quinta-feira, março 08, 2012

Conflito de gerações

Já ontem tinha aqui referido que é perigoso comentar ou aceitar como verdadeiras todas as histórias que são veiculadas pela net. Por isso, também não garanto que a história que hoje vos trago tenha alguma vez acontecido mas … conta-se que o médico inglês Ronald Gibson (ao que parece existe mesmo e é o senhor da fotografia), dissertando sobre conflitos de gerações, começou uma conferência citando quatro frases:

1 – A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, troça da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Hoje, os nossos filhos são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos seus pais e são simplesmente maus.

2 – Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.

3 – O nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.

4 – Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.

Depois de ter lido as quatro citações e perante a aprovação silenciosa dos espectadores, decidiu revelar a origem delas:

A primeira é de Sócrates – o filósofo grego - (470 - 399 a.C.).
A segunda é de Hesíodo – poeta grego - (720 a.C.).
A terceira é de um sacerdote (do ano 2000 a.C.).
E a quarta está escrita num vaso de argila com mais de 4000 anos que foi descoberto nas ruínas da Babilónia.

E o Dr. Ronald Gibson terminou esta curta palestra exclamando: “Fantástico! Não mudou nada! Pais e Mães acalmem-se, o mundo sempre foi assim.

Gerou-se, então, um profundo silêncio na sala.

quarta-feira, março 07, 2012

Se não há outro jeito …

Reproduzir textos que circulam pela net ou tecer comentários sobre os mesmos é altamente perigoso. Ainda assim, de quando vez, não consigo fugir à tentação de o fazer, sobretudo quando julgo descortinar alguma veracidade no que dizem. Sempre, no entanto, com a devida reserva.

Pois calculem que li há dias o desabafo de Mário Araújo Ribeiro, um conhecido Juiz-Conselheiro (jubilado) que dizia isto:

“Concluí que a minha filha desempregada e o meu filho dentista com falta de clientes - ambos divorciados - têm de intentar acções judiciais contra mim, para eu ser CONDENADO a pagar "alimentos (no sentido legal do termo) aos meus netos.
Porque, com uma sentença judicial, eu posso descontar essas despesas no IRS e, se ajudar voluntariamente, não posso”.

A ser verdade, dá que pensar.

terça-feira, março 06, 2012

A beleza de um edifício soterrado

Em finais do ano passado soube-se que o arquitecto português Eduardo Souto Moura foi contratado para conceber a central hidroeléctrica da barragem da Foz do rio Tua. O desafio será harmonizar a edificação com a paisagem do Douro Património da Humanidade. E esta é a primeira vez na história das barragens portuguesas que uma central de produção de energia terá a assinatura de um profissional de renome, contratado propositadamente para o efeito.

O que não se sabia, e eu li a notícia em vários jornais, é que o tal edifício vai ficar completamente debaixo de terra com oliveiras em cima. Isto é, soterrado.

A ser assim, e sem que se consiga admirar a beleza das formas do edifício (porque não se vê), acho que ninguém perceberá qual a razão que levou a EDP a contratar o Prémio Nobel da Arquitectura. Nem que, por causa desse “luxo”, a barragem custe mais 2 milhões de euros. Ou haverá?

sexta-feira, março 02, 2012

Poema de agradecimento à corja

Joaquim Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Iniciou a sua carreira no Suplemento Literário Juvenil do Diário de Lisboa. O primeiro livro de Joaquim Pessoa foi editado em 1975 e, até hoje, publicou mais de vinte obras incluindo duas antologias. Foram lhe atribuídos os prémios literários da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura (Prémio de Poesia de 1981), o Prémio de Literatura António Nobre e o Prémio Cidade de Almada.
Poeta, publicitário e pintor, é uma das vozes mais destacadas da poesia portuguesa do pós 25 de Abril, sendo considerado um "renovador" nesta área. O amor e a denúncia social são uma constante nas suas obras, e segundo David Mourão Ferreira, é um dos poetas progressistas de hoje mais naturalmente de capazes de comunicar com um vasto público.

De Joaquim Pessoa um poema desgraçadamente intemporal:
“Poema de agradecimento à corja”


Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

quinta-feira, março 01, 2012

Germinal

Há poucos dias tive a oportunidade de ver uns minutos de um dos programas da manhã que passam na televisão e assisti a uma entrevista com o ex-secretário-geral da CGTP-Intersindical, Manuel Carvalho da Silva. Foi um excelente momento em que se percebeu que, para além de sindicalista empenhado, Carvalho da Silva é um homem culto.
Quando lhe perguntaram o que é que ele pensava da greve dos transportes (que estava a decorrer naquele dia) em que os trabalhadores grevistas impediam outros trabalhadores dos demais sectores de actividade de se deslocarem para os seus locais de trabalho, Carvalho da Silva respondeu que as lutas dos trabalhadores geram sempre problemas aos outros e, muitas vezes, aos próprios. E, a propósito, recordou o livro Germinal do consagrado escritor francês Émile Zola.

Germinal é tida como a principal obra de Zola e foi publicada em 1881. Baseia-se em factos reais e para escrever o livro o autor trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Germinal é, aliás, o primeiro romance a pôr em foco a luta de classes no momento de sua eclosão e descreve as condições de vida sub-humana dos trabalhadores, numa época em que apenas havia salários de subsistência.

Quando a obra foi adaptada ao cinema, o realizador quis mostrar as angústias e os sofrimentos que muitas vezes geram sentimentos contraditórios. Neste caso, um trabalhador queria fazer greve ao lado dos seus camaradas (porque achava justas as suas reivindicações) mas, por outro lado, sabia que se não levasse para casa o dinheiro da jorna, um dos seus dois filhos morreria de fome nessa mesma noite. O filme espelha as dúvidas e o desespero que atormentavam esse homem e, embora a película não indique claramente qual foi a sua decisão, vê-se uma imagem final que o mostra de braço dado com os outros mineiros festejando a vitória da sua luta. Adivinha-se, pois, qual tenha sido a sua escolha.

Como bem disse Carvalho da Silva, as lutas dos trabalhadores geram sempre problemas aos outros e, muitas vezes, aos próprios.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

O Panturras

Num destes dias “embarquei” numa aventura para a qual há muito me andavam a desafiar. Tinham-me falado de um restaurante, um tal “Panturras” que ficava algures ali para os lados de Santarém. Um sítio, no meio do nada, numa aldeia com um nome castiço – Advagar - um local onde se comia bem, o chamado tudo incluído, tipo farta-brutos. Lá fui, então, num dia de um radioso céu azul e com múltiplos tapetes de florinhas amarelas e brancas a salpicarem os campos.

Apesar de termos a morada e de o Google constituir uma preciosa ajuda, o certo é que nos enredados por caminhos que não conhecíamos e andámos às voltas vezes sem conta. Foram horas a mais para um trajecto que, se calhar, nem era de todo demorado. Chegámos tarde para o almoço mas ainda a tempo de disfrutar em pleno o que nos levara até ali.

Entrámos no Restaurante Panturras” pelo café (!?) e demos com uma sala ampla, com mesas corridas a lembrar as velhas tascas e várias dezenas de comensais a justificar a qualidade dos petiscos. Como a hora de almoço já ia adiantada, dos pratos principais só havia cozido à portuguesa e cabrito assado no forno. Éramos cinco mas as travessas abundantemente servidas dariam para mais alguns. Mesmo assim, disseram-nos que sempre que os chamássemos trariam mais comida. E chamámos para mais uma dose de batatas fritas que estavam de se lhe tirar o chapéu. O vinho era o da casa, servido em jarro, e bebia-se bem. As sobremesas nem as escolhemos, puseram-nos em cima da mesa duas bandejas redondas com todos os doces que ainda havia. Mousse de chocolate, arroz doce, pudim flã e doce da casa, várias unidades de cada, para tirar a gulodice de misérias. A rematar, cafés para todos e todos repetimos a dose. Toda esta comezaina por 9 euros por pessoa. Os requintes deixámo-los para outras ocasiões. Porém, encontrámos ali um atendimento simpático e eficiente e uma amabilidade genuína que noutros locais mais renomados nem sempre encontramos.

