terça-feira, setembro 09, 2014

Entusiasmo ou ... insensatez?



Mesmo sabendo que nas campanhas eleitorais, independentemente a que se destinem, os políticos exageram (na forma e na substância) as promessas que fazem, há limites que não podem ser ultrapassados. E nem sequer o calor do entusiasmo das campanhas pode ou deve sobrepor-se ao bom senso exigíveis a quem quer ser líder de alguma coisa.

E foi isso que aconteceu quando em Montalegre, distrito de Vila Real, António José Seguro encontrou uma sala cheia de militantes e simpatizantes e aproveitou, por isso, para insistir no apelo à mobilização e ao voto nas eleições primárias do Partido Socialista, no próximo dia 28.

Seguro, porventura excitado pelo acolhimento dos transmontanos, às tantas, atirou com esta:


"E sabem porque é que ninguém nos vai parar? Porque na República todos nós temos o mesmo voto. E o voto de um agricultor em Montalegre é precisamente igual ao voto de um doutor em Lisboa".


Patético, para não dizer pior ... Onde diabo foi ele buscar tamanha loucura? É que, no mínimo, muitos dos transmontanos presentes - agricultores ou não - por não se sentirem (e bem) inferiores aos ditos doutores da capital, juraram a pés juntos que iriam votar em António Costa.

Um entusiasmo de António José Seguro que lhe saiu um bocado ao lado ...

quinta-feira, setembro 04, 2014

Os professores e o "caus" ...



Na prova que permite o acesso à carreira docente para professores contratados com menos de 5 anos de serviço, 86% dos 10 220 professores passaram. Porém - e lá estou eu com a mania dos "porém", dos "se" e dos "mas" - fiquei preocupado com o facto de 63% dos professores (2 em cada 3) terem dado erros ortográficos, 67% erros de pontuação e 53% erros de sintaxe. O verdadeiro "caus", se é que me faço entender. É verdade que a prova tinha por objectivo avaliar o raciocínio lógico e critico e a capacidade de comunicação mas, concordarão comigo, em pessoas que se dispõem a ensinar, não nos descansa saber que muitos deles não sabem escrever nem, o mínimo dos mínimos, desconhecem completamente as regras e os princípios que regem a organização dos constituintes das frases. Isto para não falar, e isso não foi agora aferido, de que muitos professores não sabem a tabuada. Argumentarão, de que serve a tabuada para um professor de português ou de inglês? E eu, do alto das minhas décadas de vida, respondo que para o ensino da disciplina talvez não seja fundamental mas continuo a achar que, mesmo havendo umas máquinas que sabem fazer todas as contas, e que muitas outras pessoas também não sabem a tabuada, o facto de serem exactamente professores lhes confere uma responsabilidade acrescida.

Quanto aos que deram erros de ortografia dizem por aí que muitos dos professores se desculparam com a confusão provocada pelo acordo ortográfico. A ponto de escreverem em rodapé "escrito de acordo com o novo acordo ortográfico e também de acordo com antiga ortografia". É de Mestres!

quarta-feira, setembro 03, 2014

O mau e o bom Banco ... ou as duas caras de um Banco ...



Este ano, por motivos familiares, não tive oportunidade de fazer as férias do costume, em que, "a banhos noutras paragens", consigo passar ao lado (pelo menos fugir aos detalhes das coisas) do que de mais importante se vai passando, se é que se costuma passar alguma coisa importante em Agosto. Afinal, é a altura do ano a que se costuma chamar a "sealy season" como dizem os ... portugueses.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com o BES, talvez o maior colosso financeiro cá do burgo. Embora há quase um ano se adivinhasse que coisas esquisitas se passavam (praticadas ou consentidas pela sua Administração, estamos para saber), inexplicavelmente sem que medidas de fundo fossem tomadas, a bomba explodiu precisamente no início de Agosto. Com um estrondo bem descrito por Baptista Bastos numa crónica recente "Um espectro percorre Portugal: é o espectro da pobreza, da miséria moral, da fraude, da mentira, do embuste, da indecência, da ladroagem, da velhacaria". E o BES (as fraudes cometidas pelos seus gestores, entenda-se) foi a bomba que rebentou em resultado desse espectro. Só que o BES não acabou, dividiu-se em dois: o que já não é Banco (o BES propriamente dito) e um novo banco, o bom banco, a quem chamaram o "Novo Banco". Mas depois de tantos anos a pergunta é legítima: criar um "Novo Banco" faz-nos esquecer o velho?

Claro que não, muito embora o que continue a preocupar os cidadãos seja saber quais as consequências que vão sentir nos seus bolsos, directa ou indirectamente, o que podem perder das suas economias e investimentos. Pelo menos neste momento já saberão se ficaram a pertencer ao BES (o mau banco) ou ficam "tranquilamente" no Novo Banco, ou a ambos. Mas a dúvida persiste, que confiança é que poderão vir a ter num banco que agora foi criado - que, este sim, juram ser credível - depois de assistirem nos últimos tempos a inúmeros casos de fraudes cometidas por bancos em que supostamente deviam confiar e a quem entregaram os seus pecúlios. É que não há acções de marketing suficientemente capazes para, assim num abrir e fechar de olhos, devolverem a confiança aos clientes. Não basta mudar o nome do Banco, o seu logótipo ou os seus gestores ... É que entre "o bom e o mau" vai a distancia de um banco.



domingo, agosto 31, 2014

Poema do coração


De que forma mais prazenteira poderíamos iniciar o nosso 10º ano de vida de que partilhar convosco este inspirado e gostoso poema de António Gedeão?

