quinta-feira, março 30, 2006

Uma “receita” para enriquecer

Há já uns quantos anos que ando a pensar qual será a melhor forma de enriquecer, se possível rapidamente, e sem ser à custa da venda de drogas e de armas.

Consultei imensos sítios na Internet, falei com amigos, tentei aliciar futuros sócios para eventuais negócios, mas as oportunidades nunca se mostraram suficientemente aliciantes. E um dos motivos que mais dificultava o arranque do “tal negócio” esbarrava inevitavelmente na burocracia excessiva de que, afinal, todos se queixam. Nomeadamente na criação e legalização de uma empresa. Sim, porque a criação de uma empresa parecia-me ser o primeiro passo a dar.

Os esforços, no entanto, foram compensados. Descobri que há um país onde constituir uma empresa demora, em média, uma hora e treze minutos, onde são criadas, por via informática, 20 empresas por dia, onde cerca de 15% das empresas já nascem desta maneira e onde o custo de todo o processo é de, apenas, 360 euros.

Aposto que já estão a imaginar que o país onde tudo isto acontece é nos Estados Unidos, ou na Suécia ou no Japão.

Mas enganaram-se, meus amigos, esse país milagroso é o nosso, isso é possível fazer-se aqui em Portugal. E o projecto (Empresas na Hora) que permitiu este sucesso está em vigor desde 14 de Julho do ano passado e guindou Portugal ao primeiro lugar da tabela europeia dos países onde a constituição de empresas é mais rápida.

Descobri que podia criar uma pequena ou média empresa em tão pouco tempo e com um só formulário.
O primeiro passo estava dado, mas não era ainda o suficiente para poder enriquecer. E depressa, como referi.

E porque não consta que se consiga enriquecer rapidamente sem ser com recurso a meios “pouco ortodoxos”, pensei que o que seria bom era se, depois de ter uma empresa devidamente legalizada, depois de ter conseguido reunir o crédito necessário junto da Banca e dos fornecedores, conseguisse, em pouco tempo, provocar a falência da minha empresa.

Claro que já perceberam que isto é, apenas, fruto da minha fértil imaginação, ou, quando muito, o resultado de ver tantos filmes, porque o que acabo de dizer nunca seria possível acontecer aqui em Portugal, onde toda a gente sabe que todos os empresários são sérios e que bla-bla-bla,, bla-bla-bla,.

Bem, no nosso país, é capaz de ter havido um ou outro caso desse tipo. Aliás, lembro-me de ter visto uma entrevista que a televisão fez a um empresário que fechou a fábrica têxtil e ficou a dever aos empregados, aos fornecedores, ao Fisco e à Segurança Social. O homem encerrou a fábrica e uma semana depois abriu uma outra na mesma localidade, contratou uns operários (alguns dos quais que vieram da outra fábrica) e começou imediatamente a laborar.
Quando a jornalista lhe colocou a questão de ele ter ficado a dever a tanta gente, ele, com a maior desfaçatez, respondeu que ela estava enganada, quem devia esse dinheiro era a empresa que estava falida e não ele, portanto, ele nada tinha nada a ver com o assunto …

Recuperando o fio à meada (fruto apenas da minha imaginação, como já disse), tinha a empresa legalizada, tinha o crédito, começara a trabalhar e, de repente, zás … ia tudo para a falência.

Ora, sabe-se que no nosso país, as falências demoram, em média, uma década e durante o processo desaparece quase um terço dos activos do que se está a liquidar. Como a Lei das Falências dá primazia aos pagamentos ao Fisco, à Segurança Social e aos trabalhadores, a maioria dos parceiros do negócio, os credores, conseguem na melhor das hipóteses recuperar menos de 10% das dívidas a que tinham direito, quando não, arcam com o prejuízo na totalidade.

Ou seja, pouco mais de uma hora para constituir uma empresa e dez anos para sepultá-la e com as vantagens (para os prevaricadores, já se vê) que descrevi. É ou não é uma grande ideia?

Claro que isto nunca daria certo, nunca poderia acontecer. Só estava mesmo a pensar, a pensar nada mais…

quarta-feira, março 29, 2006

No mundo do fantástico


Se calhar para a maioria das pessoas, o nome de Tim Burton não dirá grande coisa. Confesso que para mim também não me dizia rigorosamente nada até há bem pouco tempo. E foi por influência do meu filho que fui levado a conhecer um pouco da sua obra.

Tim Burton nasceu em 1958 e é um produtor e realizador de cinema e escritor. Mas, para além disso, atrever-me-ia mesmo a dizer que Tim Burton é um excêntrico e um criador de um universo que engloba estranhas criaturas, onde alia o sonho ao macabro.

Da sua cinematografia vi apenas “O Estranho Mundo de Jack”, que considero um extraordinário filme, onde a magia e a fantasia são acompanhadas por uma fabulosa banda sonora e, dos seus livros, só li “A Morte melancólica do Rapaz Ostra e Outras Histórias”.

É precisamente deste livro que escolhi um poema de sinistra comicidade, intitulado “A rapariga com muitos olhos”, que gostaria de partilhar convosco.


Um dia no jardim
Fiquei muito espantado:
Encontrei uma miúda
Com os olhos por todo o lado.


Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
E, porque tinha boca para falar,
Pusemo-nos a conversar.

Falámos sobre flores
E das suas aulas de poesia,
E dos problemas que teria
Se tivesse miopia.

É óptimo namorar
Alguém que tanto nos olha,
Mas se desata a chorar
Apanhamos uma molha

terça-feira, março 28, 2006

Para que não haja dúvidas

“O meu capitão dá licença?
O que é?
Fiz um prisioneiro
E onde é que ele está?
Não quis vir…

Na guerra há prisioneiros teimosos, a gente puxa, puxa e eles não vêm. Feitios, não é?”


Alguns recordarão este trecho da deliciosa “História da ida à guerra de 1908”, contada há muitos anos pelo actor Raul Solnado. Na época foi uma novidade e, de certo modo, ele e as suas histórias, foram os percursores em Portugal do “non sence” e das, agora em voga, representações de “stand up”.


Pois bem, e voltando à historia que vos quero contar, reconhecendo que há feitios mais difíceis, mais teimosos, mais tortos, se quiserem, o vereador do trânsito da autarquia da minha cidade, para que não restassem quaisquer dúvidas sobre a direcção que os automobilistas deveriam seguir em determinada artéria, não teve com mais quês e vá de colocar, num mesmo poste, dois sinais de trânsito.
Por um lado, uma seta a indicar a obrigatoriedade de ter que se voltar à direita. Por outro, um sinal que proíbe que se volte à esquerda.

Sinais contraditórios ou sinais complementares? Pelo menos, desta forma, seguramente todos devem ter virado para o mesmo lado.

segunda-feira, março 27, 2006

Pelo menos foi o que me disseram…

Se calhar nem devia estar a falar neste assunto. Acho que é demasiado escandaloso para ser verdade. Para mais, tenho a certeza de que ninguém de boa fé era capaz de “alinhar” numa jogada destas, que se porventura acontecesse, seria uma manifestação clara de gozo para com os cidadãos contribuintes, se é que não queria fazer deles uns completos anormais.

Eu vou escrever devagarinho para que vocês compreendam a situação, se é que ela é verdadeira, muito embora a mim me custe a acreditar. Isto só pode ser brincadeira…

Pois disseram-me que um senhor, de que eu não vou dizer o nome, porque até nem acredito que o homem (um político) se fosse meter numa embrulhada daquelas, que apesar de ter apenas 50 anos de idade e de gozar de boa saúde está já reformado.
Estão a ver porque é que eu não acredito em nada disto? Pois se até o Governo quer que a idade da reforma vá pelo menos para os 65 anos, como é possível que o Vasco…ai, que lá ia dizendo o nome…

Seja como for, este senhor (chamemos-lhe simplesmente Vasco) é socialista, foi o número dois na Câmara Municipal de Lisboa durante as presidências de Jorge Sampaio e de João Soares e, ao que me dizem, está já reformado.

Se Isto para mim já era difícil de aceitar, porque o homem tem só 50 anos e tem uma boa saúde, mais difícil se tornou quando me disseram que a pensão que lhe foi atribuída foi de 3.035 euros (608 contos), que era um montante bastante acima do seu vencimento como vereador.

Mesmo assim, eu só tive a certeza que estavam a mangar comigo quando soube que o Vasco, apesar de ter apenas o equivalente ao actual 9º. Ano de escolaridade, foi reformado como “técnico superior de 1ª classe”, categoria a que, só os licenciados normalmente ascendem.
Então, e para lá chegar, quanto tempo é que trabalhou o sr. Técnico superior de 1ª. Classe? Sete anos no Ministério da Administração Interna, três no Serviço Militar e vinte na vereação da Câmara Municipal de Lisboa, doze dos quais a tempo inteiro, ou seja, um total 30 anos. Mas como parece que há uma lei que diz que dez desses doze anos contam a dobrar, o Sr. Vasco, em vez de 30, ficou com 40 anos de serviço e, tendo uma saúde de ferro, já se poude reformar.

Se me permitem, gostaria de perguntar em nome de muitos dos trabalhadores portugueses que raio de lei é esta que permite que um trabalhador que exerça a sua função numa Câmara durante 10 anos conte, para efeito de reforma, exactamente o dobro desse tempo. Aqui parece que o gozo já não é apenas comigo…

Mas o rol não ainda não acabou. Depois de já ter entregue o pedido de reforma o Vasco Franco (bolas, eu não queria que se soubesse de quem estava a falar, embora eu tivesse a certeza de que vocês já sabiam quem era o indivíduo) foi convidado para Administrador da Sanest, uma empresa de capitais públicos comparticipada por diversas câmaras dos arredores da capital, com um ordenado líquido de 4000 euros mensais. E sabem quem lhe fez esse convite? Vocês não vão acreditar, o convite foi feito pelo Presidente da Câmara Municipal da Amadora, o socialista Joaquim Raposo, cuja mulher é secretária de Vasco Franco na Câmara de Lisboa. Ele há coincidências que não lembram a ninguém…

Vão-me desculpar mas a minha azia já é tão grande que, por isso, vou parar por aqui. Sim, porque há muito mais para contar.

Não resisto, contudo, a dar-vos conta que o homem com todos estes convites conseguiu apenas triplicar o que ganhava no activo - onde deveria continuar por mais uns anos, uma vez que só tem 50 anos e uma boa saúde – ganhando, agora, qualquer coisa como 1200 contos limpos, além de carro, motorista, secretária, assessores e telemóvel.

Se tudo isto for verdade (e é claro que é verdade), isto é imoral e, como dizia o outro, isto é obsceno.

domingo, março 26, 2006

“Dura Lex Sed Lex”

Considerei que os comentários efectuados pelos nossos companheiros ao último texto aqui publicado, justificavam que eu dissesse mais alguma coisa.

Obviamente que “Porcos no Espaço” tem toda a razão no seu desabafo. No entanto, chamo a vossa atenção de que tudo se resume a uma questão de interpretação. Afinal, em bom português “O Dever acima de tudo” quer dizer o exactamente o quê?

