domingo, outubro 29, 2006

Alberto, Alberto, desta vez tramaram-te ...

Fico completamente estragado sempre que dou de caras com tipos que se julgam os mais espertos, os mais inteligentes de todos, os que acham que podem enganar toda a gente, os que, vulgarmente, são conhecidos por "chico-espertos". E se, ainda por cima, juntando a toda essa "chiqueespertisse", essa gente fala grosso, de forma prepotente e grosseira, mesmo mal educada, então não os consigo suportar, dá-me uma fúria e apetece-me dar-lhes uns valentes murros, já que eu sou pacífico por natureza.


E é por isso que não percebo como é que eu, que não sou completamente idiota, consegui achar piada, durante algum tempo, ao Alberto João Jardim.


Assim como não percebo como é que, nestes últimos anos, ele vem sendo progressivamente mais ofensivo para com os governantes da Nação e os habitantes do continente, e ninguém - ouviram bem - NINGUÉM, o consegue pôr na ordem e dizer-lhe que ele é, apenas, o responsável pela Região Autónoma da Madeira e não o Imperador de uma qualquer república das bananas, que, neste caso, é República mas não é das bananas e se chama Portugal, e de que ele e a sua ilha também fazem parte.

E quando digo que ninguém o consegue calar, quero dizer exactamente isso. Adversários políticos e correligionários de partido são impotentes para conter a verborreia incontinente que chega mesmo a achincalhar tudo e todos, como aconteceu, ainda não há muito, ao actual Presidente da República, quando o tratou por Sr. Silva.

Até um dos maiores jornais espanhois, o “EL Mundo”, falou dos excessos verbais e do ataque sistemático à metrópole de Alberto João Jardim e considerou o Presidente do Governo Regional da Madeira como “o professor português do insulto”.


É uma figura intratável, detestável, desbocada e que não respeita nada nem ninguém.


E porque nada respeita e porque se armou uma vez mais em chico-esperto, tratou de contrair um endividamento de cerca de 150 milhões de euros, apesar de, por duas vezes este ano, o ter solicitado ao Ministério das Finanças e, este, o ter informado, também por duas vezes, que não autorizavam o empréstimo, pela simples razão que desde 2005, e de acordo com a Lei das Finanças Regionais, há limites máximos para endividamentos das autarquias e das regiões, e esses limites são para cumprir.

Pois o Banco de Portugal denunciou que, na prática, o empréstimo havia sido realizado e o Ministro de Finanças, Teixeira dos Santos (o Sr. Santos como certamente passará a ser chamado por Alberto João) fez, apenas, aquilo que devia, ou seja, avisou o Governo Regional da Madeira de que iriam deixar de ser processadas as costumadas transferências, já a partir deste ano e até o Governo Regional pagar o que deve.


O secretário-geral do PS, José Sócrates, declarou domingo, no Funchal, que "é tempo de dizer basta. O rigor e o cumprimento da lei são para todas as instituições e ninguém está acima da lei".

Ninguém, Alberto? Nem mesmo o todo poderoso Jardim, senhor incontestado da Madeira e a quem, há anos e anos ninguém se atrevia a dizer que não, por puro medo ou para não perder votos nas eleições?

Olha que se deixam de recear as tuas atoardas e os ataques obscenos que desferes, nesse teu estilo tão próprio mas já insuportável de ouvir, não tarda que te vejam como um mero dirigente patusco, a quem a retirada de cena é a única alternativa.

Independentemente do progresso que todos reconhecem que a Madeira tem vindo a registar ao longo destes últimos vinte anos, tendo no comando o próprio Alberto João Jardim (com as ajudas das enormes transferências de dinheiros saídas do Orçamento Geral do Estado e da União Europeia, melhor fora que a ilha não se transformasse e modernizasse), apesar disso, é bom que se diga que o "Basta" proclamado por José Sócrates representa o sentimento generalizado dos portugueses, pelo menos daqueles que o Dr. Jardim apelida de "cubanos" e que vivem no minúsculo "rectângulo" que, agora, o afronta pela voz desses malditos socialistas, a quem o Dr. Jardim responsabiliza pelo caos em que transformaram o país.

O actual Governo da Nação ao aprovar uma Lei das Finanças Regionais (que até teve pareceres muito favoráveis de distintos economistas do PSD, incluindo a insuspeita - por competente - Drª. Manuela Ferreira Leite), procuraram fazer uma lei mais justa e solidária, mais moderna e actual. Uma lei mais responsabilizante, mas que continue a afirmar os princípios da autonomia, isto é, o princípio da solidariedade e da inter-ajuda entre o todo nacional, entre o Continente e as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.

Alberto João, parece que desta vez é que perderam o medo de te enfrentar. Já não era sem tempo!

quinta-feira, outubro 26, 2006

A moda para a nova estação


Quem, há poucas semanas, foi um dos felizardos que encheu o Museu da Elecricidade, juntamente com outras figuras mais ou menos conhecidas (como sabem, são sempre os mesmos a aparecem nestes eventos), teve a oportunidade de apreciar o que melhor se faz em Portugal em termos de moda.

E quem já anda a pensar na chegada da nova colecção e equaciona as diversas combinações de modelos e de cores que vai ter que comprar para vestir e, sobretudo, para dar nas vistas, terá, a partir de agora, que pensar, também, em comprar uma outra peça de roupa, esta não para embelezar, mas para garantir o seu bem estar, relativamente à saúde.


Vital Jacket é o nome desta peça de roupa que foi desenvolvida na unidade de investigação de engenharia electrónica e telemática da Universidade de Aveiro e agrega tecnologia têxtil com microelectrónica de forma a possibilitar a monitorização, à distância, das variáveis vitais do seu utilizador, onde quer que este se encontre.


O desenho e a confecção têxtil deste casaco, que se espera tenha um design moderno e atraente, ficaram a cargo do Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e Vestuário e foi já apresentado na Modtissimo, que decorreu no Edifício da Âlfandega do Porto.


Sinais cardíacos, de temperatura, de saturação de oxigénio no sangue e de actividade física terão a possibilidade de ser transmitidos através de sistemas electrónicos e informáticos ligados à roupa por comunicação sem fios.Este casaco vai ser complementado, ainda, com diferentes sistemas de monitorização em casa, ligados em rede, como uma unidade de medição de pressão arterial, uma balança e um dispensador automático de medicamentos, entre outros.

É o que se chama, juntar o útil ao agradável.

quarta-feira, outubro 25, 2006

De Espanha, nem bom vento ...

O mau é quando alguém se começa a lembrar de certas coisas. Passado um tempo elas acabam por acontecer. Aliás, é por essa razão que, normalmente, quando alguém sugere que ainda não pagamos um imposto por determinada coisa, se levanta imediatamente um bando de amigos que cai sobre o infeliz e grita SCHIUUUUUU, não váo eles, os do governo, lembrar-se do que ainda estava esquecido.

Vá lá saber-se porquê, o semanário Sol, acabado de nascer mas já cheio de ideias, lembrou-se de fazer uma sondagem que indicava que 28 por cento dos portugueses são a favor de uma integração de Portugal com Espanha num único Estado.


Dá a impressão que esses 28% já se esqueceram do orgulho de ser português, e da forma como até há pouco se falava da Padeira de Aljubarrota e de como corremos com os Filipes da nossa corte.


Eu sei que os tempos agora são outros, que pensamos e agimos de forma globalizada, que não temos fronteiras entre os Estados, mas os Estados continuam a existir. Podemos até nascer em Badajoz, mas aqui é Portugal e só uns quilómetros mais à frente é que fica Espanha.


Tenho quase a certeza que esses 28% estarão a pensar sobretudo em que em Espanha se ganha melhor, que a gasolina e os produtos de uma forma geral são mais baratos lá do que cá, que o IVA é muito mais elevado cá. Provavelmente por isso gostariam que Portugal e Espanha estivessem juntos num único Estado.


Mas o que leva os espanhois a quererem também essa união? Se tudo é favorável a eles porque é que gostariam que o nosso pequeno país fosse integrado no deles?. Sinceramente não percebo, a não ser que seja uma questão de poder, já que como país maior ficaria ainda maior e com um poder acrescido sobre mais uns dez milhões que moram deste lado. O que, no fundo, sempre foi o seu desejo.


E o facto é que são mais os espanhóis do que os portugueses que veriam com bons olhos uma eventual união entre os dois países vizinhos. Quase metade dos espanhóis contra pouco mais de um quarto dos portugueses.