De António Gedeão, "Poema do coração"
 

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

sexta-feira, julho 25, 2014

A Guiné Equatorial e a sua proximidade a Portugal, por razões históricas e linguísticas ...



Na data prevista, a Guiné Equatorial consumou a sua adesão à CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - como membro de pleno direito, depois de em 2010, por decreto presidencial, a língua portuguesa se ter tornado no terceiro idioma oficial do país, depois do espanhol e do francês. A verdade, porém, é que por lá ninguém fala o português e nem sequer o francês (a segunda língua oficial desde 1997, cujo o ensino regular nunca foi implementado nem é usado pela população). O castelhano prevalece como língua materna corrente.

Naturalmente que a adesão foi devidamente anunciada no sítio oficial da Guiné Equatorial na Internet, em versões em espanhol, inglês e francês, mas não em língua portuguesa.

O facto é que a Guiné Equatorial já pertence à CPLP. Venceu o poder do petróleo que produz. Confesso que senti vergonha ao ver Cavaco Silva e Passos Coelho aplaudirem o ditador da Guiné Equatorial, como representante de um novo estado-membro que nem sequer necessitou de qualquer votação para ser admitido.
E agora, quem será o próximo membro? Para já foram admitidos como observadores associados a Geórgia, a Namíbia, a Turquia e o Japão, para além das Ilhas Maurícias que já tinha esse estatuto. E esse é só o primeiro passo para mais tarde integrarem a Grande Comunidade.

Uma última nota para sublinhar a afirmação do Presidente Teodoro Obiang de que "a Guiné Equatorial sofre claramente de orfandade cultural por ser o único país hispânico de África". Também aproveitou para salientar "a sua proximidade a Portugal, por razões históricas e linguísticas". Quais razões, pergunto eu?

quinta-feira, julho 24, 2014

Café sem ... princípio




Não sei se vos acontece o mesmo mas confesso que sinto admiração pelos empregados de mesa que aceitam, em simultâneo (e sem se atrapalharem), pedidos tão diferenciados.

Diferenciados e, às vezes, só aparentemente diferentes. Por exemplo, um simples café pode ser apenas um café, um café em chávena escaldada ou em chávena fria, uma italiana, um café cheio, um duplo ou um carioca. Quando não uma bica ou um cimbalino, alguns com ou sem cheirinho.
Enfim, estas são algumas das expressões mais utilizadas mas já se vai ouvindo outra com alguma frequência, a do café sem ... princípio. Já conheciam?

Pois é, agora está muito na moda pedir-se "café sem ... princípio", ou seja, uma bica sem os pingos iniciais do café para que saia mais fraco, assim como uma espécie de carioca. É uma questão de gosto mas atenção - digo eu que sou um grande apreciador de café - ao pedi-lo, está a perder o melhor do café, a sua essência.

Voltando aos empregados de mesa. Convenhamos que conseguir memorizar tantos pedidos diferentes, mas simultâneos, é obra. Até pode ser que o empregado peça "Tira nove cafés: um normal, dois em chávena escaldada, outro em chávena fria, uma italiana, um cheio, um duplo, um carioca e um sem princípio". Mas não é tarefa fácil. E eu suspeito que, em algumas situações, o pedido seja feito simplesmente "Sai nove cafés"!

terça-feira, julho 22, 2014

Só mais três coisinhas sobre a "Copa" do Brasil ...



A vingança é um prato que se serve frio, não é o que dizem? Pois bem, ainda não esquecidos aqueles humilhantes 4 a 0 que sofremos frente à Alemanha no Mundial de Futebol do Brasil, engolimos o nosso orgulho, arregaçámos as mangas e, pouco tempo depois, agora no Europeu de hóquei em patins, demos uma tremenda goleada aos alemães, nada menos que uns expressivos 13 a 3, o que os deve ter deixado arrepiados. Pena foi que a imprensa não tivesse destacado convenientemente a merecida vitória da nossa equipa (nem a Chanceler Angela Merkel conseguiu evitar uma cabazada daquelas). Cá se fazem, cá se pagam.

Mas a "Copa" do Brasil, para além dos "amargos de boca" que nos provocou (e à Espanha, ao Reino Unido e a muitos outros, também ao próprio Brasil) mostrou ao mundo como, neste "circo" do futebol, a solidariedade às vezes acontece. Recordo dois casos:

- os jogadores da selecção argelina - uma das equipas que mostraram um futebol alegre e ofensivo - decidiram doar a totalidade prémio que tinham recebido por participarem no Mundial para causas humanitárias;

- o jogador do Real Madrid, Mesut Özil, anunciou que vai utilizar o prémio de participação no Mundial para financiar cirurgias a 23 crianças brasileiras. O internacional alemão já tinha pago 11 cirurgias antes do início do torneio, mas resolveu aumentar o número de crianças depois de ter conquistado a prova. Özil recebeu cerca de 300 mil euros por ter feito parte da equipa que se sagrou campeã do Mundo.

