segunda-feira, março 16, 2009

Insegurança

Não pretendo, nesta crónica, discutir as políticas de segurança do governo. Independentemente da bondade dessas medidas e do seu efeito prático, temos que reconhecer que o mundo de hoje é mais violento e inseguro do que nos últimos anos, que as condições de vida se têm vindo a agravar muito e que a internacionalização da criminalidade e o seu modo de actuar são hoje completamente diferentes para pior.

Pelo que já ninguém se admira que o número de crimes aumente de ano para ano.

Segundo o Relatório de Segurança Interna de 2008, o ano passado o crime violento aumentou 10,7% e a criminalidade geral subiu 7,5%. O maior crescimento dos últimos dez anos em Portugal.

Bem pode agora o Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, dizer que embora 2008 tenha sido, na generalidade, um ano mau, o último trimestre até registou alguma melhoria. Não é por isso que eu me sinto mais seguro.

O que eu verifico, e é isso que me preocupa, é que no ano passado as forças de segurança registaram um total de 421 037 crimes - mais de 1 100 por dia - dos quais 24 313 foram graves e violentos.
Não quero ser mais uma voz alarmista que desperta nos cidadãos uma onda de pânico. Nada disso, apenas estou a referir números oficiais que não podem deixar de ser olhados com inquietação. Para mais, existe na população o sentimento de que o número de agentes nas ruas é manifestamente insuficiente e que os bandos de criminosos são cada vez mais sofisticados e violentos e actuam com demasiado à-vontade.

230 roubos a bancos (108 em 2007), 468 assaltos a postos de abastecimento de combustível (241 em 2007), 143 pessoas assassinadas (mais dez que em 2007) e 761 agredidas violentamente (mais 99 que no ano anterior) são números verdadeiramente assustadores e para os quais não existem palavras ministeriais suficientes para acalmar os cidadãos. Ainda que - reconheçamos também - se tenham realizado nos últimos meses acções notoriamente mais musculadas das forças de segurança.

Mesmo assim, continuamos a sentir-nos demasiado desprotegidos. São necessárias outras medidas de prevenção e mais presença policial nas ruas de forma a dissuadir os criminosos e a transmitir mais tranquilidade à população.

sexta-feira, março 13, 2009

O regresso dos Nobre

Uma declaração de interesses, a começar. Esta crónica não é paga (nem em dinheiro nem em géneros) e, se a escrevo, é apenas porque quero propor-vos um restaurante que tem um espaço moderno, cosmopolita, simpático e agradável e onde a comida é de primeiríssima qualidade.

Refiro-me ao Spazio Buondi, nas traseiras do Campo Pequeno em Lisboa, à esquina da Avenida Sacadura Cabral.

Mas para melhor lhes aguçar o apetite é bom que saibam que este “Spazio” é sobretudo o “Espaço Nobre”, onde pontuam as figuras de José Nobre, mestre do atendimento e da simpatia e de Justa Nobre, senhora de saberes infindáveis de cujas mãos saem iguarias saborosíssimas.

Ambos são grandes profissionais que eu tenho tido o prazer de seguir desde os tempos do restaurante da Ajuda, mais recentemente no espaço que tiveram no Montijo e, desde o final do ano passado, em Lisboa.

Como diria o José Quitério, conhecido comentador de gastronomia, “Tenho andado restaurativamente atrás deles ao longo dos anos”. Porque será?

É só uma sugestão de amigo.

quinta-feira, março 12, 2009

Já agora …

Consta que os sindicatos que representam os trabalhadores da EDP se preparam para umas quantas greves caso não sejam concedidos os 6% de aumento que reivindicam.

É um direito que lhes assiste. Ninguém pode levar a mal que, neste país de salários baixos e que já tem cerca de 10% de desempregados, os trabalhadores lutem por aquilo que acham justo, tanto mais que, segundo dizem, administradores e accionistas vão ser generosamente recompensados pelos lucros que a empresa obteve em 2008. Nada mais do que 1 091 milhões de euros, o resultado líquido mais elevado de sempre atingido por uma empresa cotada em Portugal.

Se for assim, isto é, se houver prémios da importância dos que normalmente são atribuídos aos quadros gestores das grandes empresas, é absolutamente compreensível que os sindicatos peçam um aumento maior, se bem que eu pense que 6% talvez seja um tanto ou quanto desadequado no momento presente.

Já agora, e face aos resultados líquidos da EDP que subiram 28% neste último ano - para os quais nós também contribuímos, é preciso não esquecer – seria inteiramente legítimo que se pensasse também nos consumidores. E, para isso, bastava que houvesse uma redução das taxas de electricidade uma vez que as que pagamos agora são altíssimas.

terça-feira, março 10, 2009

Mais claro do que isto …

“Se a euribor não pára de baixar porque é que os Bancos não acompanham essa descida e continuam a aumentar os spreads?”

A aparente contradição suscita a pergunta que anda na boca da maioria dos portugueses. Afinal, diria o senso comum que à queda das taxas de juro deveria corresponder igual descida dos spreads bancários. Como isso não acontece, o normal é que o povo diga à boca cheia que os bancos se estão a encher, que são uns ladrões e por aí adiante …

Não se julgue, porém, que esta “revolta” se verifica apenas em pessoas menos habituadas a estas matérias. A verdade é que a desconfiança se generalizou e, eu próprio, inúmeras vezes, tenho tentado justificar que uma coisa nada tem a ver com a outra.

A este propósito, no Expresso desta semana, Nicolau Santos dá a explicação ao líder do CDS Paulo Portas que, pelos vistos, também ainda não entendeu a questão. Com o devido respeito e a cordial saudação ao Nicolau, transcrevo uma pequena parte da sua crónica que é bastante esclarecedora:

“… A taxa de juros é o preço do dinheiro. Se há muito e é farto, acontece-lhe o mesmo que às batatas – o seu custo (a taxa de juro) diminui. Se, pelo contrário, há muita procura e pouca oferta, os juros sobem. No caso actual, há pouca oferta mas a procura ainda é menor: o custo do dinheiro desce.

Os spreads são o risco que os bancos atribuem a cada cliente. Um cliente com rendimentos precários, menores garantias e algum incumprimento no currículo é obrigado a pagar spreads maiores. Na actual situação, há um aumento geral dos spreads devido à crise mundial …”.


Mais claro do que isto é impossível.


segunda-feira, março 09, 2009

Magalhães

Mais uma do Magalhães. Nestes últimos tempos têm sido muitas as notícias que têm saído sobre ele e nem todas pelas melhores razões.

Desta vez alguém descobriu que nas instruções dos jogos do computador há erros grosseiros de ortografia, de sintaxe e de gramática. Um festival de asneiras dizem alguns, tanto mais que os destinatários são maioritariamente crianças e jovens.

Realmente, palavras como “gravar-lo, continuar-lo, básicamente, dirijir ou puxando-las”, em conjunto com verbos mal conjugados e virgulas e acentos um pouco ao deus-dará nunca deveriam ter visto a luz do dia.

Os responsáveis pelo software associado à aplicação reconhecem que houve falha humana porque o processo tem uma grande componente de tradução automática (o produto veio de um outro país) que não foi convenientemente validada.

Mas, sabem uma coisa? Tanto erro junto nem sequer me preocupa. Os erros estão a ser corrigidos e, em breve, este “magalhanês” não passará de um episódio que servirá apenas para uma boa risada.

Muito antes do Magalhães aparecer já eu andava deveras apreensivo com a falta de conhecimentos generalizados sobre a matemática e sobre a forma de como escrever (e falar) a nossa língua. Disso mesmo dei aqui conta por diversas vezes.

Miríades de pessoas mostram com frequência que não fazem contas sem uma máquina de calcular à mão e saber a tabuada é coisa que não lhes passa pela cabeça, por muito inteligentes que sejam. Por outro lado, os inúmeros textos que vejo escritos diariamente em jornais, agências noticiosas, blogues e relatórios, são uma autêntica catástrofe. Muitos deles da autoria de gente que tinha a obrigação de escrever correctamente a nossa língua. Frases mal construídas, acentuação imperfeita ou inexistente e os muitos erros de ortografia são motivos bastantes para pensar que, para tanto mal, não há solução possível.

Face a isto, os erros do Magalhães, embora condenáveis, são meras brincadeiras de criança.


domingo, março 08, 2009

Reflexão

Só o facto de perceber pouco da política e dos políticos (ou do que é que lhes vai nas cabeças) é que pode, eventualmente, salvar-me de uma execução em praça pública por aquilo que vou escrever.

Mas a verdade é que não consigo perceber o que é que leva um cidadão filiado há séculos num partido político, que se encontra em rota de colisão com as orientações emanadas dos seus órgãos directivos a ponto de, na Assembleia da República onde é deputado, votar sistematicamente às avessas das mesmas orientações, o que é que leva, repito, a que esse senhor continue no partido e não procure um novo rumo mais consentâneo com os seus ideais?

Pensava eu, lá está novamente a minha ignorância política a vir ao de cima, que nos partidos havia debate interno, havia o direito ao contraditório, discutiam-se as estratégias e, findo esse trabalho, a decisão dessas disputas seria a palavra final e única desse partido.