Se entendermos o dever como o cumprimento da honra, então, louvem-se os cidadãos honrados, honestos e cumpridores, para quem as leis do Estado são mesmo para se cumprir e as leis da honra, dos valores e da ética são paradigmas de vida que só engrandecem quem os pratica.

Mas se, por outro lado, considerarmos que o dever, é, tão-somente, aquele dever de dever dinheiro ao Estado, ou aos vizinhos, ou ao Banco ou a todos aqueles anjinhos que nós conseguimos que caíssem na nossa lábia, porque, como diz a “Paula”, a malta tem que fazer p’la vida, então estamos a falar de um outro dever.

E, como alguém dizia, uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa.

Claro está que dever 50 euros é, de facto, uma dívida e, por isso, quem prevarica (quem deve) tem que ser punido ou com as tais penhoras ou mesmo com o ir parar com os costados numa prisão, que é para isso que elas se fizeram.

Agora, quem tem contas bastante mais crescidas para regularizar (como parece ser o caso do António Carrapatoso), isso, à partida, deixa de ser uma dívida para passar a ser um problema meramente financeiro, cuja resolução tem que ser encontrada ou ao abrigo de um qualquer “Plano Mateus” ou, como está em agora muito em voga, viabilizada por técnicos de áreas altamente especializadas de “finance” ou de engineering”.

Por isso é que, quando se evoca a expressão latina “Dura Lex Sed Lex” e as pessoas têm a tendência para a traduzir simplesmente por “a lei é dura, mas é a lei”, ou por outras palavras, a lei é igual para todos, qualquer um de nós vê de imediato que essas pessoas ou são muito ingénuas ou, simplesmente, não são de cá ou não conhecem o nosso sistema de justiça.

quinta-feira, março 23, 2006

O Dever Acima de Tudo

Desde muito pequeno que sempre ouvi a expressão “O Dever Acima de Tudo”, dita e redita pelo meu pai, vezes sem conta, até à exaustão. Os tempos eram outros e a honestidade era um dos valores que, de facto, a generalidade das pessoas praticava. Então, qual dogma, anos e anos a ouvi-la repetidamente, fez com que a interiorizasse de forma firme e inequívoca.

Mas a vida encarrega-se, por vezes, de nos mostrar as diversas facetas de que é feita e, de quando em quando, damos connosco a questionar se, realmente, seguimos o caminho certo, “o do dever”, quando era muito mais fácil seguir o outro, o da trafulhice, que nos está sempre tão próximo e que nos promete tanto.
No meu caso, ao optar pelo primeiro dos caminhos, não tenho dúvidas de que fiz a melhor escolha. Mas nem todos pensaram como eu.

Vem isto a propósito de mais uma burla que tivemos conhecimento, mais uma burla com os nossos dinheiros, e que me deu uma vontade dos diabos em começar a dar uns quantos socos a certa gente que por aí anda.

Então não é que o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) andava a pedir às Associações de Bombeiros que comprassem jipes, ainda por cima na sua maioria de topo de gama, para, pretensamente, ajudarem os bombeiros a combater os incêndios?
Acontece que, pelo facto dos jipes serem adquiridos pelas Associações de Bombeiros, e como estas são consideradas Associações de Utilidade Pública, estas Associações beneficiavam da isenção do imposto automóvel e pagavam o IVA à taxa reduzida de 5%. O que fazia com que o preço dos jipes fosse bastante mais em conta.

Até aqui, tudo bem. Mas os jipes eram mesmo para ajudar os bombeiros a apagar os fogos?

Ora aí é que está o busílis da questão. Não, não eram. O Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil pedia às Associações para comprarem os carros (para poderem usufruir dos tais benefícios fiscais), “dava-lhes” como contrapartidas uns subsídios para os calar e depois ficava com o direito de uso das viaturas.

Portanto, os jipes nunca estiveram ao serviço dos Bombeiros. Com esta “artimanha”, melhor dizendo, com esta “fraude fiscal”, estes luxuosos meios de transporte (de topo de gama, repito), eram utilizados não pelos bombeiros mas pelos dirigentes do SNBPC e por ministros, secretários de estado e outros elementos do nosso governo. Entre eles, do secretário de Estado da Administração Interna, Pais de Sousa e do seu Chefe de Gabinete, Ponce Dentinho e até por Fernando Gomes, então ministro da Administração Interna, que utilizou um veiculo pertencente (apenas de nome, já se vê) aos Bombeiros Voluntários da Lixa.

Claro está que todos estes senhores nunca ouviram falar no “Dever Acima de Tudo”, que é como quem diz, nunca ouviram falar em Honestidade. Se não, como poderiam andar em tão bons carros que só foram comprados porque contornaram – fraudulentamente – as regras em vigor na Administração Pública?

E a este tipo de “habilidades” eu não consigo chamar outra coisa do que crime público que, como tal, deveria punir exemplarmente quem os cometeu.

quarta-feira, março 22, 2006

Descubra as diferenças...

Com a “Gripe das Aves” a preocupar toda a gente, bem se pode dizer que o feitiço se está a virar contra o feiticeiro.

terça-feira, março 21, 2006

Falando do Poeta Aleixo

Já conhecem a minha posição quanto aos dias internacionais do que quer que seja. Hoje, porém, faço uma excepção, para evocar no Dia Internacional da Poesia, um dos maiores poetas portugueses do século XX – António Aleixo.


Quando há uns tempos publiquei um poema (por sinal delicioso) do Tosam, esse grande poeta, desenhador e contador de histórias, chamado “Ode ao Futebol”, que aliás se deve reler de vez em quando, por puro deleite, já tinha em mente falar num outro grande poeta algarvio, António Aleixo, de resto amigo de Tosam e a quem lhe dedicou os seguintes versos que quase passaram despercebidos:

Para ti, Tosam amigo
Que há muito me conheces
É pouco, o muito que digo,
de ti, que tanto mereces

A obra de Aleixo quase não é conhecida do grande público e ele é considerado por muitos como um poeta menor. De facto, António Aleixo foi guardador de cabras, cantor popular de feira em feira, soldado, polícia, tecelão, servente de pedreiro em França e “poeta cauteleiro”.

E apesar de semi-analfabeto e de ter deixado espalhados inéditos um pouco por todo o lado, o seu amigo, Dr. Joaquim Magalhães, ainda conseguiu reunir em livro: «O Auto do Curandeiro», «O Auto da Vida e da Morte», o incompleto «O Auto do Ti Jaquim» e o mais famoso livro «Este livro que vos deixo».

Mas, eu que gosto de poesia, embora isso não faça de mim um perito na matéria, tenho uma opinião um pouco diferente. Penso que, longe de ser o tal poeta menor, Aleixo foi sobretudo um poeta popular, no bom sentido do termo, um homem preocupado com o seu tempo e um repentista brilhante.

Como o demonstra nestes versos

Quem trabalha e mata a fome
Não come o pão de ninguém
Mas quem não trabalha e come
Come sempre o pão de alguém

A fartura ao pé da fome
Raramente se dá bem
Quase sempre quem tem, come
À custa de quem não tem

António Aleixo foi também acutilante e mordaz nas críticas sociais e políticas. E, por vezes, até um pouco atrevido, quando fazia ouvir determinadas quadras que, ostensivamente, pretendiam provocar o regime de Salazar

O Salazar é capaz
De nos fazer mil promessas
Mas faz-nos tudo às avessas
Das promessas que nos faz

Com uma gravata vermelha?
Tem cuidado, não te esqueça
Que Salazar aconselha
Muitas cores, menos essa

Termino com uma quadra, esta bem conhecida, cuja ironia e acutilância se mantêm actuais.

Sei que pareço um ladrão…
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.

António Aleixo é um poeta merecedor de um pouco mais da nossa atenção e a leitura de “Este livro que vos deixo” é absolutamente obrigatória.

segunda-feira, março 20, 2006

Coisas em que eu não reparei e coisas em que eu reparei, mas que não sei o que são…

A propósito do artigo que escrevi ontem, recebi hoje, logo pela manhã, um e-mail de um amigo (só poderia ter sido de um grande amigo, claro está) a lembrar-me que, provavelmente, por causa das minhas férias da semana passada, ter-me-ia passado despercebido que o meu Benfica tinha sido eliminado da Taça de Portugal de futebol, pelo Vitória de Guimarães.

É curioso que, nesse preciso dia, eu estive na cidade berço mas, juro, que nem sequer me lembrei que o Benfica e o Vitória jogavam naquela hora o futuro de Portugal, perdão, a eliminatória da Taça de Portugal.

Não me lembrei do jogo, por acaso, mas não me esqueci de ir ver uma vez mais, a frase bem em destaque na muralha do castelo de Guimarães: “Aqui Nasceu Portugal”. Quem sabe se aquela frase, nesse dia em particular, não teria sido também, um pouco premonitória do resultado do jogo. Seja como for, e perante a vitória do Vitória, não me resta outra coisa do que “vitoriar” desportivamente “BIBÓ BITÓRIA”.


O que também me escapou durante a semana e, por isso, só agora tomei conhecimento, foi a mudança de estilo das reuniões habituais entre o Presidente da República e o Primeiro-ministro. Ou antes, talvez fosse melhor dizer a mudança não de estilo mas do lugar onde, agora, se efectuam as audiências, que passaram do sofá para uma mesa redonda.

Acho bem a mudança. Pelo menos para quem vê as fotografias desses encontros, dá a sensação que agora há, de facto, uma verdadeira reunião de trabalho e não um encontro de amigos, sentados confortavelmente no sofá, a falar sobre, sabe-se lá o quê.
A não ser que, e esta é também uma hipótese, por questões de saúde, Cavaco Silva tenha decidido que as cadeiras onde agora se sentam, sejam bem mais adequadas à saúde das colunas dos dois políticos, e daí…


Já de regresso a casa, vi pela televisão algumas imagens do Conselho Nacional de CDS, que se realizou no último domingo em Leiria. E o que percebi daquela grande embrulhada (se é que percebi bem) é que tudo aquilo gira à volta da liderança do partido. De facto, Ribeiro e Castro é cada vez mais contestado no interior do CDS, quer pelos chamados críticos (onde se encontra, adivinhem quem, Paulo Portas) quer pela sua própria bancada parlamentar e, naturalmente, não se vislumbra como é que ele conseguirá arranjar tempo para pacificar o que quer que seja, uma vez que anda num constante vaivém entre Lisboa e Bruxelas, onde continua a ser deputado europeu.

Bom, mas eles lá se entenderão. Afinal, o que mais chamou a minha atenção foram os comentários de Nuno Melo, de Telmo Correia e de Pires de Lima, (este último a quem muitos apontam como o futuro líder do CDS) e, sobretudo, ao apelo feito exactamente por Pires de Lima “nós queremos que o CDS seja um partido sedutor, um partido sexy”.

O que é isto de um partido sexy, Pires de Lima? Partidos de esquerda, de direita, neo-liberais, mas sexy? Não, nunca ouvi falar em tal, mas se o senhor afirma que quer um CDS sexy, para mim as dúvidas terminaram, até mesmo aquelas mais recorrentes. Por favor Pires de Lima envie-me já uma ficha de inscrição para o seu partido sexy.

domingo, março 19, 2006

Avanços e Recuos

Está uma pessoa a passar uns dias de férias, a tentar descontrair-se das tensões acumuladas e a fazer uma força dos diabos para se esquecer que o mundo continua a girar e que as coisas não param de acontecer. Dá-se até ao luxo de quase não querer saber que existem notícias, mas chega-se a um ponto que não dá mais, não se consegue resistir à tentação e vá de comprar um jornal.

