto que aqui publiquei ontem, dei de caras com a notícia de um caso ocorrido no Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro.

Segundo a imprensa, neste hospital público existia até há pouco uma longa lista de espera para cirurgias oftalmológicas, pelo que a Administração do Hospital decidiu contratar um cirurgião espanhol por tempo determinado. Até aqui ...

Só que este senhor doutor-médico-cirurgião, José Antonio Lillo Bravo, em seis dias realizou 234 cirurgias a doentes com cataratas, enquanto que os restantes especialistas do serviço fizeram apenas cerca de 50 intervenções cada um, no ano inteiro.

Eu repito, o médico espanhol fez 234 operações em seis dias e os colegas portugueses realizaram, cada um deles, 50 operações num ano.

Dir-se-á, não é possível! E se for, há aqui qualquer coisa que não bate certo. E, das duas, uma:

- ou o médico espanhol é um carniceiro que faz as operações de qualquer maneira e ao quilo e ... temos que correr com ele; ou

- os especialistas portugueses andam a fazer uma grande ronha e a gozar com o dinheiro dos contribuintes e ... temos que correr com eles.

Uma coisa é certa. A lista de espera de doentes desceu drasticamente e isso é muito bom para a população e demonstrou que a Administração do Hospital decidiu correctamente. Mas não deveria ficar por aqui. É que as suspeitas que tantas vezes se ouvem de que muitos médicos não fazem mais nos hospitais para pressionar os doentes a recorrer aos seus consultórios privados, acabam de ter a confirmação do próprio médico espanhol que já afirmou:

"Eu percebo a preocupação deles e sei porque há listas de espera tão grandes em Portugal. É que por cada operação no privado cobram cerca de dois mil euros".

Enquanto isso, o oftalmologista espanhol, inscrito na Ordem dos Médicos portuguesa, cobrou apenas 900 euros por cada operação realizada no Barreiro.

E a acreditar no velho aforismo “onde há fumo, há fogo”, será legítimo questionar sobre a possibilidade de haver uma relação efectiva entre a tão baixa produtividade dos médicos hospitalares públicos portugueses e os seus interesses privados.

Eu não acredito em bruxas, mas ...

segunda-feira, abril 07, 2008

Urgências Hospitalares Públicas

Para fugir ao tal vírus informático que teimou em me azucrinar durante mais de uma semana, achei por bem ter uns dias de férias para tentar restabelecer-me da contrariedade, de modo a poder regressar em força à minha actividade normal. Em vão, porém. O tal vírus transformou-se em bactéria e tomou conta deste humilde bloguista, a ponto de me deixar doente. E de tal forma doente que, estando na altura na cidade do Porto, tive que recorrer aos serviços da Urgência do Hospital de Santo António.

Para quem nunca teve a necessidade de utilizar as urgências dos hospitais públicos, não sabe a aventura que aquilo é. Trata-se de um mundo de gabinetes e corredores onde se amontoam doentes e mais doentes e onde se vão observando cenas que impressionam qualquer pessoa, sobretudo pela falta de acompanhamento do pessoal de serviço - médicos, enfermeiros e funcionários. Falta de acompanhamento que, em muitos casos, se arrasta por horas infindáveis e em que tudo se torna mais dramático ainda quando se trata de doentes em estado mais grave e, sobretudo, de doentes muito idosos a que a falta de uma palavra amiga, de um simples gesto de carinho ou de um chegar de um copo de água tornam esse desacompanhamento numa situação desumana.

Durante as quase onze horas que permaneci na urgência tive o tempo suficiente para observar como, em certas fases do processo, o tempo é completamente desperdiçado. Seguramente poder-se-ia fazer mais e melhor. Se compreendo que se tenha que esperar algumas horas pelos resultados de alguns exames, se admito que muitas das esperas sejam o resultado das “urgências” dentro da própria urgência, como por exemplo ter que ir ao bloco operatório fazer uma cirurgia a um doente que requer uma intervenção imediata, outras esperas há em que, por muita compreensão que exista, elas são completamente inaceitáveis.

Vi, por exemplo, pessoas – eram pessoas que estavam ali – em macas, completamente sós, a gritarem de dor, a necessitarem de um apoio para satisfazerem as suas necessidades fisiológicas, horas seguidas a gritar sem que qualquer profissional lhes prestasse a mínima atenção. E fazia doer o coração ver os tais profissionais passarem por esses doentes, completamente insensíveis ao sofrimento traduzido por aqueles gritos lancinantes. Creiam que não estou a exagerar, havia por ali doentes que já estavam à espera de serem atendidos quando eu cheguei e, quando saí, eles continuavam exactamente na mesma situação.

Vi, também, algumas voluntárias muito arranjadinhas que se passeavam aos pares por alguns corredores - não por aqueles onde estavam os doentes que eventualmente mais precisariam delas - em descontraída conversa, pondo os assuntos em dia, mas não acorrendo aos lugares onde, de facto, mais seriam necessárias e onde, certamente, poderiam prestar um serviço eficaz e solidário.

Em suma, vi ali no Hospital de Santo António, no Porto, a mesma desorganização e a mesma falta de atenção para com os doentes que já vi noutras alturas e noutras urgências de outros estabelecimentos hospitares deste país. Admito que temos muito bons médicos e enfermeiros mas a tal desorganização necessita de uma urgentíssima reorganização.

E quando oiço os responsáveis do governo exaltar as inúmeras vantagens e avanços do serviço de saúde público, não posso deixar de pensar em como seria bom que eles se disfarçassem de povo anónimo e se fossem misturar com os demais para verem, ao vivo e sem disfarces, como as coisas acontecem verdadeiramente.

sexta-feira, março 28, 2008

Ao que nós chegámos

Um irritante problema informático não me permitiu comentar na altura certa o vídeo que passou em todas as televisões e que mostrou a briga entre uma aluna e uma professora da Escola Carolina Michaelis no Porto. Infelizmente, a cena não é invulgar mas a verdade é que chocou e revoltou muitos portugueses. Segundo consta, este tipo de desacatos - violência verbal e física de alunos a professores, de pais de alunos a professores e de alunos entre si - acontecem com demasiada frequência nas nossas escolas.

Claro que neste momento o que mais se ouve são as recriminações à Ministra e ao Ministério da Educação. Mas, em consciência, ninguém de boa-fé pode atribuir culpas unicamente aos Ministros e Ministérios (a todos eles e ao longo dos anos) que têm presidido aos destinos da educação no nosso país.

Quanto a mim o que aconteceu tem a ver com o estado da própria sociedade em que vivemos e, a responsabilidade, se a quisermos apurar, pode ser imputada à escola, aos professores, ao Ministério da Educação e aos seus ministros, aos pais dos alunos e, naturalmente, aos próprios alunos.

É tempo de deixar de ter medo de dizer que os alunos são tão culpados como quaisquer outros agentes e é absolutamente necessário responsabilizá-los e castigá-los quando eles são os causadores dos problemas.

No caso presente, uma turma de desordeiros – que não têm outro nome - que sentiu toda a legitimidade para enfrentar e maltratar a professora só pelo facto de ela ter tentado tirar um telemóvel a uma aluna que, abusivamente, o estava a utilizar.
E vimos todos como a professora indefesa, isolada e desmoralizada não conseguiu impor qualquer autoridade sobre uns fedelhos que riam alarvemente e usavam um palavreado impróprio.
Uma corajosa professora, digo eu, cujo o único senão foi o de se encontrar numa escola que não tem as condições de segurança necessárias que lhe teria permitido “fugir” àquele braço de ferro e sair imediatamente da sala de aula em busca de auxílio.

Ao que nós chegámos! A indisciplina, o desrespeito e a desautorização. A mais desprezível
baixeza.

E esta total inversão de valores requer a tomada de medidas urgentes e firmes.

Já se sabe que a tal aluna vai ser transferida de escola mas, isso, não será sanção suficiente para punir um acto que, para além da indisciplina demonstrada, constitui também um crime face à legislação vigente.


Quanto ao aproveitamento político deste caso por parte da oposição, é simplesmente vergonhoso. Melhor seria, já que não se fez mais cedo, que todos os políticos, das diferentes áreas, se entendessem e que através de medidas que deveriam por em prática urgentemente, recolocassem no seu devido lugar, a dignidade e a autoridade dos professores.

A bem do ensino e a bem da Nação.



quarta-feira, março 26, 2008

Os noivos, a invasão da privacidade e o fisco



Confesso que achei uma certa piada a todo este ruído que se fez à volta da intenção do governo de “pedir” aos noivos informação sobre quem foram os seus fornecedores e quanto é que lhes pagaram por todos os serviços prestados com o casamento.

Até há pouco, toda gente se insurgia pelo facto de só pagarem impostos os que trabalhavam por conta de outrem, enquanto que os profissionais liberais, tivessem eles a profissão que tivessem, fugiam invariavelmente às suas obrigações fiscais. Chamavam-lhes malandros, aos que fugiam ao pagamento e aos governos que não os conseguiam caçar, e lamentavam-se por só eles terem que aguentar tamanho fardo.