Perguntarão, e o direito à liberdade de expressão onde é que fica? Será que os membros dos partidos não podem manifestar o seu desacordo público perante as decisões oficiais desses mesmos partidos? Em certos casos sim, por isso os partidos costumam - nesses casos - dar liberdade de voto aos seus deputados. Falemos claro, o direito de ter e de difundir opiniões completamente livres está reservado apenas a todos aqueles que não são filiados e que não têm que se sujeitar a uma coisa que se chama disciplina de voto. Os que militam em partidos políticos devem exercer essa faculdade, sim, mas dentro dos partidos, com toda a determinação e aceitando democraticamente a decisão da maioria.

Aliás, e saliento uma vez mais o meu fraco conhecimento da política, então, se não for deste jeito, porque é que os partidos pedem ao povo que nas eleições lhes dêem a maioria se, depois, dentro do Parlamento os seus próprios deputados votam em sintonia com as oposições? Acham que a ser assim as maiorias servem para alguma coisa?

Por muito respeito que tenha pelo Manuel Alegre (é dele que estou a falar, é claro) – e tenho muita, acreditem – penso que não é desta forma que pode ajudar o partido a que pertence, as populações que o elegeram nem, tão-pouco, o país.

Gostaria mais de ver Alegre ao lado de Helena Roseta, onde seria, porventura, mais útil em associações ou movimentos cívicos de cidadãos, lutando tenazmente pelas ideias em que acredita, com a dimensão de um homem livre que todos lhe reconhecem.

Mas isso sou eu a pensar. Afinal, pouco percebo da política e dos políticos.

quinta-feira, março 05, 2009

A tal janela

Últimas notícias: Fábrica fecha em … 400 trabalhadores despedidos em … Retracção no investimento estrangeiro no 2º. semestre de … País com dívida externa excessiva … Famílias altamente endividadas já não pagam luz e …

CRISE! CRISE! CRISE!

Perante tanta desgraça junta virei a minha atenção para os muitos especialistas que afirmam que em todas as crises há sempre janelas de oportunidade que se abrem.

Se calhar vejo mal e por isso é que não tenho conseguido descortinar onde estão essas tais janelas. Até hoje. Porém, quando abri o Diário de Notícias desta manhã dei de caras com a oportunidade que faltava e que eu tanto procurava.

“Eurodeputados portugueses passam a ganhar o dobro”. Tal qual. A partir das próximas eleições europeias, que em Portugal se realizam a 7 de Junho, todos os eurodeputados vão passar a ganhar um vencimento único. No caso dos portugueses, o aumento vai passar para o dobro do que ganhavam até aqui. De 3815 euros passam para os 7665 brutos, ou seja, em valores líquidos, passam de 2525 para 5963 euros. Isto sem esquecer outros subsídios, nomeadamente o chamado “de estadia” que é, actualmente, de 287 euros diários e daquele outro de 143 euros por dia que recebem sempre que a sua presença tenha de ser feita fora da UE.

Ora aí está a janela cheia de oportunidades.

Penso que ainda vou a tempo de me inscrever num partido político. Falo línguas, tenho presença e algum jeito para actor. Quem sabe se ainda consigo alguma coisa.

E se não for para deputado europeu talvez entre, em lugar elegível, numa lista, para deputado do nosso parlamento. É que, face aos aumentos hoje anunciados para os eurodeputados, a deputada europeia do PCP, Ilda Figueiredo, já disse considerar injustificável que "os eurodeputados ganhem mais do que os deputados do seu país".

Não tarda muito que o contágio aconteça. Às vezes o mal é começar a falar …

quarta-feira, março 04, 2009

Quem quer ser bilionário?

Por uma questão de princípio não costumo mostrar um entusiasmo desmedido quando falo com outras pessoas sobre coisas de que gosto muito ou de que não sinto prazer algum. Como admito que possamos ter opiniões diferentes, prefiro não empolar muito as minhas opiniões nem criar expectativas, boas ou más, sobre essas coisas.

Hoje, contudo, faço uma excepção para dizer que gostei muito do filme de Danny Boyle “Quem quer ser Bilionário”. Não por ter conquistado oito óscares (melhores filme, realizador, argumento adaptado, fotografia, canção, montagem, banda sonora original e mistura de som), nada disso, mas porque achei a história do rapaz dos bairros de lata - inculto, lutador e sobrevivente das imensas agruras de um meio tão adverso - jovem concorrente a um conhecido concurso de televisão, deveras comovente e, ao mesmo tempo, inspiradora. Toda ela passada num país, a Índia, em que o filme mostra com enorme crueldade a imensa pobreza das ruas de Bombaim. Diria mesmo, um filme tão forte que enche por completo.

Para quem o viu já, talvez possa compreender que a frase que me ocorreu de imediato, como a possível para uma síntese do filme, fosse “podem transmitir-se todos os conhecimentos mas nunca as experiências”.

Para quem não viu – e sugiro que o façam – inspirem-se na apresentação oficial do filme ou, como diria o boneco do Herman, o “Lauro Dérmio”, “Lets look ata treila”.


terça-feira, março 03, 2009

Palavras leva-as o vento

Uma das principais diferenças entre um cidadão anónimo e uma figura pública é que, enquanto que a primeira passa perfeitamente despercebida no meio da multidão, a figura pública está constantemente exposta e, por isso, tudo o que diz e faz é fatalmente julgado pela opinião pública e por uns quantos comentadores de serviço que estão sempre prontos a cascar forte e feio à menor escorregadela.

Quem é muito conhecido, quem aparece frequentemente nas televisões e nos grandes palcos, não pode dar-se ao luxo de se pôr a jeito de, ao mínimo deslize, ser transformado em saco de pancada.

Mesmo aqueles desconhecidos que pretendem “dar ares”, utilizando conhecimentos que não têm, são muitas vezes desmascarados e, no mínimo, ninguém os livra do ridículo.

No entanto, a esses, é mais fácil dizerem-se eruditos e mencionarem títulos de obras escritas por autores mais ou menos obscuros. Se proclamarem que o livro “A minha aventura em África” foi escrita por um tal Mário Jorge, quem os ouve fica de olhos desmedidamente esbugalhados perante tamanho saber, apenas e só porque não fazem a mínima ideia se aquele escritor existe ou existiu e se há ou houve essa tal obra citada pelo orador.

Com as figuras públicas, porém, tanta eloquência e sapiência (ou falta delas) podem ser facilmente detectáveis, uma vez que o auditório é imensamente mais vasto e, dentro dele, pode haver alguém mais esperto ou mais sabedor do que o farsante. É, pois, necessário ter mais cuidado para não correr riscos inúteis. E não são poucos os casos em que as ditas figuras metem o pé na argola.

Há uns anos
Clara Pinto Correia copiou uma boa parte de um texto publicado na revista “The New Yorker” e publicou-o num artigo para a Visão como se ela tivesse sido a autora. Foi descoberta e despedida.

Agora foi Pedro Passos Coelho que deu para tornar público toda a sua vasta cultura, citando nomeadamente os livros e os filmes que influenciaram a sua formação. Às tantas, tropeçou em tanto saber e vá de lembrar a leitura da “Fenomenologia do Ser” de Sartre. Tropeçou e caiu porque Jean-Paul Sartre jamais escreveu tal coisa e Pacheco Pereira, que não perdoa este tipo de falhas, denunciou o caso no seu blogue.


A terminar, e sem querer desculpar o “lapsus Linguae” de Passos Coelho, sempre quero dizer que li (eu li mesmo) “A Oeste Nada de Novo” de Erich Maria Remark numa versão portuguesa intitulada “Nada de Novo na Frente Ocidental”. A mesma obra e o mesmo autor, provavelmente com traduções feitas por diferentes pessoas, o que poderia, se ele nos lesse, incomodar a língua viperina de José Pacheco Pereira.



segunda-feira, março 02, 2009

Ainda a propósito de leis

No texto que aqui publiquei ontem escrevi que “há quem garanta que em muitas áreas de actividade existe um vazio legislativo”. E é capaz de haver.

Todos se recordam daquele caso em que a Bragaparques, através do seu administrador e sócio, Domingos Névoa, tentou subornar o vereador lisboeta José Sá Fernandes. Denunciada a marosca pelo próprio Sá Fernandes, o processo entrou na justiça e Névoa foi agora condenado por corrupção a pagar uma multa de cinco mil euros … em prestações suaves.

É inacreditável. A tentativa de suborno foi mais do que provada e o “chico-esperto” que infringiu a lei apanhou uma penalização de somenos importância que revolta toda a gente e que faz aumentar a sensação de que o crime, afinal, compensa e que não vale a pena às pessoas que são assediadas com subornos darem-se ao trabalho e às chatices de denunciarem os corruptores.

E nem sequer nos podemos insurgir contra quem o julgou. Os juízes sentenciaram de acordo com a lei que, vá lá saber-se porquê, distingue a corrupção para actos lícitos da outra que é destinada a actos ilícitos. Como se a corrupção, por si só, não devesse ser fortemente penalizada pela lei, sem quaisquer restrições.
Tudo isto é lamentável. Os cidadãos esperam muito mais do sistema de justiça e dos políticos que têm a obrigação de dotar o Estado com leis bem-feitas, claras, exequíveis e que castiguem a sério os infractores.