Mas, afinal, nesta semana, parece não ter acontecido nada de especial, isto, claro, para além das diversas OPAS, de quem as lançou, quem as combate, quem as financia, se são ou não hostis. Numa semana, o nosso país deu para ficar opado de todo, seja isso bom para nós ou para a economia.

Mas a notícia que me deixou mais consternado (lá se foi uma parte do efeito benéfico das férias), foi o de saber que Santana Lopes depois de, em nome da Câmara Municipal de Lisboa, ter comprado um luxuoso carro (como foi aqui comentado na segunda-feira, 6 de Março) e sabendo que ninguém esteve interessado nos dois leilões que a CML efectuou para tentar desembaraçar-se desse carro, Santana Lopes depois de um grandessíssimo rebate de consciência, teve a dignidade de anunciar que ele próprio iria ficar com o carro e, para isso, iria contrair um empréstimo bancário.

Foi um gesto que caiu muito bem no seio da população em geral e que surpreendeu toda a gente.

Pois bem, aliviado o rebate de consciência, esta semana voltou a surpreender e, sem mais, rasgou a carta em que se comprometera com a dita compra.

sexta-feira, março 10, 2006

Ainda mais umas palavras sobre o Dia Internacional da Mulher

Não ficaria bem comigo mesmo se não acrescentasse mais umas palavras ao que disse ontem a propósito do Dia Internacional da Mulher. De que, aliás, esperava, com toda a franqueza, receber mais comentários, fossem eles a favor, ou contra ou nem uma coisa nem outra, por assim dizer.

Isto leva-me a pensar que, as alternativas não parecem ser muitas. Ou os leitores que ainda iam lendo estas linhas já se fartaram, ou eles estão perfeitamente rendidos às minhas teorias e opiniões. Que mais posso pensar?

Pois bem, sem retirar uma linha ao meu comentário de ontem, devo confessar que há muitos, mas mesmo muitos anos que sou defensor das tarefas partilhadas de uma casa. Nunca gostei de ouvir aquela história, normalmente dita pelas mulheres “o meu marido até ajuda lá em casa”. Ajuda? Que raio de história é essa da ajuda? Depois não têm que se queixar… Nas casas há trabalhos, muitas vezes há filhos e todas as tarefas têm que ser realmente partilhadas pelo casal. A não ser que haja possibilidades de pagar a alguém para as fazer.

Há uns anos, uma colega que me conhecia mal, julgou que eu estava no gozo, quando disse que na véspera tinha feito já não sei o quê na minha casa. Provavelmente, ela não estaria habituada a ter a colaboração do marido e, se calhar, para ela, os homens eram todos iguais. Mas não são. Na verdade, também nesta matéria não se pode generalizar.

E dou-lhes o meu próprio exemplo (que, provavelmente, servirá para que mais algumas pessoas se ponham contra mim).

Na última sexta-feira, cheguei a casa demasiado exausto. O dia tinha sido complicado em termos profissionais (o que não interessa nada para o caso).
Depois, à sexta-feira, é o dia em que fazemos as compras da semana (ou as do mês) no supermercado. Era, pois, tarde quando chegámos a casa. Tinha alguma fome, e, devido ao adiantado da hora, fomos às iscas que, por acaso, eram febras e já estavam feitas de véspera. Naquela noite apenas fiz o que não poderia deixar para o dia seguinte - arrumar as compras - já que não podia seguir aquela máxima que serve de lema a muito boa gente: "não deixes para amanhã o que podes fazer depois de amanhã".

Veio o sábado. Este é o dia que mais gosto (sobretudo quando saio e quando vou para fora). Não, a verdade é que é um dia tremendo. De trabalho, naturalmente.
De manhã, antes de sair para a voltinha dos tristes, que inclui a ida ao café, a coscuvilhice às montras da baixa da cidade e a visita ao supermercado (mais uma visita ao super) preparei o peixe e as saladas para o almoço e guisei as lulas que ficaram já prontas para se comerem durante a semana.

Saímos, voltámos e almoçámos. Depois, bem … depois foi o início da maratona, foi a corrida que não teve certamente os quarenta e dois quilómetros tradicionais mas que, pela variedade e morosidade das tarefas, me deixou (como sempre me deixa) completamente derreado.

Sopas foram feitas duas, de espinafres e caldo verde. O lombo de porco foi preparado a seguir e ficou com um belíssimo aspecto. Tirei roupas da máquina e do estendal. Passei a ferro roupas de cama e atoalhados. Arranjei o interruptor de um candeeiro de mesa-de-cabeceira. Preparei qualquer coisinha para petiscar à noite e, como sobremesa, lavei tachos e panelas. Arrumei a loiça na máquina e arrumei a cozinha. Voltei a tirar roupa da máquina.

No Domingo foi a vez do carro. Também ele teve direito a ser lavado e aspirado.

Para que pudesse descansar (pelo menos para que não tivesse mais essa preocupação) a minha querida mulher decidiu que iríamos almoçar fora. Ainda bem, tive uma pausa mas, em contrapartida, paguei a conta.

Quando regressámos a casa, a tarde já ia a meio e ainda havia tanto para fazer. A roupa para dobrar, a sala para limpar. Ah!, a sala tinha que ser muito bem limpa, como me recomenda sempre a minha mulher, e havia, ainda, o quarto e o hall para aspirar.

Quando, depois de lavar a loiça do jantar, cansado de tanta canseira, me sentei (enfim) no sofá da sala (muito bem limpa conforme me tinha sido recomendado), fiz um balanço do fim-de-semana que estava a terminar, e pensei que, depois de tanto esforço, a segunda-feira, felizmente, estava prestes a chegar. É que, mesmo acreditando sinceramente que a “lida da casa” também é uma das minhas obrigações, que diabo, nós (donos de casa) não somos de ferro, não é?

quarta-feira, março 08, 2006

O Dia Internacional da Mulher

Se querem mesmo que lhes diga, acho esta comemoração um bocado patética, se não mesmo machista. Comemorar o dia internacional da mulher nos dias de hoje não tem, na minha perspectiva, qualquer cabimento. Aliás, a maioria dos dias comemorativos de qualquer coisa não fazem o menor sentido. Talvez, e como excepção, o do Dia do Pai, que é já no próximo dia 19 (atenção filhos, compreenderam a mensagem?).

Eu sei, e já o disse aqui por diversas vezes, que, nesta matéria, a sociedade ainda tem muito que evoluir. Reconheço que as oportunidades ainda não são iguais para homens e mulheres, que a percentagem de mulheres desempregadas é maior, que para trabalho igual muitas vezes elas são pior remuneradas. Eu sei dessa discriminação toda e eu sou o primeiro a censurar a situação vigente e a dizer que temos ainda um longo caminho de luta a percorrer juntos, homens e mulheres, para conseguir alcançar o tal equilíbrio. Mas, um dia internacional para chamar a atenção dessas desigualdades? Acham mesmo necessário?

Ainda por cima, e nem que de propósito, recebi ontem à noite um e-mail que tinha o seguinte título: De uma mulher para todas.
E das muitas frases provocatórias dirigidas aos homens, retive as seguintes:

- Somos o sexo lindo;
- Se resolvermos exercer profissões masculinas somos pioneiras mas, se eles quiserem exercer profissões predominantemente femininas, eles são gays.
- A nossa inteligência é comparável à de qualquer homem mas a nossa aparência é melhor.
- O nosso cérebro tem a mesma capacidade que o dos homens, ainda que tenhamos 6 biliões de neurónios a menos. Ou seja, os nossos neurónios são mais eficientes.
- Somos capazes de prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo.
- Definitivamente somos nós que decidimos quantos filhos vamos ter.
- Somos nós que sentimos o bébé mover-se dentro de nós.
- O exame de ginecologia é mais agradável que o exame da próstata.
- Estamos sempre presentes no nascimento dos nossos filhos.
- Alguém, alguma vez, ouviu falar no “muso inspirador”?
- Somos mais resistentes à dor.
- Temos menos problemas cardíacos.
- Temos prioridades nos barcos salva-vidas.
- Somos mais sensíveis.
- Temos um dia internacional.
- Realmente somos maravilhosas.

Perante isto, digam-me o que querem mais? Com tantos e tão qualificados e apreciados atributos, o que é que lhes falta? Até o exame ginecológico é mais agradável do que o da próstata…

E nós, homens, não temos direito sequer a um dia internacional que nos seja dedicado, nem que fosse por atenção ao sofrimento que o exame à próstata nos provoca.

Bem, apesar de tudo, e não porque hoje é o tal dia internacional da mulher, mas porque sou um cavalheiro e porque sou gentil, e porque gosto das mulheres, aqui lhes deixo, a todas, as minhas homenagens.

terça-feira, março 07, 2006

A tendência é logo pensar-se o pior

Eu sempre achei que aquela coisa das bolas de futebol a serem constantemente jogadas pelas cabeças dos jogadores, não lhes dava lá muita saúde. Refiro-me aos jogadores, naturalmente.

A bola vai com uma força dos diabos, o jogador salta e, para além de, normalmente, levar uma cotovelada do adversário que salta com ele, ainda dá na bola (quando não na cabeça do outro jogador que vai com ele à bola) uma traulitada que até arrepia. Digam-me lá se aquilo não é capaz de danificar algum circuito funcional do cérebro do jogador. Pelo menos, alguns dos neurónios poderão ficar afectados, com certeza.

Claro que, como em tudo, não podemos generalizar. Deverá haver por aí milhares e milhares de jogadores que se fartam de dar cabeçadas (na bola, digo eu) e nada lhes acontece, pelo menos aparentemente.

Por isso quando me contaram que o famosíssimo e riquíssimo capitão da selecção inglesa David Beckham, que joga no Real Madrid, em Espanha, e que também se farta de dar cabeçadas na bola, confessou que não era capaz de ajudar o filho Brooklyn, de seis anos, a fazer os trabalhos de casa, isso até nem me causou um espanto por aí além.

Dizem as más-línguas que, ao que parece, Brooklyn não conseguiu resolver o seguinte problema “a Joana foi à loja às 11h45 e regressou meia hora depois, a que horas chegou ela? Quando pediu ajuda ao pai para resolver a questão, o pai também não soube responder.

David é um homem inteligente, talentoso como futebolista, casado com uma mulher lindíssima e ainda por cima rico como o caraças. Não saber responder a uma questão como aquela faz dele o quê, um “grunho”?

Para mim, o que se passou foi perfeitamente compreensível. David anda constantemente por esse mundo fora em jogos, em torneios e em demonstrações e os fusos horários devem-lhe fazer uma confusão tremenda naquela cabeça. E já pensaram, por acaso, que quando ele ia responder ao filho, aquele “não sei”, que alguém disse ter ouvido, poderia pretender dizer apenas “espera aí, mas, afinal, em que loja é que estava a Joana, foi aqui em Madrid ou foi em Nova York? É que, como sabem, há uma data de horas de diferença!

segunda-feira, março 06, 2006

Para alguma coisa serve um blogue...