Bonito, não é?

quinta-feira, julho 17, 2014

O estranho caso do Estudo desaparecido



Sempre gostei de romances policiais e de mistério. A bem dizer "devorei" os livros de Agatha Christie e, no cinema, rendi-me por completo ao Mestre dos filmes de suspense Alfred Hitchcock. Mas na vida real as coisas acontecem e o que aparentemente nos faz acreditar em determinado desfecho, vem-se a constatar que, por insondável mistério, afinal, têm um fim diferente.

Por exemplo, ainda há pouco se julgava que os ilícitos cometidos no Grupo Espírito Santo eram da responsabilidade de determinadas pessoas e, vistas as coisas, o único culpado (dizem) era o desgraçado do contabilista ... "elementar, meu caro Watson".

Exactamente como aconteceu no caso de um certo estudo que foi encomendado por um antigo director da cultura da Câmara Municipal de Lisboa à irmã da sua então companheira, trabalho esse que custou 27,8 mil euros mas que, desgraçadamente, nunca apareceu. Mas como se não fosse bastante o desaparecimento de um estudo que foi pago pelo Município, outras questões relevantes foram colocadas e deu direito a um processo em tribunal. Coisas tão pueris como saber a utilidade desse estudo (saber sobre os direitos de autor do espólio do poeta Fernando Pessoa) e os porquês de ter sido concedido por ajuste directo à sua cunhada e a uma sua amiga, ambas ex-colaboradoras da Câmara.

O processo durou 5 anos e o Tribunal acabou por absolver os três ex-funcionários da Câmara de Lisboa. Os juízes concluíram que "o preço pago era justo e proporcionado" mas ... azar dos azares, o estudo não foi visto por qualquer pessoa além dos arguidos. Desapareceu, simplesmente. Como desapareceram da Tesouraria Municipal os 27,8 mil euros.

Mas há um detalhe que é importante: Segundo garantiu o tal director da CML, quando saiu da autarquia, no final de 2008, ele deixou o estudo em cima da secretária, mas o documento nunca foi visto por qualquer pessoa. Portanto ...

Portanto, a culpada só pode ter sido a senhora da limpeza que, sem querer, deitou o dossier para o lixo. "Elementar, meu caro Watson".

quarta-feira, julho 16, 2014

O ensino obrigatório do inglês ... do oito ao oitenta?



Não sou intransigente ao ponto de condenar aqueles que tomam decisões (irrevogáveis ou não) mas que tenham a coragem de voltar atrás e dar o dito pelo não dito. Bem pelo contrário, às vezes acontece. Não sei se foi isso que aconteceu com o Ministro Nuno Crato ao acabar com a disciplina obrigatória de Inglês no 1º. ciclo. Mas sei que das experiências que o Ministro da Educação tem levado por diante duas houve que causaram grande polémica, a redução das Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) para metade do tempo e o acabar com a obrigatoriedade do ensino de Inglês, introduzida pela primeira vez em 2005, no tempo de José Sócrates. Afinal, Sócrates parece que fez algumas coisas boas.

Face à situação caótica do ensino da disciplina e ao estado preocupante do domínio da língua inglesa por parte dos alunos - cerca de metade praticamente não sabem falar ou têm um conhecimento muito elementar da língua - o Ministro anunciou que o ensino do inglês passará a ser obrigatório a partir do 3º ano de escolaridade, já em 2015/2016. Mais vale tarde do que nunca. A decisão foi, de facto, tardia mas óbvia: o inglês é uma língua universal.

Só há um porém. Se aplaudimos a decisão de retomar o ensino obrigatório do inglês desde cedo, não sei se não será precipitado o objectivo - dentro de três ou quatro anos - que todos os alunos do ensino secundário sejam certificados pelo Cambridge com o nível First Certificate. É que o passo pode ser maior do que a perna ...

terça-feira, julho 15, 2014

Don't Cry for Me, Argentina



Terminou a maratona futebolística da "Copa" que, se outros méritos não revelou, teve, pelo menos, o condão de nos fazer esquecer um pouco das muitas desgraças que nos vão acontecendo. Desta vez não foi, portanto, por obra e graça do Divino Espírito Santo. Não certamente, porque esse - o Espírito Santo - só na última semana teve mais tempo de antena do que alguns dos jogos transmitidos, mesmo com prolongamento e tudo.

Terminou, então, o Mundial de Futebol, que foi assim para o fraquito, convenhamos, onde os grandes craques passaram despercebidos, e até os melhores do mundo, nomeadamente o Cristiano Ronaldo e o Messi (embora este tenha sido escolhido como o melhor jogador do Mundial, um distinção que me pareceu uma espécie de prémio de consolação concedido pela FIFA), que pôs de rastos os brasileiros pelos resultados humilhantes contra a Alemanha e a Holanda e que provocou incidentes graves na Argentina com a revolta dos adeptos pela sua equipa não ter conseguido ganhar à Alemanha. Nem mesmo com o apoio espiritual do Papa Francisco, ele próprio argentino e adepto de futebol. Enfim, "Don't Cry for Me, Argentina"! Mas, como se costuma dizer, o futebol é isto, o futebol, são onze contra onze e no fim quem ganha é a Alemanha!

Repararam que nada disse sobre a nossa magnífica selecção, que tem o melhor jogador do mundo (CR7), o capitão, aquele que dizia a princípio que este era o ano de Portugal mas que, quando as coisas correram para o torto, rectificou o discurso e afirmou que nunca tinha pensado ser campeão do mundo. A bola é redonda e dá muita volta. Porém, bem vistas as coisas, temos como atenuante (é assim que se faz na política), aquando da fase de grupos, termos perdido por 0 a 4 contra o novo campeão, a Alemanha, e que esse resultado foi bastante mais favorável do que conseguiu o anfitrião Brasil, 1 a 7 contra a mesma Alemanha. São desculpas, sim, mas que nos consolam a alma.