É por causa destas e doutras que, há umas semanas, o Presidente da República chamou a atenção para a fraca qualidade das leis que temos. E não é que é capaz de ter razão?

domingo, março 01, 2009

Leis

Li na semana passada no El País que o Congresso peruano pretende eliminar 20 000 leis que consideram actualmente obsoletas, pelo que, apenas cerca de 5 000 leis constarão no seu ordenamento jurídico. E, meus amigos, prevê-se que o Peru fará esta imensa revisão em apenas quatro meses. Fantástico!

Em Portugal isso seria impensável e, desde logo, porque não há consenso quanto ao número e à qualidade das leis. Há quem diga que temos excesso de legislação e há quem garanta que em muitas áreas existe um vazio legislativo.

Admito que haja leis que não sejam absolutamente necessárias e outras que são manifestamente inúteis e que só vieram à luz do dia porque alguém tinha que apresentar serviço. Leis que foram muito bem pensadas, por certo, mas que na realidade para nada servem.

Mas, reparem, este não é um problema exclusivamente português como podem ver a seguir, onde leis aparentemente inúteis permanecem em vigor há anos e anos, não vá o diabo tecê-las.

No Reino Unido

- É proibido morrer-se no Parlamento, sob pena de ser detido;
- É permitido matar um escocês nos muros da antiga cidade de York. Mas somente com arco e flechas!

Nos Estados Unidos

- Em Nova Orleans, Louisiana, é ilegal amarrar um jacaré a uma bomba de incêndio;
- No Kansas, se dois comboios se encontrarem na mesma linha devem parar e nenhum deles pode prosseguir sem que o outro tenha passado;

Em França

- A cidade de Chateauneuf-du-Pape, famosa por seus vinhos, proibiu, em 1954, que discos voadores pousassem sobre suas vinhas. Caso isso acontecesse, o "veículo" deveria ser imediatamente recolhido para um depósito. A medida, que obteve sucesso em afastar os OVNIs, foi revogada poucos anos depois.

São apenas alguns exemplos de leis completamente absurdas, excêntricas e ridículas que fazem ou fizeram parte da legislação de alguns países. Leis que não têm qualquer utilidade e que, na maioria dos casos, não são nem nunca foram exequíveis.

E depois não digam, como tantas vezes se ouve, frases do género “Uma lei como esta, só em Portugal!”

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Carnaval na Serra

Tão mau como passar férias em Agosto no Algarve é, seguramente, ir gozar o carnaval na Serra da Estrela, em Ovar, em Torres Vedras, na Mealhada ou em qualquer outro sítio de multidões, onde a rapaziada vai soltar a sua apetência foliona que esconde dentro de si durante o resto do ano.

Mas a Serra tem um chamamento especial - a neve. É certo que lá não se encontram nem a animação dos desfiles das escolas de samba nem aquelas meninas meio despidas que se abanam todas não sei se pela dança se pelo frio do inverno que temos por cá, mas o fascínio de ver todo aquele branco contrastando com o negro dos penhascos é, de facto, motivo mais do que suficiente para que se registem as “excursões” que enchem a Serra nesta altura.

E se a beleza é fantástica, ainda por cima este ano em que havia neve com fartura, por outro lado, não pode haver, como referi, pior altura para se visitar a Serra. São filas infindáveis de veículos estrada acima, em ritmo lento ou parado, desgastando as embraiagens e fazendo disparar os consumos para níveis impensáveis.

Percebe-se, todavia, que em tempo de férias da pequenada, a neve seja um bom motivo para a descoberta daquela brancura só vista em filmes ou para um lazer diferente do quotidiano. Quanto aos outros, os que não têm crianças, aqueles que poderiam ter-se deslocado uma ou duas semanas antes, em que teriam encontrado certamente ainda mais neve, não se percebe porque é que só agora se lembraram de se meter em tamanhas confusões? Talvez porque, por tradição, o casamento entre a neve e o carnaval é demasiado apelativo, se bem que de carnaval na serra, não tenha visto rigorosamente nada. Nem uma máscara sequer, um só miúdo vestido de polícia que fosse.


Uma nota final, esta sim algo “singular”, para um folheto que nos foi distribuído em plena serra pela Cruz Vermelha Portuguesa da Covilhã que dava conta de 12 conselhos úteis. Genericamente úteis, concedo, mas que atendendo a que estávamos em plena estrada de montanha, não consegui entender como é que nos safaríamos se tivesse havido algum problema. Avisos como:

“Deve trazer correntes para poder circular sobre a neve”; ou
“Deve circular com o depósito cheio de combustível”; ou ainda
“Deve colocar anti-gelo no radiador da sua viatura”.

Bem, de qualquer forma, são boas as intenções e, como tal, se não foram assim tão proveitosas nesta visita podê-lo-ão ser numa próxima. Assim como, numa próxima, a elaboração dos folhetos deverá ter um cuidado acrescido na redacção do português, evitando erros como:

“afim de …” em vez de “a fim de …”, ou a não utilização do hífen em palavras como “pára-brisas”.

Enfim, casos em que a expressão “É Carnaval ninguém leva a mal” não pode ser levada tão à letra.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Vingança

No início deste ano publiquei aqui no blogue uma mensagem/poema de Carlos Drummond de Andrade. Hoje revisito-o.

Admiro Drummond de Andrade como poeta e escritor mas a sua ironia admirável surpreende-me e diverte-me quase sempre.

Gostaria de partilhar convosco uma crónica do grande autor brasileiro



“Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma, e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.
Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo (1) Filho da Puta!!!!”


(1) É, no Brasil, uma variedade de mosquito.




quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Homens de saias?

A minha idade e inteligência há muito que me aconselham a que não diga não a novos usos e costumes por mais estranhos que pareçam. Ao fim e ao cabo, tento seguir o velho adágio popular que sugere “Não digas que desta água não beberei”.

Vem isto a propósito de um movimento que nasceu em França no ano passado e que agrupa uns quantos homens que querem adoptar a saia como peça de vestuário habitual. Nem mais.

É o grito do Ipiranga masculino. São os homens a exigirem o direito de livrar-se da “ditadura das calças” e a pretenderem libertar-se do guarda-roupa tradicional que, até aqui, era um símbolo dos varões, muito embora as mulheres já vistam calças há muito.

Mas isso faz-nos reflectir. Se as mulheres lutaram duramente ao longo de anos e acabaram por conseguir usar trajes tipicamente masculinos (as calças e as gravatas são bons exemplos disso) porque não, agora, os homens quererem usar roupas que até aqui lhes eram proibidas? E, convenhamos, a motivação para isso bem pode ser apenas o conforto, o prazer ou a vontade de quererem ser diferentes.

Este fim-de-semana ouvi o estilista Miguel Vieira dizer que o movimento dos “com saia” está a alastrar de tal forma que tem recebido encomendas de todo o mundo. Vieira esclareceu que não se trata de saias femininas para serem usadas por homens mas peças de roupa desenhadas especificamente para eles. E, note-se, esta tendência começa a ter alguma força e não é, de forma alguma, uma pura manifestação de excêntricos ou de homens efeminados.

Deixemos, pois, os puritanismos de lado e esqueçamos aquele ensinamento da Sagrada Escritura que diz “A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher, e aquele que o fizer será abominável diante do Senhor, seu Deus”.


Provavelmente mais cedo do que se possa imaginar veremos nas nossas ruas homens elegantemente vestidos com … saias.

E depois? É o admirável mundo novo!


Os eremitas

A SIC passou em vários telejornais uma reportagem que mostrava dois homens que vivem em grutas às portas da capital. Sem água canalizada, sem electricidade, sem conforto, sem higiene e cujo sustento é conseguido nos caixotes do lixo.


No mesmo dia o Diário de Notícias informava que um outro homem, de 80 anos, vive há cinco numa caverna escavada entre duas pedras, no concelho de Oliveira do Hospital. Uma pessoa que, aliás, tem milhares de euros para receber da sua reforma, dinheiro que ele nem sequer pretende receber.

Tem algum jeito nunca ter dado nada ao Estado e agora querem dar-me a mim?", questiona.

Sobrevive de algum trabalho na floresta e de uns cabos de enxada que faz e que vende pelas feiras. Alguma lavoura (semeia centeio para fazer o pão) e carne que compra de vez em quanto asseguram-lhe os hábitos frugais.


São casos chocantes que dão que pensar. O que terá levado estes homens a refugiar-se nestes seus universos? Será que foi tão-só a vontade de serem inteiramente livres ou, pelo contrário, foram vítimas dos azares e desencontros da vida?

São pessoas que “vivem” sós, acompanhados apenas pela sua liberdade, pelo seu mundo, pelo seu pensamento e, quem sabe, pela sua felicidade.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Era uma vez … um buraco negro

Se bem me lembro, a História da Carochinha que tanto ouvi em pequeno era mais ou menos assim:


Era uma vez uma carochinha que achou cinco réis ao varrer a cozinha. Com eles, foi comprar laços, fitas e enfeites para ficar mais bonita e pôs-se à janela para ver quem queria casar com ela:

- Quem quer casar comigo, que sou bonita e boazinha?
Passou um burro e respondeu-lhe:
- Quero eu, quero eu.
- Como te chamas?
- Om, im om, om im om.
- Não serves para casar comigo porque tens uma voz muito grossa.

No outro dia passou um cão e ela tornou a perguntar:
- Quem quer casar comigo?
- Quero eu, quero eu.
- Como te chamas?
- Ão, ão, ão.
- Não serves para casar comigo porque tens uma voz muito feia.