E valeu a pena ir tão longe para aquela refeição? Valeu! Estivemos descontraídos num ambiente despretensioso e não fora aquele “rally paper” inicial que nos fez parecer que estávamos do outro lado do mundo, ainda teria sido melhor. Mesmo assim, um dos elementos do grupo deixou escapar “Há coisas que só se fazem uma vez na vida: vir ao Panturras e ir ao Taj Mahal”, embora, a este último, se chegue mais depressa.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Mais mulheres na gestão das empresas

No último Conselho de Ministros foi aprovada uma resolução que obriga as Empresas do Sector Empresarial do Estado a terem mulheres nos Conselhos de Administração e Fiscalização. É certo que não fixaram a percentagem entre homens e mulheres (o Primeiro-Ministro parece que é contra as quotas) mas a vontade do Executivo é clara: tem que haver igualdade de sexos nos órgãos dirigentes.
Mas o Governo vai mais longe, quer que as empresas privadas onde o Estado é acionista e, também, as empresas do sector privado adoptem medidas similares.

Desculpem-me a franqueza mas parece-me um perfeito disparate colocar a questão deste modo. Relativamente ao Estado e ao seu sector empresarial, tudo bem (embora muito discutível). É uma decisão política mas é o Estado (através do Governo) a mandar no próprio Estado.
Agora nas outras empresas, quer onde o Estado tem acções mas não é maioritário, quer nas privadas, o Governo esquece que existem patrões e accionistas? É que quem manda nessas empresas, quem determina as suas linhas estratégicas e quem escolhe as suas equipas dirigentes são justamente os patrões ou os accionistas. E a intromissão do Estado não faz qualquer sentido.

E depois há a velha questão. Porquê mais mulheres nas Administrações? Só por razões de igualdade? A escolha dos respectivos elementos não deveria ter em conta apenas a competência, independentemente do sexo dos Administradores? No limite, a Administração poderia ser constituída só por mulheres ou só por homens, desde que o critério fosse justamente o da competência.

Os iluminados governantes deveriam saber que, por enquanto, a competência não se determina pelo sexo nem por decreto.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Gestores de carreira para desempregados


Nestes tempos esquisitos que vivemos, em que se tropeça a cada esquina com ditos infelizes e irreflectidos, proferidos por quem tem a obrigação de medir as palavras antes de as dizer, verifica-se que muitos (cansados e desiludidos) já interiorizaram que é melhor desculpar esses deslizes. E, pior ainda, constata-se que existe um certo acomodamento em relação às medidas tomadas por órgãos responsáveis pelo poder político e legislativo, mesmo as mais impensadas.

Daí que não tenha ficado muito surpreendido quando soube que o Governo ia criar gestores de carreira para desempregados. Ainda assim, achei a ideia uma enormidade. Gestores de carreira para … desempregados? O que é que eles queriam dizer com aquilo? Que raio de carreiras seriam essas destinadas a quem já não tem emprego?

Verifiquei depois que, afinal, o que se pretende é que sejam sempre os mesmos técnicos do IEFP a acompanhar (e orientar, presumo) as mesmas pessoas em situação de desemprego, para que estes não andem de departamento em departamento, de funcionário em funcionário, repetindo vezes sem conta a sua história. Assim sendo, a criação desta nova figura justifica-se. Faz até algum sentido, embora não resolva a situação de fundo, que é, não cria qualquer emprego.

O que parece completamente despropositado é o nome que arranjaram para a função. É que dizer a um desempregado, se calhar já há muito nessa situação, que o seu gestor de carreira o vai atender em seguida, é capaz de não cair lá muito bem …

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A função essencial das mulheres?

Foi nomeado no último fim-de-semana o 3º. Cardeal português, D. Manuel Monteiro de Castro. É a primeira vez que Portugal tem 3 Cardeais e isso encheu de orgulho a comunidade católica portuguesa. O que não “caíram” tão bem foram as palavras do seu primeiro discurso público, nomeadamente quando afirmou: “a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos”.

Eu sei que o novo Cardeal tem 73 anos e é de uma geração em que o papel das mulheres era outro bem diferente do que têm hoje na sociedade. Mas isso não desculpa, de forma alguma, essa aberrante visão funcional das mulheres que, ao que li, nem corresponde, à posição oficial da Igreja Católica.

É inadmissível que, no século XXI, ainda se apele às mulheres para que abdiquem do seu direito legítimo de optar sobre o que querem fazer da sua vida. Poder escolher, em igualdade com os homens, se querem, ou não, ter uma profissão, uma carreira, uma vida paralela à sua função de mãe. É que educar é uma tarefa da mãe e também do pai e não apenas de um só.

Quero acreditar que D. Manuel não mediu bem as suas palavras, ou que, porventura, as suas palavras não traduziram adequadamente o seu pensamento.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Em que ficamos?

A notícia foi publicada num jornal da nossa praça. Miguel Relvas revelou que “os ministros vão deixar de ter direito a cartão de crédito para despesas de representação e a impossibilidade de andarem com o carro do Estado aos fins-de-semana e em deslocações que não sejam oficiais”. Medidas essas que o Governo pretende que constituam um exemplo. Porém, quanto às despesas, é melhor explicar que o facto dos senhores Ministros (e Secretários de Estado) não terem direito a cartão de crédito não significa que suportem do seu bolso as despesas que fazem em nome do Ministério. Não, claro que não, eles fazem as despesas na mesma e, mais tarde, serão naturalmente ressarcidos. Para além do “valor simbólico”, a medida pouco acrescentará. Com ou sem cartões de crédito o que é necessário é que haja um rigoroso controlo das despesas efectuadas. Mais nada.

Mas, se por um lado, o Governo se mostrou tão preocupado em anunciar esta medida de transparência destinada a dizer aos contribuintes “olhem para nós e vejam que também sofremos com os cortes”, por outro, como entender que o Gabinete do mesmo Ministro Miguel Relvas tenha gasto 12 mil euros na edição de um livro – Compromisso para uma Nação Forte – com uma tiragem de 100 exemplares e no qual está incluído o programa de governo (que nós poderíamos ir consultar a outras fontes) e um balanço dos primeiros 100 dias do executivo? Tal como fizeram todos os outros governos anteriores quando havia dinheiro a rodos.

Afinal, em que ficamos? “Poupa-se” de um lado e gasta-se estupidamente do outro? Onde é que está a tal poupança, o tal corte das gorduras do Estado que tanto se apregoa?

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

O pesadelo das palavras escritas



Fez precisamente um ano na última segunda-feira, dia 20, ainda Sócrates era primeiro-ministro, que a jornalista Maria de Lurdes Vale escrevia no Diário de Notícias uma crónica a que chamou: “Contra os que sempre passaram à frente”. Dizia nomeadamente:

”Terá de haver uma mudança de vida profunda, e já ninguém terá paciência para ser cúmplice de um regime que premeia os amigos e os conhecidos em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa. Ao contrário do que muitos pensam, esta revolta dos jovens de hoje talvez seja a primeira depois do 25 de Abril que tem pés e cabeça”

Como muitos não saberão quem é a estimada jornalista, sempre lhes digo que Maria de Lurdes Vale, depois de ter estado no Diário de Notícias, foi nomeada assessora de imprensa do Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira (com vencimento equiparado a Director-Geral: 3900 euros por mês, acrescidos de ajudas de custo e subsídios de alimentação, Natal e férias) e está agora na Administração do Turismo de Portugal, um Instituto Público.