Uma sondagem publicada pela revista espanhola “Tiempo” revela que 45,6 por cento dos espanhóis são favoráveis à fusão. Destes, a maioria (43,4 por cento) defende que o novo país deve ter um velho nome - Espanha – (claro, estão a perceber, não estão), ao passo que 39,4 por cento chamar-lhe-iam Ibéria; e a esmagadora maioria (80 por cento) defende que a capital deve manter-se em Madrid (continuam a ver a coisa?), contra apenas 3,3 por cento que favorecem Lisboa.
Cerca de metade dos inquiridos defende a manutenção do actual regime monárquico espanhol contra 30,2 por cento favorável a uma República. A sondagem revela que o apoio à união entre os dois países é particularmente elevada entre a população mais jovem, dos 18 aos 24 anos, com mais de metade (50,8 por cento) a mostrar-se favorável a essa opção. Como se vê a vontade de unir os dois países teve mais eco do outro lado da fronteira do que por cá, suscitando artigos de opinião na imprensa espanhola e até uma reportagem no telejornal da TVE sobre como as tabuletas comerciais (em português) teriam de ser alteradas (para castelhano), se tal fusão se concretizasse...
Pode ser que um dia os dois países se fundam. Pode ser que sim, mas que seja daqui a muitos, muitos anos. É que tive que aprender a falar e a escrever a língua portuguesa, aprendi o hino nacional, a conhecer a nossa bandeira e a sentir um arrepiozinho na pele quando a via hasteada nos mastros de outros países, senti um orgulho danado quando o Carlos Lopes e a Rosa Mota foram campeões olímpicos, senti um prazer dos diabos em ver que a nossa Expo era muito superior à de Sevilha.

Sempre me senti genuiamente português e republicano e nunca a vontade me puxou para o outro lado da fronteira, a não ser para fazer turismo. Porque é que eu, agora, iria mudar? Por alma de quem?

quinta-feira, outubro 19, 2006

Mais um pequeno aumento

Como ia a conduzir, admito que não tenha ouvido lá muito bem aquela parte da entrevista na TSF, em que o senhor secretário de Estado Adjunto da Indústria e da Inovação declarou que a electricidade para os consumidores domésticos vai aumentar, em 2007, nada mais nada menos que 15,7%. Mas porque tenho quase a certeza que ouvi mesmo falar no aumento de 15,7%, o meu espanto foi tão grande que me levou a fazer uma travagem demasiado brusca e a quase levar em cima com todos os outros automóveis que vinham atrás.

E como se o aumento não fosse, já por si, um autêntico ataque ao consumidor, aquele membro do governo teve o desplante de dizer que a “culpa” do aumento é do consumidor, porque esse malandro esteve vários anos a pagar menos do que devia.

Aliás, na mesma entrevista, o sr. secretário acabou por dizer que, realmente, o aumento é grande mas, como até este ano, a lei impedia uma actualização de preços acima da inflação e isso criou um défice tarifário, a culpa «só pode ser imputado aos consumidores.

O que eu não sabia (dado que a lei não foi alterada e que, por causa disso, a culpa é imputada aos consumidores) é que cabe aos próprios consumidores fazerem aprovar as leis, quer aquelas que impedem a subida dos preços para além da inflação, quer quaisquer outras. Ingenuamente pensava que a elaboração, discussão e aprovação das leis eram da competência do governo ou dos senhores deputados.

Apesar da notícia ter vindo a público pela voz do secretário de Estado Adjunto da Indústria e da Inovação, a mesma notícia causou alguma surpresa dentro do Governo (do mesmo Governo de que o senhor secretário faz parte), que esperava uma subida menor. O próprio ministro da Economia, Manuel Pinho, foi cauteloso e disse apenas que o Governo está a analisar a situação.

E tem que analisá-la muito bem porque, ao que se sabe, este ano, o Ministério da Economia alterou a legislação das tarifas para conter fortes aumentos para as indústrias, em nome da competitividade da economia nacional, mudança essa que, claro está, contribui para a penalização das tarifas domésticas para 2007.

A subida é exagerada por demais e não reflecte o poder de compra das pessoas, sobretudo num momento em que os portugueses atravessam graves dificuldades. E é bom que se saiba que muitos de nós, se nada for alterado, iremos ter que pagar gordas facturas que, em muitos casos, poderão ter um valor superior a 500,00 euros por ano.

quarta-feira, outubro 18, 2006

“Marca Portugal”




Mesmo sabendo que é normal, e até frequente, mudarem-se os nomes às coisas só para que se fique com a sensação de que alguma coisa realmente mudou, tenho que confessar que fiquei com alguma esperança que, desta vez, a alteração do “Made in Portugal” para a “Marca Portugal” viesse a produzir o desejado efeito, algo que se visse de facto.
Afinal, a expressão “Made in ...” é universal, aplica-se a tudo e em todo o lado, enquanto que a “Marca Portugal” é nossa, só nossa e só às coisas que são produzidas – e bem – na nossa terra diz respeito. É como um certificado de garantia, é como uma certificação dos nossos produtos perante os potenciais compradores, quer nacionais, quer, sobretudo, estrangeiros.
Acreditava que a alteração da designação pudesse impor com mais facilidade os nossos produtos, muito embora sabendo que marcas portuguesas tão conhecidas pelo mundo fora como o nosso vinho do Porto, são comercializados despudoradamente por outros países, a começar pelos nossos vizinhos espanhois, com a mesmo nome como se do original se tratasse. Mas, adiante...

Acreditei e acredito que a “Marca Portugal”, ajudada por um logótipo felizmente bem idealizado, possa afirmar no estrangeiro e aos estrangeiros que por cá se produzem coisas com qualidade e em vários domínios.

E por cá, neste rectângulo, como diz em tom depreciativo o desbocado do Alberto João Jardim, neste pequeno rectângulo, digo eu agora, abençoado por um sol magnífico, de areais finíssimos, de peixe fresco e saboroso e povoado de gente acolhedora, como é que os nossos produtos são anunciados nos nossos estabelecimentos aos eventuais compradores, que na sua maioria até são portugueses?

Desde logo, colocando o nome dos produtos que vendem em inglês, e apenas em inglês, e esquecendo completamente que estamos em Portugal, falamos o português e há pessoas portuguesas que poderão estar interessadas em comprar naquelas casas.

Não, os nossos “pequenos empresários” apenas pensaram que aqui em Portugal os pelintras dos nacionais não têm direito a comprar e, por isso, viraram-se para os ingleses.

Isto devia ser proibido. Deveria haver, se é que não há, legislação que obrigasse ao anúncio do que quer que fosse, primeiro na nossa língua e depois em todas as outras línguas que os comerciantes achassem mais conveniente. Mas em primeiríssimo lugar na nossa língua.

Mas admitindo que existe um vazio legislativo nesta matéria, porventura sinal de que os nossos políticos andam muito distraídos, o que gostaria é que os portugueses evitassem a todo o custo este tipo de lojas. Lojas que por não terem respeito por nós, deviam ir à falência. Isso, deixem-nos falir, deixem que a estupidez dos seus proprietários dite o seu próprio fim. Comigo não contam nem que eles estejam a vender os artigos ao preço da uva mijona.

terça-feira, outubro 17, 2006

“Compro o que é nosso”


Sempre detestei os arautos da desgraça, aqueles que nunca vislumbram uma coisa que seja de que nos orgulhemos e que, para além de dizerem que tudo está mal neste país, ainda juram a pés juntos que qualquer tentativa para melhorar esses males, de que tanto mal dizem, está, desde logo, condenada ao mais terrível dos fracassos. Esses profetas do miserabilismo dizem acreditar que em Portugal nada é bem feito, nada presta, nada tem qualidade. Ao contrário do que acontece lá fora, onde a excelência é o dia-a-dia desses países.

Talvez por isso, fiquei muito satisfeito ao saber do entusiasmo do presidente da AEP, Engenheiro Ludgero Marques, ao anunciar uma acção que vai promover durante 2007, campanha que apela ao orgulho de consumir português e cujo desígnio é a valorização da oferta nacional.

Ludgero Marques não se cansa de repetir que as nossas marcas terão que se impor no mercado sem quaisquer favorecimentos mas sim por conseguirem aliar qualidade, serviço e preço.

E esta iniciativa tem tudo – tem quase tudo – para ser um sucesso, tanto mais que, de acordo com vários estudos de mercado já publicados, os consumidores são sensíveis à origem dos produtos e, no caso português, sobretudo sensíveis no caso das frutas e dos legumes.

“Tem quase tudo para dar certo”, disse eu. E porque não tudo?

Tomemos, apenas, como exemplo o caso das frutas. Regra geral, todos reconhecem que as nossas frutas são muito mais saborosas que as congéneres estrangeiras. Veja-se o caso da maçã reineta e da pera rocha. A maçã portuguesa é de longe muito mais saborosa de que a reineta francesa e a pera rocha nacional é considerada a melhor do mundo, a anos-luz de diferença das produzidas em outras partes do globo.

Então, sendo melhores os nossos frutos porque é que ainda há tanta gente a comprar as reinetas e as rochas que nos chegam lá de fora? Apenas, e só, porque embora os frutos venham de longe, paguem taxas aduaneiras e transportes e, naturalmente, ainda tenham que dar algum dinheiro a ganhar a produtores e a intermediários, são colocados no mercado nacional a um preço inferior aos produzidos em Portugal.

Uns cêntimos, um euro de diferença por quilo, dirão. Talvez sim, quando não mais. Mas é essa diferença que faz toda a diferença. As famílias têm dinheiro a menos e mês a mais. Oitenta cêntimos que sejam a mais em cada quilo de maçãs (que serão umas quatro ou cinco, quanto muito) é demasiado dinheiro para quem tem um parco orçamento e é exactamente isso que determina que as pessoas “esqueçam” o sabor delicioso das nossas reinetas para irem comprar as reinetas francesas, que são normalmente grandes e com bom aspecto mas que, não só não têm o mesmo sabor do que as nossas, como são, na maioria das vezes, pintalgadas e farinhentas.