Outro dia passou um gato e ela tornou a perguntar:
- Quem quer casar comigo?
- Quero eu, quero eu.
- Como te chamas?
- Miau, miau, miau.
- Não serves para casar comigo porque tens uma voz muito fina.

Num outro dia passou um rato e ela tornou a perguntar:
- Quem quer casar comigo?
- Quero eu, quero eu.
- Como te chamas?
- Sou o João Ratão.
- Ah! Sim. Tu serves para casar comigo.

O João Ratão e a Carochinha lá casaram e foram felizes até que um dia aconteceu uma desgraça. Um domingo, a Carochinha foi à missa e o João Ratão ficou em casa.
- Não mexas no tacho que está em cima do fogão – preveniu a Carochinha.
Mas o João Ratão, como era muito guloso, mal ela saiu foi logo espreitar lá para dentro e truz, catrapus, caiu dentro do caldeirão.
Quando a Carochinha regressou a casa e não o encontrou, procurou, procurou, correu a casa toda e nada. Pensou em ir comer sozinha. Quando foi tirar a comida apanhou um grande susto porque viu lá dentro o seu querido marido. Começou a chorar e a dizer:
- Ai, meu rico João Ratão, morreu cozido e assado no caldeirão! Ai, meu rico João Ratão, morreu cozido e assado no caldeirão!



Recordo-me que esta era uma das histórias que mães e avós contavam às suas crianças. E, provavelmente, contaram-na durante gerações.

Hoje os tempos são outros mas as histórias quase as mesmas. Só que a ingenuidade e a curiosidade de antanho foram substituídas pela ambição desmedida de agora.

Por isso me lembrei da História da Carochinha quando vi o vídeo que se segue





domingo, fevereiro 15, 2009

Cartas de Amor

Embora com algumas horas de atraso não posso deixar de falar no dia dos namorados que se celebrou ontem.

Quero recordar o dia, mas não naquilo em que ele se tornou, uma mera troca de prendinhas para animar o comércio. Prefiro lembrar outros tempos quando os apaixonados faziam questão de exaltar o amor e o romantismo.

Para além de ofertas sem significado que hoje os namorados oferecem um ao outro, como que para assinalar a data e nada mais, seria bem melhor que continuasse a existir o sentimento de outrora, manifestado em cartas, bilhetes-postais e objectos simbólicos. Coisas, frases e poemas um tanto ou quanto românticos mas assumidamente “ridículos”.

Fernando Pessoa sublimou esse espírito no poema

"Cartas de Amor"


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
_________
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
_________
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
________
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
______
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
______
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
_______
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

E um pouco de paciência, não?

As novas tecnologias têm vindo a conquistar as diversas gerações. Sucessivas reportagens de televisão dão conta de pessoas de idade bem avançada que se mostram encantadas com a descoberta do computador, em cujo teclado vão compondo lentamente as mensagens que já se aventuram a enviar pela internet aos seus familiares.

Nos supermercados vêem-se cada vez mais idosos a usar cartões de débito e de crédito.

Constatamos com satisfação a existência de pessoas que embora não tenham “nascido” com a informática, não a repudiam e tentam vencer a todo custo as suas fragilidades evidentes.


Há pouco tempo, numa fila de caixa de supermercado, um jovem que estava atrás de mim dizia entre dentes que devia ser proibido os “velhos” usarem cartões. Isto porque o senhor que utilizava a maquineta de pagamento estava a ser demasiado lento. Ainda por cima o senhor não fizera a pressão suficiente sobre as teclas e para cúmulo, o pior dos crimes, enganou-se a introduzir o código e teve que recomeçar com a operação.

Sei que toda a gente anda muito apressada na correria do dia-a-dia mas seria bom que houvesse um pouco mais de paciência para com quem – neste caso os idosos - deveria merecer um respeito acrescido. E são merecedores dessa consideração, em primeiro lugar pela idade que têm e, depois, porque mesmo sem terem tido a preparação necessária para a utilização destas tecnologias, mesmo assim, não desistiram de lutar, não quiseram sentir-se infoexcluídos e não baixaram os braços nem se submeteram àqueles que detêm agora o “poder” das máquinas. Ao contrário, devemos louvar o seu esforço e temos que mostrar compreensão para com essas pessoas “mais lentas”.

Por isso, naquela fila de caixa de supermercado, fiquei tão indignado que não pude deixar de encarar o jovem que estava atrás de mim e disse-lhe com cara de poucos amigos

“E um pouco de paciência, não?”


quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Ajude os Bancos Alimentares com o … IRS




Não venho, desta vez, apelar para a vossa habitual colaboração nas recolhas de alimentos que são feitas pelo Banco Alimentar Contra a Fome. Disso tratarei na altura própria.
Agora, quero apenas recordar-lhes que se aproxima o tempo de tratarmos do IRS. E lembro que os prazos para envio da Declaração de IRS de 2008 são os seguintes:

Declarações entregues em suporte papel:
-de 2/Fevereiro a 16/Março para declarar exclusivamente rendimentos das categorias A e H;
-de 16/Março a 30/Abril, nos restantes casos.
Declarações enviadas pela internet:
-de 10/Março a 15/Abril para declarar exclusivamente rendimentos das categorias A e H;
-de 16/Abril a 25/Maio, nos restantes casos.


Mas porque é que eu me lembrei de vir hoje com esta conversa?

É que, já que somos obrigados a satisfazer esta obrigação fiscal, poderemos fazê-lo de uma forma mais solidária e, ainda por cima, sem que isso nos custe um único cêntimo.

Que fazer, então?

basta que no
Modelo 3 - Anexo H - Benefícios fiscais e deduções no
Quadro 9, campo 901 - Consignação de 0,5% do Imposto Liquidado
Escreva: Federação Portuguesa dos Banco Alimentares Contra a Fome
NIPC - 504 335 642

Ajude os Bancos Alimentares com o seu IRS.
Termino, como de costume
"Alimente esta ideia"

terça-feira, fevereiro 10, 2009

“Parte-lhe os rins”

Só hoje consigo falar no assunto porque, desde domingo, ainda estou a tentar recuperar daquela situação traumática. Não, não estou a falar da grande penalidade que o árbitro do Porto-Benfica “viu” quando estava a um metro da jogada e que eu, que já não tenho a visão de outrora, não tive dificuldade em avaliar que ali não houve falta alguma.

Do que eu estou a tentar recuperar é da “furiosa” vivacidade que os meus companheiros de sala manifestaram durante todo o jogo. Eram exclamações de ansiedade, de desolação, de fúria e também de alegria.

As interjeições acompanhavam o erguer furioso dos assentos e ouviam-se expressões muito curiosas que, suponho, fazem parte da gíria futebolística, como aquela que um amigo meu, ferrenho do clube da Luz, gritou algumas vezes “Parte-lhe os rins”, como que a incentivar o jogador benfiquista a deixar o adversário tripeiro completamente fora de si e da jogada.

Não que me incomodassem com todo aquele barulho, para além do barulho é claro, mas confesso que me faz alguma impressão ver toda aquela rapaziada a levantar-se gritando um “Ohhhhhh!” longuíssimo e prolongado, quando o atacante da sua equipa disparava para a baliza adversária, desolados por a bola não ter entrado por uma unha negra. Só que no jogo que eu estava a ver (não sei se era o mesmo que os meus companheiros), a tal bola passou pelo menos a dez metros do poste. Porventura alguém duvidava que a bola ia para fora?

Claro que não sou um adepto que sirva de referência a quem quer que seja. Sou tremendamente frio a ver um desafio e as minhas reacções de alegria não passam de um braço que ergo discretamente, de um pezinho que alongo sem dar nas vistas, de umas palmas contidas e pouco mais. “Low Profile”, será o termo que, talvez, melhor traduza o meu estilo de adepto. E não sofro ou exulto com os lances? Claro que sim, mas para dentro.

Por isso, todo o entusiasmo que transbordava na sala daquele restaurante onde estava plantado o ecrã gigante, se bem que contagiante para a maioria, não chegou para eu gritar de raiva ou de satisfação. Isso deixei para aqueles adeptos entusiásticos que não se cansavam de apoiar a sua equipa ou de invectivar os adversários e, principalmente, o árbitro.

E, já que volto a falar do árbitro, penso que é tempo de quem dirige a classe mandar os seus árbitros a consultas de rotina de oftalmologia. É que se não são incompetentes nem corruptos, muitos deles têm que saber se as suas dioptrias ainda são as adequadas.

Pedro Proença, o árbitro do Porto- Benfica, apesar de ter reconhecido logo após o final da partida que errou ao marcar a grande penalidade que possibilitou o empate do Porto e de ter pedido desculpas a toda comitiva encarnada, não pôde evitar um grito unânime de revolta e de ódio de todos os adeptos do glorioso. Até eu fiz uma careta de desagrado.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Dura Lex Sed Lex

Soube-se há dias de mais uma situação que brada aos céus, igual a tantas outras que têm acontecido ao longo dos anos. Desta vez foi o Tribunal Constitucional que divulgou que todos os candidatos à Presidência da República em 2006 infringiram a lei ao cometerem, em conjunto, 47 irregularidades.