Dado que não conheço a senhora, não me atrevo a fazer juízos de valor sobre as suas capacidades e competências. Porém, não posso deixar de realçar a subida meteórica e incomum, que conseguiu em tão curto espaço de tempo. Quando há um ano se revoltava - “já ninguém terá paciência para ser cúmplice de um regime que premeia os amigos e os conhecidos em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa” - provavelmente estava a fazer futurologia sobre o seu próprio trajecto. Se calhar também ela foi premiada por ser amiga ou conhecida de alguém e, quem sabe, em detrimento dos que tiveram de fazer o caminho à sua própria custa.

É o pesadelo das palavras escritas. E não há como fugir a elas.



sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Vergonha é roubar e ser apanhado



Uma cadeia de hotéis australiana lançou uma proposta ousada aos seus clientes. Num dos seus hotéis está escondida uma obra de arte avaliada em 11 500 euros e o desafio consiste em incitar os clientes a descobri-la e a roubá-la sem serem apanhados. Caso o consigam, podem ficar com ela.


Fiquei deveras confuso. Mas isto não é um estímulo ao roubo? Ou será que estou a interpretar mal tão genial ideia? E eu a pensar que a promoção das empresas era feita pelo apelo aos valores universais, às boas práticas que demonstrem o melhor que elas têm, à qualidade dos seus produtos e serviços. Pura ingenuidade …


A não ser que a iniciativa apenas tenha por objectivo confirmar a afirmação tantas vezes ouvida “Vergonha é roubar e ser apanhado”.


quinta-feira, fevereiro 16, 2012

A obesidade física e mental



Percebo que a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil tenha ficado preocupada com o facto de apenas 2% das crianças até aos 10 anos consumirem fruta fresca diariamente. Mas já não entendo que dirijam a responsabilidade dessa lacuna exclusivamente ao consumo da chamada “fast-food”. Toda a gente sabe que as crianças e jovens têm um fascínio por esse tipo de comida e que têm dificuldade em resistir às batatas fritas, aos hambúrgueres e às pizas. Porém, o problema não se fica apenas pelo gosto da rapaziada.


Quanto a mim, existem duas outras questões, igualmente importantes, que têm que ser equacionadas. E ambas têm que ver com as famílias.


A primeira diz respeito ao dinheiro que se gasta com a compra da fruta. Não propriamente pelo preço da fruta em si, mas por que, depois de definidas as prioridades e tendo em conta os magros orçamentos, a fruta não é para muitas famílias um bem de primeiríssima necessidade.


A outra tem a ver com falta de informação de pais e educadores sobre o que deve ser uma alimentação saudável. Por mera desinformação, mas também por comodismo, é, para eles, muito mais fácil empurrar os seus meninos para os Mac’s que pululam por todo o lado do que confeccionar refeições simples, saudáveis e que até não são caras. Dar fruta aos miúdos – mesmo que eles estejam relutantes – nem é tão difícil assim. É só necessário ter imaginação e transformá-la em sumos, batidos, saladas, misturada nas sanduíches, nas espetadas, com queijo fresco, ou seja, devem explorar o consumo da fruta por forma a constituir um alimento mais variado e mais apetecível para as crianças.


E estes dois factores (falta de dinheiro e de informação), conjugados com o cansaço físico e mental e, muitas vezes, o desespero do dia-a-dia de quem tem a obrigação de orientar os jovens, fazem com que se chegue aos tais 2% de miúdos que comem fruta. E se a isto acrescentarmos as horas e horas que as crianças passam em frente dos televisores, dos computadores e das consolas, sem a assistência dos seus educadores, temos um quadro realmente preocupante de obesidade física mas também mental.



quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Talvez possamos fazer algo mais …



Mesmo sem vontade, lá voltamos de novo ao assunto: as notícias sobre a desgraça em que se encontra o nosso país não param. Só no último dia de Janeiro ficámos a saber, através do INE, que o investimento empresarial deverá ter caído 17% em 2011 e o mesmo poderá acontecer este ano. O mesmo INE informou que o índice de produção industrial diminuiu 8,7% em Dezembro em termos homólogos. Por sua vez o Eurostat, indica que Portugal chegou ao fim do ano passado com uma taxa de desemprego oficial de 13,6%, percentagem que é um novo recorde e que incluirá qualquer coisa como 800 mil desempregados. Como se vê, só boas notícias!


Mas se os políticos e as políticas não conseguem inverter esta descida aos infernos, por que não sermos nós um pouco mais intervenientes no dia-a-dia? Fazer pequenas coisas que talvez nos dessem resultados insignificantes mas que, mesmo assim, de alguma forma pudessem ajudar a criar ou a manter alguns postos de trabalho.


Do consumo de produtos portugueses já nem falo, a campanha está em marcha e espero bem que a nossa consciência cívica nos faça alinhar neste “proteccionismo” do que é nosso. Mas estou a lembrar-me, por exemplo, dos postos de portagens das auto-estradas que, para além das Via Verdes e dos meios de pagamento automáticos ainda têm um ou dois portageiros. Mesmo perdendo um pouco mais de tempo não será preferível utilizar aquele posto de trabalho … enquanto isso for possível?
E que tal não levantar os tabuleiros das mesas de algumas marcas conhecidas de restauração para ir arrumá-los nos carrinhos a eles destinados? Não por preguiça, já se vê, mas porque se todos se recusassem a isso, certamente que haveria necessidade de contratar umas tantas pessoas (mesmo a ganhar pouco) que, desta forma, poderiam assegurar o seu sustento. Ainda ontem almocei no H3 do Parque das Nações e vi muitos dos presentes a substituir os (eventuais) empregados destinados a essa função, mesmo sem que ninguém lhes tivesse pedido.
E por que não evitar as “caixas expresso” de certos hipermercados em que são os clientes a tratar de tudo sem intervenção de qualquer funcionário?


Dei apenas alguns exemplos de que me lembrei. Admito que os resultados não sejam por aí além. Se calhar, daqui a pouco, os portageiros acabarão, provavelmente os empregados dos restaurantes trabalharão ainda mais, dividindo-se entre a cozinha e o levantar das mesas e, nos hipers, o futuro passará pela presença única de caixas automáticas. Mas deixem-me ao menos sonhar que, através das nossas pequenas acções, possa existir um pouco mais de humanização (mais gente e menos tecnologia a substituí-la) e que seja possível ajudar quem, no momento, tem um emprego precário ou, simplesmente, está desempregado.


terça-feira, fevereiro 14, 2012

Sem … Paciência



Quando deveríamos estar muito preocupados com o que se está a passar na Grécia, quando um conhecido articulista do Financial Times escreveu um artigo de opinião que advoga que justamente a Grécia e, também, Portugal deveriam ir à falência, quando a gigantesca manifestação da CGTP do último fim-de-semana dever-nos-ia fazer reflectir, quando a montanha de preocupações não pára de aumentar e afecta cada vez mais as nossas vidas, o que é que abriu todos os noticiários de ontem das rádios e das televisões e foi o tema principal da internet? – A saída de Domingos Paciência de treinador do Sporting Club de Portugal.


Sabem bem que as minhas crónicas muito raramente abordam o tema futebol (embora eu goste de futebol) mas, hoje, não tive como fugir. Parece que o futebol é, de facto, a coisa mais importante que existe à face da terra. Ainda há dias os jornais (e não só os desportivos) comentavam os 208 mil euros que um jogador do FC Porto ganha mensalmente. Ontem foi a demissão de Domingos que deixou o país em transe. Chegado há meses ao clube, festejadíssimo, desejado como aquele que, finalmente, traria os títulos que têm andado fugidios, acaba por sair pelos maus resultados, dizem uns, por ter tido contactos com o FC do Porto para onde irá em breve, segundo outros.