Até que houve um governo qualquer que obrigou os bancos a serem controladores e denunciantes dos seus clientes para que estes não pudessem contrair empréstimos se não tivessem em dia os pagamentos à segurança social. Nessa altura, os Bancos e os seus empregados argumentaram que o Estado estava a delegar nas entidades bancárias uma tarefa que competia por inteiro aos próprios serviços do Estado. Embora com algumas trafulhices pelo meio, devido à concorrência desenfreada dos próprios bancos, o certo é que muitos empresários tiveram mesmo que regularizar as suas dívidas sob pena de não conseguirem os tão almejados empréstimos.

Anos depois, o governo, não sei se da mesma cor do outro governo, lembrou-se de dizer aos contribuintes que deveriam pedir sempre facturas nos restaurantes. O coro da discórdia já se começava a ouvir quando alguém se lembrou de acrescentar alguma coisa à tal solicitação. Se pedirem as facturas nos restaurantes, parte desse montante pode ser abatido no IRS. E o coro, surpreendentemente (ou talvez não), calou-se e os proprietários dos restaurantes tiveram que começar a pagar os impostos devidos. Pelo menos os respeitantes aos valores inscritos nas facturas que tinham que passar.

Agora (um agora que teve início já em 2004) foi a vez do governo olhar para toda a indústria (cada vez mais próspera) que gira à volta dos casamentos. Os que vendem os fatos de noiva, os que arrendam espaços para as festas, os restaurantes e as empresas que fornecem os cattering, os fotógrafos, os que animam os copos-de-água, as floristas e todos os demais, estão sob o olhar do fisco que pretende saber, através dos noivos, quem é que eles contrataram e quanto lhes pagaram.

Perante esta investida, um bruá enorme se levantou e as acusações de “querer controlar os contribuintes” e de “tentativa de invasão de privacidade” não se fizeram esperar.

Mas, afinal, onde reside o problema? O Estado não pretende saber como é que os noivos, que até podem estar desempregados ou ganham uma miséria, conseguiram oferecer uma festa de estadão aos seus convidados. Provavelmente alguém lhes pagou as despesas ou recorreram a empréstimo bancário. Ninguém está a pedir contas aos noivos. O que o fisco quer é saber quem é que prestou os serviços e se esses fornecedores estão, ou não, a pagar os impostos devidos. Não é o que toda a gente pretende, que todos, e não só alguns, paguem os impostos para que este país possa ser um pouco mais justo? Não é, afinal, uma forma de travarmos a evasão fiscal?

Para além de que não estou a ver como é que se podem conhecer as verbas realmente auferidas por cada um dos fornecedores se não existem quaisquer registos de controlo?

Frequento de vez em quanto um “snack-bera” cujo o dono faz as contas aos clientes no próprio toalhete que serve de toalha. Quem é que vai saber quantas refeições é que são servidas por dia naquela casa se quase ninguém pede facturas? Serão duzentas por dia ou apenas as cinquenta declaradas? Em termos de impostos, esta é a diferença que faz uma enorme diferença.

O único pecado do governo nesta matéria é, quanto a mim, a “ameaça” que faz aos nubentes caso eles não apresentem os dados solicitados. Arriscam-se a ter que pagar uma coima entre os cem e os dois mil e quinhentos euros. Se o legislador tivesse optado por uma outra solução, por exemplo, que os recibos ou facturas das despesas com o casamento pudessem entrar como benefícios fiscais no IRS, então, outro galo cantaria ...

Ah, e o governo cometeu ainda um outro pecado, e este gravíssimo. Dar aos recém-casados quinze dias para responder ao fisco, não lembra a ninguém. É que quinze dias, em plena lua-de-mel, são demasiado preciosos para resolver uma montanha de coisas ... e não, propriamente, esse tipo de coisas.

terça-feira, março 25, 2008

Depressões

Segundo a conclusão de estudos feitos, simultâneamente, por cientistas norte-americanos e portugueses, cuidar de idosos, lavar fraldas de bebés e servir às mesas são três das principais causas de depressão.

Nunca tinha imaginado tal.

Se no que diz respeito ao servir às mesas não consigo descortinar o que de tão grave possa determinar tal consequência, a não ser a forte pressão dos patrões ou da clientela, já relativamente às outras duas, mas sobretudo à primeira – cuidar de idosos - penso que existe alguma lógica para que isso aconteça. Não pelas actividades em si mesmas, mas porque para exercê-las é necessário que quem as executa tenha que ter um perfil adequado e que não veja naquilo que faz apenas um emprego.

É que cuidar de idosos requer níveis especiais de jeito, de atenção e de carinho que nem todos têm a capacidade de dar. Daí que, muitos, por não estarem devidamente preparados, técnica e psicologicamente, sejam mais susceptíveis de poderem vir a sofrer de estados de depressão mais ou menos graves.

terça-feira, março 18, 2008

Uma nova possibilidade para reclamar


Afinal por onde é que anda o tal direito à indignação de que tanto se fala? Não estou a pensar na que é expressa através das manifestações de rua, mas na que tantas vezes sentimos quando somos mal atendidos ou quando temos razões de queixa relativamente a qualquer serviço ou produto. Temos o direito e o dever de mostrar o nosso descontentamento. Mas como fazê-lo?

Para além do livro de reclamações que todos os estabelecimentos são obrigados a ter – e é bom que saibam que os portugueses pedem cada vez mais o Livro de Reclamações - podem agora utilizar um outro meio.

Se querem reclamar de um mau serviço, de uma empresa, de um produto, etc. acedam a

Por outro lado, se têm dúvidas sobre determinada empresa, podem fazer uma busca no próprio sítio.

Não deixem de divulgar as vossas queixas.

Reclamando, estaremos a ajudar outros a não caírem na mesma asneira de contratar (maus) serviços ou de comprar produtos que não prestam.

Quantas mais reclamações forem registadas, menos possibilidades são dadas a quem trabalha mal.

Todos temos o direito à indignação e devemos exercê-lo.


PS: Espero que não usem este sítio para reclamar deste blogue ou do seu autor

BOA PÁSCOA!

segunda-feira, março 17, 2008

D. João VI


Estamos desde há alguns meses a comemorar os 200 anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil, medida que foi tomada para fugir aos efeitos das invasões napoleónicas e poder manter mais ou menos intacta a soberania de Portugal a partir do Rio de Janeiro.

Mas para além do lançamento de um selo comemorativo em Salvador e da presença do Presidente da República Cavaco Silva no Rio de Janeiro, que mais é que sabe a generalidade dos portugueses sobre o que significou, de facto, a ida da corte para o Brasil?

Sem pretender efectuar o relato detalhado dos acontecimentos que podem, eventualmente, ser maçadores para quem não demonstra grandes interesses pelo conhecimento da nossa História, direi apenas que a família real era constituída pela Rainha D. Maria I, o Príncipe regente D. João (futuro D. João VI), sua mulher Carlota Joaquina e todo o seu enorme séquito.

E sobre a figura do rei, a quem muitos consideravam medroso, solitário e que tinha dificuldades em tomar decisões, gostaria de dizer que a sua presença no Brasil veio a manifestar-se muito importante. O Brasil era, nessa altura, uma colónia atrasada e sem identidade nacional. D. João em apenas 13 anos conseguiu transformar esse enorme território, onde as províncias eram rivais entre si, num verdadeiro país. Num país único, com os contornos que hoje tem e com a pujança que se lhe conhece, que sem a sua intervenção poder-se-ia ter transformado em meia dúzia de repúblicas, como aconteceu na restante América espanhola de então.

E é curioso que o nosso D. João VI, de seu nome João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, cognominado “O Clemente” foi sempre mais querido no Brasil do que no seu próprio país de origem.

Todo este período histórico é muito rico e merecedor de leituras mais aprofundadas, por interessantes. Mas este espaço é apenas um blogue e não uma cátedra de História. Por isso, e para terminar, deixo-vos hoje com um poema/canção delicioso de A. Rodrigues e R. Calado, sobre precisamente D. João VI, que se intitula:


“D. João VI e a mulata”

Quando a corte de D. João VI
Chegou a Paquetá
Tudo servia de pretexto
P’ra censurar, p’ra criticar
Certa mulata que havia lá

Diziam que ela era um perigo
Que ela era uma tentação
E que um marquês de novo antigo
Desdenhava o rei, não cumpria a lei,
P’ra ser só dela o cortesão.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu decreto que a mulata é boa

Certa noite muito escura
A moça se assustou
Vendo surgir uma figura
Gorda, a ofegar
Que sem falar
Nos gordos braços logo a apertou
Ela sentiu-se muito aflita
Como dizer que não
Até na treva era bonita
E lá fez de conta, que ficava tonta
Sem saber que era o seu D. João.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu já sei como a mulata é boa.



domingo, março 16, 2008

Burrice


Apesar das inúmeras campanhas de informação sobre a sida levadas a cabo nestes últimos anos, chega-se afinal à conclusão que de pouco ou nada serviram. Pelo menos é a ideia com que se ficou, depois de esta semana ter sido noticiado o resultado de um inquérito realizado pela investigadora Aliete Cunha-Oliveira, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Segundo se apurou, um em cada dez estudantes acha que a pílula anticoncepcional protege da sida.

Revela-nos ainda esse estudo, que apenas 52,6% dos inquiridos afirmou usar sempre preservativo.