Perante isto, é natural que se pergunte. Então, e o que é que lhes aconteceu ou vai acontecer? Nada, rigorosamente nada. Essas faltas foram assinaladas há já um ano, mas como o Ministério Público não aduziu qualquer acção contra os infractores, o Tribunal Constitucional acabou por arquivar o processo.

“Dura Lex Sed Lex”, é a frase que se costuma empregar quando se pretende dizer que a lei existe e é para ser cumprida por todos. Rigorosamente por todos.

Nada de mais falso. Por princípio, as leis devem ser cumpridas pelos cidadãos. Mas não por todos. Fazem-no apenas aqueles que são cumpridores por natureza e por destino e os que a elas não podem fugir. Quanto aos mais poderosos, aos que têm mais dinheiro ou acesso a melhores meios de defesa, aí, sempre existem possibilidades de uma escapadela que a própria justiça facilita e sem que haja lugar a sanções.

Não será bem assim, dirão alguns. Pois eu acho que sim, infelizmente. Perante a complacência dos poderes instituídos e o nosso encolher de ombros resignado, continuamos a coleccionar casos de abjecta diferenciação entre os cidadãos.

Senão, como poderemos entender que estes senhores candidatos ao mais alto cargo da Nação – todos eles figuras distintas da nossa política – nem sequer tenham sido convidados a pagar uma coima que fosse?


quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Boa notícia

Foi anunciado nos últimos dias que vão abrir este ano em Portugal 71 novos hipermercados e supermercados.

À primeira vista e face à conjuntura adversa, tanta fartura parece ser contraditória. Se por um lado, a maioria da população tem que fazer uns esforços danados para sobreviver, reduzindo certos consumos, inclusive os alimentares, por outro, e em suposto contra ciclo, vão abrir dezenas de novos espaços comerciais.

E essa aparente contradição torna-se ainda mais evidente quando se sabe que o desemprego não pára de crescer. Só no mês passado foram anunciados mais de 2 200 despedimentos em Portugal. E o número vai continuar a aumentar.

Não havendo, portanto, trabalho nem dinheiro pergunta-se, para quê, então, a abertura das novas catedrais de consumo?

A resposta é clara. Apesar de todas as dificuldades, as empresas promotoras dessas superfícies fazem questão de demonstrar confiança na economia do país e propõem-se investir vários milhões de euros nestes empreendimentos. E para que possam levar por diante as suas iniciativas vão ter que criar novos postos de trabalho.

Nos tempos que correm, é ou não é uma boa notícia?

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Será viável?

Prevê-se que em 2009 o número de desempregados em todo o mundo atinja os 230 milhões. É, por isso, absolutamente necessário que os governos tomem medidas ainda mais eficazes do que estão a fazer actualmente. Até por que, neste momento, a estratégias de todos eles quase se confinam a “ir tapando buracos” quando surgem novos problemas. Vão navegando conforme o estado dos mares.

Mas as coisas estão cada vez mais feias e adivinha-se uma crise social grave.

E a pergunta que todos fazem é como minimizar a situação? Há quem defenda que a solução passe por uma redução imediata de impostos. Há quem advogue que o problema poderá ser resolvido com uma forte redução da despesa pública. No entanto essas medidas têm encontrado resistências dos diversos governos e, ainda que fossem aplicadas, ninguém sabe ao certo se seriam suficientes.

Uma alternativa nova começa a ser discutida mas irá certamente ser muito contestada pelas pessoas que até agora têm sido menos afectadas. São cada vez mais os que sugerem que os salários mais altos possam vir a sofrer uma redução de 5% a 10%, de forma a tornar sustentável as empresas sem que seja necessário despedir pessoal.

A questão está em saber se essa possibilidade, a verificar-se, só será viável através de uma imposição, ou se pela aceitação solidária daqueles que ainda têm vencimentos muito generosos.

Nunca em tal se pensara até agora. Mas é bom que se comece a encarar tal hipótese. A bem de todos.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

De novo a questão das empresas de rating

Na última quarta-feira publiquei aqui um texto em que dava conta das minhas dúvidas sobre a actuação das empresas de rating e sobre as suas notações que eu considero serem, em muitos casos, tendenciosas, destorcidas e, no mínimo, incompetentes.

Na edição do Expresso do passado sábado, Nicolau Santos também escreveu sobre o mesmo assunto, numa crónica a que deu o título “A fraude do rating da S&P”, de que passo a transcrever uma parte:



“ … a Standart & Poors avisou quatro países da zona euro de que o seu rating estava sob vigilância e, menos de uma semana depois, a três deles (Grécia, Espanha e Portugal) baixou-lhes o rating para AA+ sem apelo nem agravo. O quarto, a Irlanda, cujas previsões de recessão (-5%), défice orçamental (-11%) e situação do sistema financeiro são bem piores do que em Espanha e em Portugal, continua a manter a classificação de AAA. Também o Reino Unido mantém o triplo A, confirmado a 13 de Janeiro, apesar de em termos relativos a economia inglesa se ter afundado muito mais e da banca estar falida e à beira de ter de ser nacionalizada.
Isto é injusto, incoerente, não tem qualquer justificação e afecta profundamente a vida dos cidadãos dos países a quem a S&P, como os imperadores romanos, decide que têm de pagar mais do que outros em situação pior.
Além do mais, a S&P falhou redondamente na crise do crédito imobiliário nos Estados Unidos, tendo de rever, no mesmo dia, a notação de mais de 90 (!) activos financeiros ligados aquela área de actividade. E falhou no rating da AIG, da Lehman Brothers, da Islândia. Falhou, falhou, falhou. E até agora não pediu desculpa, não se retratou, e está a dar ratings onde beneficia claramente os países anglo-saxónicos em detrimento dos países mediterrânicos...”


As opiniões deste bloguista não passam disso mesmo, de humildes opiniões. No entanto, a coincidência de pensamento sobre esta matéria, vinda de vários sectores, começa a ter um peso significativo. E concordo em absoluto com Nicolau Santos quando afirma que é tempo da Comissão Europeia avançar com a criação de uma agência europeia de rating que ponha cobro a quem, de forma clara e despudorada, tem beneficiado os países anglo-saxónicos.


As suspeitas, os suspeitos e os outros

Todo este enredo do Freeport de que se tem falado até à exaustão nas últimas semanas, cheio de conspirações e histórias mal contadas, de trafulhices quase certas e de politiquices garantidas, aponta em várias direcções e em direcção a vários suspeitos.

Porém, quase nunca mencionam o nome de uma personagem que, certamente, não terá grande relevância para a investigação deste caso, mas que não deixa de ser uma pessoa a ter em devida conta.
Refiro-me a Sean Collidge, fundador do grupo Freeport que, por mero acaso, veio muitas vezes a Portugal justamente para tratar do projecto de Alcochete, e que no Reino Unido onde caiu em desgraça, foi acusado de perjúrio, fraude e desvio de dinheiro da própria empresa.
Pelos vistos Colidge nada terá a ver com as alegadas corrupções que poderão ter inquinado o licenciamento do outlet da margem sul, o maior da Europa. Pelo menos a polícia portuguesa e a ... comunicação social cá do burgo não o indicam como suspeito. Até agora, pelo menos.
No entanto, e por que não vá o diabo tecê-las, talvez não fosse despropositado fazer recair sobre o homem uma suspeita, por pequenina que ela fosse. É que, segundo declarou a um jornal inglês
"Sinto-me feliz por poder roubar seja o que for a quem quer que seja"
Como diria o saudoso Fernando Pessa "E esta, hein?"

sexta-feira, janeiro 30, 2009

A dúvida

Quando se fazem opções, nem sempre se acerta.

Dou um exemplo. Se estou metido numa fila de carros, ao lado da qual está uma outra fila de carros e ambas andam devagar, devagarinho, é certo e sabido que eu escolhi a mais lenta das duas. Mas se, num golpe de génio - aliás frequente em mim nestes mesteres da condução - consigo fazer a manobra para entrar na que ainda vai andando, tenho a certeza absoluta que, passados uns instantes, logo me vou arrepender porque essa deixa de andar e quem começa a mexer-se mais rápido é a outra onde estava antes. É a vida!

Recentemente, tive que tomar uma decisão importante. Como a Euribor não se cansava de subir, decidi que era tempo de liquidar o empréstimo à habitação que tinha num Banco. E vai daí, parti todos os porquinhos de poupança que havia lá por casa (até quebrei um de loiça das Caldas que me tinha sido oferecido pelo meu tio Artur), paguei o que devia e fiquei livre dos encargos bancários que teimavam em sufocar-me. Só que, a partir desse instante, a bendita da Euribor não parou de descer. Foi mais uma opção errada. É o destino!

De qualquer forma, eu tinha saído do aperto financeiro em que me encontrava. Preparava-me até para celebrar a ocasião quando uma dúvida insidiosa veio toldar-me o espírito. Será que em vez de brindar com umas boas taças de champanhe, não seria mais sensato correr a uma instituição bancária e contrair novo empréstimo? É que, agora, os juros estão muito mais baratos ...

quarta-feira, janeiro 28, 2009

O rating, a competência e os lobbies

Recentemente, a Standart & Poors baixou a notação de rating de Portugal de AA para A+. Sem pôr em causa a justeza da sua avaliação, nem entrar em considerações sobre as estratégias e políticas levadas a cabo pelo governo português, devo confessar que me tenho interrogado muitas vezes sobre a qualidade dos trabalhos desenvolvidos pelas agências de rating. Tenho até algumas dúvidas quanto à sua real credibilidade. Tanto mais que, infelizmente, os “buracos” têm surgido com muita frequência.