É por este pequeno pormenor que a iniciativa da AEP, apesar de muito louvável, pode vir a ter algumas dificuldades.

Nem sequer podemos censurar as famílias que passam ao lado dos produtos nacionais. O dinheiro não dá para tudo e estou certo que se elas pudessem, bem quereriam, por todas as razões, “comprar o que é nosso”

Ainda que com as reservas apontadas, junto o meu entusiasmo ao do Engº. Ludgero Marques. Espero, no entanto, que para que os nossos entusiasmos perdurem e, porventura, possam vir a contagiar alguns outros, seria bom que se aproveitasse a oportunidade para se eliminar de vez com tantos dos intermediários que existem a mais no sistema, e que prejudicam gravemente produtores e consumidores. Para que não aconteça com as nossas frutas o mesmo que se passa com a sardinha que chega à nossa mesa 7 vezes mais cara do que pagaram ao pescador.

Assim, sim, se conseguirmos isso, poderemos dizer com orgulho que consumimos português e que “compramos o que é nosso”.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Para que não restassem dúvidas




Embora, porventura, conhecessem a expressão popular “Palavras para quê?...” (empregada precisa-se já diz tudo, não é?), os proprietários de uma restaurante de Vila do Bispo, no Algarve, quiseram que o anúncio que colocaram numa das montras do estabelecimento, fosse claro, inequívoco, esclarecedor e que não deixasse qualquer dúvida a quem o lê-se.

E dá para perceber que o que eles queriam mesmo, era uma empregada, mas uma empregada para trabalhar ...

quarta-feira, outubro 11, 2006

Rotundas

Já que ontem vos falei de rotundas, ainda que a propósito dos piscas-piscas, não quis, hoje, deixar de lhes dar conta de uma rotunda muito especial. Acreditem que escrever em dois dias consecutivos sobre rotundas, não se trata de pura falta de imaginação, mas é capaz de ser pelo menos redundante.

Agora a sério, enquanto que ontem a rotunda foi abordada pelo lado mais prosaico da questão, ou seja, da circulação automóvel, hoje gostaria que observassem a rotunda pelo lado mais belo, o da arte.

É difícil estar-se continuamente a inventar. O génio e o poder criativo não caem dos céus a toda a hora e, por isso, seria uma tremenda parvoíce exigir-se que os criativos apareçam constantemente com novas ideias, cada uma mais surpreendente do que a anterior.

Relativamente ao Algarve, este ano também não foram descobertas novas praias, não se fizeram novas estradas, não houve progressos significativos no saneamento básico nem a capacidade de abastecimento de água. Mas, como todos os anos, apareceram novos aldeamentos, novas urbanizações e novas construções que, esgotadas as vistas de mar e de serra, se voltaram, agora, para as “vistas de rotundas”, para essas rotundas que não param de crescer um pouco por toda a parte.

Mas já que falamos de rotundas, não posso deixar de referir que a minha preferida é, sem dúvida, a que está “plantada” ali perto do aeroporto de Faro e que fugiu ao embelezamento standertizado das rotundas nacionais, aos pedregulhos a monte, aos ferros forjados e enferrujados, aos ajardinados, às estátuas alusivas a qualquer coisa e ao amontoado sem nexo de ervas daninhas que crescem livremente à espera de melhores dias ou de melhores autarcas.

Ali, na rotunda mesmo em frente ao aeroporto de Faro, pode-se admirar a arte de quem tão bem soube captar o gesto banal, o ritual comum de quem tem um aeroporto por perto. Com ironia, vêmo-nos retratados a olhar para os céus em busca de um avião que está a chegar ou que vai a partir. É um fantástico conjunto de estátuas que nos leva a sorrir e que nos faz pensar como uma rotunda pode ser tão atraente quando, para além da sua função específica, foi imaginada com arte, ainda por cima, simples, directa, sugestiva, com graça e ao ar livre.

terça-feira, outubro 10, 2006

Os “Piscas-piscas”

Aquilo que hoje me trouxe até vós, obviamente que nada tem a ver directamente convosco, a não ser que, vocês meus amigos, também façam parte do enormíssimo número de pessoas que se esquecem que, desde há uns anos, os carros estão equipados com umas peças que são conhecidas por “piscas”, ou por “piscas-piscas”, e que servem para indicar quando os carros vão mudar de direcção.

Talvez seja melhor explicar que os “piscas-piscas são instrumentos de navegação, melhor dizendo, são acessórios de sinalização que existem nos veículos motorizados e que, por meio de uma luz que acende e apaga intermitentemente, à frente, dos lados e na rectaguarda dos mesmos veículos, servem – pasmem-se vocês com esta novíssima tecnologia – para indicar aos outros condutores se e quando vamos mudar de direcção ou se e quando vamos seguir em determinado sentido.

A verdade é que em Portugal, embora se conheça o princípio, não é muito comum utilizarem-se os piscas quando se faz uma manobra de ultrapassagem ou quando, ela terminada, voltamos a ocupar a via da direita. Isto, quando não se ultrapassa pela própria direita, o que é ainda pior.

Mas se não temos o hábito de o utilizar nas estradas, ainda menos cuidado temos de o fazer nas rotundas que, como se sabe, nascem como cogumelos por esse país fora. Acho mesmo que os condutores ao contornarem uma rotunda, querem mostrar claramente aos outros condutores que eles não têm nada que saber se vão virar na próxima saída à direita, ou na segunda, ou na outra a seguir, ou se muito simplesmente querem andar umas quantas voltas à volta da rotunda até as respectivas sogras ficarem com uma valente dor de cabeça.

Penso que para certos condutores o pisca-pisca ainda constitui um mistério algo longíquo e que, muito provavelmente, a palavra “pisca” só lhes lembrará uma certa musiquinha pimba, intitulada precisamente “Pisca-Pisca” e que era cantada por uma tal Rute Marlene. Ou então, para esses condutores, o pisca-pisca não passa de um simples tique de olhos, daqueles que tantas vezes se utilizavam nos longíquos anos sessentas do século passado, de forma mais ou menos sedutora, em tentativas esforçadas e quantas vezes frustadas, de mais uma conquista.

segunda-feira, outubro 09, 2006

A propósito do fecho de algumas urgências hospitalares

O caso parece que não está ainda completamente decidido – é o que dizem - mas, ao que parece vão fechar em todo o país umas quantas urgências hospitalares. Oficialmente, pelo menos, o povo não sabe que a coisa já está cozinhada mas, porque não é tolo de todo, suspeita, no entanto, que tudo está já resolvido e, sabe ainda, que em muitos casos, quando alguém estiver mesmo aflito vai ter que percorrer uma quantidade enorme de quilómetros, isto se houver ambulâncias preparadas para tal, com médicos e pessoal de enfermagem devidamente habilitados e se a doença estiver na disposição de fazer uma viagem demorada e não decidir que o paciente vai ter mesmo que morrer antes de chegar ao “hospital a sério”.

Dizem, quem diz perceber disto, que o fim destes serviços hospitalares, à semelhança, aliás, do que também está a acontecer com as maternidades, é motivado pela demografia e acessibilidades da população. Pode ser que sim mas, para mim, tudo isso parecem-se ser umas tretas mal contadas e acredito que o que está na base de tudo isto são questões meramente economicistas e nada mais.

Estou a pensar naquela gente de idade já avançada, cheia de achaques e de doenças crónicas, cujo o alívio, físico e psíquico, é muitas vezes conseguido pela ida ao centro de saúde que têm ali mesmo à mão de semear, na sua própria terra. A obrigatoriedade de ser deslocados para um outro centro – mais longe, com médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar com que não estão familiarizados - provoca-lhes, no mínimo, insegurança, porque não sabem sequer se vão ser tratados mais rapidamente e com melhores condições técnicas e humanas. Isto, claro está, para além da incomodidade da deslocação e da incerteza de conseguirem chegar, ainda com vida, ao novo centro.

Ainda se o governo explicasse o que motiva tão radical alteração, estou convencido que algumas pessoas talvez aceitassem essas razões. Poderia dizer, por exemplo, ainda que pudesse não corresponder à realidade, que o seu centro de saúde vai fechar porque os doentes vão ter ao seu dispor, embora um pouco mais longe, melhores meios de diagnóstico, médicos e enfermeiros mais preparados e instalações que permitem um internamento precário, se necessário. O governo devia explicar, por forma a que todos percebessemos e ficássemos convencidos, que tudo tinha sido pensado numa perspectiva de dar uma melhor qualidade de assistência à população.

Mas não, os motivos adiantados pelo governo não foram claros, pelo que paira sobre nós a terrível e cruel dúvida sobre o nosso destino. É que, por má sorte, pode acontecer, irmos cair nas mãos de “um mau médico” como aquele a quem Bocage dedicou estes versos:

Doutor, até do hospital
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O exemplo que vem de cima

O próximo Orçamento Geral do Estado para 2007, prevê uma redução de 30 por cento do salário do primeiro-ministro, dos ministros, dos secretários e dos subsecretários de Estado, como medida para aumentar as receitas nos cofres públicos.

