quarta-feira, julho 12, 2006

Porque é que não deveriam pagar IRS?


Quase toda a gente reconhece que os rapazes da selecção nacional de futebol foram esforçados, jogaram, ao que parece, o futebol mais criativo do Mundial, conseguiram uma classificação bastante honrosa e, penso, que não se podem queixar da recompensa que lhes foi atribuída. Foram apaparicados por milhões de portugueses, por autarquias que fizeram questão de os receber que nem príncipes, foram até considerados herois antes mesmo da competição começar e, não menos importante, tiveram a satisfação e o orgulho de vestirem a camisola nacional em representação do seu país.

E por todo o empenho demonstrado, foi-lhes atribuído um prémio em dinheiro que, ao que parece, andará à volta dos 50 mil euros. Poucos profissionais terão tido alguma vez na vida a oportunidade de estarem um mês instalados em bons hotéis, a comer do bom e do melhor à conta do orçamento e, ainda por cima, ganharem cinquenta mil, isto, é claro, para além de continuaram a receber os respectivos ordenados dos seus clubes.

Mas, ainda assim, não nos iludamos. É certo que os rapazes estiveram bem, conseguiram um prestigiante quarto lugar na competição mas, na verdade, não atingiram o objectivo principal que era o de serem campeões. E nisto, meus amigos, temos que ser rigorosos e realistas. Numa competição só existe um ganhador, os outros são apenas os que perderam. Costuma-se até dizer que o vice-campeão (que é uma coisa que não existe oficialmente), o segundo classificado de uma competição é, apenas, o primeiro dos últimos. Em todo o caso, a selecção portuguesa, para além de se ter quedado pela quarta posição, conseguiu, na generalidade, uma boa prestação. O que não evitou, no entanto, que na tabela oficial da FIFA descessem de sétimo para oitavo lugar.

Como resumo da campanha, podemos então dizer que tivemos um grupo de jogadores de futebol, que foi apaparicado, vitoriado, endeusado e muito bem pago. Só que, a Federação que os representa, pretende agora que esses mesmos jogadores fiquem isentos do pagamento de IRS relativo ao que ganharam durante o tempo em que estiveram ao serviço da selecção.

Era só o que faltava. Não posso estar mais em desacordo, nem que eles tivessem ganho a estatueta do Mundial. Todos sabemos que qualquer trabalhador que tenha auferido um qualquer prémio pecuniário, paga IRS. Se essa isenção agora sugerida pela Federação fosse aprovada, o que me custa muito a acreditar, tratar-se-ia de mais uma valente discriminação e injustiça em relação aos demais trabalhadores.

Trata-se, pois, de uma questão de bom senso, sobretudo numa altura em que o país passa por enormes dificuldades, bem conhecidas e sentidas por todos e a quem os sucessivos governos não se cansam de pedir grandes sacrifícios. É absolutamente imoral e chocante que a Federação avance com uma proposta deste tipo, que, ainda por cima, iria criar mais uma situação de privilégio numa classe de profissionais que, já de si, é altamente privilegiada.

Se isso for aprovado tratar-se-á de mais uma afronta e uma ofensa a todos os portugueses, e seguramente àqueles mesmos portugueses que andaram durante um mês inteiro de braços no ar, a dar vivas e mais vivas aos que, agora, querem saltar fora e não pagar os impostos a que são obrigados.

segunda-feira, julho 10, 2006

Opções

Quando se soube, através da comunicação social, que o quarto homem mais rico do mundo, segundo a revista “Forbes”, o Sr. Ingvard Kamprad, o fundador do IKEA, era uma pessoa que hesitava muito antes de fazer qualquer despesa, o mínimo que a opinião pública terá pensado é que o homem era um forreta dos diabos. E, quando se soube que o Sr. Kamprad numa visita rápida que fez a Portugal, ficou instalado numa modesta pensão da Praça da Alegria e, ainda por cima, se deslocou à sua loja de Alfragide de táxi mas que, no regresso, recusou este “luxo” e se deslocou a pé até à Decatlhon, onde esperou pacientemente pela carreira 14 da Carris para o trazer de volta até à sua pensão da Praça da Alegria, aí, a mesma opinião pública já não disse que o homem era forreta, mas que ele era um grandessíssimo unhas de fome, um avarento à séria. Então, um tipo que é tão rico, que até é capaz de não saber o dinheiro que tem, e que em vez de ficar no Ritz que, por acaso, é mais perto da loja que ia visitar, vai dormir a numa pensão de quinta categoria? E uma vez mais a opinião pública foi categórica e decidiu que o homem não merece sequer ter a fortuna que tem.

Mas a questão não é tão linear. É claro, que se fosse comigo, naturalmente que ficaria não no Ritz mas no Meridien, porque simpatizo mais com este hotel e, obviamente, que seria transportado, na ida e na volta por um confortável carro de aluguer, quando muito, por um dos carros da admnistração da IKEA em Portugal.

Mas como eu não sou o Sr. Ingvard Kamprad tento fazer um esforço para compreender porque razão é que um homem que tem todo aquele dinheiro, nunca fica em hotéis com mais de três estrelas e que viaja sempre em classe económica. E a explicação mais aceitável que encontro para o facto, tem a ver, por um lado, com a sua vontade de pretender viver com toda a simplicidade e, por outro, em não querer ostentar o seu dinheiro. Está no seu pleníssimo direito e são opções de vida que devemos respeitar, muito embora possamos discordar delas.

Já agora conto-lhes uma outra história, de uma pessoa com quem trabalhei e que, ao fim e ao cabo, tinha uma opção de vida algo semelhante à do Sr. Kamprad.
A pessoa em causa era o meu director coodenador. Era solteiro, tinha hábitos modestos, vestia com sobriedade e, para além de gostar de viajar, não se lhe conheciam luxos dignos desse nome. Apenas um, gostava de ter os topos de gama de tudo o que fosse electrónico. Como se entende, ganhava muito bem, porque para além do cargo dentro da instituição financeira era, simultaneâmente, presidente de uma outra empresa do grupo.
Pois apesar do desafogo financeiro que todos sabíamos ter, os seus almoços habituais, praticamente em todos os dias do ano, não iam além de uma sandes de atum, de um quarto de água e de uma salada de frutas. E comia diariamente este menú, não porque era barato mas porque era o necessário e o suficiente para ele. Almocei muitas vezes na sua companhia e sentia que ele comia realmente com prazer aquela parca refeição, demasiadamente monótona e incrivelmente baratucha para quem não tinha que contar os tostões no dia-a-dia.

Não se tratava de uma questão de avareza, apenas uma opção.

domingo, julho 09, 2006

Declarações

Consta que Rui Rio, Presidente da Câmara Municipal do Porto, para além da grandessíssima guerra que trava há anos contra o Futebol Club do Porto e, principalmente, contra Pinto da Costa, consta, dizia, que o Senhor Presidente é também dado a tiques de autoridade e tendências censórias, que é coisa que eu julgava banida desde o tempo da outra senhora.

E se, na questão da contenda com Pinto da Costa até sou capaz de estar de acordo com o Dr. Rui Rio, porque também eu nunca gostei da promiscuidade entre o futebol e a política que, não raras vezes, trazem a público situações de tráfico de influências e de corrupção, já quanto à questão da censura, aí o assunto é completamente diferente.

Ao que parece, Rui Rio exige declarações escritas de fidelidade política às entidades que a sua Câmara subsidia. Ou seja, ou me és inteiramente fiel na linha política que determino ou então estás tramado e não levas nem um cêntimo. Estão a ver a coisa?

O que me fez lembrar o que se passava no tempo do Estado Novo, quando Salazar obrigava os candidatos a empregados públicos a assinar um documento – a célebre declaração 27003 – em que os candidatos afirmavam por sua honra não professarem quaisquer ideais comunistas, nem quaisquer outras doutrinas contrárias aos interesses do Estado. E se a declaração não fosse assinada (ainda que o pretendente ao emprego fosse um comunista convicto) não havia emprego para ningém.

Oh Dr. Rui Rio, e eu que pensava que, pelo menos nesta matéria, agora os tempos eram outros ...

quarta-feira, julho 05, 2006

Anunciar é preciso


Supostamente todos deveríamos saber que a Santa Casa da Misericórdia é uma instituição que, há muitos anos, presta apoio a pessoas carenciadas, em diversas áreas, nomeadamente na acção social e na saúde.

Mas para quem não soubesse mesmo ou para quem andasse demasiado distraído, a própria Santa Casa lembrou-se agora, quero dizer, fez questão de recordar a todos, a sua acção benemérita. E assim, vá de invadir com publicidade tudo quanto fosse jornal, revista, canal de televisão, outdoor e mupis. Publicidade, claro está, que custou ao erário público, mesmo beneficiando de descontos especiais, muito, muito dinheiro.

E o anúncio veio dizer-nos o quê? Nada, pelo menos nada de importante que justificasse o dispêndio de tão grossa maquia. A Santa Casa da Misericórdia com o lançamento desta campanha institucional apenas pretende assinalar os 508 anos de vida e, para isso, fez um investimento de 2 milhões de euros.

Investimento, foi o que eu disse? Perdão, eu rectifico, a Santa Casa teve o descaramento de gastar 2 milhões de euros com a campanha. Assim é que está correcto.

Ainda se fosse para anunciar novos e mais atractivos jogos que pudessem entusiasmar os apostadores a jogar com mais dinheiro, que seria canalizado posteriormente para consolidar as acções em curso ou promover outras acções de âmbito social, até se compreenderia. Mas não, nada de extraordinário ou de incomum aconteceu. A não ser a comemoração dos 508 anos da instituição e a demonstração mais do que provável, da vaidade pessoal do seu provedor, o socialista Dr. Rui Cunha.

Por este andar, espera-se que para o ano a Santa Casa faça outra campanha para comemorar nessa altura os 509 aninhos da instituição e novamente à custa dos dinheiros públicos.

Resumindo, se é dinheiro da malta, então, é gastar vilanagem!

terça-feira, julho 04, 2006

Pérolas


Para além dos mais ou menos clássicos erros de ortografia, infelizmente tão corriqueiros nas nossas revistas e jornais, vêm com frequência a público outro tipo de “erros” que poderiam até divertir-nos se o caso não fosse tão grave. E nem sequer é necessário estar com muita atenção para darmos com algumas das calinadas lidas e ouvidas na comunicação social. Como as que se seguem:

"Os sete artistas compõem um trio de talento”
"O acidente provocou uma forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido"
"O aumento do desemprego foi de 0% o mês passado"
"Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça"
"O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos. Teme-se que não haja vitimas"
"O acidente foi no tristemente célebre Rectângulo das Bermudas"
"Quatro hectares de trigo foram queimados. Em principio trata-se de um incêndio"
"Os nossos leitores nos desculparão por este erro indesculpável"
"A vítima foi estrangulada a golpes de faca"
"Esta nova terapia traz esperança a todos aqueles que morrem de cancro a cada ano."
"Ela contraiu a doença na época em que ainda estava viva."
"À chegada da policia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel."