Ao longo dos anos tenho acompanhado as notações dadas pelas maiores agências de rating internacionais e a verdade é que – nalguns casos – depois dessas notas serem atribuídas, verifica-se que, afinal, elas foram tendenciosas ou destorcidas, tendo por isso acabado por influenciar os mercados e abalado a confiança dos investidores.

Em princípio, as classificações dadas por essas agências são, pretensamente, baseadas na solidez financeira das empresas e dos países e na expectativa da capacidade que essas empresas e países têm de cumprirem as dívidas contraídas. Só que o certificado dado pelas agências – com boas ou más notações – nem sempre corresponde à verdadeira situação financeira das instituições, o que leva a que os mercados reajam de uma forma inversamente proporcional à que deveriam.

Os imbróglios são muitos mas ninguém esqueceu ainda o caso recente em que a mesma Standart & Poors deu a pontuação máxima à Islândia, precisamente na véspera do governo islandês abrir falência.

Por isso se põem em causa a competência do trabalho das agências de rating e as eventuais ligações a lobbies que a elas estejam associados.

Os tempos mudaram, a segurança e o respeito pelas instituições perderam-se. Por isso, é urgente que se reconquiste a confiança nos mercados, nas instituições e nas pessoas.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Abaixo o Mistério da Poesia

De António Gedeão,

Abaixo o Mistério da Poesia



Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,

Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;

Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;

Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;

Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;

Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

segunda-feira, janeiro 26, 2009

O caso das pistolas de plástico

E se eu lhes contasse que a Câmara Municipal de Porto de Mós ofereceu neste último Natal a alguns alunos do primeiro ciclo do concelho uma pistola de plástico, os meus amigos iam acreditar? Por muito estranho que isso possa parecer, é a pura verdade.

Pois é, os senhores autarcas de Porto de Mós levaram as crianças ao circo e, para que a festa fosse completa, deram presentes aos meninos, sendo que alguns desses presentes eram pistolas. Segundo uns, daquelas que normalmente são usadas no Carnaval, segundo outros, pistolas de plástico de tiro ao alvo.

Só que, tal tipo de “prendas de Natal”, não agradou a alguns encarregados de educação por considerarem não ser o brinquedo mais adequado para as suas crianças, ainda por cima oferecidas por uma entidade pública.

Perante tanto descontentamento (e ingratidão), não pude deixar de pensar no que é que teria falhado na iniciativa da Câmara de Porto de Mós.

Se calhar, os pais e educadores não gostaram das pistolas pelo simples facto de terem sido oferecidas por uma entidade pública. Sim, porque caso tivessem sido ofertadas por um privado porventura a questão já não se colocaria.

Possivelmente, porque tal brinquedo representa (do ponto de vista dos pais) um perigo tamanho que pode vir a influenciar o carácter dos miúdos pela vida fora.

Pura demagogia, digo eu, que só a entendo numa altura em que as oposições (sejam elas quais forem) não só inventam motivos para deitar abaixo o que quer que seja, como manipulam desonestamente os encarregados de educação para tentarem atingir determinados fins políticos.

Pura demagogia, também, porque não me parece que umas inofensivas pistolas de plástico possam fazer um mal por aí além aos miúdos.

Durante a minha infância brinquei com muitas pistolas e espadas e não foi por isso que me tornei num assaltante de bancos ou num pirata.

Não me parece que este tipo de prenda constitua qualquer drama. Se pensassem um bocadinho, estes aprendizes de educadores, perceberiam que as crianças vão ficar bem mais marcadas (pela negativa) com muitas das cenas que vêem diariamente em filmes de televisão, em jogos electrónicos e, infelizmente em muitos casos, na violência doméstica dentro das suas próprias casas entre os pais ou para com os seus idosos.

Já se adivinhava

Não necessito de grandes esforços de memória para lembrar que até há poucos anos, o turismo algarvio era dirigido, preferencialmente, a ingleses, alemães e espanhóis. Também a franceses, holandeses, americanos e a mais uns quantos estrangeiros. Nunca a portugueses. Não raras vezes, experimentei na pele os péssimos serviços de restaurantes e hotéis e recordo-me que em várias ocasiões estive em restaurantes onde as listas do dia eram escritas em inglês, francês ou espanhol, porque não tinham uma só na nossa língua.

Ficava revoltado, claro, mas não havia volta a dar. Quando muito, resmungava com os meus botões, irritava-me com os empregados e, às vezes, acabava por sair para ir parar a um outro restaurante onde ia encontrar ementas semelhantes às outras, também escritas nessas mesmíssimas línguas.

Cheguei a sentenciar que um dia aquela gente teria que voltar a olhar para os turistas nacionais uma vez que esses estariam sempre por cá, enquanto que os outros não se sabia.

Mas por muito que eu imaginasse e desejasse que isso pudesse acontecer, nunca pensei que o mundo desse uma cambalhota como esta que estamos a viver. Só pretendia ser bem servido em Portugal e em português.

Até há pouco a parvoíce e a sobranceria que estavam bem patentes na hotelaria e na restauração algarvia tinham contaminado outras actividades, onde as línguas estrangeiras imperavam e os tugas eram olhados de soslaio.

Aliás, para aqueles que têm acompanhado os meus textos, recordo que em 18 de Outubro de 2006, publiquei aqui um post a que dei o nome de “Marca Portugal” onde me insurgia contra os comerciantes que expunham os seus produtos com letreiros apenas em inglês, sem que tivessem uma única indicação no nosso idioma, em que dizia nomeadamente

“… o que gostaria é que os portugueses evitassem a todo o custo este tipo de lojas. Lojas que por não terem respeito por nós, deviam ir à falência. Isso, deixem-nos falir, deixem que a estupidez dos seus proprietários dite o seu próprio fim. Comigo não contam nem que eles estejam a vender os artigos ao preço da uva mijona”.

Pois agora nem ao preço da uva mijona conseguem vender os seus produtos e serviços. As lojas já não têm os seus consumidores estrangeiros e os restaurantes e hotéis perderam os seus clientes de outros países. Muitos fecharam e o desemprego nestas áreas subiu brutalmente.

E a confirmá-lo eis que a Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA) divulgou esta segunda-feira os dados do turismo no Algarve em 2008, em que se constata que o balanço não é positivo, uma vez que se verificaram quedas em quase todos os indicadores. Registou-se uma baixa de visitantes estrangeiros e a despesa feita por quem nos procura é cada vez menor.

Chegou, então, a hora de voltarem a olhar para o turismo nacional. De fazer aquelas promoções fantásticas que foram direccionadas durante anos e anos apenas para os que vinham de fora. Ousem, agora, praticar preços mais atractivos para os portugueses e tratem-nos com o respeito e o profissionalismo a que temos direito. Pode ser que com essas campanhas consigam taxas de ocupação bem mais satisfatórias, de modo a viabilizar a manutenção dos postos de trabalho e das estruturas empresariais.

Já se adivinhava que esta reviravolta poderia vir a acontecer um dia. E não poderá ser de outra forma. Pelo menos, enquanto a crise económica e a incerteza continuarem.


quinta-feira, janeiro 22, 2009

Obama visto por Saramago

Aquele a quem no meu último texto chamei “O Homem do Dia” – Barack Obama - não perdeu tempo e, logo no primeiro dia de funções, mostrou que das suas palavras inspiradoras da véspera era tempo de passar à acção e assinou dois diplomas que prometem pelo seu significado: mandou suspender por 120 dias os processos contra os presos de Guantánamo para reavaliar a situação e congelou os salários dos colaboradores mais directos.

Terá sido um bom início

Sobre Obama, José Saramago escrevia no seu blogue:


“Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.”

terça-feira, janeiro 20, 2009

O homem do dia

Pareceria mal que a minha crónica de hoje não tivesse por tema o novo inquilino da Casa Branca, Barack Obama. Embora, nestes últimos meses, já se tivesse dito tudo o que havia para dizer sobre ele.

Mas hoje é um dia histórico. A sua tomada de posse como 44º Presidente dos Estados Unidos – que terminou há pouco – constituiu um momento inesquecível e de grande emoção para a nação americana e para todo o mundo.

A exemplo do que aconteceu com milhões de pessoas em todo o planeta, também segui pela televisão todo o entusiasmo que era bem visível na imensa multidão que quis ver de perto a cerimónia.

Vi essa excitação vibrante e ouvi do novo presidente um discurso simples mas vigoroso, claro na afirmação dos valores fundamentais de qualquer sociedade e que tão caros foram aos fundadores da nação americana. Mas Obama, nesse discurso de profundo patriotismo, foi bem mais longe ao dizer que “o bem colectivo é muito mais do que a soma das felicidades individuais”. Um aviso? Talvez, mas seguramente uma ideia que nos faz acalentar uma grande esperança.

Esperança e expectativa.

Mas para além de um acto histórico e tão cheio de simbolismo, apraz-me registar dois aspectos marginais à posse do Presidente Obama e que têm a ver com os portugueses:

Um diz respeito a uma promessa de Barack Obama que garantiu que vai haver uma presença portuguesa na Casa Branca. Um “cão de água” português será companheiro de brincadeiras das filhas do Presidente.