Um destes dias ao almoço, dizia-me uma amiga:
“é bom que escrevas no blog sobre certos assuntos, nomeadamente sobre aqueles que têm a ver com os abusos e as injustiças que acontecem na nossa sociedade. Sabes, nós andamos um bocado distraídos e muitas vezes não prestamos atenção às notícias. Assim, estás a dar um contributo importante para nos manteres acordados”.

Ora bem, fiquei então a saber que este espaço, se outro mérito não tiver, pelo menos, ele serve para ajudar os meus amigos a estarem mais despertos (é assim como um café duplo que se bebe pelas quatro da manhã), porque sempre se vai aproveitando para denunciar certas injustiças (como dizia a minha amiga) e, naturalmente, para ajudar a criar ou a manter uma consciência cívica e política que nós, enquanto povo, temos a obrigação de preservar.

E já que falamos nisso, aproveito justamente para exprimir a minha revolta perante algumas desigualdades gritantes.

Finalmente vai arrancar este mês o chamado “complemento solidário” que foi uma das bandeiras eleitorais do Partido Socialista. O PS comprometeu-se até ao fim da legislatura, que não haveria um só idoso a viver com menos de 300 euros por mês.
A atribuição desta ajuda – muito aguardada por quem quase nada tem, mas insignificante para um país onde a distribuição da riqueza é um escândalo – será faseada, mas acredita-se que um terço dos 900 mil idosos visados, começará já este ano a receber o tal “complemento”.

Perceberam bem, meus amigos, em Portugal estima-se que 900 mil idosos têm menos de 300 euros por mês, mas, em compensação, soube-se também esta semana, que 9 gestores do Banco Comercial Português (BCP) ganham, cada um deles, 250 mil euros por mês, isto para além dos seguros e dos planos de reforma que o Banco lhes assegura e que os vão ajudar a viver um pouco mais dignamente.

Eu repito, agora em escudos, para que se perceba ainda melhor. 900 mil portugueses idosos têm por mês para sobreviver menos de 60 contos e apenas 9 gestores de um Banco conseguem viver com uns modestos 50 mil contos por mês, fora as outras mordomias.

Desigualdade? Injustiça? Eu chamar-lhe-ia vergonha nacional, de um país que permite uma discriminação tão escandalosa, chocante e obscena entre os seus cidadãos.

Mas, meus amigos, se conseguiram resistir a esta “pequena injustiça”, então tomem lá outra que também veio a público esta semana.

A Câmara Municipal de Lisboa comprou em 2003 para o seu garboso presidente de então, Santana Lopes (quem mais havia de ser, pois então?), um carrinho para as suas deslocações, um modesto Audi topo de gama, que custou à autarquia 115 mil euros (mais de 23 mil contos). Três anos depois, ninguém o quer utilizar, seja pelo medo da ostentação ou, simplesmente, porque o “bicho” bebe 18 litros aos cem. Vai daí a CML teve que leiloar o carro. No primeiro leilão, a CML pediu 62.500 euros e ninguém o quis. Agora, o Audi de alta cilindrada, com um potente motor V8 e caixa automática de seis velocidades vai novamente à praça por uns bem mais modestos 56.250 euros a ver se alguém lhe pega.

Perante isto, o que dizer? Injustiça? Acho que será pouco…

Sem dúvida que a minha amiga tem razão. De quando em vez é preciso agitar as pessoas e acordá-las da letargia em que o nosso dia a dia nos transformou. É necessário gritar, gritar, gritar de revolta!

domingo, março 05, 2006

No país dos “espertalhões”

Temos que reconhecer que cá no nosso cantinho, e no que toca a burlas, não temos tido lá grandes crânios que realmente se tenham salientado pela sua mente brilhante. Que me recorde, apenas um demonstrou uma classe e inteligência invulgares – Alves dos Reis – de tal forma que fez mexer um país inteiro e foi até reconhecido internacionalmente.
Mas o normal é termos muitos aspirantes a burlõezinhos, que pouco mais são do que aprendizes de feiticeiro.

E a provar o que afirmo, que os nossos aspirantes a burlões, não são outra coisa que “chicos espertos” convencidos que possuem uma inteligência que, de facto, não têm, recordo dois casos que demonstram bem essa “esperteza saloia”.

O primeiro aconteceu à meia dúzia de anos quando um estudante se apresentou a um exame com um ouvido completamente entrapado e com aspecto sofredor. O ar compungido do aluno deve ter provocado um sentimento de pena generalizado mas o coitado lá foi, mesmo assim, fazer o exame.
Vá-se lá saber porquê, e contrariando os demais, os examinadores não alinharam na manifestação espontânea de solidariedade em redor do doentinho e desconfiaram que o estado em que ele se encontrava não podia corresponder ao nível de conhecimentos que ele mesmo demonstrou na prova de exame.
Não era possível, acharam os professores, o rapaz estar tão combalido e ter, ao mesmo tempo, o discernimento e o conhecimento necessários que lhe permitiram responder correctamente a todas as perguntas do teste.

Não conheço os detalhes que se seguiram, mas sei que ao “doentinho” foi descoberto que o ouvido entrapado escondia “apenas” um transmissor e um auscultador que lhe permitiam fazer perguntas e receber as respostas.

E para que a justiça fosse completamente justa, os examinadores (que eu sinto que eram maus como as cobras, senão nem tinham dito nada ao pobre rapazito) acharam por bem desembaraçarem o ouvido do seu examinando de toda aquela trapagem (e maquinaria) e fizeram-lhe um novo exame que ele, natural e obviamente, chumbou.

Um outro exemplo de um espertalhão à maneira, passou-se recentemente com o deputado do PSD António Preto, que, de resto, está a ser investigado pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), que o acusa de fraude fiscal e falsificação.

Ora, o António Preto foi chamado pelo DCIAP para uma importante diligência, a de verificar a sua caligrafia. Isto é, pretendia-se que o deputado escrevesse com as suas próprias mãos para que assim se pudessem comparar a sua caligrafia com a que constava nos documentos em análise, para que desta forma, se pudesse confirmar se houvera, ou não falsificação.

O senhor deputado apresentou-se efectivamente mas … com o braço ao peito e engessado até ao ombro, o que impossibilitou a recolha da prova pretendida.

António Preto alegou ter sofrido um acidente no Hospital de Santa Marta, tendo até apresentado documento passado pelo médico que o assistiu e que lhe diagnosticou uma possível flebite no braço (inflamação nas veias). O mesmo médico, ter-lhe-ia recomendado que ele tomasse um anti-inflamatório e procedesse à imobilização do braço (nunca falou em gesso).

Só que, azares dos azares, o Hospital de Santa Marta não tem nem serviço de ortopedia nem sequer sala de gessos. E o cúmulo chegou, para má sorte do deputado, quando o Presidente do Colégio de Especialidade de Cirurgia Vascular da Ordem dos Médicos veio a terreiro afirmar que nestes casos de flebites, normalmente se procede à imobilização do membro, mas nunca com gesso.

Então Sr. Deputado, deixe-me perguntar, o senhor tem mesmo uma flebite que se trata, como se viu, com um anti-inflamatório e às vezes até com uma simples aspirina (mas nunca com gesso) ou o senhor não tem nem nunca teve qualquer doença e procurou enganar a justiça com uma artimanha para escapar à tal prova da caligrafia que, possivelmente, o ia incriminar de forma definitiva?

Que grandes espertalhões estes dois. E se um ainda era estudante (ainda andava a praticar para aldrabão) o que dizer do outro, um deputado da Nação que tentou por vários meios enganar a justiça? Um aldrabão encartado, era mesmo isso o que nos estava a faltar agora …

quarta-feira, março 01, 2006

Um homem de princípios

Embora não o conheça pessoalmente, tenho pelo Dr. José Sá Fernandes o mais profundo respeito. E tenho-o porque são públicas as posições que ele tem tomado ao longo dos anos em prol da cidade de Lisboa e dos seus cidadãos. Por isso o considero um homem de princípios, honesto e íntegro, que deveria constituir uma referência de comportamento para os demais cidadãos.

Afirmei que ele é sério e íntegro mas, como repararam, só não disse que ele era incorruptível, muito embora, uma pessoa que seja séria e íntegra tenha que ser, obviamente, incorruptível. E o Sá Fernandes, em minha opinião, é evidentemente um homem que não se deixa corromper.

Apesar de tudo, há sempre aquela velha frase que recorda que “Todos os homens têm o seu preço” e que tem sido dita à saciedade ao longo de décadas e décadas, quer pela generalidade do povo, que sente realmente que essa é uma verdade indesmentível, quer pelas pessoas e pelos grupos que detêm o poder económico, que estão mais perto do poder no seu todo, ou são, eles próprios, o poder, aqueles que verdadeiramente influenciam e mandam nas pessoas, nos países e no mundo.

E, como sabemos, as frases, de tanto serem repetidas, acabam quase sempre por se tornarem realidade e, assim, sendo, se “Todos os homens têm o seu preço”, o que estamos a dizer é que “toda a gente come”, só é necessário saber até onde é que chega a voragem do seu apetite.

Mas neste caso, e para além da desonestidade da tentativa, demonstrou-se claramente que a estupidez dos corruptores foi francamente desmesurada. Não era uma qualquer pessoa que estava em causa, era José Sá Fernandes. A não ser que eles pensassem que o vereador iria ficar muito entusiasmado com os 200 mil euros que eles lhe iam oferecer.

Mais ainda, para além de desonestos e estúpidos foram mesquinhos na avaliação e ficaram convencidos que o homem se venderia por “um prato de lentilhas” num negócio que envolvia vários milhões. Enganaram-se no número da porta. Sá Fernandes não só não aceitou, como ainda convidou de imediato a Polícia Judiciária a participar na festa e a conseguir as provas provadas da tentativa de corrupção.

Aqui, e se me permitem a intromissão, e sem tirar o mérito ao modo como o Sá Fernandes desmontou a tramóia que lhe armaram, eu teria agido de outra maneira. Se eu fosse o Sá Fernandes, teria recusado os 200 mil (que já é uma pipa de massa que daria muito jeito a qualquer pessoa), e teria exigido 500 mil ou mesmo um milhão que, eu não tenho dúvidas, que eles acabariam por aceitar. Depois, recusaria na mesma convocar a tal conferência de imprensa onde se comunicaria que, afinal, os negócios estavam todos legais e chamaria a PJ para os caçar. Sá Fernandes continuaria impoluto e com os 500 mil, ou com o milhão nas mãos, poderia oferecê-los a uma Instituição de Solidariedade Social e a rapaziada seria na mesma acusada e presa.

Como disse no início, José Sá Fernandes é um homem de princípios. Porque se o não fosse, bem poderia dizer como um dos famosos irmãos Mark:

“Como sabem, eu sou um homem de princípios mas, se os senhores não concordarem com esses princípios, eu mudo-os…”

terça-feira, fevereiro 28, 2006

O “frango” e a gripe das aves

Confesso que não vi, na íntegra, o jogo entre o Benfica e o Porto mas, pelos bocadinhos que espreitei na televisão dos ricos, fiquei com a impressão que os jogadores estavam, todos eles, demasiado atormentados, o que não os deixou mostrar todo o seu potencial futebolístico, ou seja, não conseguiram “demonstrar o seu real valor”, como eles tanto gostam de dizer. E atormentados com o quê, perguntam os meus amigos?