Claro que na nossa imprensa desportiva de ontem as primeiras páginas deram especial destaque ao Mundial e ao jogo da final. E também enfatizaram o mercado de transferências (do futebol, pois claro). Nas linhas mais pequeninas de alguns jornais desportivos podiam-se ler notícias bem menos interessantes. Por exemplo, que Emanuel Silva e João Ribeiro são os novos campeões europeus de canoagem. Mas isso são outras histórias que não vêm ao caso ...



quinta-feira, julho 10, 2014

Ah, Valentes!



O desprezo (que nem sequer disfarçam) que certos estrangeiros demonstram pelos portugueses é confrangedor. Lembram-se quando o José Mourinho foi a primeira vez para o Chelsea e teve que pôr em sentido os jornalistas ingleses que o massacravam, pondo em dúvida a sua competência? Logo ele que tinha ganho em Portugal tudo o que havia para ganhar mais uma Taça UEFA e uma Taça dos Campeões Europeus. Claro que Mourinho falou alto e grosso e fez frente a quem o desafiava. Foi remédio santo.

Há dias foi a vez do eurodeputado comunista João Ferreira dar uma lição de boa educação ao candidato designado para presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Depois de criticar o papel desempenhado em Portugal pela troika - que o senhor Juncker apoiou - e chamar-lhe a atenção para a realidade do país, referindo-se ao estado da economia e à escalada da dívida, João Ferreira fez uma pausa entre as duas questões que estava a colocar ao político luxemburguês, ao ver que este estava sem os auscultadores e manuseava o telemóvel.

“Vou fazer uma pausa para que possa desligar o telemóvel”, disse, firme, o deputado português, ao que Juncker gaguejou que estava a responder a uma mensagem da sua mulher. Uma resposta abstrusa, pífia e completamente inaceitável. E mesmo que conhecesse muito bem a realidade portuguesa, como afirmou, isso não o dispensava de estar atento à interpelação do eurodeputado português.

Irrita-me que tenhamos que nos pôr em bicos de pés para que essa gentinha sinta que temos todo o direito a sermos respeitados. Não fazem ideia como a sobranceria de certas figuras me tiram do sério.

terça-feira, julho 08, 2014

Mas se o IVA desce por que é que o preço final fica na mesma?



Sabem aquelas vezes em que nos atiramos "desalmadamente" a um petisco de arregalar o olho e, passado um tempinho, dá-nos um mal-estar dos diabos? Pois foi o que me aconteceu quando soube que a taxa de IVA do pão com chouriço, com nozes, passas ou torresmos locais passou de 23% para 6%. Aleluia, pensei. É que o intuito, segundo a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), foi o de proteger os produtos e a economia regional. O que quer dizer que o pão com chouriço vai, assim, pagar o mesmo IVA de 6% que paga o leite, a água e o pão.

Aleluia, repeti para com os meus botões. Fiquei mesmo satisfeito com esta baixa de impostos que vai beneficiar a economia local muito embora eu, como consumidor, não faça a mínima ideia se aquele pão que estou a comprar tem lá dentro o chouriço, as nozes, as passas ou os torresmos dos ditos produtores locais.

Agora onde eu fiquei com a tal azia foi quando li - na mesma notícia - que uma baixa da taxa de IVA pode não implicar uma descida dos preços do pão com chouriço, nozes, passas ou torresmos: "Tudo depende das margens, porque, em muitos casos, estão esmagadas e uma descida do IVA não vai ter reflexos no preço final".

Ora abóbora (abóbora local, já se vê), se o preço não baixa e a malta não compra como é que as economias locais vão ganhar alguma coisa? Ainda se o preço final fosse mais baixo podia ser que produzissem mais e, portanto, ganhassem também mais ... mas assim? Será que estou ver mal a coisa?

sexta-feira, julho 04, 2014

A Guiné Equatorial junta-se, finalmente, à CPLP



A investigação publicada ontem pelo jornal "Público" sobre empresários estrangeiros, vítimas de extorsão e de ameaças na Guiné Equatorial, deu especial enfoque ao caso do empresário italiano Roberto Berardo que foi preso e torturado naquele país "só" por ter questionado a gestão (e o desvio de fundos) de uma empresa criada com o filho do Presidente Obiang. Aliás, como se sabe, para que alguma empresa estrangeira possa investir naquele país, uma das condições impostas é que um dos membros da família presidencial seja Presidente ou faça parte da Administração da mesma. Esta é apenas uma "peculiaridade" de um país com altíssimos níveis de corrupção a começar pelo próprio Presidente, Teodorin Obiang, ele próprio acusado de corrupção e compra de bens e propriedades, através de práticas criminosas.

E é este país - a Guiné Equatorial - que vai entrar este mês para a CPLP como membro de pleno direito. O Presidente Obiang é esperado no próximo dia 23 de Julho em Díli, na cimeira de chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Nesta reunião de alto nível deverá ser formalizada a adesão do país como membro de pleno direito depois de, em Fevereiro passado, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos oito países lusófonos terem aprovado a entrada da Guiné Equatorial por considerarem que a antiga colónia espanhola cumpriu o roteiro previsto para os direitos humanos.