O outro, o facto de na pequena aldeia de Casa Branca do nosso Distrito de Portalegre, ter sido hasteada hoje a bandeira norte-americana. O Presidente da Junta de Freguesia justificou o acto pelo paralelismo do nome da terra com o da outra Casa Branca de Washington D.C..

Porém, desenganem-se aqueles que pensaram que a Primeira-Dama vestia um modelo de um estilista da nossa Cuba. Quem realmente desenhou o conjunto de Michelle Obama foi um designer de Cuba, sim, mas do Fidel.


segunda-feira, janeiro 19, 2009

Então, em que ficamos?

Agora que o ciclo eleitoral se aproxima e os portugueses tentam, mais do que nunca, adivinhar as entrelinhas escondidas dos discursos dos políticos, é frequente ficarmos com a cara à banda sem saber o que pensar. Sobretudo se as afirmações dos responsáveis de um mesmo partido são completamente antagónicas.

Veja-se, por exemplo, o caso do TGV. Enquanto que, no reinado de Durão Barroso, a então Ministra das Finanças e actual líder do partido – Drª. Manuela Ferreira Leite - assinou um acordo com Espanha sobre o projecto da rede de alta-velocidade ferroviária, a mesma senhora vem agora dizer que se trata de um projecto caríssimo, que não vai ter qualquer viabilidade e que, portanto, deve ser abandonado imediatamente.

Declarações que foram proferidas no mesmíssimo dia em que duas delegações parlamentares do Congresso dos Deputados de Espanha e da Assembleia da República Portuguesa, esta última, chefiada pelo Deputado e Vice-Presidente da AR Guilherme Silva, do PSD, assinavam um documento em que pediam celeridade no projecto do TGV.

Isto é, a Presidente do PSD diz uma coisa e o seu Vice da Assembleia da República diz outra completamente ao contrário. Então, em que ficamos?

domingo, janeiro 18, 2009

What Else?

Pelo título da crónica de hoje e pela foto que se publica aqui ao lado, já perceberam que vou escrever sobre uma certa marca que até se dá ao luxo de colocar um copo do seu café em cima da cara de um dos homens mais charmosos da actualidade. Estou a referir-me a George Clooney, claro.


Não comento nem a estética nem a criatividade da fotografia. No entanto, não posso deixar de questionar sobre a eficácia da estratégia seguida por muitas marcas nacionais e internacionais que associam figuras conhecidas, normalmente actores e desportistas, ao uso dos produtos que essas marcas representam. Temos inúmeros exemplos desses “casamentos”. O que nos leva à eterna discussão sobre se as figuras globais (como Clooney) conseguem mesmo promover as marcas que anunciam, de forma a que estas se tornem igualmente globais. Neste caso, a frase “What Else?” já todo o mundo a conhece. E quanto à marca que comercializa o café, será que toda a gente sabe qual é?

Não é, contudo, desta “dúvida existencial” que eu quero falar hoje. Desta vez, apenas pretendo referir-me à Nespresso. À marca propriamente dita.

Como muitos saberão, a primeira loja da marca em Lisboa fica numa das melhores zonas da capital, no Chiado. Rapidamente se tornou num ponto de encontro (frequente, por sinal) dos apreciadores de café. Primeiro para comprar as máquinas (que eram também vendidas noutros espaços), de seguida para adquirir as cápsulas de café (todas elas vistosas de cores e magníficas de sabores) e, por fim, para beber cafezinhos a qualquer hora do dia, completamente de graça.

Dado que quem ali se deslocava tinha à sua disposição os mais diferentes paladares, faziam-se verdadeiras romarias para beber café à borla e sem ter que fazer qualquer compra.

Porém, ano novo, vida nova. A Nespresso já conhecida do grande público, com créditos assegurados pela qualidade que apresenta e cansada de tanto abuso de um povo que confunde “degustação de café” com “bar aberto”, fechou a torneira e passou a servir a “bica” apenas aos seus clientes que ali vão às compras. E fá-lo de forma personalizada e com toda a simpatia. Por enquanto, gratuitamente.

Pois é, acabaram-se as excursões. A loja está muito mais acolhedora, livre dos abutres que a frequentavam e a funcionar naquilo que, à partida, se esperava de uma loja de cafés – vender café e produtos afins, dando jus, afinal, à frase “What Else?”



A terminar, deixo-vos um anúncio da Nespresso (mais um com George Clooney) que, confesso, não me recordo de ter visto passar no nosso país.






quinta-feira, janeiro 15, 2009

Do jogo, nada

No último domingo estive num aniversário. Às tantas, o dono da casa, benfiquista ferrenho, empurrou-me até ao televisor para assistir a um fantástico jogo de futebol que ia ser transmitido em directo do Estádio da Luz pelo novo canal Benfica-TV. Para além do jogo em si, confesso que tinha alguma expectativa em saber o que é que uma estação de televisão que é propriedade de um clube desportivo poderia oferecer de interessante.

E o inesperado aconteceu. Durante o tempo todo, as câmaras apenas focaram o relator da partida e o comentador desportivo, o treinador do clube da casa, os jogadores do glorioso em exercícios de aquecimento, os espectadores nas bancadas e um ou outro bocado do relvado onde se via vivalma. Do jogo, nada, rigorosamente nada. Só passaram as imagens que descrevi, durante os 90 minutos regulamentares e mais os tempos de compensação.

E, porque é que isto aconteceu? Apenas e só porque o clube tinha vendido antecipadamente os direitos de transmissão a uma outra estação de televisão e não restava outra possibilidade à Benfica-TV do que fazer chegar aos milhões de telespectadores em todo o mundo, os aspectos colaterais do jogo.

O que “vi” foi um relato de rádio transmitido em directo pela televisão. Nem mais. Porventura com um colorido mais intenso mas, seguramente, com uma emoção muitíssimo menor do que aquela que as tradicionais transmissões radiofónicas conseguem fazer chegar às pessoas.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

À espera

Nestas últimas semanas de frio intenso, tenho estado à espera que uma constipação mais forte ou uma gripe realmente a sério desabem sem piedade sobre mim, de tal forma que os médicos venham a concluir que, depois de tantas febres e incómodos, apenas me reste uma única saída – a reforma.

Não que eu a deseje. De todo. Só que, estando numa situação de reforma, tenho esperança de alcançar qualquer benesse (por pequena que seja) que outros já conseguiram. E sem grande esforço, diga-se.

Para não massacrar a minha memória já gasta, não vou lembrar os muitos que conseguiram reformar-se com pensões obscenas por completamente exageradas, os que tiveram direito a pensões chorudas com meia dúzia de anos de serviço nem os muitos que se reformaram de uns sítios para ir trabalhar noutros, ganhando de um lado e do outro.

Por agora, basta-me a leitura dos jornais das últimas semanas para conhecer os casos de dois ex-administradores da Caixa Geral de Depósitos, António Vila Cova e Gracinda Raposo de seus nomes, que foram reformados da CGD por invalidez e, que, de seguida, entraram pela porta grande de grupos financeiros e industriais.

Vila Cova era administrador executivo da Caixa e foi assumir o cargo de administrador executivo do Banco Português de Negócios, entretanto nacionalizado (vamos ver se, entretanto, não virá a ter direito a mais uma pensão de reforma) e é agora administrador executivo da Sociedade Lusa de Negócios que controlava anteriormente o BPN.

Gracinda deixou a CGD para ser assessora da Administração do Banco Santander Totta (um concorrente da Caixa), administradora da empresa de capital de risco ECS e, ainda, administradora do grupo construtor A. Santo.

Ora, para quem se reformou por invalidez - recordo que invalidez é a qualidade ou estado de inválido, e que inválido significa que não é válido, que é doente, enfermo, incapaz, que não tem validade ou que é nulo (enquanto adjectivo) e pessoa impossibilitada de trabalhar (se for substantivo) – temos que reconhecer que se registaram verdadeiros milagres. Logo dois.

É exactamente de um milagre desses que eu também estou à espera. Tenho esperança que o fungar e as dores de cabeça trazidas pela constipação não me abandonem até que a junta médica me considere sem qualquer préstimo, bom, portanto, para avocar uma presidência de uma grande empresa com, naturalmente, o vencimento correspondente.

“Ah! Ah! Ah! Tchim!”. Desculpem!

Não, não me desejem “saúde!”, digam, simplesmente, “santinho!”


“É o máior”


Julgava que os meus amigos não dariam pela coisa mas, afinal, foram muito perspicazes. De facto, não se admite que me tivesse “esquecido” de rabiscar umas linhas em louvor do melhor jogador de futebol do mundo.


E daí a ter tido a minha caixa de correio electrónico e o meu telemóvel completamente empanturrados de mensagens foi um instante. Alguns desses amigos perguntavam-me se não gostava do Cristiano Ronaldo ou se tinha embirrado com ele só pelo facto de ser da mesma terra do Alberto João Jardim. Outros, apontavam-me o dedo por já ter escrito sobre outros nomes que também atingiram os lugares máximos das suas especialidades, caso da Vanessa Fernandes, do Francis Obikuelo e de outros e ficar num silêncio absoluto em relação ao Ronaldo.