Tirando a piada que correu célere “Primeiro o Governo tira-nos os feriados e agora o Sporting acaba com o(s) Domingos” digo-vos que não há “Paciência” para tanto. O país não é só isto, mas constato que muitos milhares de cidadãos andam total e sinceramente obcecados com a saída do treinador do clube leonino. Desnecessariamente, gastam tempo e energia. Porém, e ao mesmo tempo, erguem os olhos aos céus na esperança que o novo treinador que já foi designado - também ele, hoje, festejadíssimo e desejado - seja o Messias que lhes vai trazer os tais títulos.


segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Os lapsus linguae



Não, não é só por cá que tanto se fala na descontextualização do que dizem os políticos. Eles dizem coisas (eles vão dizendo sempre muitas coisas), toda a gente as ouve repetidas vezes mas, afinal, não foi bem isso que quiseram dizer. E, normalmente, a desculpa é que houve alguém que tirou as frases do contexto em que estavam inseridas. E lá vêm as notas do chefe de gabinete, dos líderes das bancadas parlamentares, dos assessores de imprensa e dos porta-vozes lestos a desmentir, a interpretar, a esclarecer e a desdizer.

Mas há também os lapsus linguae, provavelmente provocados pela falta de atenção de quem tinha a obrigação de ter um pouco mais cuidado com o que diz.

A senhora da fotografia é a secretária de Estado da saúde do governo francês, Nora Berra que, preocupada certamente pela vaga de frio que assola o seu país, sugeriu aos “mais vulneráveis”, incluindo os sem-abrigo, que evitassem sair de casa.

É que, às vezes, o frio enregela-nos as ideias.


sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Poema em Linha Recta

De Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), “Poema em Linha Recta”


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe. Todos eles príncipes na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos, mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Restos' Gourmet



Quem me conhece sabe da minha relutância em relação à chamada “nova cozinha” ou, “cozinha de autor”. Sem renegar a arte que lhe está subjacente e todo o trabalho, a cor e a organização do empratamento, as minhas desconfianças acabam por me fazer torcer o nariz sempre que aceito um novo desafio para ir a um restaurante que tem um “chef” a comandar a cozinha.


Vamos lá ver, já tenho tido surpresas. Já tenho apanhado manjares que fazem jus à fama com que os nomes dos restaurantes e dos “chefs” são anunciados. No entanto, mantenho as minhas dúvidas e sinto que não estou rendido a essas obras de arte, normalmente com nomes difíceis de pronunciar e que não fazemos a mínima ideia do que é que tratam.


Embora seja moderado no comer, continuo a gostar de pratos à antiga que dão por nomes plebeus como “cozido à portuguesa”, “arroz de cabidela”, feijoada à transmontana” ou carne do alguidar com migas”.


Mas afinal a moda dos “chefs” (e o que eles produzem) é uma mais-valia para a cozinha portuguesa? Será que a nossa cozinha tem um futuro promissor? Não sei. Mas sei que ouvi da boca de um “chef” muito conhecido na nossa praça a resposta à pergunta que formulei: “Não sei, tenho dúvidas. É que cada vez há mais “chefs” e menos cozinheiros”. Tirem as vossas conclusões.


Porém, para que não julguem que, apesar de tudo, eu não faço um esforço, reparem no prato que confeccionei há dias e que dediquei aos meus filhos. Tinha como restos do almoço, uns ovos mexidos e farinheira cozida, juntei-lhes umas rodelas de tomate, uma fatia de pão e umas bagas de uva e … VOILÁ!


Designação do Prato: RESTOS’ GOURMET
Composição:
Eggs em cama de cereais com bagas de uva, carpaccio de tomate e collis de farinheira
E o menu tinha assinatura: Chefs Responsáveis: PAIS’

É que a diferença está nos detalhes …


quarta-feira, fevereiro 08, 2012

A diskette que podia ter sido fatal …



Achei piada (e já vos conto porquê) a duas histórias que li recentemente na imprensa e que se resumem em poucas palavras. A primeira, tem a ver com o facto da Igreja Católica das Filipinas ter dado um endereço errado aos seus fiéis. A ideia era a de acompanhar, através da internet, a posse de um novo bispo. Mas o endereço que indicaram era a de um site pornográfico. Um engano de somenos…
A outra história aconteceu ao Comandante da Polícia Municipal de Coimbra que, cheio de boas intenções, enviou um e-mail de boas-festas aos colegas e a todos os funcionários da autarquia, cujo conteúdo, aparentemente inocente e normal, continha imagens de lindas meninas em trajes bastante reduzidos e algo desadequados ao espírito da quadra natalícia. Uma distracção que lhe custou um procedimento disciplinar.


E achei graça às histórias porque me lembrei de uma situação que me aconteceu há uns anos. Tinha finalizado durante a tarde a apresentação de uma acção de formação que iria dar nos dias seguintes no Porto a quadros directivos da minha empresa. Visionara várias vezes a diskette (ainda estávamos no tempo da pedra lascada) e quando acabei, arrumei-a na minha pasta. Tudo estava em ordem e saí do escritório.

Porém, e estas coisas acontecem, quando à noite, em casa, tive uma dúvida sobre os números que constavam num dos quadros da apresentação fui buscar a diskette e, surpresa das surpresas, o ficheiro que abri não tinha nada a ver com aquilo que tinha preparado. No ecrã só apareceram imagens que, no mínimo, eram muitíssimo ousadas.

Percebi, de imediato, que alguém tinha sabotado o meu trabalho. Não por malvadeza (acredito nisso) mas para me pregar uma partida, e de que tamanho. Calculem se eu só desse pela marosca quando estivesse na presença dos meus respeitáveis colegas, homens e senhoras.

Fiquei irritado, confesso. Mas a coisa foi descoberta a tempo, localizei o meu “divertido” (e irresponsável, neste caso) colega a quem mostrei cara feia e, hoje, recordo a situação como mais uma peripécia de percurso que agora me faz sorrir.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

A mão pesada da justiça



Ainda ontem aqui falei em fraudes sem castigo mas, para que não julguem que os nossos sistemas policial e de justiça andam adormecidos, reparem que nem sempre o crime compensa.

Pois é, um tribunal do Porto condenou um sem-abrigo a pagar 250 euros por - há dois anos - ter tentado roubar um polvo e um champô, produtos que não chegaram sequer a sair do supermercado onde se verificou a tentativa de furto. O homem foi apanhado pela segurança.
Ao que li, o acórdão refere explicitamente que produtos como polvos e champôs não são bens de primeira necessidade, pelo que, não houve outra alternativa que não fosse a condenação do sem-abrigo ao pagamento dos ditos 250 euros ou, em substituição, à pena de trabalho comunitário.

Longe de defender qualquer tipo de roubo, naturalmente, o que dá a sensação é que uma coisa é desbaratar o erário público, o dinheiro dos contribuintes e, para isso, sempre se arranja uma desculpa para não se aplicar uma sanção, outra, bem diferente, é roubar descaradamente um supermercado e levar produtos raros e caríssimos como um polvo ou um frasco de champô. E, para estes casos, a justiça tem – e bem – a mão pesada.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

"Lapsos" ou fraude?



Acho um tanto ou quanto exagerado tudo o que se escreveu e ouviu na comunicação social e nos blogues sobre uns eventuais “lapsos” de certas encomendas efectuadas pela Segurança Social. Parece, ao que dizem, que se encomendaram artigos a preços muito acima dos de mercado. E depois? Tanto barulho porque uns rolinhos de fita gomada que nas lojas estão à venda por três euros foram encomendados pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social por 29,6 euros? Ou porque outra entidade da Segurança Social encomendou um marcador preto por 54 euros e outro amarelo por 47,20?
Volto a perguntar: e depois? Afinal, com o que é que esta gente está preocupada? Com o simples facto dos objectos requisitados estarem a ser encomendados a preços muito acima do mercado e muitíssimo mais caros do que nós, comuns mortais sem poder negocial, compraríamos em qualquer hipermercado? Ou será por que se trata de dinheiro dos contribuintes que, uma vez mais, está a ser desbaratado?