O que mais me aflige não são as “pérolas” em si mesmas (que nem “gralhas” chegam a ser), escritas ou lidas por estagiários mal preparados, mal pagos e, na maioria das vezes, desmotivados e sem perspectivas. Eles não são os verdadeiros culpados do que está a acontecer. O que me preocupa seriamente é que essa rapaziada não é seguida, não é orientada, não é ensinada por uma estrutura e uma hierarquia que, supostamente deveriam existir e constituir a referência do saber e da experiência. Mas, pelos vistos, elas não existem ou, se existem, estão-se perfeitamente nas tintas para tudo isto.

domingo, julho 02, 2006

Portugal, Portugal


Como aqui tenho referido, toda a euforia, aliás compreensível, que rodeia a boa prestação da nossa selecção no campeonato do mundo de futebol, tem-nos, de certo modo, pelo menos a alguns, feito esquecer tudo o resto que vai acontecendo no país e no mundo, isto é, tudo aquilo que vai para além dos jogos, dos jogadores, das classificações, das análises dos especialistas da modalidade e, naturalmente, do nosso orgulho de portugueses face aos resultados alcançados.

É natural, portanto, que nos lembremos bem de quase todas as incidências do jogo que disputámos ontem com a Inglaterra, do sofrimento que tivémos durante mais de 120 minutos, das três grandes penalidades defendidas pelo nosso Ricardo (um feito, de facto, extraordinário) e pela explosão de alegria no final do jogo de todos os que estavam no campo e no banco, equipa técnica, jogadores e dirigentes.

E com tantas emoções à flôr da pele, passou-nos quase despercebida a demissão do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Professor Freitas do Amaral. No fim dos infindáveis telejornais em que se ouviram até à exaustão todos os herois que se classificaram para as meias finais do Mundial, lá foi dada a notícia que o professor Freitas do Amaral se demitira do governo por motivos imperiosos de saúde que o vão sujeitar a uma intervenção cirúrgica já amanhã.

Neste caso existiram motivos mais do que justificáveis para que José Sócrates procedesse a esta mini-remodelação. Mas se, por acaso, o primeiro-ministro decidisse nesta altura, e aproveitando o “barulho das luzes”, remodelar mais profundamente a equipa governamental, e fala-se insistentemente de vários ministros que até estão na calha para serem substituídos, quem é que daria por isso? Sobretudo em nomes que são menos conhecidos do grande público, provavelmente só depois do dia 9, quando o Mundial fechar as portas, é que os portugueses se dariam conta que certas pastas ministeriais eram tituladas por uns senhores de que nunca tinham ouvido falar.

quinta-feira, junho 29, 2006

“Doutores da mula russa”

É sabido que os portugueses adoram títulos. Antes de sermos Mários, ou Antónios ou Martas os portugueses gostam de ser tratados por doutores, engenheiros, arquitectos, embaixadores, coronéis, inspectores, barões, ou qualquer outro título mais ou menos sonante que esteja disponível.

Já vi responder ufana e orgulhosamente à chamada de “Sr. Presidente”, pessoas que são simples presidentes de pequenas Juntas de Freguesia. Aliás, Portugal deve ser um dos países que mais Presidentes tem por metro quadrado.

Quem esteja à frente de uma colectividade de recreio, de um grupo de futebol, ainda que com meia dúzia de sócios, tem direito e exige esse tratamento que lhes confere o devido prestígio.

Mas mesmo quando não existe um grau académico que possa justificar tamanha distinção, há sempre a possibilidade de virem a ser agraciados pelo Senhor Presidente da República com um grau de comendador de uma ordem mais ou menos conhecida.

Há uns três ou quatro anos, estava em serviço em Valladolid, com o meu colega Carlos. No último dia da nossa estadia fomos convidados para jantar pelo Director da Agência. Neste tipo de jantares de fim de trabalho, normalmente aproveita-se para falar de assuntos que não houve a oportunidade de abordar durante o dia-a-dia. São, normalmente, conversas longas, animadas por vezes, em que se procura, fundamentalmente, dissipar toda a tensão acumulada de uma semana e, também, porque não, procura-se, também, um pouco de convívio.

Foi um jantar simpático, num ambiente muito acolhedor e tipicamente espanhol. Para além de nós dois, os portugueses, estavam presentes os três principais responsáveis da Agência.

A determinada altura, o Director confessou a sua admiração pelo facto de ter reparado que eu e o meu colega nunca nos tivéssemos tratado por tu, como, aliás, é um hábito entre os espanhóis. Expliquei-lhes que em Portugal esse tratamento só se verificava entre pessoas que tinham um relacionamento mais próximo, mais íntimo até. Quanto aos outros, não havia esse costume. Eu, por exemplo, que lá em Espanha, até tratava o meu companheiro por Carlos (talvez para não destoar dos nossos vizinhos, que tratam todo o mundo pelo primeiro nome – eu era, para todos, o Mário), se fosse em Portugal, provavelmente, tratá-lo-ia por Dr. Carlos XXXX.
A risada surgiu sonora e espontânea. Eles nem queriam acreditar no que estavam a ouvir. É que, como disse, todos eles se tratavam por tu e todos eles eram obviamente licenciados. Nunca (jamais) tinham pensado em relacionar-se de qualquer outra forma que não fosse a que sempre usaram – a de um tratamento pessoal.

Claro está que, tanto quanto conheço, este fenómeno (que é um péssimo sintoma e nos mostra como a sociedade está doente), o do tratamento pelo título, está demasiado enraizado cá no burgo, mas eu sei que o mesmo se passa em muitos países subdesenvolvidos, nomeadamente na América Latina. Sim porque em França, na Alemanha, no Reino Unido, mesmo em Espanha, doutores são os médicos e apenas esses.

terça-feira, junho 27, 2006

Em cada janela uma bandeira


É verdade que temos todas as razões para continuamos a viver uma certa euforia com esta história do Mundial de Futebol e é verdade, também, que continuamos a aderir em massa à solicitação do seleccionador nacional em colocar uma bandeira nas nossas janelas e nos nossos carros. Como diz o hino da selecção, “em cada janela uma bandeira, no campo uma nação inteira”
Mas, aqui é que está o busílis, será que os nossos problemas, os nacionais e os individuais, começam e acabam só porque estamos a fazer a vontade ao Sr. Scolari, colocando uma ou várias bandeiras nas janelas?
Sabendo, embora, que uma coisa nada tem a ver com a outra e Independentemente da fé que eu possa ter relativamente ao comportamento da nossa equipa, eu já tomei a minha decisão. Comprometo-me publicamente a pôr uma bandeira nacional na janela do meu quarto … mas só quando:

- Portugal deixar de ser o país da Europa com maior indice de abandono escolar, analfabetismo e corrupção;
- Em Portugal, ninguém que trabalhe ou queira trabalhar ou tenha trabalhado toda a vida, ou que não possa trabalhar, passe fome;
- O desemprego não for um desígnio nacional;
- A classe política deixar de ser maioritariamente composta por incompetentes;
- Acabar a pouca vergonha do Estado em gastar (o nosso dinheiro) 3.500.000€ em transportes com os deputados e milhares de cidadãos não terem dinheiro nem para comprar o passe;
- As crianças e os velhos forem tratados com dignidade, pelos pais, filhos, professores, educadores, instituições e políticos;
- Os papás ensinarem as crianças que os professores devem ser respeitados;
- Todos os professores forem competentes;
- A polícia deixar de fingir que não vê as lutas de pit-bull nas diversas Trafarias do país, bem como as corridas a 250 Km/h em várias Pontes Vasco da Gama do país, às 6ªs feiras à noite;
- A violência doméstica, a pedofilia, a violação e todos os crimes cometidos contra crianças, forem punidos com 50 anos de cadeia;
- O dinheiro destinado aos submarinos que vão ser comprados for destinado a equipamento para apetrechar condignamente todos os hospitais e escolas do país, e com o que sobrar, se poder comprar tractores e traineiras;
- Os jornais e revistas, e os programas desportivos de rádio e de televisão, souberem que, além do futebol, se praticam mais 347 outros desportos e que mesmo no futebol, há outros Clubes além do Sporting, do Benfica e do Porto;
- Não houver nenhum 1º Ministro que tenha a lata de de abandonar o País à má fila, em plena crise, para ir sôfregamente atrás de um qualquer tacho mais aliciante;
- A gripe das aves não tiver direito a mais do que 1 minuto de tempo de antena, por mês, incluindo a informação de que morreram 1 indonésio e 2 chineses, quando nos 5 segundos que demorou a noticia, moreram mais de 700.000 pessoas com outras 250 doenças e 300.000 crianças morreram de fome, de malária e de cólera em África;
- Nenhum governante tiver o desplante de dizer que "abriu a época oficial de incêndios";
- O número de óbitos motivados por incompetência ou negligência médica for zero;
- A maioria dos Jornalistas souber falar e escrever português, e deixar de fazer constantemente perguntas idiotas aos entrevistados;
- Houver, no estrangeiro, tantas pessoas que conheçam tão bem o Eusébio, o Figo.o Cristiano Ronaldo e o Mourinho, como conhecem o Camões, o Prof. Agostinho da Silva, O Maestro Vitorino de Almeida, O Prof. Vitorino Nemésio, o Fernando Pessoa e muitos, muitos outros que nunca deram um pontapé numa bola;
- Houver tantos Portugueses que sabem quem são, a Maria João Pires e a Helena Vieira da Silva ou José Cardoso Pires como os que sabem quem são o Pinto da Costa, o Valentim Loureiro, o Luis Filipe Vieira, o Manuel Goucha, a Cátia Vanessa, o Abrunhosa, a Júlia Pinheiro, a Quicas Vanzeler, e o Mantorras;
- O peixe não chegar às mesas de quem o pode comprar, 10 vezes mais caro do que foi vendido nas lotas, para que mais pessoas o possam comer e menos intermediários se possam encher;
- Os autores dos programas infantis de televisão, perceberem que uma criança não é um atrasado mental;
- Os pequenos e médios Empresários Portugueses não comprarem o 2º Mercedes e a casinha no Algarve, antes de pagarem os ordenados que devem aos Trabalhadores, as facturas que devem aos fornecedores, e as contribuições que devem à Segurança Social e ao Fisco;
- O Estado e as Câmaras Municipais pagarem os milhões que devem aos Fornecedores e outras Entidades credoras;
-Se o Estado for condenado a pagar indemnizações, devidas a erros cometidos pelos Governantes individualmente, elas sejam pagas do bolso desses governantes responsáveis e não pelo Estado, pois o dinheiro do Estado é de nós todos e não fomos nós que fizemos a asneira;
- Nenhum ministro, nenhum professor, nenhum jornalista disser tênhamos ou póssamos ou confunda a fim com afim;
- Não for possível ouvir no noticiário de uma rádio ou de uma televisão, um "jornalista" dizer frases como esta: "A Câmara de Lisboa tem um projecto para a construção de um viaduto para facilitar o tráfico no local", ou outros 500 dizerem que "Um batalhão da GNR vai para Timor, sobre o comando do Major Lopes da Silva;
- Não for possível assistir ao espectáculo degradante, porque hipócrita, de ver candidatos a eleições, nos Mercados a dar beijinhos às peixeiras, (obviamente, na maioria dos casos, completamente enojados);
- As obras públicas, que são pagas com o nosso dinheiro, deixarem de custar sistemáticamente mais do dobro do que foi orçamentado e adjudicado e que a palavra "derrapagem" seja substituída pela palavra "roubo";
- Os Trabalhadores e os Médicos que validam baixas fraudulentas, forem presos;
- As Empresas deixarem de adulterar as Contas, para fugir ao Fisco;
- As áreas de serviço das auto-estradas deixarem de ter clientes, por as pessoas não gostarem de ser escandalosamente exploradas;
- Os médicos deixarem de se pavonear nos corredores e nos bares dos hospitais, com o estetoscópio pendurado ao pescoço, pelo mesmo motivo porque os informáticos não andam com o rato, os boxeurs não andam com as luvas de boxe, os jogadores de snooker não andam com os tacos e os bombeiros não andam com as mangueiras;
- Nenhum médico operar o pé esquerdo, são, de um doente que tinha um problema grave no pé direito e, no fim, justificar-se com: "até foi bom, porque assim, já não vai ter o problema no pé esquerdo" sem ser imediatamente expulso da Ordem dos Médicos e preso com a pena máxima;
- A Publicidade enganosa levar os anunciantes, à prisão;
- Os projectos de construção forem efectuados por Arquitectos e Engenheiros, e os construtores civis só tratarem da construção;
- Se souber o resultado de UM SÓ dos inquéritos que se diz terem sido levantados a diversas figuras públicas e Entidades oficiais, pela presunção de diversos crimes;
- Nas clínicas privadas a grande maioria dos partos deixar de ser feita por sezariana com data marcada, porque uma cezariana factura muito mais e dá muito mais honorários ao médico, do que um parto natural;
- As jóias, os Rolls, os Ferrari, os Maserati, os Porshe, os Veleiros, os Rolex, os telemóveis topo de gama, as lagostas, o caviar, os visons, etc, forem taxados a 500% de IVA , os automóveis de 1000cc, a 5% e as batatas, o arroz, o azeite, o leite, o açúcar, a fruta, as couves, o pão, os ovos, os frangos, e os transportes públicos, a zero;
- Os nossos deficientes que vão aos Jogos Paralímpicos, não precisem de andar previamente a fazer peditórios públicos para arranjarem dinheiro para as despesas de deslocação e que tenham direito a ser falados em caixa alta, nos jornais, nas rádios e nas televisões, quando estão a competir e quando regressam, carregados de medalhas (ou não);
- Nas escolas de condução se ensinar as pessoas a conduzir, em vez de só ensinar a fazer inversão de marcha, a arrumar o carro e a não deixar o motor ir a baixo;
- Os meus filhos e os de todos os outros Portugueses da sua geração, puderem planear a vida a mais de 3 meses e os meus netos e os dos outros Portugueses, tiverem alguma perspectiva de viver um futuro com dignidade