Não, não é nada disso. Só que achei que, anteontem, as rádios e as televisões fizeram uma cobertura tão grande durante todo o dia e toda a noite que pensei que aquilo que eu pudesse dizer nada ia acrescentar.


Gosto muito de futebol e claro que admiro as qualidades únicas do Ronaldo, as suas capacidades futebolísticas inquestionáveis, as suas fintas, os seus arranques e os seus remates magníficos. Adoro vê-lo jogar (na nossa Selecção nem tanto). Mas tudo isso e muito mais, foi dito e redito até à exaustão pelos diferentes sectores da comunicação social. Ele é o maior futebolista do mundo de 2008. É justo que ele tivesse ganho o prémio e sinto-me orgulhoso por isso.


Contudo, e se me permitem a sinceridade, achei que a tão legítima homenagem nacional foi um tanto desproporcionada relativamente a outros feitos alcançados por outros portugueses. A verdade é que não vi tamanho entusiasmo quando Luís Figo, em 2001, ganhou este mesmo troféu. Nem vi tanta alegria quando, em 2008, foi atribuída ao arquitecto Siza Vieira a Royal Gold Medal for Architecture, o equivalente ao Prémio Nobel da Arquitectura. Nem descortinei tanto arrebatamento quando, ainda em 2008, a cientista Elvira Fortunato foi distinguida com o primeiro prémio na área da Engenharia do European Research Council , também uma espécie de Prémio Nobel europeu. Nem sequer assisti a tão grande manifestação de orgulho nacional quando o nosso José Saramago, em 1998, foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.


Se bem que perceba que, neste mundo global, Ronaldo é não só o fantástico jogador que maravilha quem gosta de futebol mas, igualmente, o veículo privilegiado de publicidade de um país e de marcas e produtos internacionais que se vendem em todo o mundo, não posso deixar de sentir que os nomes que mencionei, e não só, mereciam bem o nosso reconhecimento, que deveria ter sido manifestado com a devida pompa, circunstância e gratidão. Afinal, eles distinguiram-se e subiram ao degrau mais alto dos pódios mundiais. São os (ou dos) melhores do mundo.


“O futebol é assim”, como se diz em “futebolês”. A mediatização de uma jogada ou de golo, repetidamente projectado nas televisões faz, por vezes, esquecer outras questões também relevantes. Afinal, tudo se traduz, em minha opinião, numa questão de perspectiva do momento.


Mas para que se aquietem os meus amigos, sempre lhes digo que sou fã do Cristiano Ronaldo, fiquei muito feliz por ter ganho o prémio e espero, como ele “ameaçou”, vê-lo de novo vencedor no próximo ano.



segunda-feira, janeiro 12, 2009

Uma bela prenda de Natal

Agora que terminou o momento (quase sempre) mágico da troca de presentes, é tempo de vos dizer como fiquei feliz em constatar que ainda existe gente que continua a preocupar-se com os outros. O que mostra que a sensibilidade das pessoas, a manifestação real do seu Ser, como agora se diz, continua a fazer prevalecer o verdadeiro espírito de Natal.

E isso viu-se bem quando os membros do governo entregaram a sua prenda de Natal ao primeiro-ministro. Um “voucher” de 2550 euros para gastar em roupa na Loja Fashion Clinic, uma boutique muito “in” que tem portas abertas em Lisboa e no Porto.

Para além de José Sócrates necessitar realmente de ter a sua auto-estima lá bem no alto para tentar ultrapassar todas as dificuldades que estão para desabar sobre os portugueses, é necessário não esquecer que ele foi eleito, no ano que findou, o 6º mais elegante do mundo.

Por estes motivos, e, ainda, porque há três eleições este ano para disputar, convém que José Sócrates - para seu próprio bem, do seu partido e, quem sabe, para o bem do país - esteja verdadeiramente seguro de si.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Votos para 2009

Em todas as reportagens que vi e ouvi na comunicação social e nas muitas pessoas com quem contactei nos últimos dias do ano que terminou e nos primeiros deste ano, constatei que os desejos mais sentidos para 2009 foram a saúde, a saúde e … a saúde. A seguir, as principais preocupações centraram-se na paz para os portugueses e para o mundo em geral, na manutenção do emprego e no inevitável “que seja tudo melhor”, acabando como sempre no clássico “é preciso é saúde”.

Curiosamente, não descobri um só português que se tivesse mostrado desassossegado (e receoso pelas consequências) com os "enormes perigos" provocados pela promulgação do “Estatuto Político-Administrativo dos Açores”.

Pode Cavaco Silva proferir que o facto de uma lei ordinária alterar a Constituição constitui um precedente grave. Pode o Governo afirmar que o diploma, no seu conjunto, é um bom documento e que os dois artigos que estão no olho do furacão são meras minudências. A verdade é que o cidadão comum não se mostra minimamente preocupado com essas divergências que estão a milhas de distância das suas verdadeiras preocupações.

Aliás, já todos percebemos que nem existe um "conflito" digno desse nome. Se o problema fosse tão-somente de natureza jurídico-constitucional, o Presidente deveria ter mandado o assunto ao Tribunal Constitucional para que fosse analisado e não o fez. Se a pendência era, apenas, do foro político (como se sabe que era) então nada a fazer. Ora, como, naqueles dois pontos, existem interpretações diferentes das duas partes, o assunto correu os seus trâmites e ponto, não há motivos para o propalado amuo entre Belém e S. Bento nem se regista qualquer quebra de lealdade institucional.

De resto, como frisou José Sócrates na entrevista que deu à SIC, em democracia, a lealdade não significa obediência

O que vos posso afirmar é que nem uma das minhas doze passas de passagem de ano foram dedicadas a tão tormentoso (?) problema.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Um conselho de Amigo




Esqueçam a velha máxima “No meio é que está a virtude”, revejam o vídeo e ponderem nas palavras da Brigada de Trânsito.

Para além de todos os problemas que poderemos evitar, lembrem-se que a coima é pesada.

Vamos – todos - tentar cumprir.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Ai se fosse comigo …


Embora fosse essa a intenção, não consegui escrever ontem sobre a entrevista que o primeiro-ministro, José Sócrates, concedeu à SIC.

Da SIC da entrevista aos Prós e Contras da RTP1 (em que se tratou do mesmo assunto), aos comentários dos diversos analistas políticos, politólogos, jornalistas encartados e partidos políticos, de tudo ouvi.

Como de costume, houve quem gostasse muito do P.M., quem contra ele aduzisse os argumentos de sempre, quem achasse que a conversa estava toda combinada, quem tivesse ficado agradado com a sua firmeza e quem ficasse com a certeza que a única solução para o país era mudar imediatamente de primeiro-ministro. Nada de novo, portanto.

O que eu não consegui descobrir foi uma só opinião sobre a atitude dos jornalistas que conduziram a entrevista. E, para mim, eles foram agressivos, desafiadores (no mau sentido) e muito arrogantes. Sobretudo Ricardo Costa que chegou a roçar a má educação quando disse (com todas as letras) que o que José Sócrates afirmava era mentira.

Caramba, os jornalistas não têm o direito de expor quem entrevistam a tamanhos despautérios.

Afinal, convidaram o primeiro-ministro a ir a sua casa (à SIC) e mais não tinham que fazer que colocar todas as perguntas que entendessem e esperar pelas respostas. Não lhes cabe, enquanto entrevistadores, emitir opiniões políticas nem tão-pouco destratar os entrevistados.

Toda aquela agressividade, sobretudo na primeira metade da entrevista, foi absolutamente desnecessária e, em minha opinião, acabou por favorecer Sócrates (de quem muitos dizem ser arrogante) que não reagiu à provocação.

Se eu estivesse no lugar de José Sócrates, quase de certeza que não teria tido tanta paciência e, provavelmente, ter-me-ia levantado e saído. Por muito menos, Santana Lopes já tomou essa atitude.

Receita de Ano Novo

No início deste 2009, deixo-vos com uma mensagem/poema do grande escritor de contos, cronista e poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

“Ganhem” um Bom Ano de 2009. São os meus votos!

domingo, janeiro 04, 2009

Festas Felizes

Neste vaivém de votos de Boas-Festas, tão característico da quadra natalícia e de um novo ano que começa, gostaria de partilhar convosco uma das mensagens que me foi enviada e que, se assim posso dizer, dá uma nova perspectiva, um novo sentido, a uma já banal expressão desta época.

Ora vejam:


“Talvez não seja por acaso que na expressão “Festas Felizes” ambas as palavras comecem por “”.

Talvez seja uma dessas casualidades que nos fazem pensar que muitas das coisas que acontecem dependem de nós, das nossas vontades e dos nossos desejos. Acreditar que tudo é possível. A isso chama-se fé. Talvez a palavra “fé” estivesse escondida e só precisasse de uma desculpa para se mostrar e contagiar-nos a todos com o seu significado …”.

Curiosa esta abordagem. Atrever-me-ia até a dizer que, de certo modo, muitas das coisas que pretendemos e/ou conseguimos na nossa vida, passam fundamentalmente pelo nosso querer. Daí que seja oportuno recordar um dos lemas da campanha de Barack Obama “Yes We Can”.

Desejo-vos, mais uma vez (porque ainda estamos em tempo de Festas), FESTAS FELIZES e BOM ANO NOVO!