E a grande questão é: mesmo que esse tal roteiro tenha sido cumprido, isso seria o bastante para que um país deste calibre seja membro da CPLP? Mas há mais:

Recordo o que aqui escrevi em Julho de 2008, já lá vão 6 anos. "... a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – é uma organização formada por oito países lusófonos – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Nos seus estatutos existe uma regra fundamental que tem que ser escrupulosamente respeitada, que é, “qualquer país que faça parte desta comunidade tem que ter o Português como língua oficial”.

" ... a associação (CPLP) tem como lema “A Língua Portuguesa: Um Património Comum, Um Futuro Global".

Direitos Humanos e Língua Portuguesa à parte (nem um nem outro são, de facto, cumpridos) o que é que nos faz acolher um país como a Guiné Equatorial? Como diria o outro ... mistério ... ou talvez não!

quarta-feira, julho 02, 2014

Um "Grammy"para Carlos do Carmo



A notícia "caiu" com um trovão. Pela primeira vez, um artista português recebeu a mais alta distinção do mundo da música pela excelência musical do seu trabalho. Foi com imenso orgulho que se soube que Carlos do Carmo vai receber (a 19 de Novembro, em Las Vegas) um "Grammy" concedido - por unanimidade de um júri composto por 16 pessoas - pela Latin Academy of Recording Arts and Sciences. Um prémio de carreira, o "Grammy Lifetime Achivement Award". O mesmo prémio que já foi entregue a artistas como Frank Sinatra ou Elvis Presley entre outros.

E Carlos do Carmo, um dos nomes históricos do fado, fez jus a este prémio. Pela forma como reinventou o modo de cantar o fado, pelos autores (de letras e de músicas) que escolheu (ou o escolheram) para interpretar, pela voz única que possui e pelo empenho a favor do fado e dos seus intérpretes que tem demonstrado ao longo de 50 anos de carreira que ainda estão a ser comemorados.

Mas a minha satisfação é ainda maior por me recordar que ao longo destas últimas quatro décadas, Carlos do Carmo nunca abdicou de defender as suas convicções: o fado (sobretudo nos anos a seguir ao 25 de Abril em que a canção nacional não era muito bem aceite), o ser de esquerda e o ser católico. E isso merece-me um cumprimento muito especial.
 


Nota: Hoje no Baú

http://bau-demascarenhas.blogspot.pt/

Carlos do Carmo em "Duas lágrimas de orvalho"

terça-feira, julho 01, 2014

República ou Monarquia?



Nasci e fui criado no regime republicano vigente e nunca tive um interesse particular pelas deslumbrantes festas e notícias da monarquia tão badaladas nas revistas cor-de-rosa. Apesar de, ainda há pouco, ter dedicado alguma atenção às cerimónias da abdicação do Rei Juan Carlos a favor do Príncipe Filipe, seu filho. Mas, na verdade, não tenho argumentos fortes a favor de um ou de outro modelo de Estado. Enfim, parece-me mesmo que para a generalidade dos cidadãos tanto faz, desde que as coroas vivam em democracia. Não tenho argumentos mas tenho um "porém": é que na República são os cidadãos que escolhem, por voto directo, o Presidente (o que não nos garante grande coisa, diga-se em abono da verdade), enquanto na monarquia a sucessão real não carece do voto do povo.

E os custos de um ou de outro sistema serão semelhantes? É reveladora a reportagem da RTP1, em que a sua correspondente em Madrid relatava:

"a monarquia custa a cada espanhol 19 cêntimos enquanto a Presidência da República em Portugal custa a cada português 1 euro e 58 cêntimos. Em termos de transferência do Estado, o Governo Espanhol transfere para a Casa Real quase 9 milhões de euros enquanto o Governo Português transfere para a Presidência da República quase 16 milhões de euros".

Estou em crer que este ESCÂNDALO nada tem a ver com o facto dos países serem Repúblicas ou Monarquias. Mas dá que pensar, não é?



sexta-feira, junho 27, 2014

"Os amantes sem dinheiro"


De Eugénio de Andrade


"Os amantes sem dinheiro"

 
 
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


quinta-feira, junho 26, 2014

As mordidelas ...



Convenhamos que há mordidelas e mordidelas. E se percebemos bem as dentadinhas de amor dos namorados (a paixão tem destas coisas ...) já não compreendemos, nem aceitamos, as mordidelas (as dentadas) de desportistas dadas aos seus opositores.

Quando em Junho de 1997 se defrontavam os pugilistas Mike Tyson (antigo campeão do mundo de pesos pesados) e Evander Holyfield (então campeão em título), naquele que chegou a ser conhecido pelo combate do século, Tyson mordeu a orelha de Holyfield, o que levou à interrupção do combate. Reatado o duelo, Tyson voltou a morder a orelha do oponente e acabou por ser desclassificado.

No Mundial de Futebol do Brasil que está a decorrer, no jogo entre o Uruguai e a Itália, o jogador uruguaio Luís Suarez terá mordido um jogador italiano quando ambos se engalfinharam. Verdade, ou não, o facto é que Suarez, o avançado uruguaio do Liverpool, já foi alvo de várias penas pesadas, incluindo uma, em 2013, por ter mordido o sérvio Branislav Ivanovic, jogador do Chelsea e outra, em 2010, quando actuava no Ajax, ao morder Otman Bakkal, do PSV Eindhoven, ambas na região do ombro. Trata-se, digo eu, de um caso de compulsão obsessiva.