Pois embora a Segurança Social tenha justificado o que aconteceu como um “lapso” o que eu acho é que não houve lapso algum. Sistematicamente, e ao longo dos tempos, o que se tem assistido é à falta de rigor na utilização dos dinheiros públicos, à incompetência (sem sanção) das pessoas que têm responsabilidades e à falta de controlo por parte de quem de direito. E eu chamo-lhe incompetência para não lhe chamar fraude.
Só no caso noticiado das fitas gomadas, pagou-se pelas 80 unidades 2 368,00 euros, mais 2 100,00 do que os preços normais. Multipliquem estas verbas por todas as encomendas de todos os serviços do Estado e pensem lá para onde vai o nosso dinheiro. Eu sei que tudo isto não passa de uma gota de água comparado com o que já “enterrámos” no BPN, mas mesmo assim.

Valerá a pena continuar a vociferar? Apesar de tudo acho que sim.


sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Comer pouco e devagar



Hoje trago-vos duas “receitas” que poderão ajudar a conseguir um espírito jovem até a uma idade avançada e a ter um peso corporal bastante mais saudável. E não se trata de mais uns estudos, dos muitos que nos chegam todos os dias. Então, quais as soluções propostas?

- Comer pouco poupa o celebro - Cientistas italianos descobriram que comer menos ajuda a manter a mente jovem. Uma dieta frugal pode preservar o celebro dos estragos da idade, já que desencadeia uma proteína que activa uma série de genes associados à longevidade, melhorando as capacidades cognitivas e de memória e diminuindo a agressividade e a tendência para ter Alzheimer;

- Comer devagar – Uma investigadora portuguesa, Júlia Galhardo, ganhou um prémio internacional ao descobrir que comer devagar faz diminuir significativamente o índice de massa corporal. Por outras palavras, comer devagar faz com que se fique saciado mais depressa e, portanto, não se ganhe peso.

Propositadamente não entrei em especificações técnicas de ambos os trabalhos. O que me pareceu mais relevante é que as conclusões a que chegaram são simples e do mais elementar bom senso. Terminada ainda há pouco uma época em que cometemos alguns excessos alimentares, é tempo de reatar (ou começar) as boas práticas, tendo em vista a nossa saúde. E seguindo um princípio básico: comer pouco e devagar.


quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Rodrigo Leão em concerto



Na última terça-feira assisti a um magnífico concerto de Rodrigo Leão no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Como de costume fiquei extasiado pela magia e sofisticação das suas composições. De resto, e para além da sua música de qualidade, Rodrigo Leão esteve muitíssimo bem acompanhado de um lote de músicos absolutamente excepcionais. E mesmo sendo todos eles muito bons, tenho que referir (porque os achei fantásticos) os nomes de Celina da Piedade (acordeão/metalofone e voz – e que voz), Viviena Tupikova (violino e teclado) e Carlos Tony Gomes no violoncelo.


Ao longo de hora e meia, Rodrigo Leão, os seus cinco músicos (já agora, e para que não cometa uma injustiça, indico o nome dos restantes dois músicos: Bruno Silva na viola de arco e João Eleutério na guitarra e metalofone) e ainda com a colaboração vocal de Lula Pena e de Miguel Filipe (em palco) e, em tela, o cantor australiano Scott Mathew e o novo talento brasileiro Thiago Petith encantaram os espectadores que encheram a sala do CCB.


Rodrigo Leão é um dos mais importantes compositores do nosso país. Acompanho-o desde “Os Sétima Legião” e os “Madredeus”. Desde sempre, em grupo ou na carreira a solo, sou admirador incondicional da música que compõe. Subscrevo o que vi escrito no programa de apresentação deste concerto: “uma música poderosamente evocativa, canções para as palavras que se trazem no pensamento e que só cada um de nós ouve”.


Uma nota final para vos dizer que, hoje, no meu blogue “Baú” http://www.bau.demascarenhas.blogspot.com/ publico um vídeo de Rodrigo Leão. Não percam.


quarta-feira, fevereiro 01, 2012

O sono



Há muitos anos que durmo mal. Pouco e mal. Deito-me tarde (muito tarde) e por regra acordo cedo. A minha média de horas de sono é bem inferior às oito horas recomendadas e não me queixo. Habituei-me de tal forma que acho que nem necessito de repousar mais, tanto mais que o corpo tem aguentado bem. Gosto de me deitar tarde e sempre achei que esse período em que quase todos repousam inspira-me à reflexão, à leitura e à escrita. Pelo menos enquanto o meu cérebro não reclama a almofada como aconchego.


Mas nunca imaginei que um estudo viesse a concluir que as pessoas que se deitam tarde têm tendência para ser mais inteligentes do que as outras.


Mas quem sou eu - um tipo normal, que nunca fui excepção para coisa alguma – para contrariar e me excluir dessa tese? Sim, provavelmente “os mais inteligentes deitam-se tarde”.


terça-feira, janeiro 31, 2012

O saneamento de um bom jornalista



Estava curioso para ver se os “Prós e Contras” da RTP 1 desta segunda-feira tinham já recuperado da (deprimente) emissão transmitida directamente de Luanda há duas semanas. O programa que tinha sido denominado “O Reencontro” foi, na minha opinião, demasiado mau e não sei se muitos tiveram estofo para aguentar até ao fim. Mas quem o conseguiu, assistiu a uma subserviência injustificável por parte dos portugueses convidados, por contrapartida de alguma sobranceria das personalidades angolanas presentes. Um programa em que as palavras dos portugueses foram convenientemente pensadas antes de serem proferidas não fosse o actual poder económico angolano pregar-nos alguma partida e ir assentar arraiais para outro lado.


Não gostei do que ouvi, não gostaram, porventura, muitos mais, mas isso não teve qualquer consequência. Quem também não gostou e teve a coragem de o dizer na crónica que assinava na Antena 1 foi o jornalista Pedro Rosa Mendes, um dos bons jornalistas que ainda existem em Portugal.


Mas as palavras que foram ditas por este jornalista (incómodo pela sua verticalidade, seriedade e talento) nessa sua (derradeira) crónica não devem ter agradado às elites portuguesa e angolana e o Pedro foi dispensado, ou melhor, foi saneado sem dó nem piedade ao jeito do autoritarismo de outros tempos, que a revolução ainda não conseguiu apagar.


Pode ter sido coincidência. Não acredito em bruxas, "pero que las hay..." .


segunda-feira, janeiro 30, 2012

A questão que mais nos preocupa neste momento: O que faz feliz uma galinha?



Antes que comecem a fazer juízos de valor, devo esclarecer que tenho o maior respeito pelos animais e penso – sinceramente – que os ditos têm todo o direito a terem as melhores condições de vida. Acho mesmo que devemos pugnar pelo bem-estar de todos os animais, mesmo por aqueles que servem apenas para serem abatidos para a alimentação humana.

Mas, às vezes, parece-me que se exagera um bocado. Não sei se sabiam mas desde o início do ano entrou em vigor uma directiva europeia que estabelece que cada galinha tem que ter, só para seu uso, um espaço mínimo de 750 cm² de superfície da gaiola, além de um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que lhes permitam satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais. Sem qualquer cinismo, digo que me parece bem tanta preocupação com o seu bem-estar. As galinhas precisam de espaço e de tranquilidade para pôr ovos.