No próximo ano, o primeiro-ministro será um dos principais afectados pela política de cortes introduzida na lei do Orçamento, que deverá ser aprovada pelo Parlamento, com o objectivo de diminuir o défice do país.

Calma, calma, não se excitem, estas medidas são para aplicar sim, mas em Itália.

terça-feira, outubro 03, 2006

A Casa das ...

Porque se sabe que “a língua portuguesa é muito traiçoeira”, existem assuntos sobre os quais não é fácil escrever porque as palavras - porque são traiçoeiras - podem sugerir outras intenções que os autores não pretendem transmitir.

Hesitei, pois, em escrever este texto, tanto mais que nem podia chamar a atenção dos leitores com o círculo vermelho que normalmente se coloca no canto superior direito dos ecrãs de televisão, quando os filmes contêm palavras ou cenas que possam ferir a susceptibilidade dos espectadores.

Afastada, então, a hipótese de prevenir os leitores, restou-me avaliar se aquilo que eu queria contar-vos poderia, ou não, ser menos próprio. Decidi, no entanto, que ia mesmo escrever porque, ao fim e ao cabo, trata-se apenas, e só, de uma questão de cultura e nada mais.

No último fim-de-semana metemo-nos à estrada, melhor dizendo às estradas que passam por dentro das terras, aquelas que normalmente mal conhecemos ou só conhecemos de nome porque as auto-estradas lhes passam ao largo. Sem destino definido, como outrora gostávamos de fazer, o único objectivo era o de andar, andar sempre e metermo-nos por caminhos que nos mostrassem algo de novo.

Quando demos por nós, que é como quem diz, quando os estômagos começaram a dar sinal, estávamos em Almeirim, terra do bom melão e da famosa sopa da pedra, pelo que fomos ao encontro da dita e de outros petiscos da região.

Depois do almoço andámos um bocado a pé, à descoberta da terra. De repente, ao olhar para uma loja vimos que o seu nome era “A Casa das Caralhotas”. Assim mesmo, sem tirar nem pôr e com todas as letras. A Casa da quê?, perguntámo-nos, rindo que nem perdidos.
Pois a nossa curiosidade levou-nos a saber porque é que aquela era a “A Casa das Caralhotas”, e o que eram (o que são) as caralhotas.

Para quem não sabe, a caralhota de Almeirim, é um pão caseiro, idêntico à merendeira, muito guloso e saboroso e é sempre óptimo, quer comido com um pouco de manteiga ou quando acompanha a sopa de pedra ou uma bifana.

O nome desta iguaria, (feito(a) com farinha inteira, fermento, água e sal, amassado à mão e cozido em fornos de lenha) vem de tempos passados, “culpa” da tradição popular. Antigamente, em Almerim, os populares chamavam caralhotas aos borbotos da lã. Nessa altura, em quase todas as casas existia um forno e cozia-se o pão. Quando se tirava a massa, para depois ir para o forno, no fundo do alguidar ficavam bocadinhos de massa, idênticos a borbotos de lã. A essas pequenas bolas, os populares chamavam caralhotas. Daí vem o nome actual do pão que se pode saborear nos restaurantes de Almeirim. Eu asseguro-vos que é uma delícia, pelo que sugiro que os provem mesmo. De certeza que não vão arrepender-se.

Quanto a nós, forasteiros, retivemos o sabor de um pão delicioso mas também, e naturalmente, o nome engraçado e pitoresco, que chega a ser malicioso, sobretudo quando ouvimos mães de família fazerem - com toda a naturalidade - o pedido "guarde-me meia-dúzia de caralhotas para a tarde”...

domingo, outubro 01, 2006

Lombinhos


Eu sei que estou um pouco atrasado para responder ao comentário que a Maria fez em 20 de Setembro, ao meu texto sobre “Sardinhadas”. Mas, inadiáveis problemas de agenda (saí-me bem com esta, não foi?) determinaram este desfasamento temporal. Por isso, e com as devidas desculpas, aqui estou hoje a falar sobre lombos e lombinhos.

Aliás, eu não tinha qualquer ideia em abordar a problemática dos bifes do lombo, ainda que eles sejam, de facto, muito macios e saborosos. Mas quem manda é o cliente, como se costuma dizer, e se a Maria declarou que não gosta mesmo de sardinhas e dos seus lombinhos escamados, não me resta outra alternativa do que alombar, que é como quem diz numa linguagem mais pebleia, meter as mãos ao assunto. Dobremos então o lombo sob o peso imenso das palavras ...

Segundo o dicionário, “lombo” vem do latim “lumbu”, e é um substantivo masculino que significa costas, dorso, parte carnuda pegada aos lados da espinha dorsal, lombada e lomba.
Deixando de lado as costas e os dorsos, que nos poderiam levar bastante mais longe e, igualmente as lombadas (as dos livros) e as lombas (as das estradas), debrucemo-nos então sobre a parte carnuda pegada aos lados da espinha dorsal, que daria para falarmos novamente (se quisessemos e não queremos) nas sardinhas, nas cavalas e noutros animais de belos dorsos queimados pelo sol.

A Maria tem razão. Os lombinhos, os bifinhos do lombo, sejam eles de porco ou de novilho são excelentes. Para já, são muito mais tenros que qualquer outra parte da carne e, depois, são suculentos e saborosos, sobretudo se bem temperados com determinadas ervas aromáticas e acompanhadas de alguns molhos apropriados. Mas, por favor, não com aquelas molhangas que em certas cervejarias cobrem por completo o naco de carne, naco esse que só é localizado pelo ovo estrelado que por ali navega. Esses não, esses enjoam-me e, francamento, não sou lá grande apreciador. Quando muito as francesinhas (continuo a falar de bifes, é claro).

E porque estamos só a falar de gostos, deixamos para outro dia os aspectos relacionados com os valores nutricionais do bife, aquelas coisas que dão pelo nome de proteínas, gorduras, vitaminas, sais minerais, calorias e outras coisas mais, aquelas que, a maior parte das vezes, nos fazem dizer que “esquece-se o mal que fazem pelo bem que sabem”.

Ah, falta a cerveja e as batatas fritas para acompanhar, e, para quem queira ficar mais sobrecarregado do fígado e do colesterol, um ovinho bem a cavalo no bife é bem-vindo.

Bem vamos a isto, que são horas da ceia e o apetite já aperta. Adivinhem o que vou comer ... empadão de carne, mas de carne do lombo, naturalmente...

sexta-feira, setembro 29, 2006

Um ‘tacho’ vitalício

Sempre achei que, para além do mérito e do trabalho de cada um, a vida de um indivíduo pode ser determinada pelo facto de se estar no sítio certo à hora exacta.

Embora com a distância de muitos anos, Sequeira Braga e eu trabalhámos na mesma empresa, mas nunca nos cruzámos nem nessa empresa nem noutro sítio qualquer. Ele não faz a mínima ideia de quem eu sou e eu conheci-o através dos meios de comunicação social, onde fui sabendo dos cargos que ia ocupando, nomeadamente de Secretário de Estado dos Transportes e Comunicações (no 1º. Governo de Cavaco Silva) e, mais tarde como presidente da EPUL – Empresa Pública de Urbanização de Lisboa, uma empresa que tem como única accionista a Câmara Municipal de Lisboa.

Portanto, como não nos conhecemos, era muito difícil que eu pudesse estar no sítio certo e à hora exacta quando Sequeira Braga decidiu criar 15 novos cargos para nomear 15 directores vitalícios para a EPUL, à revelia, aliás, do único accionista, de que era, então, presidente Santana Lopes e que, neste caso, parece estar completamente isento de qualquer responsabilidade.

Os tais 15 directores vitalícios custam ao erário público nada menos de 1,2 milhões de euros por ano e, como não foi definido o período pelo qual foram contratados, só podem ser demitidos ou perderem as regalias (que não devem ser poucas) se houver justa causa ou com o seu consentimento, que obviamente, eles não darão.

Seis desses quadros superiores ganham mais do que o presidente da própria empresa e um deles, o director de Planeamento, que custa à EPUL 10.700 euros por mês chega mesmo a ganhar mais do que o Primeiro Ministro e do que o Presidente da República. Uma imoralidade completa.

Agora, parece que a CML pretende moralizar e terminar com situações deste tipo. Acredito que sim mas quanto àqueles 15, o que vai acontecer? Para já, e a partir do início deste ano, a CML decidiu congelar os salários destes directores, mas não se ouviu uma palavra que fosse, quanto às intenções da Cãmara e do próprio Estado de accionar cível e criminalmente Sequeira Braga.