No dia em que tudo isto, ou quase tudo isto, acontecer, prometo que ponho Bandeiras de Portugal bem grandes em todas as janelas da minha casa e pelo menos duas de ambos os lados do carro. Isto, se ainda tiver carro e casa, se a casa ainda tiver janelas e se Portugal ainda existir.

segunda-feira, junho 26, 2006

O Mistério do Marquês


Há coisas que parecem muito difíceis de explicar. Mas não são. Complexas na aparência mas, na verdade, são tão simples, qual ovo de colombo, que até faz impressão nós não conseguirmos enxergar o que está mesmo ali diante dos nossos olhos.

Foi o que aconteceu com aquilo a que chamo o Mistério do Marquês, do Marquês de Pombal, entenda-se. Para mim, como para muitos outros, certamente, o Marquês de Pombal foi sempre aquela lindíssima praça do centro de Lisboa para onde todos os olhares convergem. Vista de cima, do Parque Eduardo VII, a praça tem uma vista maravilhosa sobre a Avenida da Liberdade e sobre o Tejo que abraça a cidade. Vista do lado da Avenida, ficamos extasiados com a praça em cujas costas se espraia todo o verdejante Parque Eduardo VII (que já teve melhores dias) e a esvoaçante bandeira do Santana Lopes.

Mas, independentemente da Praça, o Marquês de Pombal, sobretudo para aqueles que já têm mais alguns aninhos, era aquele nome pomposo que nós, na escola, aprendíamos a dizer em tom de cantoria: Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e, mais tarde, Marquês de Pombal.

Para além da praça, da sua beleza e do nome que lhe deu nome, havia em mim, no entanto, qualquer coisa que eu não conseguia entender: Porque é que os títulos nacionais de futebol, conquistados pelas equipas de Lisboa eram comemorados precisamente no Marquês? Porque é que as grandes vitórias da selecção nacional de futebol eram festejadas com pompa e circustância no Marquês e com tanto entusiasmo, que os respectivos adeptos sempre fazem questão de galgar estátua acima, para colocar lá no topo um bocado de pano com as cores dos seus clubes ou da selecção? Mistério! Pelo menos, até ontem.

Quando em minha casa, glorificávamos a magnífica vitória sobe a Holanda e a passagem às meias-finais do Mundial, entre amendoins, tostas com patê de atum e um camembert delicioso, bem regados, já se vê, com algumas bejecas estupidamente geladas, veio-me à ideia como um raio fulminante, porque é que o ponto de encontro de todos os adeptos ganhadores era precisamente ali no Marquês.

Estava-se mesmo a ver. Não sei mesmo porque é que nunca me ocorreu isso antes, mas é tão simples como isto: o Marquês de Pombal era o primeiro ministro do Rei D. José e foi ele, com a sua grande perspicácia e inteligência que imaginou o futebol, tal como hoje se conhece. E descobriu-o, calculem, um século antes dos ingleses jurarem a pés juntos que inventaram o futebol. Mentira pura desses ingleses. O verdadeiro génio, o verdadeiro “inventor” do proclamado desporto-rei foi, nada mais nada menos, que o nosso Sebastião José de Carvalho e Melo. Daí que todas aquelas manifestações desportivas (de futebol, claro, porque ainda não se sabe se as outras modalidades são desportivas ou não) vão desembocar no Marquês de Pombal, não apenas pelos grandes feitos alcançados pelas respectivas equipas, mas por pura e sentida homenagem àquele que verdadeiramente teve a visão para inventar um jogo que, dali a uns séculos, e por todo o mundo, haveria de dar cabo da cabeça e dos corações de muitos milhares de pessoas.

quarta-feira, junho 21, 2006

Renovação


Li, há tempos, num blogue da concorrência, um texto que criticava a falta de renovação das personalidades na nossa vida pública. Ao fim e ao cabo, o autor censurava asperamente a eternização das pessoas em certas posições, de tal forma, que não há quem lhes consiga tirar o lugar.

O articulista referia concretamente os casos de Carvalho da Silva e de João Proença nas centrais sindicais, o de Arménio Santos como Secretário Geral dos Trabalhadores Social-Democratas, o de Paulo Sucena como representante dos professores, os de Jorge Miranda, Vital Moreira e Gomes Canotilho como especialistas em direito constitucional, os de Fernando Seara, Dias Ferreira e Guilherme de Aguiar como comentadores de futebol e muitos dos actuais apresentadores e analistas das nossas televisões. Chegava até ao ponto de referir, depreciativamente, o Luís Figo como “o eterno Figo”.
Por isso, e na opinião do colega bloguista, professores de economia, cientistas políticos, analistas sociais, jornalistas e comentadores do que quer que seja, deveriam dar lugar de imediato aos mais novos, para que houvesse lugar à desejável renovação.

Com o devido respeito, penso que a pretendida revolução, a realizar-se, seria um pouco drástica. Mais uma vez afirmo que é perigoso generalizar-se e não é pela presença constante na vida do país de determinadas pessoas, ao longo de anos e anos, que devemos afastá-las. Quanto a mim, seria, de facto, muito bom para o país e para os portugueses, que se apeassem imediatamente algumas das figuras que representam certas associações ou actividades. Mas, por estarem lá há muitos anos e por terem uma certa idade? Claramente que não. Deveríamos afastá-las, sim, porque não são competentes, porque nunca criaram qualquer empatia com os cidadãos, porque não têm carisma e porque não representam a mais valia que Portugal tanto necessita.

Jorge Miranda continua a ser um especialista (talvez o melhor) em direito constitucional, Luís Figo, apesar dos anos, continua a ser um óptimo jogador e estratega, Mário Crespo e Judite de Sousa continuam a ser uns belíssimos e credíveis jornalistas, Miguel Cadilhe continua a pertencer à nata dos economistas.

Então em que é que ficamos, é ou não necessária a renovação? Claro que é necessária e de forma continuada. O país necessita urgentemente de novos valores que se imponham pela sua competência. Mas isso não significa que “deitemos fora” outros competentes, só porque eles continuam a ser competentes há muitos anos. É, quanto a mim, apenas e só, uma questão de inteligência e bom senso.

segunda-feira, junho 19, 2006

Gelados para todos os gostos


A loucura de verão chegou a um restaurante de Tóquio, o Museu dos Gelados, que decidiu experimentar e oferecer sensações fortes e frescas, vendendo gelados com sabor a cactos, língua de vaca e mesmo a serpente. Por sete euros, o cliente também pode escolher entre o creme de gelado de wasabi (mostarda japonesa), tofu, arroz ou batata.
Um corajoso cidadão, depois de ter experimentado comer um gelado com sabor a sanna, um peixe muito popular no Japão, e que é consumido grelhado, afirmou “É francamente nojento, mas vale a pena experimentar…”


Se pensa que tem estômago suficiente para se aventurar no mundo dos sabores não-comuns dos gelados, e acha que sai um pouco caro deslocar-se ao Japão só para comer um gelado, pode, então, dar uma escapadinha até Portimão, que é bem mais perto e também termina em "ão", onde desde há dias, está a funcionar uma geladaria que, para além dos tradicionais sabores a chocolate, morango, baunilha ou café tem um cardápio fabuloso de 60 sabores diferentes e excêntricos, fabricados artesanalmente, com base em iguarias pouco ou nada comuns no mundo dos gelados.