Perante estes dados, das duas uma, ou a rapaziada está completamente a leste dos reais perigos que põem em risco a sua saúde e a dos seus parceiros sexuais e, isso, é uma tremenda inconsciência, ou, pior ainda, agem como se já houvesse tratamento eficaz para a essa doença mortal e pensam que a sida não passa de uma enfermidade corriqueira mais ou menos do género da gripe. Resumindo, uma tremenda burrice.

Tanto mais que estamos a falar de uma faixa de população que deveria, em princípio, ter conhecimentos sobre o assunto, Não só porque são estudantes universitários, mas também porque têm um melhor acesso à informação.

A sensação com que se fica é que perante esta inesperada constatação, há muito trabalho para fazer. A aparente negação social e psicológica do problema da sida leva-nos a repensar no tipo de acções que são necessárias desenvolver e a brevidade com que têm ser concretizadas.

Pílulas anticoncepcionais que protegem da sida?

Se não fosse para chorar, diria que o caso fazia rir. Mais do que a burrice assumida, é a demonstração cabal de uma ignorância preocupante.

sexta-feira, março 14, 2008

Os Computadores do Futuro


A Fundação Portuguesa das Comunicações, para além de outros motivos de interesse que justificam a nossa atenção e a nossa visita, tem promovido desde há algum tempo, sob o título “Falar Global”, uma série de debates sobre diversos assuntos.

O de ontem, quinta-feira 13, teve como convidado especial o Professor Doutor António Câmara, Cientista, Investigador, Professor Universitário, Director-Geral da Ydreams e vencedor do Prémio Pessoa 2006, que dissertou sobre o tema “os computadores do futuro”.

Na sua forma clara e directa, o Professor António Câmara falou para uma enorme plateia sobre as virtualidades e as transformações que as novas tecnologias poderão assumir e sobre a interacção que os computadores do futuro poderão vir a ter com os utilizadores.

Segundo ele, tudo poderá passar por objectos e formas hoje existentes no nosso quotidiano – paredes, espelhos, mesas, etc. – em que o comum dos mortais pode explorar o que mais lhe interessa apenas com um simples aceno de mão ou um gesto, sem que tenha que recorrer a coisas tão banais, desinteressantes e desactualizadas como ratos, teclados e monitores.

Um futuro que se desenha e que assume actualmente múltiplos aspectos que ultrapassaram a imaginação mais fértil e que estão já a ser aplicados na prática em Portugal e em vários pontos do mundo.

Mas todo o avanço já conseguido e as novidades que nos reserva o futuro da computação, não deixa de nos colocar questões para as quais ainda não temos resposta, como sejam:

Apesar de todo o avanço tecnológico que se afigura imparável, será que tudo isso nos vai trazer mais felicidade? Ou posto por outras palavras, mesmo com a vida muito facilitada pelas novas eras da computação, essa vantagem vai ser suficiente para sermos mais felizes?

E quanto à inteligência e criatividade, será que as futuras gerações de computadores vão ser capazes de substituir todas aquelas capacidades que, tradicionalmente, são inerentes à natureza humana.

Um debate/conferência que foi muito interessante e em que, como sempre, o Professor António Câmara foi brilhante.

Mas todas estas incertezas levam-me a recordar uma conhecida frase de Charles Chaplin que dizia mais ou menos isto:

“O nosso cérebro é o melhor brinquedo que já foi criado. Nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade”.

quarta-feira, março 12, 2008

As janelas do quarto de António Gedeão

De António Gedeão

"As janelas do meu quarto"


Tenho quarenta janelas,
nas paredes do meu quarto,
sem vidros nem bambinelas,
posso ver através delas,
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea,
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza,
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança,
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa.

E o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio,
a que se chama poesia.

E a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade.

E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro,
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.

Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra,
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
que vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o ar.



segunda-feira, março 10, 2008

Novas oportunidades precisam-se ...


O tempo em que se arranjava emprego com alguma facilidade e que, em querendo, era para toda a vida, já lá vai há muito.

Actualmente, para além de ser muito difícil arranjar emprego, existem outros problemas associados como a precariedade de emprego e a exploração dos trabalhadores, nomeadamente com a “oferta” de baixos salários e de “contratos” a (falsos) recibos verdes.

Hoje, ao contrário de outras épocas, o jovem trabalhador tem que interiorizar que vai ter que mudar de emprego e, eventualmente, de actividade, várias vezes durante a sua vida activa. O que os leva fatalmente a questionar para que é que afinal estiveram tantos anos a preparem-se para uma actividade específica que, se calhar, nunca chegarão a exercer?


Daí que, recentemente, dezenas de jovens engenheiros portugueses tenham sido atraídos por propostas de empresas norueguesas.

Aliás, numa das últimas semanas, Nicolau Santos contava que um amigo dele, maestro e pianista, por falta de trabalho em Portugal, teve que aceitar um emprego temporário no estrangeiro. Como maestro? Não, tão-pouco como pianista. Durante quatro meses o nosso maestro/pianista foi dirigir uma fábrica de línguas e caras de bacalhau numa ilha gelada do Norte da Europa. Uma curiosidade, conseguiu ver satisfeita a única exigência que colocou, a de lhe porem um piano na ilha.


Quando é que o nosso país vai finalmente aproveitar os talentos de que dispõe? Enquanto esse dia não chega, os nossos melhores valores continuarão a preocupar-se em arranjar colocação em qualquer outra parte do mundo.

À procura de novas Oportunidades ou de oportunidades únicas?

domingo, março 09, 2008

"Bem-vindos ao mundo real"

Tinha pensado não voltar a escrever sobre o assunto. Quando a matéria é controversa e o debate se torna estéril, a discussão, por não resolver absolutamente nada, torna-se inútil. No entanto, e por outro lado, acho que é importante continuarmos a manifestar as nossas opiniões e convicções quer porque vivemos num estado democrático quer porque isso constitui, também, um acto de cidadania.

Mas o que me trás de novo à liça, é saber que no que respeita à reforma da educação, estou acompanhado por alguns outros cidadãos cujo o pensamento é próximo do meu, nomeadamente José Miguel Júdice, Emídio Rangel e o nosso companheiro de blogue “Suponhamos”.

Estarão neste momento a interrogar-se, mas afinal de que lado é que eu me posiciono, apoio a Ministra ou apoio os professores? No texto que escrevi na passada sexta-feira penso que deixei claro que prezo sobretudo o bom-senso e a capacidade que todos têm que ter para que duas posições antagónicas não caiam num radicalismo tão profundo e tão exacerbado que impossibilite a concretização de uma solução razoável para ambas as partes.

Não conheço por dentro os contornos da reforma da educação. Centremo-nos, pois, em alguns aspectos relativos à avaliação dos professores, que vieram a público e que me deixaram estarrecido.

Por exemplo, na manifestação de ontem, uma jovem professora contratada mostrava-se ofendida pelo facto de já ter quatro anos de docência e achar que não fazia sentido passar a ser avaliada a partir de agora.

Outros professores presentes na manifestação gritavam revoltados que não concordavam em serem avaliados por outros professores a quem eles não reconheciam competência para tal e porque a Ministra não tinha dialogado com eles sobre a forma de avaliação.

Perante reclamações como estas, só posso dizer aos milhares de professores que estão contra a reforma, “Bem-vindos ao mundo real”.

Trabalhei numa actividade privada (que foi mais tarde estatizada e mais tarde ainda privatizada de novo) durante muitos anos. Até certa altura nunca os trabalhadores foram avaliados. De um momento para o outro (já na fase em que éramos novamente um grupo privado) o Conselho de Administração decidiu avaliar todos os trabalhadores e, calculem, não teve a decência de nos consultar e de saber se estávamos ou não de acordo. Decidiu e, a partir desse momento, começámos a ser avaliados. E, pasmem-se os senhores professores, as avaliações tinham época marcada - duas vezes por ano. E assombrem-se ainda mais os meus caros professores, essas avaliações serviram e continuam a servir para diferenciar o valor que os avaliadores (bem ou mal e com todo o subjectivismo que qualquer avaliação contem) atribuem a cada um dos trabalhadores. Sim porque não temos todos o mesmo valor e essas avaliações constituem a base para a atribuição de prémios de desempenho e para uma eventual progressão nas carreiras, em que nem todos chegam ao topo.

É isto que acontece na vida real. Os trabalhadores – todos – são avaliados e progridem aqueles que mostram mais valor e ficam pelo caminho os que não demonstram tanta qualidade.

Compreendo que os professores se mostrem preocupados e revoltados porque a partir de agora nem todos chegam automaticamente até ao topo da carreira. Com este modelo de reforma é introduzido um sistema de quotas para aqueles que sejam classificados de “Muito Bom” ou “Excelente” e, embora tenham direito ao prémio, só alguns poderão ser promovidos. Contudo, pensem no seguinte, esta questão das quotas há muito que é aplicada na actividade privada.


Penso que o governo não se vai deixar intimidar com estas manifestações, por muitos professores que a elas adiram. E se o fizer, para além de poder ter que confrontar-se com sucessivas manifestações, não só de professores como de quaisquer outros profissionais de outras áreas - umas a seguir às outras - pode comprometer definitivamente as reformas que se propôs fazer e de que o país há tantos anos necessita.