Uma vez mais a irresponsabilidade de alguns e a falta de controlo das contas públicas constantemente demonstrado, fazem-nos olhar para o Estado com desconfiança. Que diabo, as situações sucedem-se e nós contribuintes vamos dando conta como as Instituições Públicas continuam a desbaratar o nosso dinheiro.

quarta-feira, setembro 27, 2006

A reforma

Numa altura em que tanto se discute o modelo da Segurança Social e em que tão poucas respostas nos são dadas às inúmeras questões que se têm colocado nestes últimos anos - em parte por causa das diversas ideologias - parece-me oportuno publicar, na íntegra, um texto do Professor Carlos Pereira da Silva, professor do ISEG e publicado recentemente no Diário Económico.

"Chamo-me Álvaro Campos e Silva, tenho 43 anos, feitos em 13 de Junho de 2006. Ganho 782 euros como adjunto de guarda livros num escritório da Rua dos Douradores. A minha mulher, um ano mais nova, é empregada num comércio de tecidos da Rua dos Fanqueiros. Tenho uma filha de 18 anos, que se candidatou, este, ano à Universidade e um menino de 11 anos, que vai agora para o Secundário. Os meus pais, já velhotes, estão reformados e moram na Madragoa num 3º andar de um prédio antigo. A pensão do meu pai com 65 anos é de 347 euros e a da minha mãe com 63 anos, reformada por invalidez, é de 313 euros.

Li que estão a mudar as regras de cálculo da pensão de velhice e que há estudos que mostram que o Estado não tem capacidade financeira para garantir a promessa que me fez. É verdade que nada ficou escrito, quando em 1984, aos 21 anos, comecei a trabalhar e a descontar para o Regime Geral da Segurança Social. Mas sempre ouvi dizer que o Estado era uma pessoa de bem! Ainda me lembro bem de o Coelho, do Expediente, me ter dito que a minha pensão seria calculada com base na taxa de formação de 2% ao ano, na carreira contributiva até aos 65 anos e na média dos 5 melhores salários dos últimos dez anos. Para mim, a reforma era longe e, por isso, não fiquei impressionado quando o Costa, do Pessoal, me informou que para uma carreira de 40 anos eu iria ter uma pensão equivalente a 79% do meu último salário (com base num ganho salarial real sobre a inflação de 0,5%). Casei-me, em 1987, com 24 anos, e a Madalena, a minha filha, nasceu um ano depois. Foi nessa altura que eu e a Helena, a minha mulher, decidimos comprar um apartamento com 4 assoalhadas em Paço de Arcos. Pedimos um empréstimo ao Banco a pagar durante 25 anos.

A nossa vida, nesse período, não foi fácil. As creches públicas eram raras e as particulares caras. A prestação da casa, a água, a luz, o telefone e os transportes levavam mais de metade do meu vencimento. Com o resto pagávamos a creche da miúda e alguma roupa nova. O ordenado da minha mulher era para comida, alguma extravagância pontual e a prestação do carrito. Ao fim do mês sobrava muito pouco na conta bancária. Em 1992, o Governo alterou as regras de cálculo da pensão. A partir desse ano, em vez dos 5 melhores salários dos últimos 10 anos, passou a usar os melhores 10 salários dos últimos 15 anos. O Costa fez uma simulação da minha pensão que baixava para 78% do último salário. Mesmo assim, não era nada mau. Não fiquei muito preocupado e como tinha outras prioridades não fiz nada.

Em 2001 mudaram outra vez as regras de cálculo da pensão. Em vez de se basearem nos melhores 10 salários dos últimos 15 anos passou a considerar-se os salários de toda a carreira contributiva. Para além disso a taxa de formação da pensão passava de 2% ao ano, para um valor do intervalo entre 2.30% e 2%, consoante os múltiplos do salário mínimo nacional que compunham o salário do trabalhador. Pedi ao Antunes, do Pessoal, para me fazer a simulação da pensão (o Costa já estava reformado) e o valor provável a que chegou foi de 69% do salário final. Perdia cerca de 10 pontos percentuais em relação à previsão de 1984!

Mas aos 37 anos eu era um felizardo. Como já tinha 16 anos de contribuições efectivas, beneficiava de uma tripla opção. Quando me reformasse eu podia escolher a mais elevada das pensões: a calculada com a fórmula antiga, a resultante da fórmula nova, ou a combinação, proporcional ao tempo, da nova e da antiga fórmulas. Ou seja eu ficava com 78% do salário final com que já contava. Não fiz nada porque tinha outras prioridades. E chegamos a 2006 quando de repente o céu cai sobre a minha cabeça.

Aos 43 anos, hoje, decretam que:
1) já não há opção e a minha pensão será uma combinação de fórmula antiga e fórmula nova;
2) para além disso, como me vou reformar em 2028, serme-á aplicado um factor de redução da pensão (factor de sustentabilidade) que depende da futura esperança de vida aos 65 anos. A minha pensão, segundo o Antunes, pode chegar, com sorte e se não houver outras alterações, a 65% do último salário, ou seja menos 14 pontos percentuais em relação à promessa de 1984. Acontece que agora tenho de fazer qualquer coisa. Tenho de poupar! Mas como, se tenho ainda um empréstimo para pagar, com os juros a subirem? Mas como, se tenho .encargos com as propinas da Universidade da minha filha e os estudos do miúdo? Mas como, se tenho os velhotes que precisam de uma pessoa para cuidar deles?

Parece que a pensão dos meus filhos não será superior a 55% do salário final, como na Finlândia, país que, como se sabe, tem outras condições de vida, quer no apoio aos que nascem e aos jovens casais, quer na garantia de uma vida digna aos seus velhotes. Se eu precisar, e Deus queira que não, será que eles me poderão apoiar como eu ajudo hoje os meus pais?

Dizem que as alterações são para corrigir injustiças e para compensar o aumento da minha longevidade. Não contesto. Mas será que viver mais anos, quer dizer viver melhor? Quanto custa uma residência assistida com condições de dignidade e apoio espiritual? Mas porque é que o Estado me prometeu o que não me podia garantir?


Este artigo reflete a situação real de milhares e milhares de trabalhadores portugueses que foram ludibriados por sucessivos governos e que, de forma absolutamente unilateral, alterou por diversas vezes as regras de cálculo das reformas, frustando, deste modo, as mais legítimas expectativas de quem um dia se iria reformar.

E fizeram-no por causa da presumível falência da Segurança Social? Não creio. Acredito antes que tudo tem acontecido pela visível incompetência dos políticos que não souberam ou não quiseram respeitar a dignidade e a esperança de quem contribuiu durante tantos anos para um Estado que, pensavam, poder protegê-los. Enganaram-se completamente, restando-lhes, como ao Álvaro, a pergunta que, pelos vistos, ninguém é capaz de lhes responder: Porque é que o Estado me prometeu o que não podia garantir?"

O artigo do Professor Carlos Pereira da Silva é elucidativo. Desde 1984, quando protagonista da história começou a descontar para o Regime de Segurança Social e até ao momento presente, o Estado alterou 3 vezes as regras do jogo. Isto é, em apenas 22 anos o Estado decidiu alterar as regras anteriormente definidas, aquelas em que os trabalhadores sustentavam as suas expectativas de carreira e de reforma e, tudo isto, sem atender à circunstância do número de anos em que fizeram descontos, ou seja, sem tomar em consideração se os trabalhadores começaram a sua carreira contributiva há 20 anos, há 10 ou na semana anterior.

Podem afirmar que as sucessivas revisões das fórmulas de cálculo foram feitas a pensar na sustentabilidade da Segurança Social, mas eu pergunto se esta mesma Segurança Social terá legitimidade para empurrar trabalhadores que durante anos e anos contribuiram e ajudaram a manter o sistema para uma situação que se adivinha de pobreza extrema?

terça-feira, setembro 26, 2006

À volta da gramática

Quando eu há dias afirmei que fico aborrecido sempre que dou conta que estou a aprender coisas que, estou mesmo a ver, mais tarde ou não vão interessar para nada, ou já nem sequer vão ser assim, não conhecia, ainda, a dita “terminologia linguística” que vai ser introduzida nos ensinos básico e secundário e já consta nos manuais escolares.

Segundo o que li na imprensa, apesar da inovação já fazer parte dos respectivos programas neste ano lectivo que agora começou, nem os livros foram devidamente avaliados nem os professores estão todos preparados para leccionar esta matéria. Como costumo dizer, “isto só neste país”.

Mas, afinal, o que é isto da “Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário (TLEBS)? Se bem percebi, por meia dúzia de exemplos que vi no jornal, trata-se de uma alteração das regras da gramática que vigoraram toda a vida e que vai fazer de nós, dentro de pouco tempo, uns completos ignorantes. Afinal, não é só o desconhecimento das novas tecnologias que nos vai deixar nas mais profundas trevas.

Se não, vejam:

- Antes, um substantivo era concreto ou abstracto e designava-se o número (singular ou plural) e o género (feminino ou masculino). Agora, para além destes aspectos, acrescentam-se as noções de contável e não contável, humano e não humano e animado e não animado. Deixem-me fazer um aparte para dizer que estou deveras curioso para saber o que vai ser um substantivo animado.

- Antes, “testemunha” era um substantivo feminino e “cônjuge” um subtantivo masculino. A partir de agora, desigam-se os dois por “substantivos epicenos”.