Em primeiro lugar pareceu-me que ficaram aterrorizados com o público que enchia o estádio, ao perceber que toda aquela gente, todos aqueles especialistas de primeira água em matéria de futebol, que estavam sentados nas bancadas, gritavam desalmadamente “palhaços” e eles, atarefados como estavam em não comprometer as suas equipas, nunca conseguiram atinar se aqueles “elogios” lhes eram dirigidos porque tinham falhado um golo de baliza aberta, ou se aquela rapaziada foliona se estava apenas a divertir porque era domingo de Carnaval e, o melhor e o mais engraçado que pensaram fazer nesse momento, pelo menos antes de arrancar as cadeiras e atirá-las à policia ou para dentro do relvado, era o de berrar para a claque contrária que eles eram uns palhaços do caraças e uns grandessíssimos “filhos da p”.

Contudo, e sobretudo depois do golo do Benfica (tenho que confessar, uma vez mais, que sempre gostei do Baía, vá-se lá saber porquê…) pareceu-me que a preocupação dos jogadores já era de outra espécie. Vejam se seguem o meu raciocínio.

É verdade que o Robert atirou um balázio que mais parecia um míssil à baliza do Baía, mas, o que pareceu a toda a gente é que, para além do mérito do artista, aquele golo soube (por acaso a mim soube-me muito bem, mas isso é outra conversa) a frango.

E aí é que surge a minha teoria sobre a preocupação dos jogadores. Será que frango do Baía, já estava contaminado pela "gripe das aves" e, consequentemente, conseguiu abater sem apelo nem agravo o dragão? Ou será que os jogadores ficaram ainda mais apreensivos porque o frangalhão do Baía surgiu logo depois de se saber que foi confirmado um surto de gripe das aves em criações de frangos no Paquistão?

Por isso, quem me diz a mim que, a partir daí, os jogadores não foram levados a pensar que a expressão popular “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém” estava completamente em desuso, pelo menos no que diz respeito aos caldos de galinha?

E se assim foi, é compreensível que, estavando eles tão preocupados com as aves como estavam, como poderiam encarar o jogo de outro modo, que não fosse com todas as cautelas?

domingo, fevereiro 26, 2006

Buda

No meio de tanta polémica provocada pela publicação dos cartoons dinamarqueses, que tanto ofenderam os muçulmanos, em particular os muçulmanos extremistas, aposto que o título do texto de hoje vos poderá ter sugerido que eu iria falar exactamente sobre religiões e seus costumes. Mas não, enganaram-se redondamente, porque pelo menos por agora não vou tocar nesse assunto.

O que eu hoje pretendo comentar é uma outra coisa que, ao fim e ao cabo, se poderia confundir com a abordagem a uma outra religião, o budismo. Na verdade, vou falar de Buda mas não do budismo.

O termo Buda é um título e não um nome próprio. Significa “aquele que sabe” ou “aquele que despertou” e se aplica a alguém que atingiu um nível superior de entendimento sobre a plenitude da condição humana. O título foi dado a várias pessoas excepcionais, que atingiram um tal grau de elevação moral e espiritual que se transformaram em mestres de sabedoria. Porém, o mais fulgurante dos budas e também o real fundador do budismo, foi um ser que tinha uma personalidade excepcional, chamado Siddharta Gautama que nasceu na Índia por volta de 556 a.c.

E o tal nível superior de entendimento e a sua excepcionalidade, ficaram bem patentes em respostas e pensamentos geniais que, por isso mesmo, e de uma forma geral, atravessaram os tempos.

Eis um exemplo. Perguntaram uma vez a Buda:

“O que mais te surpreende na Humanidade?”
E ele respondeu “Os Homens”
E justificou: “Porque os Homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperarem a saúde”.
Mas Buda continuou o seu pensamento, dizendo:
“Os Homens por pensarem tão ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro”.
E concluiu desta forma:
“Os homens vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido”.

São palavras extraordinariamente sábias que, no nosso dia a dia, nem sempre são recordadas. De facto, na correria que começámos e que não sabemos bem onde nos leva, esquecemo-nos tantas vezes daquilo que deveriam ser os nossos valores fundamentais. A começar pela Amizade e pelo Amor.

Por favor, não se esqueçam de VIVER!

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Assim, até eu chegava a horas …

Devo dizer que ao longo da minha vida profissional cheguei diversas vezes atrasado ao meu local de trabalho, mas, posso assegurar, que quando havia reuniões ou compromissos que envolvessem terceiros, só muito raramente isso aconteceu. Aliás, penso que poucas pessoas terão escapado a este “pecadilho”, sobretudo devido à complicação de trânsito que, todos sabemos, tem vindo a piorar significativamente nestes últimos anos.

Bom, mas dizia eu que algumas vezes cheguei tarde, não por que o quisesse, bem entendido, mas porque algum acontecimento me levou a isso. Sei lá, ter acordado um dia mais tarde, por exemplo, ou, se calhar ter que levar um dos meus filhos ao médico. O que nunca fiz, isso não, foi carregar no acelerador do meu carro e ir com o ponteiro até aos 200 à hora para ver se recuperava algum do atraso.


Eu não fiz, mas há por aí muito boa gente que o faz. Por exemplo o senhor deputado do PSD Ricardo Almeida, de 31 anos, já foi interceptado na auto-estrada a mais de 200 quilómetros por hora. Isto, claro, só por si, já é muito grave, principalmente em termos de segurança, mas o que eu considero ainda mais grave é que no longo historial de infracções graves e muito graves, o político já foi autuado quase duas dezenas de vezes mas, em quase todas, teve a “sorte” de ver os processos arquivados e nunca lhe foi retirada a carta de condução. Porque será? Estranho, não é?

O "deputado voador", como é conhecido nos meandros policiais, já foi autuado pela Brigada de Trânsito de Aveiro, Guarda, Leiria e Lisboa, pela PSP e pela GNR. Do seu "currículo" constam transgressões cometidas ao volante de, pelo menos, quatro carros distintos. Mas nenhum deles, por acaso, registado em seu próprio nome.

Quando interpelado pela comunicação social, Ricardo Almeida afirmou-se surpreendido com o "histórico" de infracções e disse não se lembrar de ter sido tantas vezes autuado. "Reconheço que, às vezes, ultrapasso os limites de velocidade, mas isso é porque sou um deputado que cumpre horários. Não sou como outros que não chegam a horas às reuniões".

É preciso descaramento. O senhor deputado da nação está nitidamente a gozar connosco e a fazer de nós parvos. Por isso, eu acho que não deveria ocupar por mais tempo o alto cargo para que foi eleito, pelo que, só lhe restará uma solução: DEMITA-SE!

Como se costuma dizer, os deputados devem dar o exemplo e cumprir as leis. Assim sendo, e com base na actuação do Sr. Almeida, todos nós passámos a conhecer a receita para não chegarmos atrasados. Não será sequer necessário que façamos o sacrifício de nos levantarmos mais cedo, basta que tenhamos uns carritos jeitosos e, prego a fundo. Num instante chegaremos a tempo aos nossos compromissos.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Não me conformo



Agora que o Presidente Jorge Sampaio está de saída e que decidiu promover a frenética enxurrada de condecorações que está a levar a cabo e que contempla tudo o que mexe, desde aqueles que demonstraram verdadeiro valor e até deram alguma notoriedade ao país, até aos outros que provaram não ter qualquer préstimo especial e que se limitaram a fazer pela vidinha (e, nesse sentido, até o fizeram bem), confesso que ainda tive alguma esperança em vir a ser também agraciado com alguma condecoração.

Se durante os vinte anos anteriores em que Ramalho Eanes e Mário Soares foram presidentes, não esperei realmente que se lembrassem de mim porque, enfim, havia muitas personalidades que justamente mereciam muito mais do que eu ser reconhecidas, agora, que ao Presidente Sampaio restava muitíssima menos gente com qualidade, eu esperava – francamente – que tivesse chegado a minha vez.

Uma medalhita que fosse, uma comenda, porque não? Eu acho, aliás, que o título de “Comendador” não me assentaria nada mal, caramba!
“Como vai, senhor Comendador, que tenha um bom dia”.

E era uma condecoração merecida, eu acho. Nem que fosse por escrever textos tão interessantes neste blogue. Nem que fosse por eu ser simpatizante do Benfica, que ontem até ganhou ao actual campeão europeu.

Não me conformo, mas é que não me conformo mesmo …

terça-feira, fevereiro 21, 2006

A ética, de novo

Hoje volto a falar de ética. Pode parecer mania mas continuo a pensar que a ética é um dos valores que temos que preservar obrigatoriamente. Por certo, ninguém gostará de viver numa sociedade onde os valores fundamentais pouco ou nada contam e em que todos os meios são válidos para se atingirem os fins.
Apesar de constatar que, no dia a dia, muitas pessoas estão-se nas tintas para esses valores, tenho esperança (tenho mesmo a certeza) que o mesmo não acontece com os meus amigos.

E volto à ética porquê? Porque ontem, à entrada de um centro comercial, um funcionário de um banco abordou-me para tentar vender um cartão.

Como também pertenço ao ramo, recusei dizendo-lhe que, uma vez que pertencia à concorrência, não me parecia correcto. “E depois?”, perguntou. Respondi que não achava ético usar cartões de outra instituição bancária. Ao que ele argumentou, “Ora, ora, a ética é aquilo que nos dá mais lucro, a ética é usar o cartão que dá mais vantagens, o resto é conversa”.

Para mim o diálogo tinha terminado. O meu sorriso inicial desapareceu e voltei as costas ao meu interlocutor.

Mas o que mais me preocupa nestas atitudes é que as pessoas, individualmente ou por conta das empresas, pensam efectivamente que o que está em primeiro lugar é o dinheiro que se ganha, são os lucros próprios e imediatos. O resto é conversa, como disse o outro. Mas será que vale tudo?

Aquela demonstração de mercenarismo primário só não me deixou mais chocado porque, infelizmente, tenho-a encontrado por diversas vezes.

Encontrei, por exemplo, no relato que me fizeram de um administrador de uma companhia de seguros de saúde, numa reunião com todos os colaboradores da empresa, em que incitou os participantes a vender mais. “Muito mais”, disse, “temos que fazer muito mais dinheiro mesmo que seja à conta da saúde dos outros”. Ou seja, os outros que adoeçam à vontade, que o que interessa realmente é o negócio.

Encontrei, por exemplo, no meu grupo financeiro (e nos outros passa-se o mesmo) quando se começou a vender planos de poupança reforma a jovens que ainda frequentavam a universidade. Vender PPR’s a jovens que nem sequer tinham ainda começado a sua vida activa? Vendam-se cartões, vendam-se créditos à habitação, inventem-se produtos adequados aos mais novos mas, PPR’s?