Porém, e desculpem lá o meu desabafo, parece que não existem outras preocupações, se calhar bem mais graves, que afectam os cidadãos. Sei lá, estou a pensar, por exemplo, na forma como resolver o desemprego crescente, na fome que grassa por aí ou na degradação da vida das pessoas por essa Europa fora. E para o combate a estes flagelos não vejo que a Comissão Europeia tenha tantas preocupações como aconteceu agora em relação a estes desvalidos 47 milhões de galinhas europeias.

Como costumo dizer, uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é uma outra coisa. O pior é que, a acrescer aos milhões de problemas que já tínhamos, com esta questão das galinhas-VIP, ficámos “debaixo de olho” da Comissão Europeia porque os galinheiros portugueses não oferecem as condições desejadas e estamos em risco de sofrer uma pesada multa.

Já sabíamos que os cidadãos nacionais andam aflitíssimos para se conseguirem aguentar, mas isso é um problema nosso. Agora, as galinhas portuguesas não andarem a ser bem tratadas, alto lá e pára o baile, Bruxelas apressou-se a manifestar a sua preocupação.

O que faz feliz uma galinha? Esta é a grande questão do momento.


sexta-feira, janeiro 27, 2012

E se Portugal pulasse por cima de dois anos?



Certamente que já ouviram falar da Samoa. Claro que sim, toda a gente sabe que a Samoa é um estado independente, um arquipélago que fica no Oceano Pacífico entre o Havai e a Nova Zelândia e que tem uma população à volta de 180 mil pessoas.


Mas o que talvez desconheçam é que há anos que os seus governantes andavam incomodados por causa das horas, por motivos meramente comerciais. Tinham as mesmas horas que a Costa Leste dos Estados Unidos mas estavam dessincronizados com o fuso horário da Austrália e da Nova Zelândia, os seus principais parceiros económicos. E vai daí, independente que é, fez uma coisa nunca vista: adiantou o calendário do dia 29 de Dezembro de 2011 para o dia 31. Ou seja, adiantou o relógio 24 horas e adormeceu numa quinta-feira para acordar directamente no sábado. Pura e simplesmente apagou do mapa a sexta-feira, dia 30 de Dezembro do ano que terminou há pouco.


E foi aí que me deu uma ideia. Lembrei-me que o Álvaro Santos Pereira, o Ministro da Economia, garantiu recentemente que “2012 marcará o fim da crise e será o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014”. E pensei, se a Samoa pulou 24 horas para ajustar o seu horário com o dos países com quem tem maior volume de negócios, por que não Portugal dar um pulo de dois anos para contornar a crise? Se conseguíssemos deixar para trás 2011 e acordássemos directamente em 2014, esquecendo “os anos horribiles” de 2012 e 2013, ficaríamos todos a ganhar, não é?


Bem, esqueçam, foi só uma ideia …


quinta-feira, janeiro 26, 2012

Poupem, Amigos



Têm-se ouvido ultimamente apelos para que os portugueses poupem mais. Dizem que é a única forma de assegurarem uma velhice tranquila pois, no futuro, as pensões de reforma não passarão de pensões de miséria. Mas, meus Amigos, esses apelos dirigem-se concretamente a quem? Os ricos não necessitam desse conselho. Para isso contam com consultores e gestores de conta e de fortunas, eles sabem sempre onde colocar o dinheiro e em que altura. Quanto aos pobres é melhor passar à frente, mal conseguem sobreviver às dificuldades crescentes e a palavra poupar é, para eles, um sonho longínquo, quando não uma provocação. Resta-nos a classe média, ou melhor, o que dela sobra. Desgastada por ser chamada a suportar sucessivos aumentos e insistentes impostos, mal se consegue aguentar à tona com o mínimo de dignidade e de esperança. E é com esses sentimentos que ainda vai conseguindo aforrar o pouco que lhe resta. E já lhe sobra muito pouco.


Ainda por cima, e para ajudar, o Estado não se cansa de aumentar os seus proventos sobre aquilo que conseguimos aforrar. Entre 2010 e 2011 a taxa liberatória sobre os depósitos a prazo e sobre outros produtos de poupança subiu de 20% para 21,5% e, mais recentemente, passou para os 25%. Por exemplo, quem constituiu um depósito a prazo em 2011 com vencimento este ano, terá que contar que um quarto do que possam render as suas poupanças será arrecadado pelo Estado.

Assim sendo, resta-me dizer-vos: vamos poupar Amigos. O Estado agradece.



quarta-feira, janeiro 25, 2012

“O penalty para a bancada”



Continua em marcha o movimento de indignação originado pelas palavras de Cavaco Silva sobre a “mísera” pensão de reforma que aufere. E a população irritou-se de tal maneira que muitos milhares de pessoas assinaram já uma petição online a pedir a demissão do Presidente da República uma vez que consideram as suas declarações como “uma falta de senso e de respeito para com os portugueses”.


Demissão? Penso que não será caso para tanto. Não é a primeira vez que Cavaco tem sido infeliz com os discursos que faz. E não será a última, por certo. Cavaco, sendo um político (que o é, embora insista que não) tem frequentemente comportamentos demasiado simplórios (não confundir com simples) e que muito têm a ver com as suas origens. Ele é, genuinamente, um provinciano (no pior dos sentidos) e, por isso, em muitas das coisas que diz, as ideias e a forma de se expressar não estão devidamente trabalhadas.


Perante a “revolta do povo”, Cavaco Silva veio a terreiro justificar-se. Diz que foi mal interpretado, que não quis dizer exactamente o que disse e que, de facto, o que pretendia era mostrar que está ao lado dos portugueses com quem compartilha as dificuldades. Pior a emenda do que o soneto. Por um lado, Cavaco disse rigorosamente aquilo que entendeu dizer e, por outro, ele não está (nem pode estar) ao lado dos portugueses porque os portugueses não têm o mesmo nível salarial do Presidente e as dificuldades duns e doutro são certamente muito diferentes. Até acredito que os dez mil euros que ele recebe não sejam suficientes para pagar as despesas e que, por isso, tenha que recorrer às suas poupanças, mas a verdade é que a esmagadora maioria dos cidadãos tem pensões de verdadeira miséria e quanto a poupanças, pura e simplesmente, elas não existem.


O Presidente Cavaco Silva foi, uma vez mais, inábil no discurso. Tal como quando se referiu às vacas que se sentiam deliciadas na ordenha ou quando afirmou que a sua mulher dependia dele porque só tinha 800 euros de reforma. Cavaco Silva esquece frequentemente de que é o Presidente da República e que, por isso, as suas palavras deveriam ser devidamente pensadas quando ditas. Se agora quis mostrar toda a solidariedade pelos portugueses afectados pelas medidas de austeridade e pelos sacrifícios, o certo é que não conseguiu atingir esse desiderato. Ficou-se pela intenção, quando muito. Foi aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa designou por “querer marcar um penalty para a baliza e a bola ter saído para a bancada”.


terça-feira, janeiro 24, 2012

As desigualdades acentuam-se



No passado dia 3 de Janeiro, o Jornal Económico On-line publicou uma notícia que dá conta que, de acordo com um estudo efectuado pela Comissão Europeia, entre os seis países da União Europeia mais afectados pela crise, Portugal foi aquele onde as medidas de austeridade exigiram um esforço financeiro aos pobres superior ao que foi pedido aos ricos. Mais, Portugal é também o país (deste lote de 6) que regista um dos maiores riscos de pobreza devido às medidas de consolidação orçamental, ultrapassando a barreira dos 20% da população em risco. E, sublinhe-se, este estudo não levou em consideração as medidas adoptadas pelo Governo PSD/CDS, pelo que a situação deverá ter-se agravado entretanto.


Esmiuçando mais os resultados das medidas de austeridade, chega-se à seguinte conclusão: Os 20% dos cidadãos mais pobres perderam 4,5% a 6% (até 9% para famílias com filhos) do rendimento, enquanto que os 20% com rendimentos mais elevados apenas perderam cerca de 3%. Isto são factos.