- Antes, a classe dos advérbios abrangia os de lugar, de modo, de tempo, de negação, de afirmação e de dúvida. Agora o advérbio pode designar-se “modificador” e divide-se em negação, adjunto (lugar, modo e tempo), disjunto (afirmação e dúvida) e conectivo.

- Antes, designava-se sujeito indeterminado ou nulo para os verbos impessoais, tais como, “anoitecer” e “haver”. Agora passa a designar-se por “sujeito nulo expletivo”.

- Antes designava-se por “aposto” o que, entre vírgulas, acrescentava algo ao sujeito (p.e., D.Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, tem no ...). Agora designa-se por “modificador do nome apositivo” e dentro deste conceito, diferencia-se o “nome apositivo de tipo nominal”, o de “tipo adjectival”, o de “tipo preposicional” e o de “tipo frásico”.

Chega de exemplos que não quero baralhar-vos mais. Tenho consciência que uma língua viva está em constante mutação, mas será que estas alterações têm assim tanto interesse para quem ainda está a frequentar os ensinos básico e secundário? A ser importante, não deveria ser coisa para quem frequentasse linguísticas, já na Faculdade?

De uma coisa eu estou certo, a partir de agora, pais e avós vão ter muito mais dificuldade em acompanhar os miúdos na sua vida escolar.

Viva a nova gramática!

segunda-feira, setembro 25, 2006

Mistérios ...

Durante o pequeno-almoço do passado sábado, tive um daqueles desabafos que, penso, a maioria das pessoas costuma ter (não necessariamente ao pequeno-almoço), do género “este mês não sei que raio de despesas tive, que o dinheiro foi-se mais rapidamente do que o costume, e não faço sequer ideia para onde”. Apesar das sugestões avançadas pela família “não seria em ...?” ou “provavelmente gastaste no...” acabei por sair de casa sem fazer a mínima ideia de como o dinheiro foi gasto.

Eis senão quando, ao comprar o Semanário Expresso, logo na primeira página e com o devido destaque, vejo escarrapachada a notícia que os 26 maiores hospitais públicos do país não têm o registo dos laboratórios a quem pagaram 55,283 milhões de euros em medicamentos, um valor que corresponde a 11,1 por cento dos gastos totais com medicamentos no ano passado.

Espera aí, pensei, lá que eu não tenha ideia onde é que este mês gastei mais dinheiro do que contava, ainda vá. Mas relativamente aos hospitais, ainda por cima aos 26 dos maiores hospitais públicos como é que se admite que eles não saibam a quem é que pagaram os medicamentos, não, isso aí já é demais. É que estamos a falar de hospitais públicos, cujo accionista é o Estado, estamos a falar dos dinheiros dos contribuintes, instituições que deveriam ter contabilidades devidamente organizadas e actualizadas e sistematicamente auditadas. E não sabem a que laboratórios é que pagaram mais de 55 milhões de euros? Só pode ser brincadeira.

Ao que consta o estudo efectuado pelo Ministério da Saúde, indica que a informação recebida dos hospitais aponta para pagamentos efectuados "para os quais não foi possível identificar os laboratórios” mas, acrescenta, que “os valores estão todos contabilizados”.

Pudera, as verbas estarem contabilizadas é o mínimo que se poderia esperar. Mas isso não é o suficiente, com certeza de que não ficamos descansados só por esse facto.
Não sabemos, por exemplo, se esses pagamentos foram efectivamente feitos e a quem. Aos laboratórios que forneceram os medicamentos ou a terceiros que nada têm a ver com o caso? E, não havendo documentos que identifiquem esses pagamentos, não sabemos também se as verbas pagas foram as correctas ou se haverá por aí uma mãozinha marota que esteja sobre-valorizar a facturação e a respectiva contabilização e a retirar as diferenças para proveito próprio, sabe-se lá de quem.
Na verdade, não há nada mais conveniente do que fazer desaparecer documentos que impossibilitem identificar quando, a quem e por que verbas foram feitos esses pagamentos e se eles foram autorizados por alguém com poderes para tal.

E a responsabilidade, afinal, é de quem?

E estava eu tão preocupado por não me lembrar para onde é que se evaporou o meu dinheirinho...

domingo, setembro 24, 2006

Vanessa Fernandes, vencedora do circuito mundial de triatlo


É bom, é sempre agradável começar uma semana com uma boa notícia. Desta vez, a propósito de um feito notável alcançado por uma atleta nacional.

A portuguesa Vanessa Fernandes, vice-campeã mundial de triatlo, venceu este fim-de-semana a etapa chinesa da Taça do Mundo, e, não satisfeita apenas com esta proeza, conseguiu igualar o recorde de 12 vitórias consecutivas (o recorde das 12 vitórias seguidas fora estabelecido por Emma Carney entre 1993 e 1995, quando apenas cerca de três dezenas de atletas femininas disputavam a Taça do Mundo).

Com este triunfo em Pequim, Vanessa Fernandes é a virtual vencedora do circuito mundial, mesmo que não participe nas duas últimas etapas da competição.

A vitória de Vanessa Fernandes – a Vanessa que eu integraria sem hesitar na chamada “Marca Portugal” - é um motivo de orgulho para os portugueses, orgulho esse que, espero, nos transmita um pouco mais de auto estima que tem andado um pouco arredia do nosso quotidiano.

quinta-feira, setembro 21, 2006

As sete maravilhas do mundo

Todos nos lembramos de nos ensinarem na escola quais eram as “sete maravilhas do mundo” – os Jardins suspensos da Babilônia, as Pirâmides de Gizé, a Estátua de Zeus, o Templo de Ártemis, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria.

Estas eram as sete maravilhas originais, as do mundo antigo,
aquelas que foram escolhidas há mais de 2000 anos e que reuniam as mais notavéis realizações da antiguidade, todas elas, curiosamente, provenientes de civilizações mediterrânicas.

De todas essas maravilhas apenas as três pirâmides de Gizé (
Keóps, Quéfren e Miquerinos) continuam a existir, tendo todas as outras desaparecido.

Sendo assim, fazia todo o sentido que se começasse a pensar noutras maravilhas, tão deslumbrantes (ou mais) como as primeiras, mas mais modernas e mais condicentes com o mundo de hoje, com a arte e as tecnologias do mundo contemporâneo. E aqui é que foi o busílis, que é como quem diz, aqui é que surgiu a grande dificuldade de se achar um consenso.


De facto, não é fácil elaborar uma lista que contemple, apenas, as 7 maravilhas do mundo, sabendo quantas e quantas maravilhas naturais, ou feitas pelo homem, existem por esse mundo. Estou-me a lembrar, por exemplo, da Grande Muralha
da China, no Taj Mahal, na Índia, de Machu Picchu, no Perú, do Grand Canyon, nos EUA, da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro e das Cataratas Vitória (Victoria Falls), entre a Zâmbia e o Zimbábue.

Há muito por onde escolher e, como sempre, os interesses associados são imensos. Por isso, já no corrente ano de 2006 a fundação New 7 Wonders deu início a um projecto que visa escolher as novas sete maravilhas do mundo contemporâneo, para o que compôs uma lista de onde sairão os sete magníficos:

O concurso acaba no fim deste ano e, até lá, todos podemos ser cúmplices na escolha dos que consideramos os melhores, desde que visitemos, para votar, o seguinte endereço www.new7wonders.com.

Como repararam, o Alhambra, em Granada é o monumento a concurso mais próximo de Portugal. Apesar de sermos um país lindíssimo, as nossas belezas não foram sequer consideradas (por acaso, e só por acaso, estava a pensar no Gerês e no Estádio da Luz, em Lisboa). No entanto, e como prémio de consolação, vamos ter a honra de organizar um mega-espectáculo onde serão anunciados as tais sete maravilhas da era moderna, espectáculo que, de resto, Lisboa ganhou ao Dubai e a várias cidades de Itália, Espanha e da Malásia.

Embora não nos dê um conforto por aí além, do mal, o menos...

quarta-feira, setembro 20, 2006

Uma leitura possível ...


A fotografia foi-me enviada com a seguinte legenda “Nazaré no seu melhor”.
Não, não pode ser, pensei, a Nazaré tem coisas bem melhores e mais interessantes para mostrar do que isto.

Vendo bem as coisas, esta imagem poderia ter sido recolhida em qualquer ponto do nosso país, porque, de facto, nada referencia a cena como sendo genuína daquela localidade.
Primeiro, porque nem à lupa se conseguem ver as sete saias típicas das mulheres da Nazaré na vendedeira que se se vê à esquerda da fotografia.

Depois, porque nas miríades de coisas que estão expostas no mostruário não se vê uma única peça genuinamente nazarena. Nem os barcos em miniatura, nem os objectos feitos com base em conchas e redes de pesca nem, sequer, os célebres carapaus secos que, como sabem, são carapaus frescos que ficam não sei quantos dias a secar ao sol em cima de armações de rede e cujo sabor acaba por resultar não do do próprio carapau mas da presença das moscas e das varejeiras que constantemente poisam nos ditos.