Pode, então, optar, por gelados a saber a sardinha, courato, camarão, batatas com bacalhau, caril, arroz com coco, queijo com presunto, atum, cogumelos e até alhos e cebolas. Se for um apreciador de bebidas pode ainda deliciar-se com sabores como Baileys, Blue Curaçao e Pisang Ambom. Se quiser ter uns momentos mais ... digamos ... relaxantes, pode pedir “sexo na areia” e “viagra”

“Tudo o que é comida e bebida pode ser transformado em gelado”, diz convicto o proprietário. E como o menu dos sabores varia consoante a época do ano, e agora é o tempo da bela sardinha, está-me cá a parecer que muito em breve vou experimentar um grandessíssimo gelado de sardinha assada. Pois então!

domingo, junho 18, 2006

O Patriota

Como não sou perfeito, cá estou eu, outra vez, a falar de futebol e da fase final do Mundial que se está a realizar na Alemanha. Todo o país está ao rubro no apoio à nossa selecção e os emigrantes, não só os da Alemanha como os da Europa central como, de resto, os de todo o mundo, vivem uma verdadeira festa em redor da equipa de todos nós. E com todas as razões para isso, diga-se, uma vez que as vitórias nos têm sorrido e já estamos apurados para os oitavos de final.

Foi talvez por pensar nos emigrantes que me lembrei do António, um homem emigrado desde a década de setenta nos arredores de Paris. O António, como tantos outros nossos compatriotas emigrados, apesar de viverem há tantos anos no estrangeiro, continuam a manter toda a alma e os costumes lusitanos que, com o passar dos anos, vai fortalecendo cada vez mais, como se isso fosse possível.

Em casa, a Felismina (a Quina, como é conhecida) continua a cozinhar à portuguesa. Os pastéis de bacalhau, o cozido e a sardinha assada marcam presença assídua à mesa, onde não falta também o bom vinho português, alentejano claro, da região de onde o António partiu, a salto, um dia e onde um dia tem esperança de voltar para sempre.

E, por sentir no António tão vivas as suas raízes, não estranhei que ele, numa das últimas conversas que tivemos, desabafasse, com alguma mágoa, que gostaria de ter e de usar mais produtos da nossa terra.

Dizia-me ele com graça que, depois de dormir numa almofada de algodão (feita no Egipto), começou o dia bem cedo, acordado pelo despertador (feito no Japão) às 7 da manhã. Depois de um banho com sabonete (feito em França) e enquanto o café (importado da Colômbia) estava a fazer na máquina (feita na República Checa), barbeou-se com a máquina eléctrica (feita na China). Vestiu uma camisa (feita no Siri Lanka) e jeans de marca (feitos em Singapura) e colocou um relógio de bolso (feito na Suiça). Depois de preparar as torradas de trigo (produzido nos Estados Unidos) na torradeira (feita na Alemanha) e enquanto tomava o café numa chávena (feita em Espanha), pegou na máquina de calcular (feita na Coreia) para ver quanto é que poderia gastar nesse dia e consultou a Internet no seu computador (feito na Tailândia) para ver as previsões meteorológicas. Depois de ouvir as notícias pela rádio (fabricado na Índia), ainda bebeu um sumo de laranja (produzido em Israel), entrou no carro (fabricado na Suécia) e continuou à procura de emprego para o filho, se possível, em Portugal. Ao fim de mais um dia frustrante, com muitos contactos feitos através do seu telemóvel (feito na Finlândia) e, após comer uma piza (fabricada em Itália), o António decidiu relaxar por uns instantes. Calçou as sandálias (feitas no Brasil), sentou-se num sofá (feito na Dinamarca), ligou a TV (feita na Indonésia) e pôs-se a pensar porque é que não conseguia encontrar um emprego para o filho lá em PORTUGAL...

Convenhamos que para um patriota, a coisa não está fácil…

quinta-feira, junho 08, 2006

Afinal, é a nossa selecção que vai jogar…

Pode até parecer que ando numa cruzada sem fim contra a nossa selecção e que me move alguma má vontade contra ela, mas não é verdade. Já o disse e repito, espero que a nossa equipa consiga fazer uma boa campanha e, se possível, que ganhe o título. Ficaria muito orgulhoso.

Mas, como cidadão, não posso concordar com uma medida que foi aprovada recentemente no Parlamento. É que os senhores deputados da Nação, decidiram alterar a hora do plenário da Assembleia da República para poderem assistir em directo ao jogo Portugal – México, que se realiza nesse mesmo dia e à mesma hora a que estava inicialmente marcado o plenário.

Uma vez que a maioria dos deputados gosta de futebol, até compreendo que tivessem alterado os trabalhos para uma outra hora. Não é por aí que vem grande mal ao mundo.

A minha discordância tem a ver com o facto de se tratar de uma medida unilateral, uma medida de privilégio portanto, uma vez que ela só se aplica na AR e não é extensiva aos restantes trabalhadores do Estado.

É desta forma que querem melhorar a imagem dos deputados e da instituição Parlamento?

terça-feira, junho 06, 2006

Belos Negócios …


Em tempos, tive um colega de imaginação fértil e que andava permanentemente sem cheta. As dívidas sucediam-se e nos dias de pagamento de ordenado (que ainda não era creditado na conta), choviam os credores à porta do emprego, de tal forma que, na maioria dos meses, ele arranjava uma boa desculpa só para não aparecer no escritório nem nesse dia de pagamento nem no dia seguinte.
O Baptista concebia muitos esquemas para tentar “fintar” aqueles a quem devia e esquemas cada vez mais sofisticados.
Um dia descobrimos-lhe uma nova (na época) artimanha. Começou a comprar coisas diversas, nomeadamente, electrodomésticos, com cartão de crédito e a vender esses mesmos produtos, logo de seguida, em dinheiro vivo mas, já se vê, muito mais baratos do que lhe tinham custado. Deste modo conseguia o dinheiro para ir pagando aqui e ali. Quando chegava o extracto da sua conta de crédito que o obrigava a um pagamento, bem, aí ele já tinha arquitectado qualquer outra fórmula para liquidar esse compromisso mensal. E, com a rotação de dinheiros graças a estes bons negócios, lá ia vivendo.

Pois nesta última semana soube-se de uma história que me fez lembrar o meu colega Baptista.
E a história tem a ver com a compra, no tempo de António Guterres, de doze F-16. Estes aviões, na época, foram considerados essenciais para a Força Aérea porque eram aviões de combate muito sofisticados e faziam imensa falta para a guerra que travávamos … não sei bem onde.
Passados seis ou sete anos, só quatro dos aparelhos foram postos a voar, enquanto que os restantes (oito aviões, para quem tenha dificuldade em fazer contas) se mantêm encaixotados, tal como vieram.
Afinal, e porque parece que os aviões não eram assim tão essenciais como isso, o actual governo propõe-se, agora, vendê-los por metade, ou um terço, ou ainda menos do valor de compra.
Mais um exemplo de como se gastam mal os dinheiros públicos. Mas a dúvida subsiste, este bom negócio de milhões fez-se “apenas” porque houve incompetência ou será que o negócio se realizou porque alguém se “abotoou” com a “massa das comissões”?

domingo, junho 04, 2006

O Dia Mundial da Criança


Por dificuldades de agenda, não pude, como pretendia, estar presente aqui no blogue no "Dia Mundial da Criança". Mas, porque queria dizer alguma coisa sobre este dia, penso que ainda vou a tempo.

Como já tenho referido, não sou um grande adepto da existência dos dias mundiais do que quer que seja, talvez porque quase todos os dias, são “dias de qualquer coisa”. Concedo, porém, a minha atenção a duas excepções, que por o serem, merecem o meu carinho: o “dia da mãe” e o “dia da criança”. O primeiro, porque devemos uma atenção e um amor especialíssimo a quem nos trouxe ao mundo. O segundo, porque, e desculpem-me a frase feita, “o melhor do mundo são as crianças” e é nelas que devemos depositar a nossa esperança num mundo melhor.

Mas o dia da criança é festejado por todas as crianças do mundo? Não, não por todas.

Um relatório da Agência do Vaticano agora publicado, revela que há 860 milhões de crianças a sofrer em todo o mundo. Dessas, 400 milhões são afectadas pela desnutrição, das quais, 11 milhões morrem antes dos cinco anos de idade. Em cada minuto, uma criança nasce infectada pelo HIV e uma morre por essa mesma causa. Igualmente brutal é a situação de cerca de 211 milhões de crianças que são obrigadas a trabalhar, algumas em regime de escravatura.

Os números são assustadores. A sociedade que deveria proteger as suas crianças, está tão doente que não consegue cumprir com as suas obrigações para com elas, obrigações que, de resto, foram institucionalizadas pelas Nações Unidas ao aprovarem uma lei chamada “Convenção dos Direitos das Crianças” que, basicamente, estabelece a forma como os governos devem trabalhar para que todas as crianças gozem dos seus direitos. Explicando melhor, os governos devem trabalhar no sentido de garantir a todas as crianças os direitos a que elas têm direito.

E para que não restem quaisquer dúvidas, transcrevo apenas dois dos artigos da “Convenção dos Direitos das Crianças”:

Artº. 27º. Tens direito a um nível de vida digno. Quer dizer que os teus pais devem procurar que não te falte comida, roupa, casa, etc. Se os pais não tiverem meios suficientes para estas despesas, o governo deve ajudar.

Artº. 32º. Tens direito a protecção contra a exploração económica, ou seja, não deves trabalhar em condições ou locais que ponham em risco a tua saúde ou a tua educação. A lei portuguesa diz que nenhuma criança com menos de 16 anos deve estar empregada.

Pegando apenas nestes dois artigos da CDC e olhando para o relatório da Agência do Vaticano podemos ver como a lei é grosseiramente violada. “Duzentos e onze milhões de crianças que são obrigadas a trabalhar, algumas em regime de escravatura”, como aquelas duas crianças do norte do país, que foram mostradas por uma reportagem do Expresso.

A revelação, denunciada por essa reportagem, de que continua a haver trabalho infantil em Portugal abanou muitas consciências. Mas não, ao que parece, a do jornalista José Júdice que na crónica “Globalização Infantil”, publicada num jornal de Lisboa, escreveu:

“A exploração do trabalho infantil é um dos tabus da sociedade moderna e evoluída. Para os moralistas é repugnante a ideia de uma criança se ver forçada a trocar a inocência dos seus verdes anos pelo suor esquálido de um trabalho quase escravo. Por isso, todas as pessoas que não tenham nenhuma razão específica ou nenhuma causa particular a defender, se sentem ofendidas e chocadas”. E José Júdice prossegue dizendo que “considera que o rendimento obtido por cada criança não é nada mau para miúdos daquelas idades, cuja alternativa possível seria passar o dia na escola a não aprender nada ou, talvez, a agredir física e verbalmente as professoras, mas esse pormenor parece ter passado despercebido à nossa boa consciência que condena o trabalho infantil”.

Obviamente que não concordo com a opinião do José Júdice. Mais, choca-me a sua falta de sensibilidade para uma situação que fere claramente todos os princípios morais e éticos e que viola a lei.

Compreendendo, embora, que muitas famílias, por carência absoluta de meios, recorram à “ajuda” das suas crianças para assegurar a subsistência de todos, não posso aceitar, no entanto, que essas famílias dependam sistematicamente do trabalho dessas mesmas crianças. Como estabelece o artigo 27 da “Convenção dos Direitos das Crianças”, se os pais não tiverem meios suficientes, o governo deve ajudar. Era o que se poderia esperar de Portugal, um país que pertence à primeira divisão dos países europeus, há mais de vinte anos.