O negócio antes de tudo, uma vez mais os fins a justificar os meios.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Voltou a confiança

Quando até há pouco tempo, os políticos de todos os partidos, se fartavam de nos encher os ouvidos com tretas do género, que o que era preciso era que a economia crescesse e, para isso, para que ela voltasse a crescer, era necessário que a confiança regressasse, que os agentes económicos, de uma maneira geral e os investidores estrangeiros, em particular, voltassem a acreditar no nosso país, a maioria de nós encolhia os ombros e pensava “sim, está bem, isso já vocês disseram montanhas de vezes, e depois?” “Em que é que nós melhorámos nestes últimos anos, de que forma é que a economia nos veio beneficiar?” E voltávamos a encolher os ombros, uns de tristeza, outros (a maioria) de desencanto.

Para os mais entendidos, analisavam-se cenários e já se apostava quem seria o primeiro dos ministros a ser substituído, que seria certamente o da Economia, Manuel Pinho, e que ele iria deixar o governo, saindo pela porta mais pequena que houvesse lá no edifício.

Então não é que, de repente, qual mágico, o governo faz sair da cartola não um, mas vários pacotes de investimentos importantes, de muitos milhões de euros e que vão ter reflexos directos no aumento do emprego, nas exportações e na economia em geral?

É o caso da Microsoft que escolheu o nosso país para dar formação informática a cerca de 4500 desempregados do sector têxtil, de modo a que no final, o conhecimento e as certificações obtidas possam ser reconhecidas e aplicadas no mercado de trabalho.
Microsoft que também vai desenvolver um programa para técnicos de nível intermédio em empresas de tecnologias de informação, cujo finalidade é de que esses técnicos possam concluir os estudos a nível superior ou entrar no mercado de trabalho.

É o caso da Ikea que colocou em Portugal a sua base de produção para todo o mundo.

É o caso de um investimento que vem da Malásia, um projecto em hiper tecnologia.

Mas há mais, há outros investimentos importantes no turismo, nas energias renováveis, na petroquímica, na nova refinaria de Sines e no mega projecto turístico de Tróia.
Bem, mas de onde é que saiu tudo isto de repente?

Face a tanto projecto anunciado, parece haver agora condições para voltar a acreditar em dias melhores e para que a auto-estima nacional tenha, enfim, motivos para estar optimista. Parece que a confiança voltou. Vamos uma vez mais ter esperança e rezar para que não tenhamos mais a necessidade de voltar a encolher os ombros … agora, de desânimo.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Gabriel Garcia Márquez

Podem nunca ter lido uma obra de Gabriel Garcia Márquez (o que é imperdoável) mas, decerto, todos ouviram já falar inúmeras vezes deste escritor colombiano, Prémio Nobel da Literatura em 1982, e da sua (talvez) mais célebre obra “Cem anos de Solidão”, onde consegue sintetizar e conjugar magistralmente a história, a natureza, os problemas sociais e políticos, a vida quotidiana, a morte, o amor, as forças sobrenaturais, o humor e o lirismo. Um grande romance de um grande autor.

Mas não é sobre a sua obra que me proponho, hoje, divagar.
Queria, antes, falar-vos de um texto que circulou pela Internet, supostamente a pretexto de uma hipotética “carta de despedida aos seus amigos” escrita por Márquez, que estaria a contas com um problema de saúde gravíssimo.

E o texto da carta é o seguinte:

“Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os outros param, acordaria quando os outros dormem. Ouviria quando os outros falam, e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate! Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto, não apenas o meu corpo, mas também a minha alma. Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperava que nascesse o sol. Pintaria um sonho de Van Gogh sobre as estrelas e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas... Meu Deus, se eu tivesse um pouco de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto, que gosto delas. Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo amor. Aos homens provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar! A uma criança, dar-lhe-ia asas, mas teria que aprender a voar sozinha. Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o tem agarrado para sempre. Aprendi que um homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se. São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer...”

Amigos do escritor lamentam a repercussão desta “carta” e afirmam que Garcia Márquez não está em estado terminal e duvidam que a sua autoria seja do romancista. E justificam a sua posição, dizendo que “o primeiro motivo para negar que o texto fosse escrito por Márquez é a insistência na citação de Deus. Pelo que se sabe Garcia Márquez é um escritor de esquerda, simpatizante do marxismo, amigo de Fidel Castro, militante de causas sociais. Enfim, um humanista engajado, mas nem de longe o seu perfil lembra o de um religioso".

Sendo ou não verdade que a “carta” foi escrita por Gabriel Garcia Marquez, o facto é que, mesmo considerando alguma pieguice à mistura, há ali conceitos que me são muito caros. A começar por

“Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto, que gosto delas”.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O absurdo de quando as pessoas deixam de ter nome…

Logo a seguir à revolução de Abril de 1974, quando a maioria das empresas foram estatizadas, ouvia-se dizer com frequência que ninguém conhecia o patrão. Queria-se com isso dizer que o Estado era, de facto, o dono dessas empresas mas, como o Estado não tem rosto, ninguém sabia quem era o patrão, ninguém conseguia visualizar a sua cara. Claro que isto também servia como justificação para muitas outras coisas, mas adiante.

Actualmente como a questão da “falta dos rostos” já não nos preocupa tanto (o que não quer dizer que não estejamos muito preocupados com a falta de vergonha de algumas caras conhecidas), a nossa atenção está agora mais virada para os nomes das pessoas. Ou antes, para a falta desses nomes.

Isto porque é comum ouvir-se os empregados referirem-se ao Director de uma determinada empresa como “o Director” e raramente pronunciam o nome dessa pessoa. Fala-se antes no ”Director” ou no “Doutor”. Falam mais no cargo do que no indivíduo, por isso ele não é identificado e preferem classificá-lo simplesmente por doutor ou doutora, como se o título académico estivesse indexado ao Mário ou à Fernanda. Mas não, o doutor serve para os Mários, para as Fernandas, para os Franciscos, para os Eduardos e para todos os nomes que lhes dêem na cabeça. Simplificou-se o tratamento e não ocupamos os ficheiros de memória do nosso cérebro, com a identificação do nome, que toda a gente sabe que é, indiscutivelmente, “o doutor”. “Olha, o doutor mandou-te chamar” ou “o doutor deu instruções para …”

E a questão da omissão dos nomes é tão mais grave que é frequente ouvir nos noticiários das TV’s os locutores referirem-se a alguém sem lhes pronunciar o nome. Ainda nos últimos dias, a propósito da visita de Bill Gates a Portugal, o seu nome foi invariavelmente substituído por “o homem mais rico do mundo” ou “o patrão da Microsoft”

Absurdo, não é?

Outro aspecto que me faz ir aos arames é o tratamento indiferenciado entre os licenciados. Eu explico o que quero dizer. Suponhamos que um serviço tem meia dúzia de licenciados e é chefiado também por um licenciado.
Na maior parte das empresas que conheço, o que se passa é que todos se tratam pelos nomes, em geral pelo nome próprio, mas quando falam com o chefe/director/responsável dirigem-se-lhes de forma mais formal, porventura mais submissa, e aplicam-lhe o “Dr.”.

Poder-se-á dizer que é por uma questão de respeito, ou por causa da idade. Mas não. Quanto à idade, não deve ser, uma vez que, em muitos casos, o chefe é mais novo do que os seus colaboradores. Quanto ao respeito, bem, sempre achei que ele deveria ser biunívoco, isto é, deveria haver respeito de parte a parte, o que parece não acontecer. O que eu ouço normalmente é o chefe tratar o seu ajudante pelo nome próprio e, este, continuar a tratá-lo por “Dr.”. “Oh Joaquim, veja se amanhã me entrega o projecto já com as emendas que lhe pedi”. “Sim, Sr. Dr., pode ficar descansado, amanhã terá o projecto em ordem”.

E isto é já tão “normal” que até na televisão, é frequente assistirmos a cenas destas. Ainda há dias ouvi uma entrevista conduzida pela Drª. Judite de Sousa ao Dr. Francisco Louçã. E o que ouvimos? Apenas o habitual, a jornalista colocava as questões ao Dr. Louçã e ele respondia com toda a naturalidade “Olhe, Judite, o que eu penso …”

Absurdo, não é?

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Como é que isto foi possível?

Quando em 1994 visitei Moçambique, assisti a um país completamente arruinado e destroçado por uma longa e feroz guerra civil, que acabara pouco antes. Por todo o lado viam-se sinais de uma pobreza imensa. Maputo, a capital, era bem o reflexo desse estado de coisas. As farmácias estavam vazias, os transportes funcionavam muito mal, a conservação das ruas e das casas era inexistente. A degradação era tanta, tanta e tal, que em muitos pontos da cidade viam-se valas abertas que serviam como esgotos. Moçambique era considerado, então, o país mais pobre do mundo.

Daí que, face ao que ia observando a cada momento, não tivesse ficado surpreendido quando me disseram que uma família tinha sido apanhada a viver num dos jazigos do cemitério local.
Num país sem condições, que viu chegar à capital milhares e milhares de refugiados de outras zonas, e que, naturalmente, não tinha para oferecer qualquer tipo de estruturas que servissem minimamente como casas, o facto de uma família ter ido viver para um cemitério, para mim isso não era uma surpresa, era um acto de imaginação necessário à sua subsistência.

Surpreso fiquei quando há pouco foi divulgado que em Portugal, em pleno século XXI, num país que está integrado na Europa dos ricos (embora sendo o mais pobre) num país que se diz, e que se quer desenvolvido, uma família viveu ao longo de mais de 20 anos num dos pisos subterrâneos do Hospital de Santa Maria.
E, por isso, não posso deixar de me interrogar como foi possível, no meu país, ao longo de tanto tempo, ter-se verificado uma completa ausência de controlo, que permitiu que um indivíduo chegasse a levar a mobília de quarto para aquelas catacumbas e dali fizesse o domicílio oficial da sua família.

Mas a incompetência chegou a um ponto tal nesse mesmo Hospital, que - pasme-se - foram utilizados alguns armazéns contíguos à casa mortuária, para guardar, também ao longo de vários anos, os produtos resultantes dos assaltos cometidos por vários grupos de meliantes.

Ninguém aceitará uma explicação para o sucedido, por melhor que ela seja. Como é que isto foi possível? A quem devem ser imputadas responsabilidades?

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Hoje, falemos de beijos

Não fora amanhã a comemoração do dia de S. Valentim e, se calhar, nem sequer me lembraria de falar no assunto. Mas a verdade é que, mesmo tendo em conta a comercialização despudorada que tomou conta da data, mesmo assim, sinto-me obrigado, neste dia dos namorados, a falar deles e do amor. E, ao falar de amor e de namorados, terei naturalmente que falar de beijos. Sim porque uma coisa não existe sem a outra, como sabemos.

E é tão bom falar de beijos, se bem que difícil, também. Pelo menos para mim, que sou um tanto ou quanto tímido.
Podemos dizer que há beijos fingidos e frios, há beijos ardentes, há beijos que são dados por obrigação e há os beijos super desejados.
Existem os provocantes, os sonoros, os secos e os molhados. Enfim, existem muitos tipos de beijos e milhares de formas de beijar.

Para muitos, um beijo pode ser uma vírgula mas, para alguns, apenas um ponto de interrogação. Para outros, ainda, uma exclamação.