A terceira razão vem do facto de se saber que todas as nazarenas “oferecem” quartos, rooms, chambres e zimmers para alugar e todas elas calçam chinelas, que é, de facto, o seu calçado característico. Ora como se prova na fotografia anexa, nem a vendedeira está a tentar arrendar um quarto a um turista de última hora, nem os seus delicados pés estão enfiados em chinelas. Pelo contrário, os pés estão “desenfiados” ao abandono, quem sabe se a descansar de tantos cansaços e o que se vê ao lado são umas sandálias já gastas e, por acaso, muito masculinas.

Os tremoços, amendoins, cajús, figos secos, pinhoadas (ai, como eu gosto de pinhoadas) e a tralha “a monte” que está por baixo da bancada que nem a toalha de plástico barata tapa, os guarda-sóis do “café Torrié” e da “CocaCola”, nada disso é esclarecedor do lugar onde está instalada a venda.

Admito, porém, que a fotografia possa ter sido tirada na Nazaré, o que põe em causa tudo o que eu disse antes. Isto, se esta mesma fotografia não nos esteja a mostrar apenas, com todo a crueza, um repentino ataque de sono da vendedeira que não conseguiu aguentar mais o corpo e se atirou para trás entregando-se nos braços de Morfeu, sono a que o cão não foi insensível e procurou responder com um expressivo bocejo.

Mas poderá não ser nada disso e ter acontecido que a vendedeira poderá estar mesmo à espera de ver chegar alguém. A ser na Nazaré, o enquadramento da fotografia faz-nos admitir que aquele lugar é no “Sítio” e, se assim for, a vendedeira de certeza que estaria com toda a atenção à possível aparição, repentina por certo, e nunca observada, de D. Fuas Roupinho.

Com um pouco de atenção ao detalhe, perceberemos que a vendedeira confiou plenamente a venda dos seus produtos ao cão (nota-se claramente que o bicho acabou de fazer um pregão há pouco) mas a falta dos compradores deixou-o cabisbaixo e abatido como se vê.

Quanto à sua dona, apesar da posição incómoda em que se encontra e apesar da manhã levemente enevoada que se vê por detrás dela, igual àquela outra em que 1182 o fidalgo foi salvo pela Virgem, ela espera pacientemente pelo seu D. Fuas que, quem sabe, não tardará a chegar.

terça-feira, setembro 19, 2006

De Plutão a Plutinho


Uma coisa que me aborrece a sério é a de termos que “enfiar” montanhas de informação nas nossas cabecinhas durante uma vida inteira, tantas e tantas vezes a forçar a aprendizagem de conceitos e saberes para, uns anos depois, se verificar que a coisa não é bem assim ou que nem sequer é assim, ponto.

Durante décadas disseram-nos que as sardinhas, as sardas e outros peixes quejandos não eram uma boa alimentação e, um belo dia, deram o dito pelo não dito e proclamaram que nada fazia melhor à saúde do que comer precisamente as sardinhas e as sardas. Deveríamos, pois, usar e abusar daqueles peixes porque faziam baixar o colesterol e ainda faziam bem a uma data de coisas.

No mesmo período, nas mesmíssimas décadas em que nos falaram das sardinhas e das sardas, ensinaram-nos nas escolas, lemos nas enciclopédias que os planetas (os planetas ditos clássicos) que compunham o sistema solar eram Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno e Plutão, para agora um grupo de especialistas de 75 países reconhecerem que a classificação de Plutão (descoberto em 1930 e o mais pequeno, o mais frio, o mais distante e o único que nunca foi visitado) foi um grandessíssimo erro.

Para que um objecto espacial possa ser designado de planeta tem que obedecer a três condições: estar em órbita em volta do Sol, ter massa suficiente para que a sua própria gravidade o deixe com uma forma quase esférica e ser um objecto dominante na sua órbita. E foi precisamente esta última condição que atirou Plutão para fora do grupo onde estava instalado há muito.

Assim e por decreto dos 2500 astrónomos reunidos em Praga, Plutão baixou de divisão e deixou de ser um planeta para integrar a segunda liga, a divisão dos corpos celestes de gelo. É a vida!

Resta-nos a consolação de que, pelo menos para os que acreditam no que dizem os signos, que o facto de Plutão deixar de ser um planeta não vai afectar o signo de que é regente, o Escorpião. Isto porque, por analogia, já o signo de Caranguejo é regido pela Lua e o signo de Leão é regido pelo Sol que, como sabemos, também não fazem parte dos planetas tradicionais que compõem o sistema solar.

Pelo menos por agora, porque daqui a uns tempos já não digo nada ...

segunda-feira, setembro 18, 2006

Sardinhadas


Não que fosse absolutamente necessário, mas as férias, o calor e o mar aguçaram-me o apetite para comer umas quantas sardinhadas.

A sardinha é particularmente saborosa nesta época do ano e, ao contrário do que diz o adágio popular que “a mulher quer-se pequenina como a sardinha”, devo dizer que eu aprecio mais as de tamanho médio/grande, de belos lombos (estou, obviamente, a referir-me às sardinhas, que é o tema de que estamos a falar hoje).

A sardinha para além de fazer bem (ao que dizem) ao colesterol, continua a ser um óptimo petisco, de preferência regada por um bom azeite, acompanhada por um bom tinto ou, quando muito, por uma sangria, e comida em lugar aprazível.

Mas comer sardinhas pode, por vezes, provocar-nos algumas arrelias, para além daquelas, claro está, que têm a ver com as espinhas que engolimos por descuido. Se calhar, mais do que provocar arrelia, mais ainda do que provocar incompreensão, o que provoca mesmo é a revolta de todos nós, por sabermos que o preço da sardinha desde que é capturada até chegar ao consumidor, aumenta nada menos que 7 vezes. SETE VEZES MAIS. É obra!

Mesmo tratando-se de um peixe dito barato (pelo menos mais barato que a maioria), porque é abundante, mesmo assim, ela poderia ser vendida a um preço muito mais em conta. É bom lembrar que cada português consome em média 56,5 quilos de peixe por ano, o que faz do nosso país o maior consumidor de pescado da União Europeia e o terceiro a nível mundial, logo atrás da Islândia e do Japão. E não me parece que os tais 56,5 quilos de peixe consumidos por cada português diga respeito maioritariamente ao consumo da garoupa, do pargo legítimo ou do linguado. Estão a ver onde quero chegar?

O preço de venda da sardinha poderia ser muito mais baixo e, portanto, mais justo. Todos os consumidores agradeceriam.

domingo, setembro 17, 2006

Marta Hugon, um nome a fixar

As férias dão-nos, de uma forma geral, uma vontade acrescida de mergulhar em novas experiências e descobertas. Em todos os sentidos.
Há mais tempo, há mais disponibilidade mental, há mais vontade para “saborear” melhor os novos paladares, as novas fragrâncias, os estilos literários menos conhecidos (e os clássicos, também) e os novos sons.


Amante sem reservas do jazz, sobretudo do jazz dito clássico e dos clássicos que desde sempre o interpretaram, foi com puro deleite que descobri uma nova cantora portuguesa deste estilo musical – Marta Hugon.

Vezes sem conta percorri os 11 temas deste disco - “Tender Trap” – e deliciei-me com a voz suave, quente, insinuante e cheio de swing de Marta, que é acompanhada por um magnífico trio composto por Filipe Melo , no piano, Bernardo Moreira, no contrabaixo e André Sousa Machado na bateria.

Uma descoberta feliz de uma belíssima voz e de uns óptimos músicos. Aconselho, pois, vivamente, este CD a todos os que gostam de música em geral e de jazz em particular.

Deixem-se seduzir por temas como “In Love In Vain”, “I feel so smochie”, “Too close for confort”, a brasileira “Falsa Baiana” ou o incontornável “Manhattan”.

A não perder!

quinta-feira, setembro 14, 2006

Sei lá, pensem o que quiserem ...



Juro que que eu não inventei. Tão-pouco sonhei com tal coisa. Mas a notícia apareceu numa das últimas edições do Expresso e, ao que parece, transcreve a resposta de Pinto da Costa a uma juíza do caso “Apito Dourado”:

“Vivo do vencimento mensal de 400 euros que aufiro em virtude da minha participação de 10.000 euros na SAD. Não tenho outros rendimentos. Pago 1.000 euros de renda de casa...”

Sem palavras!

quarta-feira, setembro 13, 2006

A Lenda do Galo de Barcelos

A verdade é que neste país em que quase nada se passa e parece haver tão poucos assuntos interessantes para falar, provavelmente a única coisa que nos resta, é preocuparmo-nos com os problemas dos futebois, das invejinhas e dos “interesses pequeninos” das regiões e dos protagonismos balofos de alguns pacóvios cá da terra. Muito mais interessante, sem dúvida, e muito mais enriquecedor para a nossa cultura pessoal, do que sabermos, por exemplo, qual foi a origem do maior ex-libris da cidade de Barcelos, ainda que a história nos chegue através de uma simples lenda.