Enfim, no caso do "canibal Suarez", pode ser que se trate de tiques nervosos, quiçá motivados por não conseguir reagir bem à pressão dos jogos. Quanto ao lendário Mike Tyson o que me ocorre dizer é que ele se tornou ... vegetariano.

quarta-feira, junho 25, 2014

Bebo ou não bebo? Vou pensar no assunto ...



Um relatório da Organização Mundial de Saúde conclui que cada europeu bebe, em média, 12,4 litros de álcool por ano, enquanto que em Portugal, a média é de 13,4 litros. Numa lista de 34 países, Portugal surge em nono lugar no que se refere à média anual de consumo de álcool per capita. Por outro lado, Portugal revela ser um dos países com mais abstémios, o que indicia elevado consumo dos que bebem.

Como não fazia a mínima ideia da quantidade de álcool bebo por ano, pus-me a fazer contas e, assim por alto (por norma só bebo vinho tinto e, quase sempre só aos almoços de fim-de-semana), digamos que dois copos a cada uma destas refeições, já ultrapassam a quantidade média atribuída a cada português. Se acrescentarmos umas quantas cervejas nos dias mais quentes e uns uísques em dias especiais, dou-me conta que figurarei na lista dos que consomem mais. Estarei, portanto, a abusar do álcool e isso - em princípio - não é bom. Porém, ao que se sabe, a ingestão de vinho pode trazer benefícios à saúde do ser humano, nomeadamente pelo seu efeito antioxidante e por actuar beneficamente nas paredes das artérias. Aliás, desde há muito que está associado ao bem-estar e longevidade.

Voltemos ao relatório da OMS. O que a pesquisa não divulgou (mas sabe-se que é assim), é que os que bebem mais mostram sinais inequívocos de regeneração contínua dos neurónios e melhor memória de curto e longo prazo bem como maior rapidez de raciocínio e de reacções. Como reforço da tese que a ingestão de álcool faz bem, o jornal britânico Daily Mail, anunciou que cientistas descobriram que idosos que bebem uma quantidade moderada de álcool possuem 30% menos probabilidade de desenvolver demência e 40% menos de sofrer de Alzheimer do que aqueles que não consomem esse tipo de bebida.

"Anyway" (que é uma expressão de que eu gosto particularmente ... sobretudo quando já bebi um pouco mais), a utilizar-se a ironia, poder-se-ia dizer que "antes bêbado que demente". Vou, pois, pensar no assunto ... Mãos aos copos!

sexta-feira, junho 20, 2014

"No meu tempo ..."




"Ah, no meu tempo é que ...". É uma expressão que não gosto de utilizar, tão-pouco de a ouvir. "Velhos saudosistas" têm tendência a usá-la para realçar as coisas boas que aconteciam quando eram crianças ou jovens, como que a querer dizer que aquelas é que eram realmente boas enquanto que as de agora não prestam.

É verdade que noutros tempos havia coisas de que hoje temos saudades. O respeito, por exemplo. Seguíamos um cardápio tradicional baseado na cozinha mediterrânea em que os produtos não tinham tantos pesticidas nem eram geneticamente modificados, por exemplo (embora nesta matéria possam ser aduzidos montes de argumentos contra). Havia mais tempo (e vontade) de nos darmos com a família e os amigos, por exemplo. A composição tradicional das famílias (muitas das actuais ainda nos fazem confusão, mas há todo um esforço de as compreender e aceitar), por exemplo. Mas também havia muitas coisas de que não gostávamos ou, simplesmente, não existiam.

Nas últimas décadas foram postas à nossa disposição (foram inventadas, foram criadas) tantas coisas tão boas e que nos dão tanto jeito. Os computadores e a internet, a televisão, os telemóveis (tirando a parte menos boa da questão), as diversas máquinas (frigorífico, de lavar roupa, café e tantas outras) de que já não conseguimos prescindir.

Daí que ache mais sensato não ter demasiadas saudade do "meu tempo" por que o "meu tempo" é também hoje, é agora. Tal como dizia Vinicius de Moraes:

"... Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
Meu tempo é quando ..."


quinta-feira, junho 19, 2014

Quando "dignidade" soa a uma palavra menor ...



Há dias falei ao telefone com um grande Amigo (que foi meu chefe e com quem aprendi muito) que se mostrava desolado com o facto de auferir uma parca pensão de mil e poucos euros, depois de ter oferecido à empresa onde trabalhou 40 anos, com total dedicação e disponibilidade (reconhecidas aliás na época) e que o guindaram a alto quadro da organização. Ele foi, de facto, um profissional competente e totalmente dedicado.

O desabafo que ouvi da sua boca deixou-me a pensar como é injusto que depois de tanto esforço e durante tanto tempo, a empresa não lhe tenha atribuído, como reconhecimento devido, uma pensão mais digna. Estou a falar-vos deste meu Amigo mas esta posição contempla, naturalmente, todos aqueles que se encontram na mesma situação. E serão muitos.

Por outro lado, soube-se a semana passada que o ex-Ministro da Economia de José Sócrates, Manuel Pinho, de 60 anos, está a negociar com Ricardo Salgado a sua reforma antecipada, vinte anos depois de ter entrado no grupo BES. Uma negociação que passa por reclamar mais de 3,5 milhões de euros de compensação até à idade da reforma (65 anos). Fonte do Grupo Espírito Santo afirmou que Pinho tem direito a uma reforma desde os 55 anos, não como administrador do BES África (onde aufere cerca de 50 mil euros mensais), mas como administrador executivo que foi, durante cerca de 10 anos, no BES.