E há beijos que se colocam nas duas faces, mas outros há, os mais snobes, apenas numa delas e, outros ainda, nos lábios. Temos, claro está, os beijos fraternos, os beijos de cortesia, os beijos de amizade e, naturalmente, os beijos apaixonados.

Aliás, no que diz respeito a beijos trocados entre apaixonados, quase se poderia escrever um manual. Isto porque, para além do mais, os beijos são a primeira estratégia da sedução.

Mas aqui para nós, que ninguém nos ouve, digam lá, há coisa melhor que um beijo? É que, para além de saber tão bem, o beijo faz muito bem à saúde. Um só beijo movimenta 29 músculos, sendo que 17 desses músculos são os da língua. Para além disso, queimamos calorias e libertamos uma hormona chamada serotonina que eleva o humor e produz uma sensação de bem-estar e felicidade. Vocês alguma vez pensaram que aquele bem-estar gostoso provocado pelo beijo era provocado pela serotonina? O raio da hormona desavergonhada…

Uma das mais belas definições de beijo que ouvi até hoje, foi dita, de uma forma extremamente romântica, pelo biólogo e escritor francês Jean Rostand
“Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido”

Mas a verdadeira história do beijo, poucos a conhecerão e, generoso como sou, vou-vos dar o gosto de a divulgar. Segundo o grande historiador grego Plutarco, que viveu nos anos 45 a 125 da nossa era, os seres humanos começaram a beijar-se quando uma lei romana proibiu as mulheres de beberem vinho. Para se certificarem que as suas mulheres cumpriam de facto a lei, os maridos começaram a “testar” o hálito das esposas. Depois disso, surgiu uma nova lei, que tornou o beijo obrigatório entre os esposos, para que, desta maneira, fosse reforçada a fiscalização daquela lei.

Aliás, deve ser porque a lei se mantém ainda em vigor, passados estes anos todos, que as pessoas, e não só os esposos, se continuam a beijar. Estou em crer que deve ser apenas por isso!

Um beijo grande!

domingo, fevereiro 12, 2006

“Alimentem esta ideia”

No ano passado, quando entreguei a minha declaração de IRS na Repartição de Finanças (que vergonha ter que confessar que ainda não utilizo a net para entregar o IRS) o funcionário que me atendeu informou-me que se quisesse doar parte do IRS a certas instituições, isso iria sair do meu bolso. E com o ar mais compenetrado do mundo acrescentou “claro está que o Estado não iria ficar prejudicado, não é?”

Francamente eu não sabia se era assim ou não. Sabia apenas, que poucos dias antes recebera um mail a informar que os contribuintes que o desejassem podiam oferecer 0,5% do seu rendimento a uma instituição de solidariedade, sem ser penalizado.

De facto, eu recebera esse mail e julgara ter entendido perfeitamente o que ele me estava a transmitir. No entanto, aquele senhor que era técnico dos impostos e que até tinha um ar de quem sabia realmente o que estava a dizer, foi tão peremptório e tão convincente que me fez acreditar que, obviamente, “O Estado não poderia ser prejudicado…”

Pois este ano, para que não haja mais dúvidas, e para que não estejam convencidos que só os senhores das finanças é que sabem as leis todas, ficam desde já a saber – todos vós – que

Qualquer pessoa pode doar parte do seu IRS porque o Estado permite que 0,5% do IRS liquidado pode reverter a favor de uma instituição de solidariedade social.

Isto é, vamos pagar ao Estado o que temos para pagar e, depois, sem qualquer encargo adicional para nós, poderemos dizer ao mesmíssimo Estado que queremos que 0,5% daquilo que lhe pagámos deve ser transferido para uma Instituição de Solidariedade Social que nós iremos indicar.

NÃO PAGAREMOS MAIS POR O FAZER.
Para tal basta que no

Modelo 3 - Anexo H - Benefícios fiscais e deduções

No Quadro 9, campo 902 - Consignação de 0,5% do Imposto Liquidado

Escreva o nome da Instituição a quem pretende doar o seu donativo e fique tranquilo que o Estado transferirá essa verba para a Instituição que indicou.

Dito isto, e sabendo a admiração e o carinho que eu tenho pela obra dos Bancos Alimentares, permitam que eu lhes deixe a minha sugestão:
Encaminhem parte do seu IRS para os
Bancos Alimentares Contra a Fome
NIPC 504 335 642

Ajude os Bancos Alimentares com o seu IRS. Alimentem esta ideia

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Consultora precisa-se

Quando o caso começou a constar, os meus nervos agitaram-se e os meus dedos começaram a ter uma irritação tal que deslizaram pelo teclado doidinhos para contar a história.
A notícia foi publicada no “Independente” mas nos chamados “mentideros” já constava há algum tempo que ia estourar uma bronca.

Pois é, a Sr.ª. Eng.ª. Sofia Fava, que foi casada com o primeiro-ministro José Sócrates, foi contratada pelos CTT como consultora externa para participar num projecto denominado “Sistema de Informação Geográfica Postal”.

Ao que parece, e segundo fonte oficial dos CTT em declarações ao “Independente”, trata-se de um trabalho que visa racionalizar a distribuição de correspondências, cartografando as ruas das cidades e desenhando os roteiros dos carteiros de uma maneira lógica. Como se deduz, o objectivo principal é, naturalmente, prestar um melhor serviço aos clientes.

Até aqui tudo bem. Saudemos a medida e esperemos ansiosamente os resultados que, temos a certeza, irão beneficiar grandemente os utentes dos correios.

Mas, desculpem-me lá a desconfiança. A Administração dos CTT, que é presidida pelo socialista Luís Nazaré, foi contratar uma consultora que, por acaso, é a ex-mulher do actual primeiro-ministro, a mesmíssima pessoa que, também, por acaso, faz parte da comissão política do concelho de Lisboa do partido socialista, casualmente o partido que está no governo, e ainda por cima com maioria absoluta? Entenderam a coisa?

Eu explico melhor. O Dr. Luís Nazaré e o Eng. José Sócrates são amigos e também são amigos comuns e admiradores confessos do actual Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, o Engº. António Guterres. E se Sócrates é amigo de há décadas de Guterres, já Nazaré chegou ao clã através da sua participação nos Estados Gerais para a Nova Maioria. A completar o quadro, resta dizer que Luís Nazaré foi nomeado presidente do conselho de administração dos CTT, após a vitória de José Sócrates nas legislativas de 2005. Perceberam agora? Ainda não?

Bem, então é necessário dizer que não está em causa a qualidade e as capacidades técnicas da Sr.ª. Engenheira, e tão pouco achamos que a Sr.ª. Engenheira deveria ter sido prejudicada na sua escolha pelo facto de ter sido casada com o Eng. Sócrates ou por fazer parte de uma estrutura do partido do governo. Nada disso.

O que achamos estranho é que tivesse havido a necessidade imperiosa de contratar uma consultora para participar num projecto de racionalização da distribuição de correspondências, quando, dentro da empresa, já existe um sistema informático que permite racionalizar todo o esquema de distribuição da correspondência da capital. Ou seja, vai arrancar um projecto onde certamente se vão gastar pipas de massa para se chegar a um produto que, afinal, a empresa já tem.

Agora que toda a gente já viu onde eu queria chegar e antes que os meus belos e escorreitos dedinhos fiquem completamente doidos de comichão, só quero lembrar que temos estado a falar de uma empresa pública, de mais uma empresa pública que vive à custa do dinheiro dos contribuintes. E daí perguntar: como é que uma empresa pública ainda tem o descaramento de fazer contratações do tipo “jobs for the girls” e, como é que esta mesma empresa se arroga o direito de não divulgar os salários e as mordomias que vai pagar aos novos contratados? Se calhar, porque as pessoas já se habituaram a isto e já ninguém se surpreende com tamanhos desmandos.

domingo, fevereiro 05, 2006

O ovo e a galinha

Sempre tive alguma dificuldade em resistir a um desafio. Penso que é uma questão de temperamento. Por isso, quando “porcos no espaço” lançou um grito de desespero, logo saltei a terreiro e, qual super-homem, lancei-me velozmente ao encontro de quem manifestava tanta inquietude.

Mas o grito lancinante que procurava desesperadamente uma resposta para a velha questão de se saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha – tão velha, de resto, quanto a outra do copo meio cheio ou meio vazio – provocou-me um arrepio.

É que não faço a mínima ideia de quem apareceu primeiro. Mas, como acontece com a generalidade dos portugueses, isso não me impede de dissertar sobre o assunto.

Há séculos que as pessoas se encantam, se perturbam e se interrogam sobre esta questão mas, quanto a respostas, nenhumas. Apenas meras conjecturas e nada mais.

Cá para mim, o ovo foi o começo de tudo, muito embora eu não saiba como justificar esta minha opinião. Chamemos-lhe pressentimento, ou talvez lógica. Afinal como é que nascem as galinhas? Dos ovos, não é?

Por outras razões, aliás bem mais razoáveis, os cientistas do National Geografic também são de opinião de que o ovo nasceu primeiro que a galinha. E a sua justificação é simples. Dizem eles que os répteis já punham ovos muito tempo antes de existirem galinhas, e a primeira galinha nasceu de um ovo posto por uma ave que não era propriamente aquilo a que hoje chamamos uma galinha.

É claro que haverá por aí muita gente que não terá qualquer problema em afirmar precisamente o contrário. Dirão que se trata de uma tese perfeitamente estapafúrdia porque, quem se der ao trabalho de ficar de plantão num galinheiro, verá que só depois da galinha chegar é que vem o ovo.

E se calhar, são capazes de ter também razão. Mas eu ainda tenho uma história, quiçá uma lenda, que poderá servir como meu argumento de choque:
Ao que parece, quando Deus quis fazer o galo e a galinha, inesperadamente, o ovo antecipou-se. Como o plano previsto não fosse aquele, Deus pediu a uma pomba para chocar o tal ovo. A pomba, embora contrariada, anuiu e após alguns dias, nasceu um pintainho que, para a alegria geral e alívio de Deus, era uma galinha.

Como vêem, mais uma vez o ovo veio à frente da galinha.

Mas já que falamos de ovos e de galinhas, quero fazer-vos um aviso: “Não contem nunca com o ovo que está no cu da galinha”. É que, dizem, existiu realmente uma galinha que punha ovos de ouro. Mas a cobiça humana foi mais forte que a sensatez. A ambição foi a tal ponto que abriram a galinha e tentaram retirar todos os ovos de ouro que ela teria no seu interior. Só que os ovos ainda não estavam prontos e a galinha morreu. A partir desse momento, nenhuma outra galinha no mundo voltou a pôr ovos de ouro.

terça-feira, janeiro 31, 2006

A “sesta” acabou …

À medida que a crise se tem agravado nos últimos anos em Portugal, e nos vamos afastando um pouco mais dos padrões europeus, vai-se ouvindo aqui e acolá os desabafos de cidadãos anónimos que, muito claramente, vão dando conta que gostariam mais de ser espanhóis do que portugueses. Há mesmo quem lamente termos ganho Aljubarrota. Segundo esses críticos, não fora essa vitória e hoje seríamos … espanhóis e viveríamos melhor.

Claro que estes lamentos têm a ver, essencialmente, com aspectos de natureza económica, mas não só. O salário espanhol é melhor do que o nosso, vive-se lá com maior qualidade de vida, lá há “tapas”, há queijo “manchego” e há “paella”. Lá há, também, a “siesta”. Portanto, tudo é melhor em Espanha.