Perante a dureza e a injustiça de tamanha constatação, que dizer?


segunda-feira, janeiro 23, 2012

As falhas da nossa democracia



Quero crer que entre a questão suscitada em tempos pela Dra. Manuela Ferreira Leite – “não seria bom haver seis meses sem democracia?” – e a perda efectiva da democracia nada há em comum. Porém, a simples admissão da possibilidade de tal acontecer, assusta-me.


E se calhar tenho alguma razão para ficar apreensivo. É que, de acordo com a edição 2011 do Índice de Democracia da revista do “The Economist” – Portugal deixou de ser uma democracia plena. O nosso país baixou para o 27º lugar, numa lista liderada pela Noruega, seguida da Islândia, Dinamarca e Suécia e imediatamente atrás de Cabo Verde, a mais perfeita das Democracias com Falhas.


Seria bom reflectirmos seriamente sobre o assunto. É que as democracias e as suas regras têm que ser continuamente melhoradas e sustentadas para que não tenham que vir a ser suspensas e, muito menos, substituídas por outros regimes muitíssimo menos favoráveis ao povo. E nós temos memória de uma realidade ainda recente e do que isso representa.


quarta-feira, janeiro 18, 2012

Troque papel por alimentos



A marca “Banco Alimentar” é hoje reconhecida por todos pela sua credibilidade e pela acção sustentada que tem desenvolvido ao longo de mais de duas décadas a favor dos mais carenciados. Ainda na edição do Expresso de23 de Dezembro último, das personalidades conhecidas e respeitadas que constituem “O Conselho dos Doze”, à pergunta “Qual a instituição de Apoio Social a Apoiar”, cinco apontaram o Banco Alimentar e um a Entrajuda (Instituição da esfera do BA).


Mas para que tudo funcione bem é necessário que haja muito trabalho, dedicação e uma grande dose de criatividade. Assim, e face às grandes dificuldades que se prevêem para este ano, nomeadamente a escassez de alimentos doados ao BA, a Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome lançou mais uma campanha: a “troca de papel por alimentos”. A população em geral, a administração pública e local e as instituições de solidariedade são convidadas a entregar papel (jornais, revistas, folhetos, cartão, etc.) nos bancos alimentares. Por cada tonelada recebida, a Quima – empresa de recolha e recuperação de desperdícios – vai entregar ao Banco Alimentar 100 euros em alimentos indicados pela Federação dos Bancos Alimentares.


O slogan desta campanha é claro “O seu papel é essencial na luta contra a fome”. Vamos ajudar?


terça-feira, janeiro 17, 2012

Os Pastéis (de Belém) do Álvaro



A ideia do Ministro da Economia foi brilhante. Finalmente apareceu alguém que pensou “mas que raio de coisa é que nós podemos fazer para vender lá fora e que toda a rapaziada goste?” E a resposta foi: “Pastéis de Belém”.
E vai daí, como bom exemplo da internacionalização da economia nacional, Álvaro Santos Pereira logo afirmou que o Pastel de Belém poderia ser a salvação do país. Só não referiu, mas o “Por Linhas Tortas” sabe, que para eliminar o défice externo, a fábrica de Belém teria que exportar só este ano 2,6 mil milhões de pastéis.

Bem, a ideia foi lançada (o que já é um começo) mas conhece-se já a reacção da Fábrica dos Pastéis de Belém à ideia do Ministro. Não, por ora não está para aí virada. Pensa em expandir-se mas lá mais para a frente. Portanto, e para já, o país não vai ser salvo por esta via.

Quem adorou esta decisão foi a minha sogra. É que com tanta produção que teria que levar a cabo para enviar os pastéis para o estrangeiro, ela receou que a Fábrica não conseguisse assegurar a venda por cá e eles começassem a faltar. Não sei se lhes disse, a minha sogra gosta tanto de pastéis de Belém que até os seus olhos sorriem quando se fala neles.



segunda-feira, janeiro 16, 2012

“As acções ficam com quem as pratica”













Se calhar vão achar que estou a embirrar outra vez com o Dr. Eduardo Catroga mas não é, de todo, verdade. É certo que na última quarta-feira disse aqui que a proposta da sua nomeação para Presidente do Conselho Geral de Supervisão da EDP me pareceu o “pagamento” da sua dedicação ao PSD (ele que nem é filiado no partido), uma espécie de prémio de carreira. Mas o que me incomodou mesmo neste processo foi o facto de ele ir ganhar um ordenado mensal superior a 45 mil euros que acumula com uma pensão de mais de 9600 euros. E incomodou-me também – e principalmente - a arrogância que evidenciou ao defender que isso se deve ao seu valor de mercado e que, ganhando mais, pagará mais impostos. Conversa! Foi uma cena grotesca e triste.


Ao invés de Catroga, o banqueiro português António Horta Osório, presidente do colosso britânico Lloyds Bank, não quis ganhar ainda mais ao muito que já factura. Invocando a ausência a que foi obrigado por dois meses de doença, abdicou do bónus de 2,3 milhões de euros a que tinha direito. E podem até dizer que a Horta Osório nem lhe fazem falta aqueles trocos de 2,3 milhões e que não foi grande o sacrifício. Pois é, mas podia perfeitamente embolsá-los que ninguém lhe atiraria pedras.


As comparações são inevitáveis e, inevitavelmente, acabamos por pensar no velho adágio “as acções ficam com quem as pratica”. O pior, porém, é continuarmos a assistir ao despudor e ao clientelismo a que, infelizmente, os vários governos nos habituaram.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Para além dos aventais da Maçonaria

Acho ridículo que os políticos tenham que declarar se pertencem ou não à Maçonaria. Aliás, a discussão dos últimos dias sobre esta matéria apenas serviu, na minha opinião, para nos distrair dos assuntos que são verdadeiramente importantes para a vida do país e de todos nós.


Não se tratando de uma actividade ilegal nem, supostamente, de uma organização onde se traficam influências, não percebo porque carga de água é que os maçons têm que apresentar uma declaração de interesses da sua qualidade de maçons. E o que dizer em relação aos membros do Lions, aos sócios do Benfica, aos possuidores do Cartão Continente e aos dadores de sangue, entre outros? Os políticos também vão ser obrigados a declarar tais preferências e adesões?


Tirando as piadas que circulam por aí sobre a Maçonaria – os rituais, os aventais e outros que tais - acho completamente despropositada tanta agitação. E, sobre essa suposta obrigatoriedade, concordo em absoluto com o comentário que ouvi a Manuel Alegre: "Acho isso um atentado à Constituição e acho uma recidiva salazarenta muito triste para a nossa democracia".


E concordo com esta afirmação numa dupla qualidade: não sou maçom e, como cidadão, é-me absolutamente indiferente saber se determinada personagem faz ou não faz parte da Maçonaria. Preocupa-me muito mais que a Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, tenha dado a entender que pode vir a haver legislação que exija às pessoas a indicação da sua filiação maçónica. Legislação, aliás, que é bem capaz de vir a ser considerada inconstitucional por ferir o espírito do artigo 41 da Constituição Portuguesa.


E sabem o que essa eventual obrigatoriedade me lembra? A célebre “Declaração 27003”, nascida em 1936, que obrigava os candidatos à função pública a jurar: “Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933 com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”. Ainda que os mesmos aspirantes a um emprego no Estado, fossem os comunistas mais convictos.


quinta-feira, janeiro 12, 2012

Acabe-se a hemodiálise para os septuagenários que não tenham dinheiro



Quando no programa “Contra Corrente”, transmitido na SIC Notícias da última terça-feira, Manuela Ferreira Leite defendeu que um doente com mais de 70 anos deve ter direito à hemodiálise “se pagar”, tenho a certeza que a maioria das pessoas ficou chocada.