Não disse, mas decerto entenderam, que o meu Amigo também trabalhou no BES. Mas, como em tantas outras coisas, também aqui se verificam tratamentos diferenciados. Não pretendendo questionar sequer quem "deu" mais à Instituição. O que sublinho é que um - quadro superior do Banco - esteve lá mais de 40 anos e tem mil e poucos euros de pensão, enquanto que o outro - Director e mais tarde Administrador - esteve metade desse tempo e, sabendo como o BES teve durante ano a fio, uma política generosa de remuneração dos seus quadros de gestão, está a negociar mais de três milhões e meio de euros, o que dará uma reforma substancialmente maior.


A vida é injusta, já dizia o Calimero. Mas podia ser um bocado menos quando o que está em causa é a dignidade das pessoas.

segunda-feira, junho 16, 2014

Ainda sobre o Tribunal Constitucional ...



A última crónica que aqui publiquei suscitou viva discussão com vários Amigos sobre as funções do Tribunal Constitucional. Alguns deles questionavam mesmo se os juízes não estariam a ultrapassar as suas competências e, pura e simplesmente, não estariam a fazer política. E essa é exactamente a questão. Quanto a mim, a função de um Tribunal Constitucional é interpretar e defender a Constituição e isso faz-se através do julgamento político das leis que lhes são propostas. Ou seja, os juízes devem interpretar essas leis no sentido que as mesmas não firam os princípios constitucionais.

Mas há quem defenda também - Fernando Ulrich, por exemplo - que para além dos juízes (os tais que analisam politicamente as leis) os economistas também deveriam ter assento no TC. Como se a confiança que possamos ter nos juízes fosse menor do que nos economistas.

Durante a tarde também discutimos isso e, claro está, não deixámos de falar nos efeitos dos chumbos do TC que se estimam na casa dos 600 milhões de euros. O que não chegámos a comentar - porque só se soube à noite - é que, de mansinho, Alberto João Jardim veio a Lisboa pedir mais 950 milhões e que o Governo se prepara para injectar nas empresas públicas de transportes mais uns parcos 1 300 milhões de euros.

O que vale é que, nós contribuintes, cá estaremos firmes e hirtos preparados para mais uns sacrifícios que entendam aplicar-nos. Chamem-lhes impostos ou outra coisa qualquer ...

quinta-feira, junho 12, 2014

O que os juízes do Tribunal Constitucional não devem ou não podem mesmo fazer ...



Fiquei completamente "abazurdido" quando li no jornal "Público", a entrevista onde a Vice do PSD, Teresa Leal Coelho, defende limites à acção dos juízes do Tribunal Constitucional quando "extravasem" as suas competências. Dito de outra maneira, o TC deve ser alvo de "sanções jurídicas" por parte dos tribunais europeus, caso os poderes que lhe são atribuídos sejam "extravasados". Ou, ainda, dito de uma outra maneira, o TC "não pode ter um poder absoluto" e os juízes devem estar sujeitos à "legalidade da União Europeia".

Eu até percebo que aos partidos que estão no Governo lhes custe muito ver as medidas que "tão arduamente elaboram" serem vetadas, umas atrás das outras, pelos juízes do Tribunal Constitucional. Porém, pretender que as leis portuguesas tenham menos força do que as leis comunitárias ou que o Tratado Orçamental se sobreponha a qualquer norma da nossa Constituição, já me parece demasiado. Pelo menos até ver ...

Há aqui uma clara questão de incompatibilidade. Parece que a denominada "legalidade europeia" não é compatível com a nossa norma fundamental - a Constituição. E é exactamente por isso que a deputada insiste "se os tribunais tomarem decisões incompatíveis com a legalidade da União Europeia, o Tribunal de Justiça da UE tem competência para condenar o Estado" português por "incumprimento". Só que, como recordou o constitucionalista Vital Moreira, "quando um país não pode cumprir uma obrigação perante a União por causa de uma decisão do TC, os responsáveis pela eventual sanção pecuniária aplicada pela União não são os juízes do Constitucional mas sim o país". Isto é, a factura recairia fatalmente sobre os contribuintes. Se é isto que a maioria quer ...

Recordo as linhas finais de um artigo de Nicolau Santos no Expresso do último sábado: "... preferem um país sem uma Constituição? Ou uma Constituição sem um Tribunal Constitucional que a faça respeitar? E como se chama a um regime político assim?


quarta-feira, junho 11, 2014

A indisposição do Presidente



A indisposição do Presidente da República quando discursava ontem na Guarda nas cerimónias do Dia de Portugal não mereceriam um comentário, ainda que breve, não fossem certas circunstâncias. Cavaco Silva teve um desfalecimento, coisa que acontece a qualquer ser humano mas, logo que recuperado, o PR recuperou também o discurso no justo momento em que o tinha interrompido. Nada de anormal, portanto.