O que é curioso, aliás, é que desde sempre nutrimos pelos nossos vizinhos, sentimentos tão contraditórios que vão da inveja do que eles têm ao temor do que eles possam representar. Se por um lado, eles têm todas as coisas boas que eu referi (e muitas outras), por outro, “de Espanha, nem bom vento nem bom casamento” como se costuma ouvir.

Pois agora, desde o início do ano, caiu um dos baluartes maiores da “invencível armada espanhola”. A “sesta”, um dos símbolos espanhóis mais cobiçados pela rapaziada cá do burgo, acabou.

Em nome da produtividade do país e em nome da uniformização dos horários com a Europa, o governo espanhol decidiu terminar com o “caos dos horários” e zás, entrou em vigor o novo horário para o almoço, que vai do meio-dia à uma, em vez daquele outro que decorria entre as duas e as quatro da tarde.

Acabou-se a “sesta” amigos. Mas, ainda assim, querem continuar a passar pelas brasas depois do almoço? Pois bem, façam-no na mesma, mas no serviço e às escondidas dos chefes. Vão até às casas de banho e aproveitam bem uma boa meia dúzia de minutos para dormitar um pouco.

No entanto, tenho a certeza que esta medida não vai fazer mudar de ideias aqueles portugueses que gostariam que Portugal fosse mais uma província de Espanha. Argumentarão que eles já não têm a “sesta” mas, mesmo assim, continuam a ter as “tapas” e a “paella”.
Bom, mas para isso, meus amigos, não é necessário sermos espanhóis. Basta ir até ao El Corte Inglês.

Contudo, não errarei ao dizer que existe pelo menos um português que quer continuar a ser português e que se estará nas tintas para que os espanhóis façam ou não a sua sesta. Sim, porque ele vai continuar a fazer a “sua sesta”.
Estou a referir-me, como perceberam, ao Dom Mário Soares.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

A “Baixa médica?"

Sempre senti a maior admiração e simpatia por Manuel Alegre. Sempre o achei um homem íntegro, coerente e de carácter. Para além disso, corajoso. Para além disso, ainda, sempre gostei da sua voz quente e arrebatadora que dá muito mais sentido ao que diz. E, para além de tudo isso, sempre o admirei como poeta.

Pois Manuel Alegre com todos estes atributos e com todos os votos que lhe foram confiados por mais de um milhão e duzentos mil eleitores, e depois de quase ter conseguido passar à segunda volta das Presidenciais, esborratou a pintura.

Cansado de tanta canseira a percorrer o país de lés a lés, achou que tinha o direito a descansar. E tinha, de facto, tinha todo o direito a isso. A campanha foi muito violenta e era mais do que natural que ele quisesse recuperar. Se bem que ele não disse ainda se quer estar de novo operacional para voltar a assumir a vice-presidência da Assembleia da República e os cargos dirigentes no Partido Socialista, a que pertence, ou a fazer qualquer outra coisa, como por exemplo, criar um movimento cívico.

O que se sabe, o que ele disse, é que estava cansado e queria descansar. Mas, para isso, Manuel Alegre tinha que meter uma “baixa médica”? Não podia reservar uma semanita das suas férias e fazer como toda a gente, indo para qualquer lado descansar? Isso era o que eu esperaria dele.

A atitude não caiu lá muito bem. Ainda por cima numa época em que se anda desenfreadamente à caça (aqui em sentido figurado) dos prevaricadores com baixas médicas mas sem doenças, não é que se dá de caras com um alto funcionário chamado Manuel Alegre a meter “baixas médicas”, não por estar doente, mas porque quer descansar?

Se calhar, de tanto se falar sobre a moralização da vida pública o povo é capaz de começar a dizer que “ou há moral ou comem todos …”

“Baixa médica para caçar?” Não havia necessidade …

domingo, janeiro 29, 2006

Nevou em Lisboa


Eu sabia que alguma coisa de muito horrível estava para acontecer. Sentia, pressentia que algo de muito insólito ia perturbar o meu fim-de-semana. E não é que aconteceu? Não uma, mas duas coisas gelaram – literalmente – a minha “ialma”.
Primeiro foi aquela derrocada enorme, nada habitual, desastrosa, incompreensível e apocalíptica que aconteceu no sábado quando a equipa do “sportem” foi ganhar à Catedral àquela maravilhosa, bem estruturada e deslumbrante equipa do Benfica. A derrota foi sentida como se um balde de água gelada fosse derramada por cima dos milhões de adeptos presentes no estádio. A quem, no entanto, não esmoreceu a fé de ganhar este ano mais um campeonato.

Mas ainda não recuperado da frieza daquele gelo, não é que neste domingo assisti à queda de neve aqui em Lisboa, uma coisa que já não acontecia há 52 anos? Ainda que os leves flocos de neve não chegassem para cobrir de branco toda a cidade, como aconteceu no dia 2 de Fevereiro do longínquo ano de 1954, mesmo assim, a temperatura desceu bem baixo (meio grau às três da tarde) e gelou-nos o corpo (e novamente a “ialma”) pela segunda vez.

Foi apenas uma derrota. Foram uns minúsculos flocos de neve. Mas, convenhamos, para um só fim-de-semana foi gelo a mais…


sexta-feira, janeiro 27, 2006

Estou de ressaca

Hoje acordei mal disposto. Dormi mal. Mal e pouco. O sono tive-o povoado de inquietações, de muitas interrogações. O sono repousado foi substituído por aquela velha mania de pensar e de fazer balanços à vida nas horas mais impróprias. O que fiz? Valeu a pena? O que falhou? E porquê? E porquê? E porquê? E porquêêêêêê …?

A minha geração – a célebre e tão questionada “geração de 60” – é uma geração dividida entre a felicidade do que fez bem e a angústia do que não resultou tão bem como gostaríamos, ou mesmo dos sonhos que não conseguimos pôr em prática. Afinal, uma geração “espartilhada”.

Mas a “geração de 60” legou às que se seguiram coisas tão importantes que mudaram o rumo do mundo e que, provavelmente, os mais novos nem se dão conta.
Fomos nós que “inventámos” a ecologia e a defesa do ambiente. Fomos nós que demos à mulher um estatuto de igualdade e de dignidade, mas onde, ainda há um grande caminho a percorrer. Recordo que há 30 anos atrás a mulher não se podia ausentar do país sem a autorização do marido, ainda que fosse só a Badajoz comprar caramelos.
Foi a nossa geração que “estabeleceu” para homens e mulheres um novo modelo de relações amorosas baseadas no amor, e que aprendemos a alegria e a responsabilidade de sermos pais e de passarmos muito mais tempo com os nossos filhos e a criarmos com eles padrões de diálogo, até então desconhecidos.

A “geração de 60” foi culta, interveniente, inconformada. Condenámos as guerras (make piece not war, lembram-se?), as ditaduras, o colonialismo, o imperialismo, o racismo e a violação dos direitos humanos. Tínhamos valores.

Mas fizemos, ajudámos a fazer um mundo melhor? Sim, certamente melhor do que aquele que herdámos.

É verdade que não acabámos com a miséria e com as injustiças do mundo, mas hoje, apesar de tudo, o mundo é muito melhor.

Desculpem-me o desabafo, mas hoje não estou muito bem. Acordei mal disposto. Estou de ressaca …

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Aumentaram as fraudes nas empresas

Quando comecei a escrever este texto, lembrei-me daquela velha questão - nunca convenientemente explicada - de saber se, afinal, o copo está meio cheio ou meio vazio. É que não sei se fiquei triste ou contente ao ler uma notícia onde se dava conta de que há cada vez mais fraudes nas empresas.
De acordo com um trabalho recente da PricewaterhouseCoopers, efectuado junto de 3634 empresas de 34 países, o número de fraudes em grandes empresas aumentou nos últimos dois anos. Cerca de 45% dessas empresas foram alvo de fraudes, quando há dois anos atrás a percentagem se situava nos 37%. E, a consequência deste desmando, foi que as empresas perderam 1,7 milhões de dólares.

E a dúvida que há pouco manifestei deve-se a quê?

É claro que me preocupa (entristece-me) o facto de terem aumentado o número de fraudes, e de forma significativa, em tão curto espaço de tempo. Mas, sabia-se que esta situação era quase inevitável perante o agravamento de crise económica generalizada e as consequentes dificuldades que afectam os trabalhadores em todo o mundo. Adivinhava-se que iria acontecer.

Mas, ao mesmo tempo, sinto-me contente (sobretudo porque a minha área de actividade é justamente o controlo e a segurança das operações) porque também aumentou a detecção do número de casos de fraude, devido, sobretudo, a uma regulamentação mais exigente e ao reforço dos mecanismos de controlo das operações e do risco.

Fico, no entanto, com uma dúvida para a qual não encontro resposta cabal no relatório da PricewaterhouseCoopers. A de saber, o que é que, de facto, aumentou:
a) Se o número de fraudes e, ao mesmo tempo, a quantidade das situações detectadas?
b) Apenas o número de fraudes? ou
c) Sobretudo o número de situações fraudulentas detectadas pelos órgãos internos e/ou externos, que têm por missão assegurar o controlo das empresas e, assim, porque se detectaram mais situações, o número de fraudes foi também maior?

Seja como for, para nosso descanso, ou talvez não, Portugal não foi considerado na amostra que serviu de base a este estudo.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Novas passadeiras para peões

Na última reunião do Conselho de Ministros, foi deliberado que as tradicionais passadeiras para peões que, como se sabe, estão posicionadas perpendicularmente em relação aos passeios, sejam substituídas por outras passadeiras desenhadas na diagonal.
Esta medida foi aprovada depois de um parecer de uma comissão independente constituída por peritos de diversas universidades nacionais e estrangeiras, ter concluído que a maioria dos portugueses atravessa as passadeiras até cerca de metade das ditas e, depois, para encurtar caminho, desvia-se para a direita ou para a esquerda conforme o percurso que pretende seguir.
Os peritos concluíram, ainda, que a situação é muito mais preocupante no caso de pessoas que vão a falar ao telemóvel, sobretudo as senhoras, uma vez que essas pessoas raramente terminam a travessia dentro da passadeira e quando saem dela (quase sempre a meio da rua), nunca se certificam se algum automóvel se aproxima, pondo em risco a sua vida.
O processo de redesenho das passadeiras deverá ser iniciado em breve.

Como perceberam, esta “notícia” não é verdadeira. Mas até poderia ser … e, se fosse, muita coisa poderia mudar. Quem sabe se seria possível ver passadeiras desenhadas em vê. Isto é, passadeiras que partiriam de um ponto de um passeio, onde faria um vértice, para dois pontos diferentes do passeio do outro lado da rua, um à esquerda e outro à direita. Estão a ver? Afinal se já existem passadeiras com mensagens escritas, porque não as “zebras” com traçado diferente? E, vistas do ar, e em conjunto com o desenho das calçadas portuguesas, já imaginaram como as ruas ficariam bonitas?

Quem sabe se com estas novas passadeiras em diagonal, não se evitariam muitos dos acidentes que por aí acontecem.