No entanto, e tendo em conta que a Dr.ª. Manuela nem sempre é feliz quando fala, quero acreditar que o que ela queria realmente dizer é que os doentes com mais de 70 anos e que tenham rendimentos acima de um montante a determinar vão ter que pagar o tratamento de hemodiálise.


Ideologias e “economicisses” à parte, acho que ninguém pretende que os septuagenários (ou sexagenários ou quaisquer outros “genários”) com poucos recursos tenham que abdicar do tratamento de que necessitam. É que, recordo, um doente renal sem tratamento morre em poucos dias.


Não era isso que queria dizer, pois não Dr.ª?


quarta-feira, janeiro 11, 2012

Catroga e Cª.

É penoso voltar, ciclicamente, a factos que já vimos noutros ciclos políticos. É desinteressante, é cansativo e é injusto para as pessoas que, como eu, cidadãos comuns, estamos longe dos jogos de poder e não temos capacidade de intervir, a não ser pelo comentário de café ou pela crónica escrita num blogue. Resta-nos a resignação de poder exprimir as nossas razões de quatro em quatro anos, aquilo a que vulgarmente chamamos o charme da liberdade de opinião. Em suma, pode-se reclamar à vontade que ninguém vai preso, mas não serve rigorosamente para nada.

Desta vez, refiro-me à notícia veiculada por toda a imprensa sobre os nomes de Eduardo Catroga, Celeste Cardona, Paulo Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo e Ilídio Pinho, propostos à Assembleia-Geral de accionistas para integrar o Conselho Geral de Supervisão da EDP. Todos estes nomes estão ligados aos partidos que estão neste momento no poder. Exactamente da mesma maneira como no passado outros, de outros quadrantes fizeram.


Embora saiba que este Conselho Geral da EDP é um órgão que, desde que foi criado, sempre se destinou à colocação dos “boys”, porque razão é que esta proposta me incomodou tanto, agora que a parte da EDP que era do Estado foi vendida? E a resposta é simples. A falta de ética mexe sempre comigo.


Acho inaceitável esta contínua dança de cadeiras. Pois é, dirão, mas são os accionistas que decidem a gestão da sua empresa e os nomes que querem ver nomeados para os representar. Têm toda a razão. Mas, mesmo assim, existem aspectos que não consigo admitir. Nomeadamente o facto de Eduardo Catroga que até já era conselheiro e que vai ser promovido a conselheiro-mor, ir auferir um ordenado mensal superior a 45 mil euros que irá acumular com uma pensão de mais de 9600 euros. É escandaloso! Sobretudo neste país em risco de ir ao fundo e onde a esmagadora maioria dos portugueses mal consegue sobreviver. Parece uma afronta.


Mas se são os accionistas que devem tomar essas decisões, seria bom não esquecer que somos nós, consumidores, que pagamos – e de que maneira – a factura da Companhia. O que nos leva a questionar se – tirando o valor do consumo da electricidade propriamente dita – não estaremos também a contribuir para tantos vencimentos milionários.


Mas há ainda um pequeno detalhe que me incomodou muito. É que Catroga – e é aqui que a ética entra em acção – esteve envolvido nas negociações com a troika, de que resultou a venda da participação do Estado na EDP aos chineses. Portanto …


Pensava eu que os clientelismos partidários nestas matérias se tinham quedado pelos tempos de Ferreira do Amaral e de Jorge Coelho. Puro engano. Acho que tive mais um ataque de ingenuidade.

terça-feira, janeiro 10, 2012

As Iluminações de Natal



Para quem escreve regularmente, as férias, por pequenas que sejam, fazem com que, muitas vezes, haja a necessidade de voltarmos a assuntos que deveríamos ter tratado justamente nesses dias de férias. Pois bem, acabados que estão os votos de Feliz Natal mas não os de Bom Ano (que continuam por mais uns dias), gostaria, ainda, de abordar o tema da polémica falta de iluminação de Natal em Lisboa, mas não só. Sobretudo para constatar o facto de que algumas autarquias decidiram não gastar o dinheirão que habitualmente alimenta as iluminações da quadra natalícia, coisa que não agradou a toda a gente. Na capital, houve pessoas que reclamaram, por exemplo, que para pouparem uns míseros 700 mil euros acabaram com a única alegria que era acessível aos mais pobres. Para eles, sem iluminação não havia Natal.

Lembram-se da história do velho, do rapaz e do burro? Pois é, faça-se o que se fizer, há-de sempre haver quem critique.

E se é verdade que o colorido das luzes alegra a alma de muita gente, também é verdade que a crise impõe cortes nas despesas, a começar naquelas que não são de todo fundamentais. Cortes que foram parciais nalguns casos mas totais noutros, sendo as verbas poupadas deslocalizadas para suprir necessidades mais urgentes e dar apoio aos mais necessitados. Câmaras como as de Évora ou Portalegre, por exemplo, canalizaram as verbas destinadas às luzes para ajudar famílias carenciadas. E há mais autarquias a fazer o mesmo.

Faltaram as iluminações, é verdade, e pôde até parecer que nem estávamos no Natal. Mas a poupança foi significativa e, acho eu, necessária. Enquanto em 2010 as 18 capitais de Distrito do Continente gastaram cerca de milhão e meio de euros nas luzinhas, em 2011 os enfeites natalícios custaram “apenas” 466 mil euros. Só o Município de Lisboa poupou à volta de 80% relativamente ao ano anterior.

Hoje vivem-se novos tempos e os hábitos enraizados tendem a alterar-se. Mas isso não é um drama. Como dizia o António Vitorino “Habituem-se …”


segunda-feira, janeiro 09, 2012

Indignação



Volto ao trabalho da pior forma - REVOLTADO. E não há nada que me aborreça mais do que começar um novo ano com este sentimento. Para que conste, o caso de tamanha revolta nem sequer me atinge, nem aos meus mais chegados. Mesmo assim, quero manifestar publicamente a minha indignação.


Vai haver corte nas pensões. A ser verdade (e parece que é) e a ir para a frente (e parece que vai) esta medida aprovada pelo Governo vai penalizar seriamente os cerca de 15 mil pensionistas que receberam carta da Segurança Social a informá-los que vão cortar parte das suas pensões já a partir deste mês. Trata-se de pessoas que acumulam pensões da Caixa Geral de Aposentações e da Segurança Social ou provenientes de trabalho realizado no Estrangeiro, mas cuja soma, em muitos casos, não chega aos 600 euros.


Repito e sublinho que se trata de pessoas e que estas pessoas, mesmo acumulando várias reformas, não conseguem ganhar mais de 600 euros mensais. E, já agora, acrescento que para conseguirem estas “reformas milionárias” ao fim de muitos anos de trabalho, estes pensionistas fizeram descontos nos (magros) salários que foram auferindo.


Ouvi há dias o Ministro Pedro Mota Soares explicar que só agora conseguiram cruzar os dados dos vários sistemas e que, por isso, só agora podem aplicar uma lei que foi aprovada em 2007. Claro que não me convenceu. Se a lei aprovada na Assembleia da República por uma maioria absoluta é, agora, considerada injusta porque vai atingir milhares de desfavorecidos, precisamente aqueles que não têm possibilidade de reivindicar o que quer que seja, a maioria absoluta agora no poder tem toda a legitimidade para voltar atrás e fazer justiça.


A desculpa de que apenas estão a dar cumprimento a uma lei já aprovada é demasiado simplória. A ser assim, teríamos que pensar em iniciar rapidamente as obras do TGV e do novo aeroporto de Lisboa. E ninguém acredita que isso aconteça.


O mais certo é que na base desta decisão haja critérios justificadíssimos que desconheço e que não foram explicados. Mas ainda que a eles assista alguma razão de natureza financeira (ou outra), continuo a estar indignado por saber que, uma vez mais, o castigo vai desabar em cima desta franja da população que já está tão debilitada.