É por tudo isto que abro uma excepção para a comemoração do Dia Mundial da Criança, para que não haja esquecimento dos direitos das crianças.

quarta-feira, maio 31, 2006

Sonecas ...

Ao longo dos anos assisti muitas vezes à luta feroz e quase desumana entre a sonolência irresistível e avassaladora e o “não posso dormir”. Uma luta estupidamente desigual, que fez com que, na maioria dos casos, a vitória tivesse pendido claramente para o fechar dos olhos e resvalado, quase de seguida, para o sono profundo.

Sobretudo em acções de formação e em reuniões, vi pessoas, vencidas pelo cansaço, pelo calor ou pela “chatice” da situação, não conseguirem superar o sono e acabarem por dormir, muitas vezes a sono solto.

Lembro-me de uma vez, numa importante reunião em que estavam presentes alguns dos administradores de uma certa empresa, um dos presentes ter adormecido e, a determinada altura, ter largado um valentíssimo ronco que fez parar os trabalhos por um momento.

Numa outra ocasião, viajava de comboio para o Porto e um distinto colega que me acompanhava, pediu-me para o não deixar dormir porque a mulher o proibira de o fazer. Perguntei-lhe porquê e ele respondeu-me que o seu ressonar era demasiado forte.
Mas, numa viagem de três horas, nem sempre se consegue resistir às investidas do sono. Provavelmente o suave balançar da carruagem acabou por o fazer sucumbir e mal fechou os olhos, logo se ouviu um tremendo e profundo ronco que sobressaltou todos os passageiros.
A esposa do meu colega estava certíssima.

Mas de todos os casos a que assisti ou de que me chegaram relatos, só uma pessoa nunca teve qualquer relutância em admitir que fazia umas valentes sonecas, nas mais variadas situações e lugares do mundo e sem qualquer problema. Naturalmente que me estou a referir ao Dr. Mário Soares.

Com ou sem problemas em admiti-lo, o sono foi, também, o vencedor incontestado quando, num dos últimos sábados, o conhecido economista Miguel Beleza, se deixou enlear nos braços de Morfeu e um suave ronco ecoou pela sala do Teatro Experimental de Cascais, onde era representada a peça “Inês de Portugal”.
Mas, porque Miguel Beleza estava cansado, ou porque a peça tinha três longos actos de quase três horas de duração, a cena do ronco repetiu-se pela noite fora, o que lhe valeu, à saída, alguns piropos e comentários jocosos.

Na noite a seguir, sem que tivesse havido o necessário sono reparador, Miguel Beleza acompanhado pela namorada, a jornalista Alberta Marques Fernandes, compareceu na Gala dos Globos de Ouro, onde, ao que parece, passou novamente pelas brasas mas, desta vez, sem barulhos de fundo, pelo menos que se notassem …

terça-feira, maio 30, 2006

Heróis


De certeza que esta irritação toda tem a ver com o meu mau feitio, não vejo outra explicação para estar deste jeito.

Mas a verdade é que fico irritado, e até mesmo indignado, quando vejo as grandes manchetes dos jornais chamar HEROIS aos jogadores convocados pelo Sr. Scolari para fazerem parte da selecção que vai ao mundial de futebol da Alemanha. Heróis? Mas de quê? Se ainda nem sequer disputaram qualquer jogo e já são proclamados HEROIS. O que quer dizer que se por acaso, chegarem a conquistar o título, eles vão passar de HEROIS a DEUSES. Será assim?

Vejo todos os dias na televisão a romaria que se instalou de norte a sul do país, em apoio à nossa selecção. As bandeiras nacionais começam a enfeitar as janelas e até já deparei com ruas onde as bandeiras presas a cordas, ligavam os dois lados da rua, em toda a sua extensão. Aliás, a chamada “epidemia da bandeira” só agora começou e promete espalhar-se rapidamente, podendo atingir níveis superiores aos do Euro 2004. Não se fala de outra coisa na comunicação social, aliás, não se fala mesmo de outra coisa e o país prepara-se para fechar. Sucedem-se as entrevistas e os debates sobre as capacidades dos nossos jogadores e sobre as possibilidades da equipa portuguesa no Mundial.

As expectativas começam a ficar altas, provavelmente demasiado altas. E se bem que eu seja adepto do “pensar positivo” e detestar os “coitadinhos” e os “perdedores natos” que por aí pululam, chamo a atenção dos que garantem que o título já está no papo, para o que aconteceu na última semana com os Sub 21. Também eles eram já campeões da Europa mesmo antes de começarem e, afinal, nem sequer passaram da primeira fase. E, note-se, a fase final do Europeu da categoria está a disputar-se no nosso país, e a equipa teve todas as condições de trabalho e o apoio de um público extraordinário.

É necessário que haja prudência e bom senso. É certo que temos bons jogadores, temos um treinador vencedor mas necessitamos de mais, de muito mais. De uma equipa que jogue efectivamente dentro do campo e de muita, muita humildade. Se tudo isso existir, então, temos hipóteses de vir a fazer uma boa campanha e, quem sabe, de chegarmos a campeões. Até lá, será melhor não deitarmos foguetes antes da festa…

Mas, francamente, ganhando ou não o troféu máximo, chamar heróis aos jogadores da selecção, àqueles mesmos jogadores a quem são dadas as melhores condições de trabalho e que ainda por cima ganham vencimentos exorbitantes, completamente desajustados da realidade de um país de tão baixos salários, não, eu não alinho nessa onda. Apesar de gostar muito de futebol e de ter a certeza de que ficaria muito orgulhoso se a equipa de todos nós conquistasse o Mundial, mesmo assim, os jogadores não são definitivamente os meus heróis.

Heróis, para mim, são aquelas crianças que foram apanhadas lá no Norte, a coser sapatos para a Zara, a 20 cêntimos a peça. Crianças que não se podem dar ao luxo de serem, apenas, crianças e que, depois de chegarem da escola, têm que ajudar a família a aumentar o magro rendimento mensal, agarrando-se a um trabalho que lhes deixa as mãos gretadas e com cicatrizes, apesar das grossas dedeiras que nem sempre os protegem do cortante fio de nylon. Crianças que não podem gozar, como deveriam, o “Dia Mundial da Criança”, que se celebra na próxima quinta-feira.

Essas sim, são essas crianças que são os meus HEROIS!

segunda-feira, maio 29, 2006

Verdade ou ficção?

Tem circulado ultimamente na Internet a história que vos conto hoje. Muito embora ela seja encantadora, existem dúvidas sobre se não será apenas mais uma história de ficção que juntou dois nomes célebres, ambos laureados com o Prémio Nobel.

E, como todas as histórias de encantar, começa por “Era uma vez…”

“Era uma vez um lavrador escocês muito pobre, que se chamava Fleming. Certo dia, o filho do lavrador, quando estava a trabalhar na lavoura, ouviu gritos que vinham de um pântano ali perto.

Largou tudo e correu para o pântano. Encontrou um rapaz enterrado num charco, lutando desesperadamente para não se afundar. O jovem Fleming, com esforço, conseguiu pegar na mão do rapaz e salvou-o do que poderia ter sido uma morte lenta e dolorosa.

No dia seguinte, parou na porta da pequena e humilde casa do lavrador, uma carruagem de onde saiu um homem, elegantemente vestido, que se apresentou como o pai do rapaz que havia sido salvo.

“Quero recompensá-lo”, disse o nobre. “O seu filho salvou a vida do meu”.

“Não, não posso aceitar”, respondeu o lavrador.

Nesse momento, o filho do lavrador veio até à porta da casa e o nobre perguntou “É o seu filho”?. O lavrador confirmou.

“Então, faço-lhe uma proposta. Deixe-me proporcionar ao seu filho a mesma educação que eu dou ao meu próprio filho. Tenho a certeza que o seu rapaz se tornará um homem de que nos orgulharemos muito”

O lavrador aceitou.

E assim, Fleming frequentou as melhores escolas e graduou-se na Saint Mary’s Hospital Medical School, em Londres. Em 1928, no decurso das suas pesquisas, Fleming descobriu a penicilina. Foi professor da própria escola, onde estudou de 1928 a 1948, sendo reconhecido como professor emérito da instituição.

Anos depois, o filho do mesmo nobre apanhou uma pneumonia e foi salvo pela penicilina (inventada por Fleming).

O nome do nobre era Lord Randolph Churchill e o seu filho, salvo pelo jovem Fleming, chamava-se Lord Winston Churchill, que foi primeiro ministro do Reino Unido, o maior líder britânico do século vinte e Prémio Nobel da Literatura em 1953.

Quanto ao filho do lavrador escocês, era Sir Alexander Fleming, um brilhante bacteriologista e Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1945”.


Verdade ou ficção? Sem dúvida uma bonita história que nos recorda dois grandes homens do século passado.

domingo, maio 28, 2006

Expressões…


Ao reler a minha última crónica, vieram-me à memória algumas das frases que, de tempos a tempos, são "inventadas" geralmente por um qualquer programa de televisão, que se propagam como epidemia e faz com que toda a minha gente as empregue, sempre que abrem a boca.

Ainda não há muito tempo ouvia-se a quase toda a hora o “Tás a ber?”, dita e redita por aquele moço trigueiro, o Mário, do primeiro Big Brother, lembram-se? ou aquela outra, mais recente, “vai lá vai…até a barraca abana”, de uma das cenas dos Malucos do Riso.

A propósito do que quer que seja, o povão nem pensa duas vezes e encaixa às mil maravilhas estas preciosidades linguísticas que quase sempre significam nada, e nada acrescentam nem ao que querem dizer, se é que querem dizer alguma coisa, nem à qualidade da linguagem.

Mas se a maioria delas tem o condão de me irritar, esta moda de começar as frases por “Então é assim…” dá-me uma brotoeja dos diabos.

À simples pergunta “então Joana, como vai ser o teu dia amanhã?” seguramente que a Joana vai responder “Então é assim…”, seguido de uma série de generalidades que não irão responder minimamente ao que foi perguntado. Por acaso não lhe bastaria dizer que estava a pensar ir às compras, ou que gostaria mais de ficar em casa a descansar? O que é que ela acrescentou realmente com aquela introdução? Nada, absolutamente nada.

Eu penso que ao dizer-se “Então é assim…” está-se, sobretudo, a tentar esconder uma enorme hesitação sobre o que realmente se pretende fazer ou dizer. Que, no caso da Joana, se poderia traduzir num “sei lá, tinha pensado ir almoçar fora mas, não sei, a vida está p’ra hora da morte, portanto, talvez vá sair com a Sofia ou comer pasteis a Belém”.

E esta mania de empregar o “Então é assim…” generalizou-se de uma tal maneira que há pessoas que, num conjunto de três ou quatro frases, repetem-na mais do que uma vez.