Como diz Miguel Sousa Tavares na sua crónica publicada no Expresso de ontem “A queda da Ministra teria o efeito de um toque a finados por qualquer futura tentativa de reformar o Estado e mudar o país”.

sexta-feira, março 07, 2008

A "batalha" na educação

Para quem tem acompanhado o “duelo” entre o Ministério da Educação e os professores, facilmente se apercebe que as posições que são assumidas por cada uma das partes estão de tal forma radicalizadas que ninguém quer ceder um milímetro que seja. É que ceder pode ser interpretado pelo opositor como um recuo e recuar significa ser derrotado.

Nada mais errado, contudo. Recuar pode ser apenas uma pausa para um novo avanço. Por vezes é necessário recuar um passo para mais tarde avançar dois. Mais, um recuo é muitas vezes um acto de inteligência.

Mas quando se chega ao ponto em que a coisa está, os argumentos e as relações entre os dois lados estão irremediavelmente inquinadas e, por isso, não se vislumbra qualquer solução que permita um entendimento.

O problema está de tal forma extremado que já ultrapassou quer a própria reforma que o Ministério pretende fazer, quer a mera discordância dos professores quanto à avaliação (ou à forma de avaliação) e à gestão das escolas. Estamos perante uma questão puramente política em que ninguém quer perder.

Discute-se, pois, uma reforma que, apesar de todos reconhecerem (há mais de 40 anos) ser absolutamente necessária, teve o condão de criar um verdadeiro cisma entre a vontade de um governo que quer pôr em prática um determinado projecto e a contestação de uma corporação que está frontalmente contra muitos dos argumentos e dos modelos que a reforma pressupõe. Desacordo que a coberto de razões aparentemente aceitáveis, mais não é, em meu entender, que a resistência à mudança e a defesa da manutenção de certos privilégios que tinham como adquiridos.

E enquanto nós cidadãos assistimos incrédulos a esta guerra em que não deveria haver vencidos nem vencedores, vamos pensando que tudo acabará por afectar não o governo, não os professores, mas os alunos.

No próximo sábado espera-se em Lisboa uma enorme manifestação de professores vindos de todo o país. Uma demonstração de força que se prevê, ainda assim, não ser capaz de abalar a determinação do governo, pelo que, a confrontação e a irredutibilidade das partes se vai manter.

Face a este imbróglio aparentemente inultrapassável seria de todo desejável que quer o Ministério quer os professores e os seus sindicatos tivessem algum bom-senso e reflectissem sobre o que foi dito no último “Prós e Contras” da RTP, nomeadamente pelos Professores Lobo Antunes e António Câmara.

Enquanto que o primeiro sugeria a nomeação de um grupo de personalidades credíveis na nossa sociedade, que pudessem arbitrar as duas posições irredutíveis, o segundo propunha que as medidas propostas pelo governo fossem, pelo menos, experimentadas por tempos e locais escolhidos e só depois aceites, rejeitadas ou melhoradas.

No meio de tanta intransigência, duas opiniões inteligentes e em que todos deveriam meditar.

Mas continuar esta situação de confronto é que nos parece inadmissível.

Quanto a quem vai ganhar a contenda, isso é difícil de afirmar. No entanto, a situação faz-me lembrar uma frase de um familiar de um amigo meu que dizia:

“O mais valente é o que não dá nem leva”.



quinta-feira, março 06, 2008

A lei é p’ra se cumprir

Enquanto a população se preocupa com a insegurança que vai crescendo um pouco por todo o país e haja até quem garanta que as autoridades não actuam devidamente, eis que veio a público a notícia que desmistifica a situação de calamidade instalada.

Em Chaves, as autoridades apanharam dois homens que infringiram o estipulado no “Código de Posturas Municipais” ao serem apanhados a urinar na via pública. Aos dois cidadãos foram aplicadas duas coimas de 40 euros.

E então? Como vêem podemos confiar plenamente nas nossas autoridades. Elas estão alerta e conscientes de que “A lei é p’ra se cumprir”.






terça-feira, março 04, 2008

Eurodeputados burlões




Já não é a primeira vez que se ouve falar em fraudes cometidas por eurodeputados. Casos isolados, como alguns nos querem fazer crer.

Depois de ainda não há muito tempo ter vindo a público o escândalo das viagens dos eurodeputados, viagens que eles nunca fizeram mas que não se esqueceram de receber os respectivos valores, depois ainda de se saber que deputados europeus tinham como assessores os seus próprios familiares, os senhores deputados conseguiram, desta vez, chegar a um requinte de trafulhice que supera tudo o que se poderia imaginar.

Através de um relatório secreto do Parlamento Europeu, soube-se que existem por lá uns quantos eurodeputados que desviam milhões para fins privados.

Ao que parece, o dinheiro que seria destinado ao pagamento dos tais assessores era utilizado para uso próprio desses deputados (uma vez que nalguns casos nem assessores tinham) ou para financiar empresas fictícias ou para familiares.

Numa primeira análise, sem se saberem todos os contornos da fraude, calcula-se que o desvio de fundos rondará os 140 milhões de euros.


A sem-vergonhice está instalada. Pena é que o Parlamento Europeu pretenda manter secreto alguns detalhes que nós, contribuintes europeus, gostaríamos de conhecer. Nomeadamente os nomes e nacionalidades dos burlões.

segunda-feira, março 03, 2008

O nome do Presidente

Se hoje trago para tema de conversa o nome do actual presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, não se deve apenas ao facto de ele ter vencido as eleições presidenciais de domingo, à primeira volta e com 69,6 por cento dos votos. Isso já era sobejamente esperado, ainda que tivessem sido detectados mais de 200 situações de violação da lei eleitoral.


Na verdade, o delfim de Putin já era dado como certo no Kremlin e, por isso, todo o processo decorreu conforme o esperado. Medvedev é agora o presidente e, o até aqui todo poderoso presidente, Vladimir Putin, passou do cadeirão da presidência no Kremlin para a cadeira de primeiro-ministro da Casa Branca (a da Rússia, não a dos Estados Unidos, muito menos a da pequena povoação daquele minúsculo país que tem um tal Manuel Pinho como Ministro da Economia, aquele que inventou a tão badalada campanha publicitária “Portugal Europe's West Coast” onde foram gastos (investidos?) 3 milhões de euros.

Portanto, tudo como dantes ... quartel general em Abrantes. Medvedev é presidente e Putin continua a mandar. Da mesma forma que aconteceu recentemente em Cuba, quando Fidel Castro renunciou aos cargos de Presidente do Conselho de Estado e de Comandante-em-Chefe a favor do seu irmão Raul Castro, ficando Raul sentado na cadeira do poder e continuando Fidel a mandar. Por conseguinte, nada de especial a referir.


Então porque razão é que hoje eu estou a falar de Dmitri Medvedev? Apenas para lembrar que a pré-candidata democrata à presidência dos Estados Unidos Hillary Clinton, durante um debate com o outro pré-candidato democrata Barack Obama, não soube dizer com precisão o nome do presidente russo, Medvedev.

Titubeou, engasgou-se e lá disse Med... ou lá o que é!...

Apesar dos Estados Unidos terem montanhas de problemas para resolver assim que conseguirem enxotar o já considerado pior presidente americano de sempre – George W. Bush – o que na verdade sobressaiu nas manchetes dos jornais e na abertura de todos os telejornais do mundo, foi a semi-gaffe de Hillary Clinton. Logo ela que se orgulha dos seus vastos conhecimentos em política externa.

A verdade é que Hillary poderia ter-se saído muito melhor daquela situação se, em vez de tentar dizer o nome do presidente russo, que é arrevesado como o diabo, dissesse simplesmente Dmitri. Pareceria mais íntimo, demonstraria um conhecimento mais profundo do que estava a falar e seria – infinitamente – mais simples.

domingo, março 02, 2008

Um concerto inesquecível



Centro Cultural de Belém, 21h00, 29 de Fevereiro de 2008.


A data já por si não é vulgar. Afinal, 29 dias em Fevereiro só acontecem de quatro em quatro anos. Mas mais invulgar que a data foi o concerto inédito com que Jorge Palma nos presenteou na passada sexta-feira.


Já tínhamos visto e ouvido o cantor/compositor actuar só com a guitarra ou ao piano ou, ainda, acompanhado dos músicos das suas diversas bandas. Agora um concerto em que, para além da guitarra e do piano, pudéssemos assistir ao Jorge acompanhado por um quarteto de cordas, isso era inimaginável. Até agora.


Foi por isso que este concerto foi único. Ao longo de duas horas, Jorge Palma interpretou muitos dos seus temas mais conhecidos, desde a lindíssima (para mim talvez a melhor das melhores) “Estrela da Mar” até ao seu mais recente êxito “Encosta-te a mim”. Pelo meio, ainda nos brindou com uma canção inédita (muito bonita por sinal) e tocou ao piano uma peça de música clássica.


Um espectáculo em que Jorge Palma, para além de se acompanhar à guitarra ou ao piano, teve também por companhia a presença do Quarteto Lacerda, um magnífico conjunto de dois violinos, uma violeta e um violoncelo e do seu filho Vicente Palma (atenção a este jovem cantor e músico que tem confirmado absolutamente que “filho de peixe sabe nadar”), que proporcionaram aos espectadores que encheram o Grande Auditório do CCB uma noite mágica. Tudo servido por um jogo de luzes fabuloso que tornou este espectáculo inesquecível.