Esquecendo então, por momentos, o Gil Vicente, (o Clube de Futebol da cidade de Barcelos), o jogador brasileiro que tem estado na base de todo este imbróglio e que dá pelo nome de Mateus Galiano (e eu que julgava que tudo isto era por causa do nosso Mateus Rosé, que até é um vinho apreciado no estrangeiro) e qual a decisão dos orgãos máximos do ponta pé na bola (que não se entendem entre eles) sobre se o Gil fica ou não na primeira liga, recordemos antes essa história que está na base do aparecimento de um dos mais famosos símbolos portugueses – o Galo de Barcelos – esse sim, conhecido em todo o mundo.

Ora conta a lenda que os habitantes de Barcelos andavam alarmados com um crime e, sobretudo, andavam preocupados porque não se tinha descoberto o criminoso que o cometera.
Certo dia, apareceu um galego que se tornou suspeito. As autoridades resolveram prendê-lo e, apesar dos seus juramentos de inocência, ninguém o acreditou.
Antes de ser enforcado, pediu que o levassem à presença do juiz que o condenara. Concedida a autorização, levaram-no à residência do magistrado, que nesse momento se banqueteava com alguns amigos.
O galego voltou a afirmar a sua inocência e, perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a mesa e exclamou:”É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”.
Risos e comentários não se fizeram esperar, mas pelo sim e pelo não, ninguém tocou no galo, e o que parecia impossível, tornou-se, porém, realidade! Quando o galego ia ser enforcado, o galo assado ergueu-se na mesa e cantou. A partir dessa altura já ninguém duvidou das afirmações de inocência do condenado. O juiz correu à forca e quando viu o pobre homem ainda de corda ao pescoço, mandou-o imediatamente soltar e ir em paz.

E, lenda ou não, o Galo de Barcelos tornou-se o maior símbolo da cidade.

terça-feira, setembro 12, 2006

O grande corredor ibérico ...


Tinha começado justamente as minhas férias, quando o país desabou de contentamento com as proezas atléticas de um nosso compatriota. Aliás, numa época em que tudo está parado e nada há para comentar, mesmo que seja só para dizer mal, as vitórias do nosso português vieram mesmo a calhar.

Claro está que em Portugal toda a gente conhece Francis Obikwelu. Para além de ser um nome tipicamente português, que anda na boca de todos os portugueses, pelas melhores razões, já se vê, o homem é um verdadeiro campeão. Independentemente de outros feitos já conseguidos, só este ano cometeu a proeza de ganhar as corridas dos 100 e dos 200 metros do Campeonato Europeu de Atletismo, que se realizou em Gotemburgo. Proeza idêntica que só fora conseguida pelo italiano Pietro Menea em 1978.

Mas para além de reconhecer que Francis é, de facto, um atleta de um enormíssimo valor, e que representou de forma digna a alma e a raça lusitana, não posso, ainda que isto vos possa parecer mal, deixar de questionar o seguinte:

Francis é nigeriano de nascimento, embora naturalizado português. Vive e treina em Espanha com treinadores espanhois. Onde é que nós, afinal, entramos na história? Onde está a nossa mais valia? Qual é o contributo português para gerar tão grande atleta? Desculpem lá, mas gostaria que me explicassem isso. É que há coisas que me custam a digerir.

A quem, também, custa digerir estas vitórias do corredor portugês é aos “nuestros hermanos” que, ainda por cima, não obtiveram lá grandes resultados nestes Europeus. Quando os principais Telediários espanhois anunciaram as vitórias de Obikwelu, ouvimo-los anunciar com o seu proverbial entusiasmo que Francis Obikwelu, o grande corredor ibérico, tinha ganho as corridas dos 100 e dos 200 metros.

“Ombre, que tios...,”

segunda-feira, setembro 11, 2006

Sem Justificação

É daquelas notícias que mesmo que eu não estivesse de férias, repararia com toda a certeza, porque é demasiadamente forte para poder passar despercebida.

Então não é que Portugal foi o único país que não compareceu à reunião da CPLP que decorreu há umas semanas em Brasília e cujo o tema era a “alfabetização”?

O facto do nosso país ter faltado já é grave, mas mais grave se torna quando o assunto em debate era exactamente o problema da “alfabetização”, precisamente aquilo que andamos a discutir há um ror de tempo, de que a língua portuguesa (que não é só de Portugal e onde até nem somos assim tantos como isso a falá-la) deve ter cada vez maior expressão em todo o mundo, por forma a sermos realmente ouvidos, e, por essa via, a ocuparmos o lugar que devemos efectivamente ter na cena internacional. Por isso, porque é urgente, URGENTÍSSIMO, andamos há tanto tempo a bater-nos por querer melhorar os níveis de alfabetização e de cultura dos povos que falam a língua portuguesa.

Pois os responsáveis pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros assim não o entenderam e chegaram até a arranjar uma desculpa esfarrapada, do género “por causa de contigências várias...”, para justificar a nossa ausência. Mas que raio de justificação foi esta, Dr. Luís Amado?

Não entendo esta atitude do MNE. Nem eu nem os responsáveis dos outros países presentes que chegaram a admitir que sendo Portugal um país do Norte não estaria interessado em participar numa reunião de cooperação Sul-Sul.

Mas não deixa de ser confrangedor que Portugal, com as suas responsabilidades históricas e a influência que tem na CPLP, se tenha alheado desta forma e tenha falhado um encontro tão importante, promovido pelo Governo Brasileiro e pela Unesco e que, ainda por cima, se dispuseram a pagar as despesas dos participantes.
Foi, no mínimo, lamentável!

domingo, setembro 10, 2006

Brindemos!

Eu não disse que voltaria no dia 11? Cá estou! Por acaso até cheguei um bocadinho mais cedo mas, o que querem, tinha tantas saudades vossas que decidi antecipar por umas horas o meu regresso. E com uma alegria redobrada porque, no passado dia 31 de Agosto, o nosso blogue fez um aninho, o seu primeiro ano de vida (parabéns a você nesta data querida, vá lá, cantem também...). Penso que é a altura de fazermos um brinde. É verdade, parece que foi ontem e já lá vai um ano. Tímido, ainda, um tanto ou quanto hesitante às vezes, mas, apesar de tudo, já vamos andando com as nossas próprias perninhas. É, pois, motivo para brindar com uma taça de ...

Pois, essa é uma boa questão. Vamos brindar com uma taça cheia de quê? É que costuma dizer-se que não se pode brindar com um qualquer líquido, sobretudo com a água, não é? Vejamos então...

Há regras que vêm, sabe-se lá desde quando e que perduram indefinidamente sem que se saiba quem as ditou e porque razão, acabando muitas delas por constituir a própria tradição.

É o caso de não se poderem fazer brindes com água. Quando toda a gente levanta o seu copo no ar e há um incauto (que até, coitado, só pode beber água, por gosto ou por doença) que levanta o copo com água lá dentro, a reacção, quase sempre histérica ou de troça, não se faz esperar: “A brindar com água, estás louco, ou quê?”. Este “ou quê” cai sempre muito bem e arruma definitivamente quem já está na “mó de baixo”.

Fazer tchim-tchim com um copo de água é coisa que não cai lá muito bem, quero dizer, não é lá muito bem visto numa qualquer reunião social. O infeliz que o faz, arrisca-se a ser posto imediatamente de lado, desprezado e desconsiderado, e arrisca-se fortemente a ser chutado sem dó para fora da sala.

Mas, o motivo mais forte, digamos, o motivo que ainda hoje reune um maior concenso para não se brindar com água, prende-se, sobretudo, com o facto de poder dar azar. Nem mais. Um dia alguém se lembrou de dizer que brindar com água dava azar e zás, todos aceitaram sem perguntarem os porquês.

Mas eu que nunca alinhei nessa treta e, ao cabo de uns anos de pesquisas aturadas, cheguei à conclusão (embora sem ter a certeza certa) de que se pode, efectivamente, fazer brindes com um copo de água. E porquê?

A história remonta à época dos descobrimentos. Como as “cascas de noz” a que os descobridores chamavam de caravelas tinham um espaço muito limitado e porque não havia estações de serviço que dessem apoio aos navegadores em alto mar, todos os produtos eram criteriosamente escolhidos porque a viagem poderia ser longa. Assim, e dado que a água potável era indispensável para matar a sede a toda a tripulação, sabe-se lá por quantos meses, as naus procuravam levar toda a água que pudessem, mas a sua gestão, era, naturalmente, rigorosa. Quase sempre com recurso ao racionamento.

Assim, e para poupar a preciosa água, os comandantes impuseram que todas as celebrações só poderiam fazer-se com rum, ou com aguardente mas nunca poderiam ser festejadas com água porque isso traria um azar imenso a quem o fizesse, argumentavam.

Ainda hoje, passados séculos, ainda se costuma ouvir que não se deve brindar com água porque dá azar. Ainda hoje, ao brindarmos com água, sem o receio de que ela nos venha a faltar e possamos morrer à sede, se faz a pergunta a quem tem tamanha ousadia “A brindar com água, estás louco?”. Aqui, e não me perguntem porquê, não utilizei, propositamente, o “ou quê”?

Brindemos, pois, sem medos, com uma taça de champanhe, de gasosa, de chá, de vinho, de leite … ou de água, por mais este ano que agora iniciamos.

Ip, ip, ip, hurra!
À nossa saúde!