Outra expressão que agora se usa muito, e que também me dá muita comichão, é o “isto está complicado”.
Não se consegue sair a horas dos empregos porque “isto está complicado”. É melhor não se combinar nada para o próximo fim-de-semana porque “isto está complicado, temos que ir com o Pedrinho à …”. Então, aí em casa como estão? “Olha, isto está complicado, a avó …”.

Ao fim de tantos anos, só agora descobri como tudo isto anda complicado. Dantes, havia alguns problemas, algumas dificuldades, alguns contratempos mas, complicado, complicado, nós não dávamos por isso.

Bom, “isto é assim”, o que vos quero dizer é que, vocês sabem, isto está complicado mas, apesar disso, com um pouco de boa vontade, talvez volte a escrever qualquer coisinha amanhã… claramente que sim (claramente, que é outra expressão que, agora, está muito em voga).

quinta-feira, maio 25, 2006

Contributo


Um grupo de cidadãos, cansados de tanto ouvir dizer que a nossa economia está a crescer devagar, devagarinho, cansados das projecções pouco animadoras da OCDE, do FMI, da UE e do Banco de Portugal, cansados da opinião mais ou menos unânime de políticos e economistas, nacionais e estrangeiros, que consideram que o Governo está a tomar medidas certas mas insuficientes, desesperados, enfim, acharam que tinha chegado a altura de tomarem uma decisão. E tomaram-na…

Depois de uma avaliação profunda, exaustiva e rigorosa à situação económica do Estado, ou seja, ao estado a que isto chegou, estes cidadãos, decidiram propor ao Governo um pacote de medidas que poderão constituir um contributo valioso que venha ajudar a ultrapassar a situação difícil em que Portugal se encontra, por forma a que nos aproximemos um pouco mais de países muito mais ricos do que nós, como a Lituânia, a Eslovénia, a Croácia e outros que mais.
Medidas essas, que venham, no fundo, complementar outras já tomadas pelo Governo, como a penalização do chamado mergulho de chapão com bandeira amarela, ou mesmo uma simples entrada na água quando a bandeira hasteada for vermelha, ou mesmo encarnada. Nestas duas situações a coima a aplicar vai de 55 a 1000 euros.

O grupo de cidadãos decidiu, então, propor ao Governo que sejam aplicadas multas, coimas ou sanções pecuniárias que sejam severas, mas severas mesmo, nas seguintes situações:

- Uso de meia branca com sapatinho escuro (cem mil euros)
- Bigode à futebolista dos anos oitenta (duzentos a dois mil euros)
- Coçar os genitais em público (cento e cinquenta a mil e quinhentos euros)
- Utilização do colete reflector nas costas do banco do condutor (cento e vinte a mil e duzentos euros)
- CD pendurado no retrovisor (cento e vinte a mil e duzentos euros)
- Passear de fato de treino nos centros comerciais ao fim de semana (quatrocentos a quatro mil euros)
- Mulheres com excesso de peso envergando roupa muito apertada e com a barriga à mostra por onde saem quilos de banha (cento e trinta a mil e trezentos euros)
- Uso de óculos de sol em discotecas, cinemas, ginásios e restaurantes (quinhentos a cinco mil euros)
- Uso de sandálias com peúgas (trezentos a três mil euros)
- Cuspir para o chão na via pública (trezentos a cinco mil euros)
- Dar arrotos, sobretudo em restaurantes, pastelarias e outros lugares públicos (cento e quarenta a três mil euros)
- Utilização de expressões como “prontos”, “portantos”, “stander de automóveis” e outras quejandas, não esquecendo o começo de frases por “Isto é assim” (cento e quarenta a mil e quatrocentos euros)

“Prontos”, deixada a sugestão deste grupo de cidadãos preocupados, não só com estado da economia mas, também, com o “pirosismo”, com a falta de educação e de bom gosto que se instalou na nossa sociedade, agora, o Governo só tem que começar a facturar e a encher os cofres. Não vão faltar “cromos” para pagar as coimas. É só estar com atenção…

segunda-feira, maio 22, 2006

Por favor, expliquem-me como se eu fosse muito burro…


Por favor, há alguém que me explique porque carga de água é que um importante grupo empresarial que tem 180 administradores em diversas empresas, que, de um momento para o outro, manda embora 60 desses administradores e ninguém dá pela falta deles, nem as empresas que eles administravam vão à falência?

Obviamente que eu estou a falar de administradores que estavam em funções, não de cargos meramente fictícios. Estou a falar de administradores que recebiam remunerações muito generosas e todas aquelas mordomias que, normalmente, são dadas aos administradores.

Como já devem ter percebido, estou a referir-me à Portugal Telecom, cujo presidente recentemente nomeado – Henrique Granadeiro – resolveu, para além de mandar embora os tais 60 administradores, congelar os vencimentos de 800 quadros do grupo, porque, digo eu, os deve ter considerado excessivamente altos.

Mas a minha estupefacção e o meu espanto perante a saída de tantos administradores é tamanha, que me questiono como é possível que um grupo desta importância seja espoliado de 60 dos seus administradores sem que tivesse havido a mais pequena rotura ou convulsão nessas empresas. O que é que eles lá estavam a fazer? Quem os nomeou? Em que circunstâncias? Porque é que os deixaram lá estar durante tanto tempo, quando, afinal, se viu, agora, que nem eram necessários?

Outra coisa que me deixou igualmente abazurdido foi a de saber que 9.000 empregados da PT estão em casa a receber o seu salário, 6.000 numa situação de pré-reforma e os restantes 3.000 estão "apenas" em casa, a receber o seu salário por inteiro.

Querem fazer-me o favor de me ajudar a perceber?

domingo, maio 21, 2006

Essas vacas…

O título da crónica de hoje é dedicado, obviamente, à imensa manada de bovinos que invadiu Lisboa no início deste mês. São vacas artísticas, em tamanho natural e pintadas e transformadas excentricamente por vários artistas, um pouco à medida dos respectivos patrocinadores.

A CowParade, nascida em Zurique em 1998, é a maior exposição internacional de arte contemporânea, que esteve já presente em mais de 25 países, em cidades como São Paulo, Nova Iorque, Londres, Manchester, Dublin, Sydney, Tóquio, Cape Town e Barcelona.

Em todos os locais por onde passou, a iniciativa teve um sucesso explosivo, trazendo a arte para as ruas, em formato divertido, megalómano e contagiante quer para participantes quer para espectadores.

Para além da arte em si mesma, a cowparade tem uma outra vertente. Depois de terminadas as exposições, as vacas são leiloadas e os fundos obtidos destinados a associações e obras de carácter social.

Chegou, agora, a vez de Lisboa ter a sua cowparade, onde poderemos admirar, até ao final de Agosto, a criatividade, a beleza e a arte, espalhadas pelos pontos principais da capital.

Mas, não há bela sem senão. Poucos dias depois do início desta original exposição que, todos esperavam que fosse como que uma musa inspiradora, capaz de dar um pouco mais de cor aos dias pardacentos dos portugueses, verificou-se que a falta de civismo de alguns, foi superior ao gosto pela própria arte. Até agora, desapareceu uma das 101 vacas expostas pela cidade, a azul, aquela que estava em frente ao Campo Pequeno. E, ao contrário do que alguns chegaram a sugerir, a vaca não foi levada para junto das suas colegas vivas que “actuaram” na corrida do Novo Campo Pequeno. Não, ela foi mesmo roubada.

Algumas outras vacas foram também vandalizadas, apenas e só, por pura maldade, sem proveito. Mas houve uma situação que me chamou a especial atenção. No Rossio, entre as outras vacas em exposição, pode-se admirar a que foi patrocinada pela SIC, que a baptizou com o nome de “Portucow”, uma vaca bem portuguesa, pintada com as cores nacionais e com o escudo de Portugal, que pretende homenagear os portugueses e o amor que eles têm pelo futebol. Pois um “artista” (um vândalo, digo eu), colocou no chão, mesmo por debaixo do rabo da dita, uma verdadeira “bosta de vaca”. Já seca, quando a vi, mas absolutamente verdadeira, como se ela tivesse saído da “Portucow”.

Só não percebi se o engraçadinho autor do acrescento, quis dizer que, também ele, é um verdadeiro artista, e daí o toque de genialidade, ou se, simplesmente, aquele é um gesto de quem já perdeu a esperança no nosso país e achou que Portugal, os portugueses e a sua selecção principal de futebol, representados na vaca, são e estão "uma grandessíssima bosta…"

quinta-feira, maio 18, 2006

A falta de experiência

Quando se anda à procura de emprego ou quando, muito simplesmente “se dá uma volta” pelos cadernos de anúncios de emprego dos diversos jornais, o que mais encontramos é o pedido de candidatos a qualquer coisa, desde que tenham uma ou mais licenciaturas e a experiência de uns quantos anos da actividade.
Em termos empresariais percebem-se os porquês, mas o que mais arrelia o comum dos mortais que está aflitíssimo para arranjar qualquer coisa que lhe pague as despesas, é que, na maioria das vezes ou ele não é licenciado, ou é licenciado mas não na especialidade que a empresa pretende, ou ele (licenciado ou não) nunca trabalhou naquela área, ou ele nunca trabalhou mesmo.
E relativamente à falta de experiência, entra-se num círculo vicioso. Como o aspirante ao emprego nunca trabalhou, não tem experiência e, por não ter experiência não pode ter acesso ao lugar.
A crueldade torna-se, ainda, mais dolorosa quando os entrevistadores são jovens burocratas que, ou “lêem” as instruções recebidas como um dogma, ou não conseguem perceber as reais potencialidades de quem se candidata ou, porque, em muitos casos, esses entrevistadores receiam perder o seu próprio posto de trabalho a favor daquele candidato que têm diante de si.
Parece-me óbvio que é necessário dar uma oportunidade a que um candidato se possa mostrar, para que se chegue à conclusão que ele serve, ou não, para determinado lugar. Porque, a experiência, se ele for bom, virá com o tempo.
Foi por causa deste enorme imbróglio, demasiado presente na nossa sociedade, que bati as mãos de contente, quando li o currículo enviado para a Secção de Pessoal da Volkswagen por um aspirante a trabalhador. Leiam só:

"Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, já me queimei a brincar com uma vela, já fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara toda, já falei com o espelho, já fingi ser bruxo.
Já quis ser astronauta, violinista, mago, caçador e trapezista; já me escondi atrás da cortina e deixei esquecidos os pés de fora; já estive sob o chuveiro até fazer chichi.
Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda sigo caminhando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, já me cortei ao barbear muito apressado e chorei ao escutar determinada música no autocarro.
Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de esquecer.
Já subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, já subi a uma árvore para roubar fruta, já caí por uma escada.
Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sozinho na casa de banho por algo que me aconteceu; já fugi de minha casa para sempre e voltei no instante seguinte.
Já corri para não deixar alguém a chorar, já fiquei só no meio de mil pessoas sentindo a falta de uma única.
Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, já mergulhei na piscina e não quis sair mais, já tomei whisky até sentir meus lábios dormentes, já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.
Já senti medo da escuridão, já tremi de nervos, já quase morri de amor e renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial, já acordei no meio da noite e senti medo de me levantar.
Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei rosas num enorme jardim, já me apaixonei e pensei que era para sempre, mas era um"para sempre" pela metade.
Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua; já chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos e que a vida é um ir e vir permanente.
Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente da emoção e guardados nesse baú chamado coração...
E, agora, um questionário pergunta-me: "- Qual é a sua experiência? "Essa pergunta fez eco no meu cérebro. "Experiência.... "Experiência... "Será que cultivar sorrisos é experiência? Em contrapartida, agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionário:"- Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova???"