E se nunca nos cansamos de o ouvir interpretar as suas canções mais emblemáticas, sempre de uma forma intensa, singular e muitas vezes imprevisível, neste concerto inédito, a que deu o nome de “Carta branca a Jorge Palma”, o cantor mostrou a todos, caso isso ainda fosse necessário, a sua enorme qualidade como músico e a forma virtuosa como domina o piano.


Uma noite mágica e um concerto inesquecível!



quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Político honesto


Ontem falámos em política, hoje em políticos.

Provavelmente já terão a opinião formada sobre o assunto, ou seja, pensarão que políticos honestos não existem ou que serão uma pequena excepção. Mas, por via das dúvidas, para aqueles que ainda têm esperança em encontrar um político sério, convido-os a seguir as instruções que abaixo são indicadas:

1 - Entre no Google:
www.google.pt
2 - digite o seguinte: "politico honesto"
3 - prima em "Sinto-me com sorte" e não em "Pesquisa do Google"
4 - veja o resultado (leia com atenção)!


E que tal, ficaram convencidos?

Descontraiam-se e bom fim-de-semana.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Política

A entrevista do primeiro-ministro José Sócrates na passada semana à SIC e ao Expresso levantou as mais apaixonadas análises quer da oposição quer dos muitos comentadores políticos.

Houve quem referisse que o primeiro-ministro se limitou a um auto-elogio à acção do seu governo e a si próprio e a papaguear números e mais números referentes à gestão de três anos de mandato.

Houve até quem dissesse que Sócrates exigiu que os temas da entrevista se confinassem à áreas da Economia, Educação e Saúde, por forma a que restassem uns escassos quatro minutos para falar em política. Ou seja, para que a entrevista resultasse num saldo positivo para José Sócrates - a quem a agitação social não tem deixado sossegado nos últimos tempos – ela não lhe deveria deixar tempo suficiente para falar propriamente em política, que é como quem diz, sem tempo não poderia anunciar qual o seu projecto político ou qual a sua visão de futuro.

Pois meus amigos, eu não alinho nesse coro das políticas politiqueiras. Embora tenha consciência que actualmente se considera que a política é sobretudo a gestão das expectativas, para mim, a política é uma outra coisa, é a arte de conseguir melhorar as condições de vida dos cidadãos.

Pretender que um governante diga publicamente qual é o seu projecto político três anos depois de ser eleito e apenas a um ano e meio de distância de novas eleições, não me parece que seja lá muito acertado.

Isso exige-se aos candidatos que concorrem às eleições, quando quem vai votar necessita saber qual o rumo que determinado partido ou personalidade pensa dar ao país e o que é que se propõe fazer para isso.

Pode Manuela Ferreira Leite argumentar que “governar é também acima de tudo agir politicamente, é falar para fora”, que, ainda assim, e com todo o respeito que tenho pela ex-ministra das finanças, continuo a pensar que um governante mais do que falar deve, sobretudo, levar a cabo os desígnios a que se propôs e que foram sufragados pelos cidadãos. E esses têm sido repetidamente ditos, estejamos ou não de acordo com eles.

Concordarão comigo que já temos a nossa dose de políticos que baseiam a sua nobre actividade na demagogia, no bota-abaixo e no ataque pessoal.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Pobreza


Como sempre sucede quando as sociedades se encontram em crise, perturbadas por convulsões sociais e económicas, os mais afectados são os idosos e as crianças.

O desemprego e a precariedade de emprego, os baixos salários, a pouca qualificação dos trabalhadores, o endividamento e o número cada vez maior de famílias mal estruturadas ou monoparentais, entre outros factores, são as principais causas do agravamento das condições de vida da maioria dos cidadãos em Portugal, que são particularmente sentidas pelos idosos e pelas crianças. Uma situação que se tem vindo a agravar nos últimos anos.

E por ter consciência deste estado de coisas, foi sem surpresa que tive conhecimento de um Relatório da Comissão Europeia que dá conta que um quinto das crianças portuguesas está em risco de pobreza. Segundo a UE só a Polónia consegue piores resultados. E nem nos serve de consolação que países como a Espanha, Grécia, Itália, Lituânia e Luxemburgo tenham níveis de pobreza igualmente altos nas crianças.

Revolta saber que em Portugal, em pleno século XXI, uma em cada cinco crianças é muito pobre e tem enormes carências.

Admito que muita gente se preocupe com este flagelo, mas nunca será demais que se fale no assunto e nunca serão excessivas as campanhas de alerta para despertar consciências.

Sou voluntário de uma Instituição Particular de Solidariedade Social que apoia centenas de outras Instituições de Solidariedade com o encaminhamento de alimentos para distribuição gratuita a pessoas carenciadas. E asseguro-vos que oiço frequentemente os responsáveis dessas Instituições afirmarem:

“Muitas das nossas crianças apenas se alimentam com o que lhes é servido aqui. Em casa não comem absolutamente mais nada”

É importante que tenhamos a noção que o risco de pobreza nas crianças não é decorrente, apenas, dos tais factores acima referidos. Na verdade esse risco abrange também as crianças que vivem com adultos desempregados mas igualmente aquelas que vivem em lares onde não há desemprego. Ou, ainda, as que pertencem àaquela mancha de população – cada vez maior, infelizmente – que vive naquilo a que se convencionou chamar “a pobreza envergonhada”.

Perante tamanha tragédia, ocorre-me perguntar: Quando é que passamos do plano das frases feitas do “o melhor do mundo são as crianças” para a vida concreta, para a vida real do “vamos fazer um mundo melhor para as crianças?”


domingo, fevereiro 24, 2008

As leis e os filhos


Na passada quinta-feira, na RTP1, Judite de Sousa entrevistou o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa.

Quando lhe foi colocada a questão do chumbo do Tribunal de Contas sobre o empréstimo que a autarquia pretendia contrair, e “se ele, o Presidente da Câmara, não estaria a ser vítima da lei que ele, enquanto Ministro, aprovou”, António Costa respondeu com uma expressão muito curiosa:

“as leis são como os filhos, ganham vida própria”

Nunca tinha pensado na questão nestes termos mas, vendo bem as coisas, existe alguma verdade quanto ao conceito. Senão vejamos:

Genericamente, os princípios, quer os que, enquanto pais, transmitimos aos filhos, quer os que os legisladores incorporam na elaboração das leis, são, à partida, os melhores.

Os pais porque pretendem que a vida dos filhos seja pautada por valores como a honestidade, o trabalho, a solidariedade, a justiça, enfim, por todos aqueles valores tradicionais que devem estar subjacentes à vida de qualquer cidadão. Os legisladores porque querem que as leis que produzem sejam, de facto, “construídas” com competência e que possam e devam ser exequíveis e cumpridas.

Portanto, no plano dos conceitos, eles aplicam-se por igual aos filhos e às leis, ou seja, para ambos apenas se pretende o melhor.

Só que, quer a vontade dos pais e dos educadores, quer o propósito dos legisladores são muitas vezes distorcidos por múltiplos factores que conduzem a que os propósitos inicialmente previstos não se realizem.

Os filhos porque a vida, a sua personalidade e vontade própria nem sempre os fazem cumprir os “caminhos” mais desejados pelos pais. O que não quer dizer que os tais princípios não tenham sido interiorizados. Só que se podem manifestar, por vezes, de forma diferente.

As leis porque embora bem idealizadas e elaboradas de acordo com os objectivos previamente definidos, nem sempre satisfazem, seja por falhas das próprias leis ou porque os diferentes agentes não as souberam interpretar convenientemente ou não as souberam pôr em prática da melhor forma.

E se, perante estes “desvios”, no que diz respeito aos filhos, a nossa acção pressupõe continuarmos a acompanhá-los e a dar-lhes apoio no seu percurso, relativamente às leis existe sempre a possibilidade de as corrigir para melhorar, quer o seu âmbito, a sua aplicação e o seu cumprimento. Sem medos sequer de termos que as refazer mais umas quantas vezes até serem “perfeitas”, ou quase, para que desse modo possam dar as respostas necessárias e servirem o fim para que foram criadas.

Tanto num como noutro caso “filhos e leis ganham (ou podem ganhar) vida própria".

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Chocante e imoral


Para início de conversa, devo dizer que não sou cliente nem accionista do BCP pelo que, a prosa de hoje sobre a forte queda dos lucros apresentados pelo maior Banco privado português, não representa o reflexo de qualquer preocupação financeira pessoal mas, simplesmente, o resultado da observação e da análise dos factos que têm vindo a público.

Nos últimos tempos muito se tem falado daquele Banco, dos seus inúmeros e infindáveis escândalos e da gestão pouco clara das diversas administrações que por lá passaram. E, naturalmente, esses factos, para além de terem deixado cair em desgraça alguns dos nomes que a maioria das pessoas considerava acima de quaisquer suspeitas, veio a reflectir-se nos resultados do exercício de 2007.

Mas, perguntar-se-á, esses escândalos e essa gestão foram assim tão ruinosos que fizessem perigar a continuidade da instituição? Não, longe disso, apesar de todos os desmandos, o BCP apresentou resultados líquidos de 563 milhões de euros.

É claro que comparando com os lucros de 2006 – 787,1 milhões de euros - são alguns milhões a menos, mas, ainda assim, o Banco, mesmo com todas as dificuldades que atravessou, teve uns óptimos resultados.