O que me pareceu mais esquisito - as tais "certas circunstâncias" a que me referi - foi, por um lado, alguns jornalistas terem atribuído o mal estar do Presidente ao coro de protestos que vinha de um local onde se aglomeravam alguns manifestantes - um puro disparate, na minha opinião - e, por outro lado, à investida da segurança do PR a mandar (ou a tentar mandar) os fotógrafos apagarem as imagens que tinham feito do desfalecimento de Cavaco. Este último facto, um acto politicamente grave e democraticamente reprovável.

sexta-feira, junho 06, 2014

Charadas ...



Gosto de charadas, de enigmas, de problemas mais ou menos difíceis de resolver. De algumas charadas, diga-se. Contudo, nas que à política dizem respeito, as charadas soam-me a mentiras, a esquemas para baralhar a rapaziada. E as coisas obscuras difíceis de compreender passam a manobras dilatórias (palavra muito ouvida ultimamente) e mentirosas que só confundem e provocam as mentes medianamente inteligentes.

Vem isto a propósito do chumbo do Tribunal Constitucional a três normas do Orçamento de Estado, supostamente por estarem feridas de inconstitucionalidade. Como o Governo achou que o TC está a impedir a sua "boa governação" (ainda que, aqui e ali, as suas práticas sejam ilegais/inconstitucionais), decidiu pedir uma "aclaração" (que palavra maravilhosa, na linha de outras como "inconseguimento" e quejandas) do Acórdão.

E aqui é que está o busílis. Ao que ouvi a um jurista e um juiz do Tribunal da Relação de Lisboa, o Código do Processo Civil, revisto em 2013 pela actual Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, deixou de admitir os pedidos de aclaração.

Ou seja, o Governo quer fazer uma coisa que já não é possível fazer porque o próprio Governo decidiu que iria deixar de ser possível fazê-lo. Portanto, e para não lhe chamar mais uma vez incompetente, diria (da forma mais simpática possível) que se trata apenas de uma charada.

Mas a minha "simpatia" esgotou-se quando ouvi o Primeiro-Ministro proferir: "tem de se escolher melhores juízes para o Tribunal Constitucional". Era só o que nos faltava! Um Governo que reiteradamente viola a Constituição da República e sistematicamente desfere ataques a um outro órgão de soberania. Cavaco Silva e os portugueses têm uma palavra (de repúdio) a dizer ...

quinta-feira, junho 05, 2014

O futebol e os meus descontentamentos ...




Já aqui tenho manifestado o meu desagrado pela histeria televisiva a que assistimos quando a nossa selecção de futebol vai participar nalgum campeonato da Europa ou do Mundo. E eu que até gosto de futebol não suporto mais o relato e as imagens dos mais ínfimos detalhes: os jogadores a sairem do hotel ou a entrarem no autocarro e o acompanhamento do dito autocarro (de mota, de automóvel ou até mesmo de helicóptero) que se desloca para aqui ou para acolá. Isto para já não falar de Cristiano Ronaldo que é mencionado a cada minuto, mesmo sabendo que ele é o melhor do mundo. Tudo nas televisões generalistas (e não só) em simultâneo. É, francamente, demais. Não há pachorra ...

E o que dizer quando a selecção é recebida pelo Presidente da República, das palavras de incentivo e de circunstância antes de irem todos almoçar nos salões do Palácio de Belém? É que não vejo a mesma atenção para outros atletas, de outras modalidades. Mesmo que esses atletas não se preparem apenas para partir mas já tenham regressado vitoriosos das suas competições.

Como foi o caso do canoista Fernando Pimenta que conquistou no último domingo a medalha de ouro na prova de K1 1.000 metros das Universíadas de Verão realizadas na Rússia. Ou dos atletas que conquistaram quatro medalhas (uma delas de ouro) na Taça do Mundo de Ginástica Artística Masculina e Feminina que terminou também no passado domingo no Centro de Alto Rendimento de Anadia, em Aveiro.

Por acaso, assistiram à recepção desses atletas em Belém? Ou será que já viram nas redes sociais uma "selfie" desses atletas tiradas com Cavaco Silva?



terça-feira, junho 03, 2014

O lamento de Olli Rehn



Se consigo entender as razões do porta-voz do PSD, Marco António Costa, perante o chumbo a três normas do Orçamento do Estado para 2014, em que acusa o Tribunal Constitucional de querer arrastar o país para o passado e de atropelar as competências do Parlamento, já me é difícil "engolir" que o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos, Olli Rehn, considere muito frustrante ser recorrentemente confrontado com questões sobre decisões do Tribunal Constitucional (TC) que "forçam" o Governo português a encontrar medidas orçamentais alternativas.

Forçam? É que, mesmo correndo o risco de ser deselegante para o Governo Português, o mais elementar bom-senso impunha que Olli Rehn equacionasse a questão de uma outra forma: afinal, porque carga de água é que o Tribunal Constitucional considera inconstitucionais todos os Orçamentos e todos os Rectificativos apresentados pelo Executivo Português? Se se interrogasse nestes termos, provavelmente poderia ser levado a pensar ou que o Governo Português é incompetente ou, simplesmente, se está nas tintas para a Constituição Portuguesa e, daí, "fabricarem" sucessivos orçamentos que não respeitam a Lei Fundamental do País.

Antecipando que as medidas propostas nada tinham de ideológico, haveria, ainda, uma terceira hipótese de escolha para o Comissário Europeu. Inteligente como deve ser, poderia, quem sabe, imaginar que o Governo Português era simultaneamente incompetente e se estava nas tintas para a Constituição. Mas isto sou eu a dizer, que tenho mau feitio.