Neste caso, e felizmente, o decisor considerou que, no mínimo, quem se apresentava ao lugar tinha manifestado imaginação e sensibilidade e, ao que consta, o candidato foi mesmo aceite.
Só não cheguei a saber se era licenciado e se tinha a experiência requerida para o lugar…

terça-feira, maio 16, 2006

Está bem, ele ia bêbado … e depois?

A história é simples e conta-se em poucas palavras:

“A Polícia apanhou um automobilista a conduzir com mais quatro gramas por litro de álcool no sangue do que o máximo permitido por lei, que é, como se sabe, de 0,5 gramas.
E o que é que aconteceu ao cidadão? NADA, rigorosamente nada. Nem a polícia que o detectou foi capaz de o autuar e de lhe apreender a carta, nem o Tribunal que o julgou, teve a coragem de o condenar e de o inibir de voltar a conduzir”.

Calcula-se que no nosso país, 40% dos desastres resultam do excesso de álcool ao volante. No nosso país existem leis sobre a matéria e estão devidamente regulamentadas. No nosso país há agentes de autoridade que exercem a fiscalização nas estradas, e a quem incumbe, nomeadamente, o controlo da alcoolemia. No nosso país existem tribunais a quem compete julgar e condenar quem viola a lei.

Então, porque aconteceu uma situação destas que, aliás, parece não ter sido a única? Porque é que ao “cidadão criminoso”, que pôs em risco vidas de terceiros, não foram aplicadas as sanções previstas na lei?

A impunidade e a violação sistemática da lei, faz com que o cidadão comum não entenda esta “justiça” que, ela própria, condena o Estado e se condena a si própria.
Daí que é frequente ouvirem-se frases como “as leis fizeram-se para não se cumprir” ou “isto só acontece em Portugal”.

Para além do mais, um tal branqueamento, põe a ridículo todos os discursos contra a sinistralidade nas estradas, destrói meses, talvez anos, de pedagogia e de campanhas rodoviárias, desautoriza os que, empenhada e convictamente, querem fiscalizar e julgar e, por último, mas não menos importante, encoraja os que se estão a borrifar para a lei e para os outros.

Aconteceu, vai acontecendo e é profundamente lamentável!

segunda-feira, maio 15, 2006

“Espera Galego”

Há uns dias tive que ir a uma Repartição de Finanças. Eu sabia concretamente o que me levava lá, mas, o que querem, ir às Finanças, ou à Polícia ou ao Tribunal, ainda hoje tem muito de intimidatório. Dá-nos a impressão que, independentemente do que nos faz lá ir, logo à partida, já somos culpados de qualquer coisa, e que, na maioria das vezes, sabemos que não vamos conseguir arranjar uma boa desculpa que justifique a nossa falta.

Bem, de qualquer forma, ia tranquilo e entrei decididamente. Reparei que eram exactamente dez e meia da manhã.

A sala estava “à pinha”, cheia de tão cheia. A custo cheguei-me à zona onde estavam três maquinetas com senhas de vez. A que tinha o número 1 indicava que quem tirasse uma daquelas senhas poderia tratar de:

Contribuição Autárquica, Imposto de Selo, Avaliações, Sisa, Imposto sobre Sucessões e Doações e imposto Rodoviário.

A máquina que tinha o número 2 indicava:

Execuções Fiscais, Contra-Ordenações, Recursos, Reclamações Graciosas e Impugnações.

Finalmente, a máquina 3, mostrava a indicação:

Cadastro, IVA, IRS e IRC.

Já era alguma coisa. Havia organização e havia senhas de vez, o que facilitava a vida às pessoas.

Logo que pude fugir a uma espécie de abraço a que tinha ficado preso pela multidão, quando tirei a minha senha, comecei a fazer o reconhecimento da população que me cercava.

Muitas eram pessoas idosas, muitos eram africanos, e havia muita gente que, embora pudesse estar incluída na chamada população activa (dita trabalhadora), eu juraria que deveria ter a maior das dificuldades em saber fazer as perguntas necessárias e muito menos argumentar o que quer que fosse com os funcionários, caso houvesse necessidade. Parecia ser gente muito simples que, em última análise, nunca fariam qualquer pergunta. Por timidez ou, simplesmente, por vergonha.

Imaginei que muitos dos meus companheiros de circunstância, devem ter sofrido alguns calafrios quando pousaram os olhos na placa que indicava “Execuções Fiscais”, ou naquela outra que rezava “Impugnações”. Será que algum deles pensou perguntar a algum funcionário o que é que aquilo queria dizer? Ganhariam alguma coisa com isso? Ou teriam já a certeza de que receberiam uma resposta torta ou uma expressão de desdém, da parte de algum funcionário mais arrogante, para quem aquelas expressões técnicas eram tão óbvias, que fazia daquela gente que tinha tido a ousadia de lhes colocar tais perguntas, uns seres absolutamente desprezíveis?

As horas iam passando, os números de vez, nem tanto. Sentia-se a impaciência a crescer. A impaciência dos contribuintes, claro está. Havia donas de casa que, provavelmente, estavam preocupadas com o almoço que ainda tinham que preparar para os maridos, para os filhos e, quem sabe, se para os netos. Havia pessoas que tinham pedido para faltar ao serviço da parte da manhã mas que já sabiam que os patrões não iriam compreender quando elas só aparecessem ao fim da tarde. Havia diabéticos que necessitavam urgentemente de comer. Havia pessoas com problemas físicos, que não tinham sequer cadeiras para se sentar. Havia criancinhas que já tinham superado, em muito, as impaciências dos próprios pais e gritavam e choravam cada vez mais alto, tornando o ambiente ainda mais insuportável.

Tinha chegado por volta das dez e meia. Quando saí, cerca das três da tarde, estava completamente exausto.

E voltei a pensar nos meus companheiros de infortúnio que, muitos deles, poderiam ter evitado toda aquela incomodidade se a resolução dos seus problemas pudesse ser efectuada pela Internet. Sim, sem dúvida, se eles tivessem acesso à net, se os modelos fossem facilmente compreensíveis e se, principalmente, eles soubessem trabalhar minimamente com um computador.

Por isso, e para a próxima, só lhes resta uma coisa, voltar novamente às Finanças, e esperar, esperar e esperar, fiel àquele velho dito popular “Espera Galego”.

quinta-feira, maio 11, 2006

Afinal, o mesmo é o mesmo que mesmo?

A questão surgiu durante um almoço de amigos, colocada não na forma de uma pergunta, mas como sugestão para uma discussão puramente académica. Afinal, “O mesmo é o mesmo que mesmo?”

A formulação da pergunta, para além de estranha, sugere que quem discute este tipo de coisas não deve ter muita mais em que pensar. Não passará mesmo de "filosofisses", como diria um amigo meu.

Mas, como aceitei entrar neste desafio e como tinha que começar por qualquer lado, procurei no dicionário e lá só encontrei a palavra mesmo uma única vez. Por isso, se existe uma só palavra, acabou-se a discussão, não há a possibilidade de a compararmos com outra palavra (que seria mesmo) porque ela, a segunda palavra, nem sequer existe.

Pelo que, nesta perspectiva, não haverá mais nada a dizer. Isto é, não sei se não haverá mesmo, porque o dicionário diz que mesmo pode ser um pronome demonstrativo, ou um substantivo masculino ou, ainda, um advérbio. O que, no fundo, vem repor e relançar a questão inicial da existência de vários mesmos.

Ainda que numa só palavra, a existência da mesma (palavra, que é o que estávamos a falar), pode, afinal, significar coisas diversas. O que não me espanta nada, porque vindo a palavra do latim metipsimu, que mais parece um termo grego, podemos perfeitamente conjecturar que a língua dos romanos não era lá muito de fiar. Daí, ser hoje, uma língua morta.

Portanto, minha querida Débora, a discussão não chega mesmo a ter discussão. Quando muito, poderemos interrogar-nos se o empregado que nos serviu no Martinho da Arcada era mesmo competente, ou era simplesmente antipático, ou melhor ainda, se ele era mesmo antipático!

Ao fim e ao cabo, e de um ponto de vista puramente académico, como se pretendia aliás, e pondo-se de parte, naturalmente, o lado semântico da questão, acabo por concluir que “O mesmo não é, de facto, o mesmo que mesmo”. É que entre o primeiro e o segundo mesmo a diferença está na entoação, com que se pronunciam as palavras. A diferença entre as duas, reside mesmo na intenção, na provocação, na censura, na chamada de atenção. No limite, se quiserem, na demonstração de profunda irritação. Mas irritação mesmo!

quarta-feira, maio 10, 2006

Casamentos em crise?

Muita coisa mudou nestes últimos cinquenta anos e, uma das coisas que mudou, e muito, foi a forma como as pessoas vêm, sentem e vivem os casamentos. Dantes, um casamento era para toda a vida, agora, é enquanto durar, muito embora eu pense que as pessoas ao casar, estejam realmente convencidas que o fazem para toda a vida. Pelo menos, naquele momento.

Então, porque fracassam os casamentos duradouros? Para além da independência económica das mulheres, outrora inexistente, e que, de alguma forma, “aguentavam” muitos desses casamentos, hoje, a impaciência perante as dificuldades da vida, o egoísmo, os problemas resultantes de uma vida a dois, cuja gestão nem sempre é fácil, a falta de maturidade dos noivos e a indisponibilidade para fazer concessões e sacrifícios, poderão ser apontadas como algumas das razões que põem em risco a durabilidade de um casamento. E daí, as separações cada vez mais frequentes. Tão frequentes que, em cada 33 segundos, um casamento é desfeito na União Europeia.

Portugal que tantas vezes aparece no topo das tabelas, quase sempre e infelizmente, pelos piores motivos, também neste item consegue a pontuação máxima, sendo o país da União Europeia com maior número de divórcios.

Segundo um estudo do Instituto de Política Familiar, Portugal registou de 1995 a 2004 o maior aumento na taxa de divórcios (89%), claramente à frente da Itália (62%) e da Espanha (59%).

Mas esta onda de divórcios é, de facto, alarmante em todo o mundo. Só na EU (ainda dos 15) registaram-se em apenas 15 anos mais de 10 milhões de divórcios, verificando-se que em cada dois casamentos, um termina em divórcio.