O que me leva a interrogar como é que é possível que uma instituição financeira consiga alcançar tamanhos lucros no meio de tanta turbulência e de tantas aparentes irregularidades.

Diz o BCP que, para além de muitas outras razões – que por serem tão técnicas nem as transcrevo - os resultados foram influenciados pelos custos com reformas antecipadas de colaboradores e de membros do Conselho de Administração Executivo.
E é aqui que o meu espanto tem a sua expressão maior. Só as reformas dos administradores custaram 80 milhões de euros. Ou seja, dos 121,8 milhões gastos nas reformas antecipadas, 41,8 milhões foram para colaboradores e 80 milhões para os membros do Conselho de Administração Executivo.

Os números – todos eles - são demasiadamente significativos. E mais do que assombro e a indignação, o mínimo que poderei dizer é que tudo isto é chocante e imoral.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

O computador e o sono


Já tinha notado que, às vezes, depois de ter estado a trabalhar no computador pouco antes de me deitar, ficava com alguma agitação que me deixava às voltas na cama antes de conseguir dormir.

Nunca me apercebi que houvesse uma relação directa entre as duas coisas – o computador e o sono - mas admitia que a tensão provocada, por exemplo, pela criação de um texto ou de uma pesquisa para um trabalho mais elaborado me pudessem criar uma certa dose de ansiedade susceptível de me dificultar a chegada do sono.

Continuo a não saber em concreto o que é que uma coisa tem a ver com a outra, mas ao ler uma notícia que tinha por título “Ver e-mails é como tomar um expresso duplo” fiquei pelo menos a suspeitar porque é que me acontecia ter um princípio de noite tão mal dormido.

Dizia a tal notícia que um grupo de hotéis procurou averiguar as razões pelas quais os homens de negócios sofrem tanto com noites passadas em branco. E a pesquisa concluiu que ver e-mails antes de dormir tem o mesmo efeito no corpo humano que tomar um expresso duplo.

Por isso começaram a aconselhar os seus clientes a desligar os computadores uma hora antes de dormir, a tomar um duche de água morna e a evitar assistir a filmes violentos.

Segundo um especialista do Centro de Sono de Edimburgo que participou neste estudo, o stress do trabalho é o factor que mais influi na má qualidade do sono.

Pelo sim pelo não, e à experiência, vou tentar esquecer o computador pelo menos uma hora antes de ir para a cama. Vale a pena tentar!


terça-feira, fevereiro 19, 2008

Arrogância


Não raras vezes assistimos a manifestações de superioridade por parte dos ingleses, muitas delas com uma arrogância e uma sobranceria tamanha que já ninguém suporta.

Ainda há pouco, e a propósito do desaparecimento da pequena Madie Macann, desencadearam uma campanha muito agressiva em que puseram em causa todos aqueles que tiveram a “desdita” de nascer neste cantinho luso, sobretudo os investigadores da nossa judiciária, quando se sabe que mais de 80% dos desaparecimentos na Grã-Bretanha nunca chegam a ser resolvidos.


Pois sendo eles tão despachados e tão superiormente superiores quase que é difícil acreditar no resultado de uma sondagem realizada a 3000 ingleses que concluiu o seguinte:

- 23% acreditam que Winston Churchill, que foi primeiro-ministro de 1940 a 1945 e de 1951 a 1955, não passa de uma personagem de ficção;
- 47% afirmaram que Ricardo I, que ficou para a História como Ricardo Coração de Leão, nunca foi Rei de Inglaterra;
- 4% acredita que Cleópatra e 3% que Gandhi e Charles Dickens eram personagens de ficção;
- 58% disseram acreditar que Sherlock Holmes, a personagem criada por Sir Arthur Conan Doyle, existiu mesmo.


Onde está, afinal, essa superioridade toda que não chega para ocultar tanta ignorância?

Lá como cá os problemas da Educação são grandes. Só que nós, portugueses, somos mais humildes e não nos pomos em bicos dos pés a gritar que somos os maiores, mesmo que saibamos que D. Isabel II é Rainha do Reino Unido e que a grandiosa selecção nacional de futebol inglesa não se classificou para o Europeu de 2008, ao contrário da nossa pequena e modesta selecção.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Nada a declarar


Embora o Carnaval já tenha passado, mas talvez inspirado pelo texto que aqui publiquei às primeiras horas de hoje que falava em Carnaval e em escolas de samba, lembrei-me de um conto escrito por José Eduardo Agualusa a que chamou “Nada a declarar”.

É um belíssimo texto de Agualusa, extraído do seu livro “Passageiros em Trânsito – Novos contos para viajar”, em que o escritor angolano demonstra toda a sua sensibilidade literária, de forma simples e bem-humorada.


Deixo-vos, então, com “Nada a declarar”


“Marina estudou o funcionário. Era um homem cinzento, fatigado, e estava ali como num velório. Mal olhava os viajantes. Perguntava alguma coisa, dobrado sobre o seu próprio tédio, folheava os passaportes, carimbava-os e devolvia-os:
- Tenha uma boa estada.
Quando chegou a sua vez sentiu que lhe tremiam as mãos. Suava. Hesitou entre enfrentá-lo, olhos nos olhos, aparentando segurança, ou, pelo contrário, fingir-se distraída. Estendeu-lhe o passaporte, já aberto na página com a sua fotografia, ao mesmo tempo que remexia nervosamente na carteira.
- A moça é portuguesa?! Pode dizer-me em que se ocupa?
E ela, num sopro:
- Eu? Sou mulata!
Ia acrescentar: “A tempo inteiro”, mas então reparou no espanto do homem e percebeu que trocara as palavras, mulata ao invés de modelo, e não conseguiu dizer mais nada. O funcionário animou-se. Endireitou o tronco. O rosto ganhou um súbito fulgor:
- Estou vendo, muito mulata mesmo ...
Murmurou isto com um ar expressivo, avaliando-a desde os tacões dos sapatos à revolta cabeleira negra, um metro e setenta e sete da mais fina mistura de raças:
- E o que vem a moça fazer ao Rio de Janeiro?
Marina estremeceu. Desembarcara, enfim, no país do Carnaval. A vida inteira esperara por aquele dia. Veio-lhe à memória a imagem de uma menina sambando numa festa de casamento. Os pais, os tios e os primos em redor, todos rindo e aplaudindo. Nunca mais deixara de sambar. Percorria as cidades da província, as vilas remotas, dançando o samba em bares ou festas populares. Volta e meia posava para anúncios de chocolates e marcas de café. Também se vestia de sambista para promover produtos tropicais nos grandes supermercados. Levara cinco anos a poupar dinheiro para aquela viagem.
- Vim ver o Carnaval, claro. Você não gosta de Carnaval?
O funcionário assentiu, feliz:
- E quem não gosta? Seja então bem-vinda, Marina – disse, imitando o sotaque português – Pelo que estou vendo a moça torce pela Mangueira.
Marina trazia uma blusa cor-de-rosa, rendada nos pulsos, e umas calças de um verde-pálido, talvez demasiado justas. Noventa de peito. Sessenta de cintura. Cento e dois de quadris. Aqueles dois centímetros de arrogante desafio às leis da gravidade faziam a diferença em qualquer palco. Rodopiou uns segundos, ali mesmo, diante do espanto divertido dos turistas, deu uns passos curtos, e Deus parou para ver. O funcionário sacudiu a cabeça, perplexo:
- Você é mesmo portuguesa? – O homem disse aquilo com admiração. Não era a dúvida metódica de um polícia de fronteira, era um elogio. – Tem a certeza?...
Marina sorriu com orgulho:
- Sou portuguesa, com certeza! Tão portuguesa quanto o fado, que antes de ser português foi brasileiro. Tão portuguesa quanto a Carmen Miranda, antes de ser brasileira. Tão portuguesa quanto o bacalhau da Noruega. Sou portuguesa do Alto da Cova da Moura!
O brasileiro nunca ouvira falar no Alto da Cova da Moura. Parecia-lhe que havia um desvario algures naquele nome, uma contradição nos termos, mas, ao mesmo tempo, soava-lhe bem, como se fosse o título de um samba-enredo inspirado em lendas árabes. Mil e uma noites. Aladino e o génio da lâmpada. O tapete voador. Algo assim:
- Maravilha! – exclamou. – Deve ser bonito, lá ...
A rapariga hesitou. Bonito? Não podia negar esse consolo a um estrangeiro. Disse-lhe que sim. Acrescentou, para ser sincera, que o que havia de mais bonito no bairro eram as pessoas. O funcionário carimbou o passaporte e devolveu-o. Inspirou fundo a ganhar coragem:
- Meu nome é Paulinho. Esta noite tem uma festa da Mangueira no Canecão. Você não quer ir comigo?
Marina sorriu. Cantarolou:
- Me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu.
E assim, poucas horas depois de desembarcar no Rio de Janeiro, Marina estava no Canecão, vendo desfilar no palco, num cenário a lembrar uma roda de samba, Alcione, Emílio Santiago, Beth Carvalho, Milton Nascimento, Djavan, Jamelão e Chico Buarque. Quando a porta-bandeira entrou no palco já Marina estava em transe. Os amigos de Paulinho cercaram-no com perguntas:
- Onde você achou a mina?
- É portuguesa...
Os amigos riram:
- Não brinca, cara, portuguesa onde?
- Juro! Toda ela é portuguesa...
Então um deles, um jovem alto, com uma calvície precoce, suspirou profundamente, resumindo numa só frase a incredulidade geral:
- Tá certo Paulinho, afinal foram eles quem inventou, eu não sabia é que tinham lançado um upgrade.
Marina, alheia ao escândalo da sua própria beleza, levantou-se e foi sambar.”


Quando as opções são discutíveis ...


A notícia veiculada pela Agência Financeira e divulgada nos jornais da última quinta-feira caiu como uma bomba:

“CTT gastam 15 mil euros em patrocínio a escola de samba brasileira”.

Pelos vistos, os Correios portugueses patrocinaram a escola de samba “Unidos da Tijuca”, no carnaval brasileiro deste ano, financiamento esse que foi já reconhecido pela respectiva Administração.

E se, à primeira vista, não percebemos que razões poderiam estar na base de tal decisão, sabemos agora o que a Administração dos CTT veio justificar. Que tal patrocínio mais não é do que um investimento na divulgação da filatelia portuguesa no Brasil, tanto mais que o dinheiro terá sido empregue na reprodução em painéis gigantes de selos portugueses, selos que foram um dos temas escolhidos pelos “Unidos da Tijuca” para o último carnaval.

Podem até argumentar que a opção tomada foi um investimento na visibilidade internacional da filatelia portuguesa e que é relevante, porventura, no crescimento do volume de negócios da filatelia lusa no Brasil.

Talvez, talvez eu seja pessimista mas não acredito que os coleccionadores brasileiros corram, por via desta campanha, a comprar os belíssimos selos portugueses. Penso que a argumentação não é suficientemente esclarecedora, e tenho sérias dúvidas, tal como a Comissão de Trabalhadores dos CTT, que esse investimento venha a produzir algum retorno capaz.

Aliás, e porque se trata de uma empresa cujo o accionista único é o Estado, gostaria muito que em momento oportuno fossem divulgados os ganhos obtidos com esta campanha.

Gosto de empresas empreendedoras mas “quando as opções são discutíveis” o mínimo que se pede é que haja uma total transparência.



quinta-feira, fevereiro 14, 2008

De mãos nos bolsos ...

Tenho tentado por várias vezes não dar muita atenção ao assunto. Afinal não tenho nada a ver com isso e se os homens fizerem má figura é lá com eles. Mas a verdade é que é difícil, cada vez vejo mais homens na rua e na televisão a falarem com as pessoas com a mão, ou até mesmo as duas, enfiadas pelos bolsos dentro.

Será que o fazem porque se sentem inseguros, têm medo, nervosismo ou inabilidade? Ou será que se trata de uma mera questão de timidez?

Seja como for, nada justifica o facto e os homens têm que ter consciência que falar com alguém com as mãos nos bolsos é uma grosseira falta de educação.

E se em certos casos podemos até desculpar a falta de maneiras de determinada pessoa porque a vida e a família não lhe proporcionaram melhores condições de educação, em muitos outros observamos indivíduos que tiveram todas as possibilidades de educação e de formação e que cometem a mesmíssima falta e, estes, sem qualquer desculpa que os valha.

Irrita-me ver políticos, jornalistas, homens de negócios, pessoas que têm visibilidade pública a terem atitudes deselegantes e rudes, mostrando-se autênticos burgessos e servindo de (mau) exemplo a todos os outros e sobretudo aos mais novos.

Urge acabar com a coisa.

A não ser, digo eu, que tal atitude tenha a ver não com algum tipo de insegurança ou de moda, mas apenas com a necessidade de segurar as calças por falta de um cinto.

A verdadeira razão


Sem querer retornar ao assunto do tabaco, mas já o estando a fazer, gostaria de tecer um breve comentário sobre o tema de que tanto se tem falado ultimamente.

Se julgavam que o intuito do governo ao proibir o uso do tabaco em recintos fechados, foi para que a rapaziada ficasse mais saudável e com bom aspecto, receio que venham a ter uma enorme desilusão. É claro que eles também querem isso, mas ...

Se, por outro lado, imaginavam que a preocupação principal do executivo foi a de proteger os não-fumadores, a fim de garantir a sua liberdade e a sua saúde, lamento desapontá-los mas também não acertaram. É claro que eles também querem isso, mas ...

Se pensam que os fumadores abrandaram o seu vício por causa do senhor António Nunes e da sua gente da ASAE, estão igualmente errados. É claro que a ASAE impõe um certo respeito, mas ...

Ou será que foram as leis impostas por Bruxelas? Esqueçam, os eurocratas europeus nada tiveram a ver com isso.

A verdadeira razão porque o governo decidiu aprovar estas medidas tão impopulares para cerca de 20% da população tem a ver unicamente com o facto de

Fumar aumenta risco de calvície

De facto, um estudo realizado por cientistas do Far Eastern Memorial Hospital, em Taipei (Taiwan), sugere que os homens fumadores correm mais riscos de virem a sofrer de calvície. A pesquisa observou 740 homens com idade entre os 40 e os 90 anos e analisou o histórico de calvície na família, a intensidade com que fumavam e a idade em que começaram a perder cabelo. A conclusão do estudo é clara, aqueles que fumam 20 ou mais cigarros por dia têm duas vezes mais hipóteses de ter queda de cabelo moderada ou severa do que aqueles que nunca fumaram.

A pesquisa indica ainda que o risco de calvície permanece elevado mesmo entre os ex-fumadores.

Segundo os cientistas, fumar danifica a estrutura genética dos folículos capilares, que são responsáveis pelo crescimento do cabelo. O fumo pode ainda afectar as raízes das células necessárias para a circulação de sangue e hormonas.


Portanto, a verdadeira razão que levou o governo a legislar pela proibição de fumar em recintos fechados é apenas – e este apenas tem uma força enorme – porque a calvície masculina, conhecida cientificamente como alopécia androgénica, atinge dois terços dos homens adultos.

E é isso que o governo e o nosso primeiro-ministro atleta querem evitar a todo o custo. Que o Portugal do futuro seja um país de carecas. Melhor dizendo, de homens carecas.

Sim porque o estudo não fala nas mulheres fumadoras. Mas que as há ... lá isso há, e muitas!

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Obrigado Nuno

Para quem não viu ainda (ou para quem quer recordar) esta belíssima exibição de dança, deixo-vos com

Nuno Markl
Nuno, embora não te conheça pessoalmente, no último sábado deste-me uma prova de amizade que nunca esquecerei.

Ao “dançares” o tango daquela forma, inovadora como tu próprio disseste, transmitiste-me a força que me faltava há anos e acredita que a minha auto-estima subiu de imediato.

Dançar não é apenas o deslizar graciosamente pela sala, em requebros elegantes e em movimentos sensuais. Quem pensava – e eu era um deles – que só o Fred Astaire e a Sónia Araújo sabiam de facto dançar constatou, finalmente, que não basta mostrar graciosidade ou mover o corpo ao som da música.
Tu demonstraste inequivocamente como se deve conduzir o par, com determinação, com um ar mais ou menos marcial e, sem dúvida alguma, com a garra bem assumida de um “macho latino”. Performance notável e irrepreensível.

Razão teve a jurada Rita Blanco ao conceder-te o máximo da pontuação – nove.

Quanto a mim, que nesta arte sou apenas um pouco melhor do que tu, e que na dança sempre me equiparei a um elefante num bazar de porcelanas, ao ver-te, deixei de sentir que o meu pé pesado como chumbo poderia continuar a ser um empecilho para uma bela noite de rodopios.

Fico a dever-te esta, Nuno Markl.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

A decisão do empresário


Um empresário alemão perante a reivindicação de três funcionários para que o patrão disponibilizasse sala adequada à sua condição de não fumadores, decidiu duas coisas: despedir pura e simplesmente aqueles três empregados e, para além disso, resolveu que a partir daquele momento só daria emprego a quem fosse fumador.

Embora eu tivesse a intenção de não voltar a falar sobre a questão dos fumadores e da nova lei do tabaco, não posso deixar de fazer um pequeno comentário à história - verdadeira - com que iniciei estas linhas.

Claro que não vou bater de novo na tecla dos direitos que cada um tem à sua privacidade e, particularmente, ao direito legítimo que os não fumadores têm de não aspirar o fumo dos outros no intuito de preservar a sua saúde.

Não posso deixar, contudo, de manifestar a minha indignação à forma discricionária e prepotente como agiu aquele empresário alemão. Não só porque não cumpriu a lei em vigor no seu país (que é muito semelhante à nossa, ou seja, que em recintos fechados não se pode fumar), mas isso, enfim, é lá com ele e com as autoridades alemãs, mas sobretudo, porque começou a contratar – discriminatoriamente – só as pessoas que fumem, marginalizando assim todos aqueles candidatos que se venham a apresentar como não fumadores.

Se é verdade que ele é o patrão, a empresa é dele, o dinheiro é dele e ele tem todo o poder para escolher aqueles que julga mais adequados para serem seus empregados, não pode, no entanto, rejeitar os aspirantes a trabalhadores só pelo simples facto de não fumarem, de serem de cor, de terem determinado credo ou tendência política ou sexual.