Mas poder-se-á afirmar que, de facto, existe uma crise no casamento? Parece que não. Os números indicam que a maior parte das pessoas que se divorciam, voltam a casar. O que nos faz pensar que, na verdade, não é o casamento, enquanto instituição, que está em crise.

terça-feira, maio 09, 2006

Retratos ou Provocações?

Poderão achar que não estarei (de todo) bem da cabeça (e se calhar têm toda a razão para pensar assim), mas garanto-vos que já por diversas vezes, quando estou a ouvir um alto responsável do Estado ou de um qualquer grande grupo económico, estou sempre à espera de que ele diga qualquer coisa espirituosa, uma piada que seja, daquelas que, já se vê, seriam politicamente incorrectas e que, obviamente, eles não caiem na asneira de as dizer. No entanto, eu continuo sempre de olho neles …

É suposto, claro, que uma pessoa que é tão importante, seja o mais formal que se possa imaginar, que não cometa deslizes e, sobretudo, estando a falar em assuntos tão transcendentes e em público, não comece com piadas gagas que possam pôr em risco a compostura do acto e a sua própria posição.
Contudo às vezes, os tais deslizes acontecem. Recordo-mo que, há uns anos, um ministro tentou ser engraçado e contou uma anedota sobre alentejanos que faziam hemodiálise, justamente numa altura em que morreram pessoas (por acaso alentejanas) em transfusões com sangue que não estava em condições.
O senhor ministro não só não teve graça, como demonstrou uma imensa falta de bom senso. É que o assunto era demasiado grave, mexia com a saúde (e a morte) dos portugueses, e o resultado não se fez esperar. Foi demitido imediatamente. E bem, digo eu.

Mas mesmo sem estarmos a pensar em pessoas colocadas no topo da pirâmide, lembro que em tempos ainda não muito recuados, não era de bom tom um empregado, qualquer que fosse a sua empresa, ter graça ou contar alguma história que, supostamente, fosse engraçada. Quem tivesse a ousadia de ter alguma piada natural, não era, certamente, o indivíduo indicado para “determinado lugar”. Vi colegas meus serem afastados de postos de responsabilidade só porque, uma vez ou outra, contavam uma laracha.

Felizmente, também nesse aspecto, os tempos mudaram e hoje nada impede que um responsável possa ser um tipo charmoso, engraçado e, ao mesmo tempo, competente.

Apesar de tudo continuam a existir algumas reservas que, lentamente, vão sendo ultrapassadas e, algumas dessas pessoas, reconhecidamente competentes e com classe, vão dizendo o seu dichote, provando que as duas coisas não são, de todo, incompatíveis.

Todo este arrazoado para falar na postura e na formalidade patenteada nos retratos de todos os Presidentes da República, expostos na Galeria dos Presidentes, no Museu da Presidência. Todos eles, com excepção dos dois últimos, Mário Soares e Jorge Sampaio, que aparecem pintados de forma quase surrealista, vivos nas suas expressões, como que a dizer que estes Presidentes também eram gente, e a quebrar com a tradição de décadas, daqueles que os antecederam, com o ar austero, formal e de “Estado”.

Mário Soares escolheu Júlio Pomar para o retratar e Jorge Sampaio elegeu Paula Rego, dois pintores ímpares, nomes grandes da nossa pintura mas de quem, já se sabia, porque se conheciam as respectivas obras, iriam proporcionar-nos uma visão muito pessoal e completamente diferente do que estávamos habituados até então.

E vejam se tenho, ou não, razão. Dos 5 Presidentes que Portugal teve depois da Revolução de Abril de 1974, vejam só a diferença entre a postura dos três primeiros retratados e dos dois últimos.

O que nos faz questionar: Retratos ou Provocações?

segunda-feira, maio 08, 2006

Nada de misturas...


Achei algo bizarra aquela ideia do Daniel de Oliveira (aquele simpático do Bloco de Esquerda que costumamos ver no programa “O Eixo do Mal” na SIC Notícias) que sugeria que com o barril de petróleo a custar à volta dos 75 dólares, o melhor era abastecer os carros com champanhe.
Com toda a simpatia, digo ao Daniel que as suas contas não estão correctas.
Embora o preço se altere todas as semanas e às vezes várias vezes na mesma semana, um litro de gasolina com 95 octanas, custa à volta de 1,30 euros. Uma garrafa de champanhe português, de qualidade razoável, poderá custar cerca de 12,50 euros. O que quer dizer que se eu meter 20 litros de gasolina sair-me-á do bolso um pouco mais de 26 euros, enquanto que se eu tivesse a coragem de meter 20 litros de champanhe no depósito, eu teria que desembolsar 250 euros. Bastante mais como se vê.
Mas, ainda que do ponto de vista financeiro isso fosse vantajoso, eu não enveredaria por uma solução dessas, por duas razões:
- a primeira, porque não sei se o motor trabalharia aos soluços provocados, eventualmente, pelas bolhinhas gasosas do champanhe ;
- a segunda razão, porque não sei até que ponto é que os agentes da GNR e da PSP iriam "fechar os olhos" aos carros que circulassem aos esses, já que eles (os carros, já se vê) não teriam como provar o seu estado de alcoolemia. Ou será que iam arranjar balões específicos para os carros poderem soprar?

Bem, eu penso que o Daniel de Oliveira o que quis mesmo foi gracejar com a situação, como que a dizer, que o melhor que temos a fazer é comprarmos umas quantas garrafas de champanhe e bebermos uns valentes copos para tentar esquecer a subida vertiginosa e insuportável do preço do petróleo.

Mas bebendo ou não umas champanhecas, e ainda que o preço do “ouro líquido” atinja, ou ultrapasse, os 100 dólares, nós continuaremos a reclamar e a queixarmo-nos, mas continuaremos, também, a encher os depósitos, exactamente da mesma forma. Até um dia que não consigamos aguentar mais...

quinta-feira, maio 04, 2006

Não esquecer de...


No próximo fim-de-semana LEMBRE-SE QUE:

-
O BANCO ALIMENTAR CONTRA A FOME DE LISBOA recolhe alimentos
no sábado e domingo, dias 6 e 7 de Maio.
VAMOS AJUDAR AS PESSOAS QUE MAIS PRECISAM.


-
Domingo, dia 7, é o dia da MÃE.

De novo, Gabriel Garcia Marquez

Tinha-me comprometido publicamente a ler as “Memórias das Minhas Putas Tristes”. A promessa está cumprida, já li o livro e, ao contrário da Clara Ferreira Alves que o considera um texto menor, embora de um grande autor, e o classifica como um livro “triste, velho e impotente”, devo dizer que gostei.
E o facto de tanto gostar da maneira como GGM escreve, fez-me reler, logo de seguida, “Ninguém escreve ao Coronel”, de 1957.
É, de facto, um escritor obrigatório que, de tempos a tempos, temos necessidade de revisitar.
E, já que vos falei em Gabriel Garcia Marquez, deixo-vos com três belas frases que, segundo consta, são de sua autoria.

“Só porque alguém não te ama como tu queres, não significa que não te ame com toda a sua alma”.

“Nunca deixes de sorrir, nem sequer quando estás triste, porque nunca sabes quem se poderá apaixonar pelo teu sorriso”

“Não chores porque acabou, sorri porque aconteceu”

quarta-feira, maio 03, 2006

É fartar vilanagem…

Sempre atentos à criatividade e inovação, tal como o Engenheiro Sócrates tanto gosta de referir, descobrimos que aqui, em Lisboa, foi introduzido no campo da restauração, um novo conceito deveras inovador.

Abriu no Picoas Plaza, um restaurante onde o cliente pode comer até se fartar e só paga o tempo que demora a fazê-lo. Ou seja, trata-se de um restaurante-táximetro onde o cliente vai aumentando a factura a pagar à medida que for decorrendo o tempo que permaneça no estabelecimento. O que quer dizer que paga, para além da comida, também o espaço que utiliza. Isto, claro está, para além dos 20 minutos concedidos pelos proprietários por considerarem que é o tempo mínimo aceitável para qualquer almoço digno dessa designação.

O que quer dizer que por esses 20 minutos de refeição, e independentemente da quantidade de comida ingerida pelo cliente, ele paga 7 euros. Mas se esse cliente estiver distraído com o tempo e continuar a enfardar, vai pagando mais 1 euro por cada 5 minutos a mais.

O intuito, portanto, é comer até cair para o lado, até rebentar se for caso disso, mas, para pagar o mínimo vai ter que dar ao dente, que é como quem diz, come o que quiseres, mas despacha-te.

Resta dizer que a “refeição contra-relógio” neste restaurante de “comida a tempo” (por analogia com os de “comida a peso”) inclui sopa, dois pratos de carne e outros tantos de peixe e bebidas alcoólicas ou não. Só o café é que é pago à parte, isto, já se vê, para que não haja abusos…

O mínimo que me ocorre dizer é que, para além da originalidade da ideia, pelo menos cá no sítio, não sei bem se os portugueses vão aderir de alma e coração. Isto porque, se por um lado é sabido que gostam de comer, às vezes até a um ponto que roça a alarvidade, por outro, também têm o gosto do convívio à mesa durante longos períodos e, nesse aspecto, aquele não é o sítio mais apropriado.
De qualquer forma, achei piada à ideia. Mas porque ainda não fui até lá nem vi qualquer acção promocional ao restaurante, fiquei sem saber se é, ou não, permitido levar umas tuperwares, para o que desse e viesse…

terça-feira, maio 02, 2006

Arrobas & Arrobas, Lda.

Era capaz de jurar que, se de repente, começasse a perguntar à rapaziada mais nova qual é o significado de arroba, isto é, o que é que arroba quer dizer, todos responderiam sem pestanejar que arroba (@) é um símbolo que faz parte dos endereços utilizados na Internet.
Sendo certo que a resposta está parcialmente correcta, aposto que pouca gente seria capaz de dizer, no entanto, que arroba é, também, uma medida de peso, que hoje se considera ter 15 quilos mas que, em tempos idos, representava o equivalente à quarta parte do quintal, ou seja, 32 arráteis.

Bem, ponhamos de lado esta última arroba, porque receio que os 15 quilos nos pesem demasiado e falemos da outra arroba, a da informática, a corriqueira do dia a dia, que muitos julgarão pertencer à nova geração que a era digital banalizou.

Puro engano. Quem conheça um pouco de latim e tenha, porventura, alguma vez visto manuscritos do século XVII, saberá que este símbolo já era conhecido e usado nesse tempo.
Trata-se de uma contracção das letras “a” e “d” e refere-se, possivelmente, a “Anno Domini”, o ano do Senhor, mais conhecido entre nós pela abreviatura “d.C.” (depois de Cristo).

Portanto, meus amigos, quando derem um passeio pelo Alentejo, e se tiverem a possibilidade de visitar Estremoz, não se esqueçam de ir ver a majestosa Igreja de S. Francisco, onde poderão apreciar, no lado direito da nave central, o nosso conhecido “a” enrolado que, outrora, tinha um determinado sentido e hoje é (para além, repito, da uma medida de peso) a nossa familiar, imprescindível e sempre presente arroba informática.