Só conheço a parte da história que vos contei, mas espero sinceramente que a lei germânica seja implacável e não condescenda com tão inqualificável injustiça.



domingo, fevereiro 10, 2008

Telmo, o despachado!




Nos últimos dias toda a gente tem comentado, com espanto e alguma ironia, a azáfama danada que tomou conta do deputado do CDS Telmo Correia na derradeira madrugada em que foi ministro do Turismo do governo de Santana Lopes.

E o facto tem sido tão comentado porquê? Porque Telmo Correia antes de sair do Ministério, fez uma directa e levou a noite inteira a dar despachos. Consta que nada mais nada menos do que 300 despachos. É obra!

Justamente num país em que a produtividade não é famosa, fazem-se processos de intenção só porque um ministro, ao invés de estar a descansar ou a beber uns copos com os amigos, passa a noite a trabalhar no seu gabinete para que o ministro que o vai substituir na tarde do dia seguinte não vá encontrar o serviço atrasado.

Telmo Correia demonstrou, de facto, uma notável capacidade de trabalho e despachou – despachou literalmente, na verdadeira acepção da palavra – todos os dossiers que jaziam em cima da sua secretária.

O que me leva a dizer que, perante tanto despacho dado, Telmo Correia bem se arrisca a ficar conhecido como “Telmo, o despachado”!


quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Os ciganos e os sapos

Devo confessar que sempre senti alguma repulsa pelos sapos. Nem sei porquê mas talvez a sua pele húmida e viscosa tenham a ver, de algum modo, com a repugnância que sinto mal os vislumbro. Mas apenas repulsa e repugnância.

De forma diferente sentem os ciganos, pelo menos os mais velhos, que acreditam que os sapos são um símbolo do azar, discórdia e infortúnio.

É uma superstição levada muito a sério e que é passada de pais para filhos. Para o povo cigano, o sapo simboliza o mal e trás infelicidade às famílias.

De tal modo assumem essa superstição que chegam a dizer "Para nós, essa palavra é proibida. Quando a ouvimos, o dia vai correr mal e os comerciantes não vão conseguir vender...".

E o “medo” chega a um ponto tal que os ciganos evitam a todo o custo cruzarem-se com um sapo e a referência escrita num simples texto fá-los dar um salto na leitura só para evitarem a palavra maldita.

Apenas admitem pronunciar a palavra “sapo” quando querem insultar alguém, o que pode dar origem a uma zanga muito violenta.

Mas se é verdade que existem cerca de 4.800 tipos diferentes de sapos (da espécie animal), dizem por aí que tudo aquilo que tenha figura de sapo - de loiça, de feltro, de puxadores de portas ou o mais que a vossa imaginação conceba com essa figura - afasta definitivamente os ciganos para uma distância considerada prudente.

Só ainda não ouvi falar em ciganos que tenham repudiado, por ter tão amaldiçoado nome, o “Sapo” como portal da internet. Será que este é também susceptível de lhes trazer azar e infelicidade?



quarta-feira, fevereiro 06, 2008

A cavalo dado ...


Há quem pense que não devemos ser demasiado exigentes quando alguma coisa nos é oferecida. Por outras palavras, só porque se trata de uma oferta, a boa educação obriga a que não façamos má cara, mesmo que essa oferenda não nos agrade lá muito. Para além de ser de borla sempre nos ensinaram que “A cavalo dado não se olha o dente”.

Talvez em certas situações isso possa ser assim mas, quanto a mim, a aplicação do adágio não se pode generalizar.

Estou a pensar, por exemplo, nos diversos jornais gratuitos que se têm multiplicado nos últimos tempos. Claro que há uns que são nitidamente melhores que outros, mas relativamente a todos eles, o facto de nos serem oferecidos não deve condicionar o nosso espírito crítico e o nível da nossa exigência.

Ainda há dias num que me foi atirado pela janela entreaberta do carro, reparei, numa leitura muito transversal, em dois erros imperdoáveis.

O primeiro tratava-se de um erro de ortografia e titulava uma pequena notícia desta forma: “Médicos ameação demitir-se com fecho de Oncologia”. Ameação? Ou será que eles queriam escrever ameaçam?

O segundo diz respeito à falta de rigor informativo e escrevia também em título “Três homens perdidos no Gerês”, pormenorizando depois que os tais homens eram funcionários de uma empresa que andariam no local a fazer um levantamento. Na verdade tratava-se de simples caminheiros que foram surpreendidos pelo mau tempo e, pior ainda, eram dois homens e uma mulher e não três homens.

Como podemos, então, acreditar nas notícias que são veiculadas diariamente por esses jornais se detectamos facilmente as asneiras mais grosseiras?

Embora a maioria dos provérbios continue a reflectir a sabedoria popular, apesar de serem muito antigos, neste caso acho que deveríamos enunciar o ditado de uma outra forma “A jornal dado também se exige rigor”.



terça-feira, fevereiro 05, 2008

Afinal a questão é outra ...


Depois da confusão que se gerou sobre se José Sócrates é ou não engenheiro,

depois de o jornal Público, pela mão do jornalista José António Cerejo ter denunciado que o primeiro-ministro, então engenheiro técnico da Câmara da Covilhã, assinou projectos que não eram seus, de edifícios situados em áreas pertencentes à Câmara Municipal da Guarda,

e depois ainda do mesmo jornalista e do mesmo jornal terem revelado que o ex-deputado Sócrates recebeu o subsídio de exclusividade enquanto acumulava a função de deputado com actividades privadas,

muita gente começou a achar que o engenheiro Sócrates tem manifestado ao longo dos anos uma notável falta de carácter. Muita gente, digo eu, embora ele continue de pedra e cal à frente de todas as sondagens que têm sido feitas, mesmo aquelas que são reconhecidamente insuspeitas.

O que o Público e o seu jornalista de intenções persecutórias não disseram, mas que nós hoje divulgamos, depois de uma profunda investigação à vida mais íntima e privada de José Sócrates, é que o actual líder do PS e do governo, quando frequentava a escola primária de Vilar de Maçada, conseguiu sacar um berlinde a um colega dizendo que tinha um abafador, o qual nunca veio a ser exibido.

E é por este dislate, e não por outros, que o povo tem que aferir da credibilidade e da honestidade do actual primeiro-ministro. Muito mais do que julgar as políticas, incluindo a da saúde, que este governo tenha tomado até agora.

Abafar um “bilas” sem ter um abafador? Onde é que já se viu?

domingo, fevereiro 03, 2008

Preocupações!


Hoje sinto-me completamente à-vontade para reflectir em voz alta, que é como quem diz para escrever descontraidamente, porque sei que todo o mundo está entretido com o Carnaval e ninguém se lembra de vir até aqui espreitar.

E ainda bem. Tenho andado muito preocupado e não me admira que os meus últimos textos tenham reflectido a enorme confusão que me vai na (i)alma. E para além da confusão, estou apreensivo sobretudo o não saber se essa mesma confusão é a consequência de alguns acontecimentos que ocorreram na última semana ou se já é o efeito da minha já longa existência.


Primeiro foi o meu Benfica que depois de uma magnífica e retumbante vitória em Guimarães, que fez tremer o líder do campeonato, ficando a uns escassos e ameaçadores oito pontos do dragão, acabou por sucumbir neste fim-de-semana ao empatar na Luz perante o Nacional da Madeira que esteve até a um passo de vencer. Percebe-se a inquietação e o treinador Camacho não me dá respostas.


Depois foi o caso do ex-ministro da saúde, Correia de Campos, o inimigo público número um, porventura o homem mais odiado e perseguido deste país (sem falar no António Nunes da ASAE), o governante a quem se atribuíam todas as culpas da má saúde da saúde e a quem chegaram até a culpar pela morte de uma criança que já chegara sem vida à carrinha do INEM que a ia socorrer. Pois Correia de Campos ainda estava a transpor a porta de saída e já se ouvia, não o aplaudir de quem tanto o queria ver pelas costas, mas um coro de manifestações a seu favor, de todos os quadrantes políticos e laborais (até da área da saúde, pasme-se), atribuindo-lhe a coragem e a razão pelas reformas que estava a levar a cabo, dizendo mesmo que ele seria a pessoa que mais sabia de saúde em Portugal. Como não ficar confuso com posições tão antagónicas relativamente à mesma pessoa.


Por fim, o polémico e assertivo bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto (há quem lhe chame Márinho, vá lá saber-se porquê), que continua a sua cruzada de há pelo menos vinte anos na denúncia da injustiça e da justiça diferenciada entre pobres e poderosos e na luta contra a corrupção e contra os crimes de colarinho branco, delitos esses cujas condenações se contam pelos dedos. Agora que ele é o representante dos advogados e tem uma visibilidade acrescida, aproveita naturalmente para vociferar ainda mais alto que este estado de coisas tem que terminar, perante as críticas dos próprios advogados e do mundo político em geral que, hipocritamente, se escandaliza com a sua luta. Afinal, ouvem-se constantemente um pouco por todo o lado as mesmas preocupações e desabafos, só que em murmúrios sussurrados, e agora opõem-se àquele que tem a coragem, em nome da justiça e da equidade social, de dar voz aos que temem chamar os bois pelos nomes?


Perante isto, o que pensar? Acho que são demasiadas preocupações que me deixam muitos amargos de boca. Mas provavelmente, não só a mim como a muita boa gente. Não será?